No Japão, mães enfrentam jornadas intermináveis de trabalho

Mais mulheres estão ingressando no mercado de trabalho do Japão, mas os estritos papéis de gênero asfixiam suas ambições
Motoko Rich, The New York Times

Yoshiko Nishimasa trabalha  meio período e realiza a maior parte das tarefas domésticas. Seu marido raramente está em casa antes das 22h. Foto: Andrea DiCenzo para The New York Times

O trabalho nunca acaba para Yoshiko Nishimasa. Ela precisa completar diariamente os relatórios das crianças, sem falar nas inúmeras tarefas escolares que cuidadosamente deve conferir e aprovar. Ela mantém, inclusive, registros diários de suas conversas, atividades e refeições. Mas nenhuma dessas obrigações tem a ver com sua função. Tudo isso é exigido pela pré-escola dos filhos – antes de ela ir para o escritório.

Como tantas mães que trabalham no Japão, Yoshiko, 38, precisa desempenhar tarefas burocráticas que oneram esta força de trabalho em uma época na qual o país afirma precisar desesperadamente de mais mulheres como ela.

O objetivo explícito do primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, é injetar mais energia na fraca economia do país, valorizando a contribuição da mão de obra feminina, iniciativa chamada “womenomics” (economia das mulheres).

No Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, em janeiro, Abe elogiou o fato de 67% das mulheres japonesas estarem trabalhando, a cifra mais elevada de todos os tempos e “superior à dos Estados Unidos”. Entretanto, a maioria delas permanece em funções limitadas, e um dos maiores obstáculos para suas ambições – e da nação como um todo – é o ônus desproporcional que recai sobre seus ombros em casa.

É o legado das tradições do país e dos rígidos papéis de gênero. Embora as mulheres japonesas tenham ingressado na força de trabalho em patamares históricos, a avalanche de responsabilidades domésticas que lhes foram reservadas não diminuiu – e os homens não costumam ajudá-las. Na realidade, no Japão os homens dedicam menos horas às tarefas da casa e ao cuidado dos filhos em comparação com as nações mais ricas do mundo.

Segundo uma análise de Noriko O. Tsuya, da Keio University de Tóquio, as mulheres que trabalham mais de 49 horas por semana costumam dedicar aos afazeres domésticos mais de 25 horas semanais – enquanto seus maridos contribuem em média com menos de cinco.

Vejamos a rotina diária de Yoshiko. A pré-escola dos filhos mais novos exige que a família mantenha registros diários de suas temperaturas e de sua alimentação duas vezes ao dia, além da descrição do seu humor, das horas de sono e do tempo que passam brincando. A escola elementar do filho de oito anos e o programa depois da aula exigem que um dos pais assine pessoalmente cada tarefa de casa da criança.

O expediente doméstico só está começando para ela. Um jantar típico japonês muitas vezes exige a preparação de diversos pratos pequenos. Os lanches para levar à escola podem ser verdadeiras obras de arte. E é preciso levar em conta que as lavadoras de pratos ainda não são tão comuns, e a roupas molhadas, em geral, são postas para secar em varais. Ela faz a maior parte deste trabalho.

Seu marido, um consultor administrativo, muitas vezes fica no escritório até tarde ou sai para beber com os clientes – todas essas também são expectativas profundamente arraigadas no Japão, particularmente para os homens.

Mas a economia do Japão precisa de mulheres com formação superior preparadas para usar todo o seu potencial no trabalho. Depois da Segunda Guerra Mundial, depois de se casar ou ter filhos, as mulheres japonesas deixavam de trabalhar para cuidar da casa enquanto os maridos dedicavam longas horas ao emprego a fim de impulsionar a expansão industrial japonesa.

No final dos anos 1970, as mulheres casadas começaram lentamente a ingressar na força de trabalho. Então, quando as bolhas de ações e imobiliária do Japão estouraram no início dos anos 1990, um grande porcentual delas voltou a trabalhar para impedir que as finanças da família afundassem. Depois disso, o Japão lutou para se erguer de um prolongado período de estagnação. Em 2011, foi superado pela China como segunda maior economia do mundo.

Agora, com o declínio e o envelhecimento da população, os empregadores japoneses lutam contra uma aguda escassez de mão de obra. O país ainda se opõe a intensificar a imigração, por isso Abe ressaltou a importância de as mulheres trabalhadoras ajudarem a sustentar a economia no longo prazo. Mas cerca da metade da mão de obra feminina só tem empregos de meio período, e mais da metade em contratos temporários.

Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, menos de 1% das mulheres empregadas no Japão ocupam cargos na administração, em comparação com uma média de 4,6% nas nações mais desenvolvidas.

Como muitas companhias japonesas, a empregadora de Yoshiko aceita que ela tenha suas responsabilidades domésticas. Até o filho mais novo entrar no terceiro ano, ela só pode dedicar ao trabalho sete horas diárias, embora com um salário 30% mais baixo. A empresa nunca pede a ela que faça as horas extras que conseguia fazer antes do nascimento dos filhos. Mas por causa disso, há oito anos Yoshiko não tem uma promoção e recebeu poucos aumentos salariais.

“Quando perguntei o motivo, meu chefe disse que a minha produção era menor porque trabalho menos horas”, disse.

Um verdadeiro malabarismo

Depois que Yoshiko se formou em uma importante universidade em Tóquio, trabalhou para uma editora de livros escolares. Casou-se quatro anos mais tarde. E ficou chocada quando, automaticamente, a companhia mudou sua situação no emprego para meio período.

“O meu chefe explicou: ‘Você não é mais adequada para esse tipo de trabalho porque provavelmente terá de sair e ter filhos, certo?'”, lembrou.

Yoshiko Nishimasa pega a condução todos os dias para o trabalho. Depois de um expediente de sete horas, busca as crianças mais novas na escola. Foto: Andrea DiCenzo/The New York Times

Procurou outro emprego, mas ouviu dos possíveis empregadores que ela provavelmente não poderia trabalhar até tarde. “Seu marido compreende quanto você estará ocupada?”, questionavam.

A editora na qual encontrou trabalho não perguntou sua situação conjugal. Mas as horas eram pesadas, e quando ela engravidou, aos 29 anos, não reduziu seu ritmo de trabalho; muitas vezes Yoshiko continuava no escritório até a meia-noite. Sofreu um aborto no início da gravidez.

Engravidou novamente, mas continuou mantendo uma extenuante rotina de trabalho. Às vezes, ela saía às 22h. “Como eu era a primeira a sair, precisava pedir perdão às minhas colegas”, lembra.

Depois do parto, Yoshiko nunca pensou em deixar o emprego. Mas seu marido precisa atingir rigorosas metas para conseguir aumentos e promoções, e ela teve de reduzir as horas de expediente. 

“Teoricamente, seria ideal que eu precisasse trabalhar menos horas e Yoshiko mais”, contou o marido, Kazuhiro Nishimasa. “Mas, realmente, não é viável”.

Igualdade: um sonho distante

Pouco mais da metade das mães japonesas volta ao trabalho depois do nascimento do primeiro filho. Mas, frequentemente, elas só conseguem ocupações de meio período, enquanto os maridos continuam trabalhando um número brutal de horas, contribuindo para um fenômeno chamado “karoshi”, ou “morte por excesso de trabalho”.

Segundo especialistas, a cultura do excesso de trabalho no Japão é desnecessária, leva à ineficiência e à baixa produtividade. Se todos trabalhassem menos horas, as mulheres poderiam recuperar o atraso em relação aos homens, e a sociedade japonesa como um todo se beneficiaria, afirmam. Mas as arraigadas expectativas culturais são outro obstáculo.

No ano passado, a construtora de imóveis residenciais Daiwa House realizou uma pesquisa com 300 casais que trabalham e constatou que as mulheres realizavam cerca de 90% das obrigações domésticas, muitas delas sem que os maridos se dessem conta. Os resultados tornaram-se virais na hashtag “namonaki kaji”, algo como “obrigações domésticas invisíveis”.

“A consciência dos homens ainda é muito baixa”, disse Kazuko Yoshida, 38, designer gráfica e mãe de duas crianças. “Meu marido não tem o conceito de igualdade de gênero”.

O marido, Takashisa Yoshida, diz que quer estar mais envolvido com a educação dos filhos. Mas não se sente seguro para lidar com duas crianças.

Mães multitarefas

Em uma tarde de sexta-feira, Yoshiko saiu correndo do escritório para apanhar a filha Mei, de 5 anos, e o filho mais novo, Haruki, 2, e foi direto para a salinha de repouso da pré-escola dos meninos, onde ficam os colchões. Arrancou lençóis e cobertores e colocou um jogo novo que lavara em casa. Depois pegou os sapatos que Mei usa em casa, antes que uma professora lhe desse algum papel para a tarefa no fim de semana: confeccionar uma bandeira.

Na saída, Yoshiko carregou os dois na bicicleta e pedalou até em casa. Chegaram pouco depois das 18h. Dez minutos mais tarde, chegou também o filho mais velho, Kazuaki, de 8 anos, que participa do programa depois das aulas.

No Japão, homens dedicam menos horas ao trabalho doméstico e ao cuidado com os filhos em comparação a outras nações desenvolvidas Foto: Andrea DiCenzo/The New York Times

Yoshiko começou, então, a preparar a variedade de pratos para o jantar. Engoliu um pouco de comida enquanto carregava a lavadora e preparava o banho. Verificou a lição de casa de Kazuaki, enxaguou os pratos e guardou as sobras. As crianças tomaram banho uma depois da outra.

Pouco antes das 22h, o telefone tocou. Não era o marido, que estava bebendo fora com uns clientes. Era outra mãe, perguntando quando poderiam se encontrar na manhã seguinte, enquanto os maridos ainda estariam dormindo. Yoshiko voltou ao trabalho, a revisão dos diários para a pré-escola. Em um último esforço, passou o aspirador na sala. Finalmente, todos se enfiaram no quarto do casal, porque as crianças ainda estavam com vontade de brincar.

“Estou cansado”, disse Haruki a certa altura.

“Também estou cansada!”, observou Yoshiko. “Vamos para a cama”.

A casa finalmente se aquietou perto 23h. O marido ainda não tinha chegado em casa.

“Quem trabalha muitas horas consegue uma promoção”, explicou. “Os chefes têm empregadas em tempo integral”. / Hisako Ueno contribuiu para a reportagem.

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