Após #MeToo, altos executivos relatam temor em orientar mulheres

Especialistas afirmam que o movimento se tornou um problema de gestão de riscos para os homens
Katrin Bennhold, The New York Times

Alguns executivos no Fórum Econômico Mundial disseram evitar reuniões a sós com colegas mulheres. Foto: Gian Ehrenzeller/EPA, via Shutterstock

DAVOS, SUÍÇA – Os homens participando da reunião anual do fórum Econômico Mundial em janeiro estavam preocupados com muitas coisas. Uma desaceleração econômica global, ameaças à segurança cibernética, populismo, guerra. E também orientar projetos com mulheres na era do movimento #MeToo, de acordo com o que muitos disseram. “Agora, penso duas vezes antes de passar tempo sozinho com alguma jovem colega”, disse um executivo americano das finanças, que pediu para não ser identificado porque o assunto é “demasiadamente polêmico”.

“Também me sinto assim”, disse outro executivo. O movimento #MeToo abriu as portas para que as mulheres denunciassem os assédios dos quais são vítimas, obrigando as empresas a levar o assunto mais a sério. Mais de 200 homens de destaque perderam seus empregos, e quase a metade deles foi substituída por mulheres.

Mas, numa consequência indesejada, as empresas tentam minimizar o risco de assédio sexual simplesmente limitando o convívio entre funcionárias e executivos do alto escalão, o que na prática exclui as mulheres de importantes oportunidades de orientação e exposição. “Basicamente, o movimento #MeToo se tornou um problema de gestão de risco para os homens”, disse Laura Liswood, secretária-geral do Council of Women World Leaders.

É um problema admitido por muitos. Em fevereiro do ano passado, duas pesquisas online a respeito dos efeitos do #MeToo no ambiente de trabalho identificaram que quase metade dos homens em cargos de gestão se sentia pouco à vontade com mulheres em atividades comuns do trabalho, como o trabalho em dupla ou a socialização. Um em cada seis administradores se disse reticente ao orientar uma colega, de acordo com os estudos, que, juntos, tiveram quase 9 mil participantes adultos nos Estados Unidos.

“Alguns homens me disseram que evitam jantar com uma orientanda, ou que temem designar uma mulher para trabalhar em parceria com um colega”, disse Pat Milligan, que comanda as pesquisas em liderança feminina para a empresa de consultoria Mercer. “Se permitirmos que isso ocorra, o resultado será um recuo de décadas. As mulheres precisam do apoio desses líderes, que, em sua maioria, ainda são homens”, disse. Além da questão da orientação, outros indicadores de igualdade de gênero estão piorando.

Em dezembro, o Fórum Econômico Mundial previu que seriam necessários 202 anos para alcançarmos a igualdade de gênero no ambiente de trabalho. Em 2016, essa estimativa era de 170 anos. Das empresas da lista Fortune 500, apenas 24 tinham mulheres na direção executiva em 2018, uma queda em relação às 32 do ano anterior.

“A questão de gênero produziu uma fadiga”, disse Pat, apontando que o movimento #MeToo surgiu após uma década dedicada à conscientização do público para os desequilíbrios entre os gêneros. “Estávamos defendendo bem a igualdade para as mulheres e a questão estava avançando bastante. Então, veio o #MeToo”.

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