Como celebridades da música pop estão quebrando barreiras da sexualidade

Ariana Grande, Janelle Monáe e Sam Smith são alguns dos que usam suas letras e fama para falar de bissexualidade, pansexualidade e não-binaridade

A cantora norte-americana Ariana Grande sugeriu ser bissexual na música “Monopoly”, lançada no último 1º de abril Foto: Ilustração de Lari Arantes sobre foto de divulgação

RIO – A cantora americana Ariana Grande, de 25 anos, tem gerado discussões sobre bissexualidade desde que, há exatos sete dias, lançou uma música cuja letra sugere que ela é bissexual.

“Eu gosto de mulheres e homens”, entoa ela, na canção “Monopoly”, um dueto com sua amiga Victoria Monet.

Ariana não está sozinha. Muitos da nova geração da música pop se declaram “fluidos” — seja sexualmente, seja no gênero. Nos últimos anos, artistas como Miley Cyrus, Anne-Marie, Troye Sivan, Harry Styles, Christine and the Queens e Demi Lovato falaram sobre atração pelo mesmo sexo ou bissexualidade em suas letras.

Quando Janelle Monáe se definiu como pansexual em um perfil da revista “Rolling Stone” no ano passado, as pesquisas pelo termo aumentaram em 11.000% no dicionário online Merriam-Webster. Não há uma definição exata de “pansexual”, mas, em linhas gerais, trata-se de alguém que pode se atrair por pessoas de todos os gêneros e orientações sexuais.

Coordenador da Fundação LGBT, uma ONG britânica, Joe Nellist avalia que os músicos estão simplesmente refletindo a atitude de sua geração em relação à identidade de gênero e à orientação sexual.

— Há um número crescente de jovens com idade entre 16 e 25 anos que se identificam como lésbicas, gays ou bissexuais. O número atualmente é de 4,2% (somente no Reino Unido), que é mais do que o dobro da população geral — afirmou ele à “BBC”.S

No Brasil, uma pesquisa da PUC-RS concluída em 2015 mostrou que, entre as mulheres solteiras de 24 e 35 anos de idade, 14.8% se identificaram como bissexuais, 7.6% como homossexuais e 77.6% como heterossexuais. Entre os homens, 8,6% se disseram bissexuais, 25.2% homossexuais e 66.3% heterossexuais.

A pesquisa, realizada pelo Núcleo de Tendências e Pesquisa do Espaço Experiência da PUC-RS, constatou que, na média entre os dois gêneros, 11.8% dos brasileiros são bissexuais e 16.1% são homossexuais.

— Os dados recentes indicam que estamos nos movendo em direção a uma sociedade que é mais tolerante e receptiva, onde as pessoas se sentem confiantes e confortáveis para “sair do armário” ainda jovens — analisou Joe Nellist.

‘Cenário mudou drasticamente para os artistas queer’

No mês passado, o cantor Sam Smith, de 26 anos, se declarou não-binário — termo associado a pessoas cuja identidade ou expressão de gênero não se limita às categorias “masculino” ou “feminino”.

Em entrevista ao talk show de Jameela Jamil, o “I Weight Interviews”, Sam afirmou já ter se questionado se desejava fazer a transição de gênero e disse que a dificuldade para lidar com o próprio corpo resultou em uma lipoaspiração, quando tinha 12 anos.

— Quando eu comecei a ler e ouvir pessoas falando sobre se identificar como não-binário, minha reação imediata foi: “esse sou eu” — lembrou, durante a entrevista no programa. — Eu sempre vivi uma guerra entre meu corpo e minha mente. Quando eu tinha 12 anos, minha mãe me levou ao médico e descobrimos que meu corpo estava armazenando quantidades excessivas de estrogênio, que fazia com que meus peitos se parecessem com seios femininos.

Uma grande novidade dos dias de hoje, para artistas queer, é que eles podem dizer publicamente que são bissexuais, pansexuais, não-binários sem que isso prejudique suas vendas ou sua reputação, conforme destaca Olly Alexander, vocalista da banda Years & Years.

— Acho que o cenário mudou drasticamente para os artistas queer — disse Olly Alexander à “BBC” em 2018. — No passado, todos nós nos familiarizamos com estrelas pop “saindo do armário” já no meio de suas carreiras, ou depois de se tornarem muito renomados, e isso parece uma narrativa cruel para pessoas queer. Agora, parece que os artistas podem realmente “sair do armário” desde o início de suas carreiras.

Canções pop são cada vez mais propensas a apresentar perspectivas queer — e isso não tem impedido o sucesso de público e crítica. Por exemplo, Janelle Monáe ganhou uma indicação ao Grammy por sua música “Pynk”, uma celebração positiva da genitália feminina e do amor-próprio.

O poder do sreaming e das mídias sociais

Mudanças estruturais na indústria da música colaboraram para esse novo cenário, afirma Rachel Brodsky, editora-chefe do Grammy.com. Segundo ela, essas mudanças deram aos músicos “licença” para expressar sua sexualidade.

— Antigamente, os artistas pop eram um pouco mais cercados, com os executivos priorizando o que impulsiona os discos e faz ganhar dinheiro — diz ela à “BBC”. — Por exemplo, se você falasse sobre um assunto tabu em um disco, você arriscava que um grande empório de música como o Walmart não colocasse esse CD à venda. Mas a maneira como a música é consumida é totalmente diferente agora, com o streaming e o poder do marketing de mídia social. Hoje em dia, as gravadoras vêm atrás de artistas por causa de sua autenticidade, que geralmente se traduz em seguidores de mídias sociais.

Deslizes ainda acontecem

Mas nem sempre a discussão sobre gênero e sexualidade na música pop tem impacto positivo. No ano passado, Rita Ora, cantora britânica de etnia albanesa, foi criticada pelo refrão de sua música “Girls”, em que ela entoava: “Às vezes eu só quero beijar garotas, garotas, garotas / vinho tinto, só quero beijar garotas, garotas, garotas”.

Alguns ouvintes mostraram preocupação com o fato de esses versos perpetuarem o estereótipo de que as mulheres só se relacionam com outras mulheres quando estão bêbadas ou porque isso excita os homens.

Rita pediu desculpas, dizendo que “nunca causaria danos intencionais a outras pessoas LGBTQ+”. No entanto, o episódio mostrou como o mundo mudou desde que Katy Perry cantou “ela beijou uma garota e ela gostou” — desde que seu namorado não se importasse.

Por conta dessa realidade complexa é que a editora-chefe do Grammy.com tem reservas quanto ao rótulo de “queer pop” para classificar um gênero musical.

— Queer não é um gênero, é uma preferência sexual — argumenta Rachel Brodsky. — E se usarmos a palavra “queer” para descrever o som de alguém, corremos o risco de marginalizar artistas que, idealmente, merecem ser integrados ao conjunto pop maior. É como usar o termo “banda só de mulheres”. O que importa qual é a preferência sexual de alguém quando se trata de música? No final do dia, todo mundo é um artista. Vamos nos ater a descrever o som como uma forma de classificação em vez de aparência e sexualidade, não é? [Globo]

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