Na China, decotes e tatuagens estão na mira dos censores

Brincos masculinos também são alvo do governo; especialistas temem ‘infantilização’ da cultura do país
Li Yuan, The New York Times

A China está censurando tatuagens, brincos, decotes e programas de televisão que não refletem os ideis do Partido Comunista. Foto: Sam Hodgson/The New York Times

A China está travando uma guerra contra a diversão. O mais recente alvo são os brincos masculinos. Nos últimos meses, censores têm borrado as orelhas de alguns astros do pop quando aparecem na televisão e na internet, para evitar que seus brincos e joias sejam um exemplo demasiadamente feminino para os meninos do país.

A proibição ilustrou a crescente interferência do Partido Comunista nos menores detalhes da vida chinesa. Jogadores de futebol vestem mangas longas para cobrir as tatuagens. Em uma convenção de jogos eletrônicos, as mulheres receberam instrução para cobrir o decote. Os rappers só podem abordar temas como paz e harmonia.

Essa sanitização enfurece a universitária Rae Fan, 22, da região de Guangxi. Alguns de seus filmes americanos e sul-coreanos favoritos desapareceram das plataformas de transmissão via streaming. Para piorar a situação, as amigas parecem indiferentes. Os pais disseram que é melhor ela deixar de assistir a conteúdo desse tipo. “O objetivo desse tipo de controle é garantir que todos compartilhem dos mesmos valores”, disse Rae. “Assim, somos mais fáceis de administrar”.

Os esforços do Partido Comunista no sentido de fomentar “valores centrais do socialismo” – patriotismo, harmonia e civilidade, entre outros – estão ganhando força. O conteúdo que celebra o hedonismo ou o individualismo é removido. Em questão de poucos anos, os jovens de hoje terão visto menos conteúdo sem filtragem do que pessoas cinco anos mais novas.

“Para cultivar uma nova geração que vai sustentar nos ombros a responsabilidade do rejuvenescimento nacional, temos de resistir à erosão trazida pela cultura indecente”, publicou em 2018 a agência de notícias oficial Xinhua em um comentário criticando os chamados jovens ídolos afeminados da China. “Mais importante, temos de nutrir uma cultura de destaque”.

Deturpando programas de TV

A China corre o risco de infantilizar sua cultura. Não há sistema de classificação etária no país, o que significa que tudo deve ser adequado para um público de 12 anos. As cenas de sexo foram cortadas de Game of Thrones, acabando com o sentido da trama. 

Nos anos 1980, o Partido Comunista não gostava da música pop, das calças largas nem das histórias de amor. O primeiro beijo no cinema da China moderna só ocorreu em 1980. Mas, nas quatro décadas seguintes, os espectadores chineses conquistaram mais liberdade de expressão.

Dois anos atrás, as emissoras começaram a borrar as tatuagens. Um seriado policial censurou os cadáveres. Então, homens de cabelo comprido tiveram o rabo-de-cavalo borrado. A técnica é usada tão amplamente que ganhou nome: “aplicação maciça de mosaicos”. A indústria do entretenimento não tem escolha. No ano passado, as autoridades fecharam mais de 6 mil páginas na internet e 2 milhões de contas online.

A nítida perda de intensidade do primeiro programa de hip-hop chinês, The Rap of China, é um caso exemplar. O conteúdo não fazia críticas à sociedade. Ainda assim, os rappers se insultaram mutuamente e discutiram com os juízes na primeira temporada, levada ao ar em 2017, mostrando ao público um pouco da rebeldia do hip-hop. Então veio a repressão. Quando a segunda temporada foi ao ar, os participantes faziam versos falando de amor, dos seus sonhos e da família.

Para Lippi Zhao, fã de hip-hop de Xi’an, a segunda temporada foi ao mesmo tempo fraca e irônica. Os dois finalistas eram uighures, etnia predominantemente muçulmana que vive em Xinjiang. As autoridades locais obrigaram até 1 milhão de muçulmanos a viverem em campos de detenção. The Rap of China nem tocou no assunto.

“É claro que eles sabem a respeito daquilo que seu povo está passando”, disse Zhao. “Mas tiveram de fazer de tudo para ignorar o elefante na sala enquanto participavam do programa”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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