NY beira irrelevância com discurso escapista em passarela murcha

Nem mesmo Marc Jacobs salvou semana atípica em que roupas eram apenas roupas
Pedro Diniz

Modelo na passarela de Marc Jacobs Caitlin Ochs/Reuters

A moda já cruzou o oceano para acompanhar os desfiles de inverno 2020 do circuito europeu, que começou em Londres, mas deve levar algumas semanas até expurgar o sentimento de catástrofe deixado pela semana de moda de Nova York, cujos desfilam terminaram na semana passada sugerindo um volumoso nada para a audiência.

Volumoso como o estudo de volumes de Marc Jacobs, um dos poucos estilistas dignos de nota dessa temporada que exaltou roupas bonitinhas enfileiradas como um supermercado de estilos sem norte criativo aparente.

Herdeiro de uma geração de designers afeitos à subversão de estilos baseados em discursos identitários —no caso dele, o grunge dos anos 1990—, Jacobs encapou as modelos com versões de sua própria história, repleta de listras, penas, alfaiataria luminosa e estampas de bicho.

A silhueta em A compôs boa parte das produções, cortadas com o exagero peculiar e ostensivo que, pelas mãos do estilista, soa elegante e quase etéreo.

Há nisso uma tentativa de resgate, uma nostalgia dos tempos áureos de sua marca, personificada no look final desfilado por Chrsty Turlington. Supermodelo dos anos 1980, ela não pisava na passarela desde quando Marc Jacobs dava seus primeiros passos na moda na última década do século 20.

Mas só um homem não levanta uma temporada. Nova York perdeu a Calvin Klein de Raf Simons, que deixou a grife na qual prometia uma revolução por causa de vendas abaixo do esperado.

Comenta-se que ele, um belga com as chefias da Dior e da Jil Sander no currículo, oferecia uma moda intelectual demais para uma grife popular demais como é a CK. 

Mas, a julgar pela overdose de jeans, pelos florais fora de contexto, pelos tecidos acetinados e pela alfaiataria francesa demais vistos nessa semana, o comentário cabe a toda a moda americana que desfilou ali.

Esperava-se algum lampejo de consciência, uma passarela que traduzisse o caldeirão de notícias jogadas todos os dias nos jornais. 

Escândalos diplomáticos, sexuais e humanitários não foram suficientes para balançar um calendário que parece ter se antecipado ao presidente americano e construiu seu próprio muro, uma bolha que oferece uma falsa sensação de segurança.

Sair da zona de conforto é imperativo num negócio movido por novidades, mesmo que costuradas em doses homeopáticas.

Michael Kors sacou o marasmo e enclausurou os fashionistas numa pista de dança, ao som de uma disco mofada, mas com lurex, couro e brilho aplicado em alfaiataria suficientes para causar o frisson momentâneo que os americanos podem querer para buscar algum conforto.

Nada explica, porém, a festa mal engendrada da Oscar de La Renta, os passos desconexos da Carolina Herrera, o minimalismo insosso da The Row e os quilos de ideias para lojas de departamento queimarem na liquidação.

E assim caminha, mais uma vez, uma semana de moda para a beira do precipício da irrelevância.

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