Por que museus têm mais obras do que seriam capazes de expor?

Equilíbrio entre colecionar objetos de arte e gastar recursos com manutenção é questionado
Robin Pogrebin, The New York Times

Museu de Arte de Indianápolis optou por não ampliar sua capacidade de armazenamento e, em vez disso, fez uma limpeza no acervo. Foto: Lyndon French / The New York Times

Durante décadas, impulsionados por um zelo filantrópico, lucrativas isenções fiscais e o prestígio de verem suas obras em ambientações estimadas, os ricos proprietários de obras de arte entregaram aos museus tudo que tinham em casa, dos Rembrandts aos chinelos de dormir. Tudo aquilo precisava de um lugar para ficar. Agora, muitos museus americanos estão sobrecarregados – é tanta coisa que milhares de objetos nunca foram expostos, mas seguem preservados, a um custo considerável, em espaços de armazenamento com temperatura controlada.

Alguns acervos aumentaram dez vezes nos 50 anos mais recentes. A maioria dos museus expõe apenas uma fração das obras do seu acervo, principalmente porque muitas são impressões e desenhos que só podem ser mostrados com parcimônia por causa de sua sensibilidade à luz. “Temos uma marcha inexorável que nos obriga a construir mais espaço de armazenamento, mais e mais”, disse Charles L. Venable, diretor do Museu de Arte de Indianápolis, em Newfields. “Não acho que seja uma prática sustentável”.

O museu de Venable estava tão congestionado de obras de arte que estava prestes a gastar cerca de US$ 14 milhões para dobrar seu espaço de armazenamento, até o plano ser cancelado abruptamente. Em vez disso, a instituição se dedicou a uma iniciativa para classificar cada uma das 54.000 peças de sua coleção com uma nota – 20% das peças receberam nota D, indicando que poderiam ser vendidas ou entregues a outras instituições.

Pouco tempo atrás, esse tipo de classificação seria vista por muitos no universo dos museus como algo de péssimo gosto. Mas Venable está agora na vanguarda de um crescente número de diretores de museus que estão analisando de maneira criteriosa o tamanho de seus acervos e sua forma de colecionar arte, por temerem uma história de acúmulo voraz e a pressão pela aquisição de mais e mais, que estariam criando uma crise para os museus americanos.

Redução de acessórios
Parte do problema está na facilidade e no glamour ligados a uma aquisição, diferentemente do ato de livrar-se de peças antigas. A redução dos acessórios, termo formal para o descarte de um objeto de arte, é um processo burocrático, e muitos ainda defendem a ideia segundo a qual livrar-se apressadamente desses objetos pode ser arriscado. “As pessoas têm dificuldade em compreender por que os museus têm mais obras do que seriam capazes de expor num dado momento”, disse o crítico e curador Robert Storr. “Mas o propósito dos museus é preservar o melhor do passado – independentemente do quanto uma peça possa se tornar temporariamente impopular”.

Com um orçamento limitado para aquisições, faz tempo que os museus dependem de doadores. O atual problema de armazenamento tem suas origens em doações como a de Adelaide Milton de Groot ao Metropolitan Museum of Art, em Nova York. Ela deu mais de 200 quadros, mas apenas meia dúzia eram obras de primeira linha

O acervo atual do Met supera a marca de 1,5 milhão de peças, muitas delas armazenadas em aproximadamente 9.700 metros quadrados de espaço de armazenamento no local e quatro instalações separadas. O diretor do Met, Max Hollein, disse que o tamanho do acervo mostra que a missão do museu vai além da exposição. “Precisamos também preservar o patrimônio cultural da humanidade”, disse, acrescentando que, no futuro, “o foco do Met não será naquilo que ainda pode nos faltar, e sim naquilo que já temos no acervo e em como exibi-lo”.

No Museu do Brooklyn, onde o armazenamento é um problema desde o início, a diretora Anne Pasternak disse que há cada vez mais debate a respeito de uma revisão nos termos das políticas de redução de acessórios.

As instalações do próprio museu foram atualizadas e agora incluem uma área de armazenamento aberta, permitindo que os visitantes vejam as peças guardadas. Mas Anne continua a pensar em como o espaço é usado. Ela gostaria de transformar uma sala de obras têxteis em uma galeria de arte africana. De acordo com ela, a análise do custo-benefício deixa poucas dúvidas. “Um lar permanente para uma galeria de arte africana, ou espaço para guardar algo que nunca sequer expusemos?”.

Venable criou certa polêmica ao decidir classificar todo o acervo do seu museu em Indianápolis, que expõe algo entre 8% e 10% do seu acervo por vez. A avaliação mediu as qualidades estéticas de uma obra, seu estado de conservação e se o museu teria exemplos melhores do mesmo gênero. Venable decidiu que a arte não deve ser mantida simplesmente para ser estudada. “No intervalo de um ano, quantos especialistas chegam a ver essas obras?”, indagou.

Desde 2011, o museu de Indianápolis se desfez de 4.615 objetos, a maioria dos quais foi vendida. Outras 124 obras foram transferidas para outras instituições. Para Venable, esse tipo de flexibilidade será essencial para a sobrevivência dos museus no futuro.“Qual é o equilíbrio entre colecionar objetos de arte quase obsessivamente e gastar vastos recursos com isso?”, perguntou. “Será que somos apenas viciados reunindo objetos trazidos por nossos curadores, geração após geração?” / PETER LIBBEY CONTRIBUIU COM A REPORTAGEM

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