Feminismo em Israel: A luta das mulheres para orar em voz alta

Cristiano Dias de Jerusalém, O Estado de S.Paulo

Judias rezam com traje que ortodoxos reservam a homens Foto: Ronen Zvulun / Reuters

JERUSALÉM – Na manhã de sexta-feira, 8 de março, centenas de mulheres foram ao Muro das Lamentações, em Jerusalém. A data era especial. Elas celebravam o Rosh Chodesh, primeiro dia do mês no calendário hebraico, que coincidia com o Dia Internacional da Mulher e os 30 anos da fundação do grupo Mulheres do Muro, um movimento feminista religioso que luta pelo direito das mulheres de rezarem no local mais sagrado do judaísmo usando lenços e lendo a Torá em voz alta.

A confusão começou antes de qualquer oração. Adolescentes religiosas chegaram cedo, em ônibus fretados por rabinos, e ocuparam o pequeno cercadinho do Muro das Lamentações designado para isolar as mulheres. Do lado masculino, judeus ultraortodoxos, debruçados na mureta que divide os dois mundos, xingavam, cuspiam e ameaçavam as mulheres que ousavam rezar em voz alta. A polícia teve trabalho. Houve empurra-empurra e bate-boca, principalmente no lado masculino, entre ultraortodoxos e judeus moderados, incluindo líderes de grupos reformistas que foram apoiar as Mulheres do Muro. 

“A polícia não atua. Ela sempre diz que nós provocamos e somos culpadas”, disse ao Estado Tammy Gottlieb, de 30 anos, que faz parte da direção das Mulheres do Muro. “Nós não queremos rezar no mesmo espaço que os homens. Queremos apenas que nós, as mulheres, tenhamos o direito de rezar em voz alta. A lei está do nosso lado, mas isso não impede que as agressões sejam constantes.” 

Em 2013, a Justiça deu ganho de causa às Mulheres do Muro, afirmando que orações em voz alta não perturbam a ordem pública. Para Gottlieb, o conflito tem relação com o caráter religioso do Estado de Israel e o excessivo poder dado aos religiosos. “Em geral, as sociedades estão ficando cada vez mais liberais. Isso deixa em pânico os ultraortodoxos. Eles têm medo da mudança, de perder o poder. Por isso, eles estão cada vez mais intolerantes.”

Ultraortodoxos gritam contra ativistas no Muro das Lamentações Foto: Natalie Behring / Reuters

A ativista Anat Hoffman, diretora e fundadora do grupo, também criticou os ultraortodoxos e sugeriu razões políticas para o tumulto. “A maioria dos ônibus veio de assentamentos na Cisjordânia. Eles chegaram lotados 15 minutos antes de nossa celebração começar. Eu fico me perguntando quem se beneficiaria com essa demonstração de força a um mês da eleição”, disse Hoffman, em referência à votação da semana passada, vencida pelo primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, com apoio dos conservadores religiosos.

No dia seguinte ao quiproquó no lugar sagrado, o Haaretz, jornal israelense de tendência progressista, acusou o governo do premiê de usar o Muro das Lamentações como ferramenta política. “Netanyahu deu a si mesmo o poder de decidir quem é mais e quem é menos judeu, se apropriando da religião e agindo como se fosse o Vaticano do judaísmo”, escreveu o jornal, em editorial. “Netanyahu age como o papa dos judeus.”

O Muro das Lamentações é parte sensível da vida judaica – é o único vestígio do Segundo Templo de Jerusalém, destruído pelos romanos, no ano 70 d.C. Além das orações, muitos fiéis depositam desejos escritos em bilhetes enfiados entre as pedras. Antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967, o lugar era administrado pela Jordânia, que não permitia o acesso de judeus.

No terceiro dia da guerra, paraquedistas israelenses ocuparam a Cidade Velha de Jerusalém. “O Monte do Templo está em nossas mãos. Repito. O Monte do Templo está em nossas mãos”, anunciou Shlomo Goren, rabino-chefe do Exército. Yitzhak Rabin, então comandante das Forças Armadas, descreveu a chegada de seus soldados ao lugar como o episódio mais emocionante da Guerra dos Seis Dias

Por um breve período, os judeus, homens e mulheres, puderam rezar juntos, sem restrições, no Muro das Lamentações. Mas logo o local passou a ser controlado pelos ultraortodoxos, que impuseram a separação. “Com o tempo, muitos líderes conservadores de Israel se esqueceram que democracia não é apenas o governo da maioria”, disse Hanna Herzog, socióloga da Universidade de Tel-Aviv. “É preciso haver equilíbrio e também respeito aos direitos das minorias.”

Boa parte dos israelenses se vê como ocidental. “A única democracia do Oriente Médio”, dizem. Israel tem universidades de ponta, alto investimento em pesquisa e tecnologia. Diferentemente dos vizinhos árabes, a base do sistema político é um dinâmico parlamentarismo multipartidário, com eleições livres e um Judiciário independente.

3 lições do acordo entre Beyoncé e Adidas

Forbes Brasil
Janice Gassam
Getty Images
© Fornecido por BPP Publicações e Participações Eireli Getty Images

Recentemente, a cantora Beyoncé anunciou um grande acordo com a marca esportiva Adidas. Por meio da parceria, a artista norte-americana criará vestuário e calçados para a empresa, além de relançar sua marca Ivy Park, anteriormente vendida nas lojas da rede Top Shop.

Logo depois das notícias sobre o contrato, um vídeo começou a circular na internet com o jornalista Nick DePaula, da ESPN, alegando que a cantora havia recusado uma parceria com a marca concorrente Reebok em função da falta de diversidade entre os membros da equipe. No vídeo, DePaula conta que a artista negou tal acordo dizendo: “Ninguém desta marca reflete meu passado, minha cor de pele, minhas origens e meus planos”.

Usar Beyoncé como o rosto de uma marca pode ser uma atitude nada autêntica se os criadores e designers dos produtos não forem, eles mesmos, retratos da diversidade. Enquanto a veracidade das afirmações ainda não é comprovada, e a Reebok não se pronuncia, o caso levanta uma discussão sobre pontos importantes que muitas empresas enfrentam atualmente: diversidade e inclusão. Elas devem garantir que seus funcionários sejam de diversas origens, pois isso se tornou importante para os consumidores.

A capacidade de atrair e promover profissionais diversos se tornou uma parte essencial da estratégia competitiva de uma organização. A falta de foco pode fazer com que a companhia perca sua vantagem competitiva, diminuindo a lucratividade. Seus funcionários refletem a demografia de seus clientes? Existe diversidade entre os membros do conselho administrativo? Se a resposta for “não”, talvez seja hora de reavaliar e reformular sua estratégia corporativa.

Veja, nas fotos abaixo, lições que aprendemos com o caso de Beyoncé e maneiras pelas quais as corporações podem se diversificar para estimular a lucratividade e a produtividade:

1. Diversidade começa no topo

Slide 1 de 3: 1. Diversidade começa no topo

Para melhorar a representatividade em sua organização, deve haver diversidade entre os líderes da empresa. Mulheres, por exemplo, são mais propensas a contratar outras executivas, o que aumentará a representatividade feminina. Quando os funcionários não se identificam com ninguém da liderança, isso afeta seu moral e engajamento. Com as redes sociais, desigualdades no local de trabalho se tornaram evidentes, podendo afetar a percepção dos clientes. 

O site e as campanhas de marketing, no entanto, não devem apresentar diversidade se essa não for a realidade da empresa. Para ampliar essa característica entre a liderança, uma boa ideia é começar por dentro. Em vez de realizar uma contratação externa, a corporação pode optar pela promoção de um funcionário com bom desempenho, por exemplo.

Para melhorar a representatividade em sua organização, deve haver diversidade entre os líderes da empresa. Mulheres, por exemplo, são mais propensas a contratar outras executivas, o que aumentará a representatividade feminina. Quando os funcionários não se identificam com ninguém da liderança, isso afeta seu moral e engajamento. Com as redes sociais, desigualdades no local de trabalho se tornaram evidentes, podendo afetar a percepção dos clientes.

O site e as campanhas de marketing, no entanto, não devem apresentar diversidade se essa não for a realidade da empresa. Para ampliar essa característica entre a liderança, uma boa ideia é começar por dentro. Em vez de realizar uma contratação externa, a corporação pode optar pela promoção de um funcionário com bom desempenho, por exemplo.

2. É preciso priorizar a diversidade na estratégia organizacional

Slide 2 de 3: 2. É preciso priorizar a diversidade na estratégia organizacional

Pesquisas da McKinsey & Company mostram que existe uma relação significativa entre a diversidade corporativa e os resultados financeiros de uma empresa. A diversidade de gênero, assim como a de cultura e etnia, foi correlacionada com maior lucratividade. 

A consultoria sugere que uma forma de expandir a diversidade da organização é priorizá-la na estratégia organizacional. Não existe uma abordagem única para a diversidade e a inclusão, e as políticas devem ser feitas sob medida com base nas questões em foco. Além de aumentar a lucratividade, uma maior diversidade permite que a organização seja mais criativa. Pesquisas indicam que companhias com funcionários diversos são mais capazes de alavancar mercados insuficientemente atendidos. A diversidade satisfaz a necessidade dos funcionários de serem ouvidos, o que lhes permite expressar opiniões e ideias. No final das contas, criatividade e inovação também afetam os resultados da empresa.

Pesquisas da McKinsey & Company mostram que existe uma relação significativa entre a diversidade corporativa e os resultados financeiros de uma empresa. A diversidade de gênero, assim como a de cultura e etnia, foi correlacionada com maior lucratividade.

A consultoria sugere que uma forma de expandir a diversidade da organização é priorizá-la na estratégia organizacional. Não existe uma abordagem única para a diversidade e a inclusão, e as políticas devem ser feitas sob medida com base nas questões em foco. Além de aumentar a lucratividade, uma maior diversidade permite que a organização seja mais criativa. Pesquisas indicam que companhias com funcionários diversos são mais capazes de alavancar mercados insuficientemente atendidos. A diversidade satisfaz a necessidade dos funcionários de serem ouvidos, o que lhes permite expressar opiniões e ideias. No final das contas, criatividade e inovação também afetam os resultados da empresa.

3. Diversidade é responsabilidade de todos

Slide 3 de 3: 3. Diversidade é responsabilidade de todos

Diante desse cenário, várias empresas introduziram funções executivas especializadas em diversidade, muitas vezes rotuladas como “diretor de diversidade”. Na verdade, criar esse papel pode ser problemático, pois torna a diversidade um problema exclusivo do executivo encarregado, em vez de uma questão organizacional pela qual todos são responsáveis. Para ampliar a diversidade dentro da empresa, todos os funcionários devem se sentir responsáveis ​​por promover uma cultura de inclusão. Ela deve estar no DNA da corporação. 

Considere adotar recompensas para iniciativas inclusivas. Esse incentivo foi uma estratégia eficaz para a Intel e pode ser uma maneira de expandir a diversidade corporativa. Assim, por meio dessas ações, há um foco mais intenso na inclusão, o que pode levar a um maior sucesso.

Diante desse cenário, várias empresas introduziram funções executivas especializadas em diversidade, muitas vezes rotuladas como “diretor de diversidade”. Na verdade, criar esse papel pode ser problemático, pois torna a diversidade um problema exclusivo do executivo encarregado, em vez de uma questão organizacional pela qual todos são responsáveis. Para ampliar a diversidade dentro da empresa, todos os funcionários devem se sentir responsáveis ​​por promover uma cultura de inclusão. Ela deve estar no DNA da corporação.

Considere adotar recompensas para iniciativas inclusivas. Esse incentivo foi uma estratégia eficaz para a Intel e pode ser uma maneira de expandir a diversidade corporativa. Assim, por meio dessas ações, há um foco mais intenso na inclusão, o que pode levar a um maior sucesso.

Filósofo italiano Franco Berardi analisa como o mundo perdeu a confiança no futuro

Em ‘Depois do Futuro’, Franco Berardi mostra como o amanhã, antes visto com euforia, se tornou motivo de desespero
Amanda Mont’Alvão Veloso – O Estado De S.Paulo

A série ‘Black Mirror’ sintetiza o etos do que a ideia de futuro se tornou hoje Foto: Netflix

“Não, não é filme, é o futuro / nossos filhos vão se matar / por nada – por nada! / tente mudar, tente mudar, mudar o amanhã”. Em lírica enraivecida, Redson Pozzi fazia ecoar um dos manifestos inconformistas contidos no disco de estreia da banda punk paulistana CóleraTente Mudar o Amanhã, de 1984. A arte e o pensamento desfrutam de encontros involuntários: o cantor e compositor brasileiro, morto em 2011, anunciava em canção o que mais tarde o filósofo italiano Franco ‘Bifo’ Berardi registraria no livro Depois do Futuro, publicado na Itália em 2009 e que chega ao Brasil pela editora Ubu. 

Dez anos depois da publicação original, o livro confirma uma melancólica atualidade dos pensamentos de Bifo, estudioso das relações entre comunicação e tecnologia, e intelectual que tem na biografia participação ativa no Maio de 68. Aguardado com entusiasmo e euforia no século 20, o futuro hoje é esperado com desolação. Para chegar a esta enfática constatação, o italiano convoca referências do cinema, psicanálise, filosofia, linguística, poesia e dos movimentos artísticos. 

As utopias, fundadas nas vanguardas culturais e apoiadas nas esperanças de justiça social, democracia liberal e tecnologia, foram substituídas por uma perspectiva sombria dos dias que virão, mesmo com conquistas. Um futuro temido em uma permanência que se esgarça – a expectativa de vida aumentou cinco anos, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS). Por quanto tempo cada um de nós viverá o avançar dos dias em um horizonte de pessimismo? 

O prefácio à edição brasileira, escrito em janeiro deste ano, confirma factualmente as amargas sensações reservadas ao futuro. Berardi comenta a ascensão da extrema-direita ao poder por meio do voto, o reacionarismo e o retorno aos nacionalismos em diferentes partes do globo. As expectativas frustradas perante a promessa de progresso e a sedução do individualismo deram corpo a um ressentimento agressivo, com ataques violentos promovidos por jovens excluídos do poder econômico e político. Triunfo do fascismo? Não na opinião do filósofo, para quem a nova brutalidade e o ódio são expressões de um desespero e de uma vingança nutridos não só pelo colapso financeiro, mas também pela humilhação política e sexual trazida de carona. Se antes a resposta à desilusão era de violência e potência, hoje ela encampa um escape psíquico da impotência e do autodesprezo. “Hoje, pessoas brancas votam em partidos nacionalistas não porque acreditam pertencer a uma comunidade, mas porque gostariam de resgatar esse sentimento do passado. Elas cresceram na era do individualismo desenfreado, confiaram nas promessas do egoísmo neoliberal e se descobriram perdedoras”, argumenta o autor. 

Como chegamos a tamanha descrença no futuro? Certamente não de forma abrupta ou inimaginável. O livro de Berardi consiste em dar nome e contexto a essa transição, e estabelece em 1977 o divisor de águas, marco do que ele chama de “século sem futuro”. É o ano em que nasceram o punk, a Apple e foram publicados importantes ensaios sobre a tecnologia e as relações, como A Informatização da Sociedade, de Alain Minc e Simon Nora, e A Condição Pós-moderna, de Jean-François Lyotard. Algo se rompeu entre a esperança e a prática. Não se trata da morte do futuro enquanto existência, mas sim da falência de sua equivalência com o progresso. Esta distinção é fundamental para entender a crítica do filósofo italiano do sistema trabalhista, do uso da tecnologia e das conquistas da dimensão espaço-temporal. 

O intervalo de comparação começa em 1909, com a publicação do Manifesto Futurista. As tendências registradas na história tornavam o futuro conhecível, assim como as leis de desenvolvimento formuladas pela ciência. O que não estava previsto ou precisava de ajuste era modificável pela ação humana. Se no século 20 tinham valor a máquina, a funcionalidade, a velocidade, a violência e a guerra, nos cem anos seguintes passaram a vigorar a competição, a produtividade, a precarização e a desvalia das relações de contato. A vanguarda, cosmopolita e afeita à desterritorialização e à experimentação, contrasta com a atualidade do nacionalismo e da previsibilidade. 

As máquinas, antes externas ao humano, se tornaram internalizadas – que o digam os biohackers e seus chips implantados no próprio corpo. Dispositivos de avanço se transformam em mecanismos de controle, e então é inevitável pensarmos no Big Brother orwelliano – mais real que ficcional – e nos aplicativos que dão acesso a dados pessoais, microfones, fotos e documentos. A invasão é paradoxalmente voluntária. 

Há um gosto amargo de déjà vu nos argumentos acima, familiarizados pela literatura distópica, pelo cinema engajado e pelas revoltas populares. Black Mirror, O Conto da AiaWestworld apontam para uma desumanização alarmante justamente porque reconhecível. Por que, então, mais uma publicação sobre o desencanto? Porque Berardi não sucumbe à nostalgia das utopias; é na idealização da sociedade que ele situa os estados autoritários e o terror do nazismo, fascismo e comunismo. A vigilância tornou-se signo de convivência e repressão. 

Foi na pretensão da igualdade como meta obtusa, ou seja, sem espaço para as diferenças étnicas, religiosas e tantos outros matizes, que começaram os ataques à singularidade que hoje marcam o noticiário do nosso século. A pluralidade de identidades foi tomada como desorganizacional, indomesticável. A rede virtual, promissoramente espaço de liberdade, mostrou-se também aprisionamento customizado de agendas do ódio e da perversão, a exemplo dos fóruns de incitação a crimes como pedofilia, estupro, racismo e homofobia. A navegação anônima pulverizou as práticas e as intenções. Não cabe, porém, demonizar a experiência na internet: enquanto alguns se juntam para tramar a violação da lei, outros se reúnem para denunciar a supressão dos direitos humanos em seus países. 

Na análise do intelectual italiano, o trabalho tem papel de termômetro nesse futuro que se espera obscuro. Na passagem da tecnologia que facilitou processos à aceleração das atividades multitarefas desempenhadas, o esforço ficou tão fragmentado em partículas e horas que o trabalhador em si ficou invisibilizado. Seu rendimento é que se tornou farol. A dedicação de uma vida não mais dá a segurança de uma aposentadoria correspondente. Parar de trabalhar torna-se um risco. E para aqueles ainda inseridos no mercado de trabalho, mais um golpe na singularidade: algoritmos avaliam performance e decidem demissões, conforme denuncia Cathy O’Neil, doutora em matemática pela Universidade de Harvard.

Para muitos, o futuro já é um lamentável presente. Hoje há mais idosos no mundo do que crianças, segundo a ONU. São 705 milhões de pessoas acima de 65 anos contra 680 milhões entre zero e quatro anos. Uma situação inédita no mundo que não soube alimentar esperanças para o desconhecido. Os jovens já experimentam efeitos infelizes, alerta Berardi. Depressão e ansiedade fermentam estatísticas e preocupações. O suicídio individual e também o dos coletes-bomba e tiroteios em massa demonstram o extremo da consequência. Há também as experiências radicais de isolamento vividas pelos hikikomori no Japão, em que adolescentes e jovens adultos se trancam em seus quartos superconectados e renunciam à vida externa. 

As pessoas nascidas nos anos 1980 vivenciaram a prevalência da mídia sobre o contato com o corpo humano, assinala o italiano. A conexão de outrora é a conectividade que só faz laços intermediados por códigos. Mas a ausência da corporeidade é cara. Ela deixa de fora a sensibilização e o encontro empático que só a humanização multiplica. É suporte para a solidariedade, esta que fez resistência ao projeto desumanizador de Hitler no nazismo e que parece ser o componente-chave para a ressurreição do futuro proposta por Berardi. 

Ainda que pinte um cenário de desamparo, o filósofo oferece propostas. E elas passam pelo exercício da futurabilidade, que depende da pluralidade, do afeto e da poesia que extrai o mais-além da linguagem. Enquanto paira o retrocesso como descrição frequente do futuro aqui no Brasil, com o negacionismo e o ultraje coordenando políticas públicas, imaginar a mudança perante o caos parece beirar o ingênuo. Mas é crucial, parece nos dizer Berardi, indiretamente. Carece de sustentação coletiva, da arte e de coragem para permitir-se pensar aquilo que a máquina não nos apresentou.

*AMANDA MONT’ALVÃO VELOSO É PSICANALISTA, JORNALISTA E MESTRANDA EM LINGUÍSTICA APLICADA PELA PUC-SP 

Respeito e cuidado são marcas do documentário ‘Carta a Theo’

Filme segue rastro de Theo Angelopoulos e expõe conexão afetiva entre mestre e discípula
Sérgio Rizzo

Cena do documentário ‘Carta a Theo’, de Elodie Lélu – Divulgação

Filmes inacabados de grandes cineastas às vezes ressuscitam em abordagens documentais. Em “O Inferno de Henri-Georges Clouzot”(2009), por exemplo, Serge Bromberg e Ruxandra Medrea reconstituem o ambicioso projeto que o diretor francês de “O Salário do Medo” (1953) e “As Diabólicas” (1955) não conseguiu terminar em 1964.

O belga “Carta a Theo”, programado na seção O Estado das Coisas do É Tudo Verdade, filia-se à mesma tradição. O primeiro longa da francesa Elodie Lélu, 37, vasculha os escombros do filme em que o grego Theo Angelopoulos trabalhava quando morreu, atropelado por uma moto, em 24 de janeiro de 2012, aos 76 anos.

Seria um drama sobre processos migratórios e a economia globalizada. O que o diretor de “Paisagem na Neblina” (1988), “O Passo Suspenso da Cegonha” (1991) e “Um Olhar a Cada Dia” (1995) faria, a partir de seu conturbado posto de observação em Atenas, em torno desses temas-chave do século 21?

Respeitosa e também muita cuidadosa, Elodie busca todas as respostas possíveis nos rastros que Angelopoulos deixou. Ao mesclar o resultado da investigação com trechos de obras-primas do diretor, ela instaura um campo de imaginação sobre o qual o fantasma do filme inacabado paira o tempo todo.

Elodie fala de algo que também pertencia a ela. Quando estudava história da arte na Sorbonne, escolheu Angelopoulos como objeto de estudo de sua tese. Os dois se conheceram e se tornaram amigos. Mais tarde, ela decidiu estudar cinema em Bruxelas.

Convidada por Angelopoulos, foi a Atenas com passagem só de ida para participar do filme que jamais seria concluído. Sua carta muito pessoal a Theo, em forma de documentário, envolve memórias afetivas que ela estrutura de forma ensaística (a voz é da francesa Irène Jacob, de “A Dupla Vida de Véronique”).

“Carta a Theo” é também uma homenagem ao diretor grego não apenas porque evoca a sua obra ao mostrar trechos de filmes, mas porque Elodie vai parar em um lugar a que Angelopoulos provavelmente gostaria de ter chegado —um lugar que, por imensa coincidência, lembra o de “Cine Marrocos”, de Ricardo Calil, na competição brasileira do É Tudo Verdade.

E a cereja no bolo de Elodie é o próprio Angelopoulos, em depoimento sobre o que o movia. “Faço filmes para me conhecer e para conhecer o mundo”, diz ele. “Um desejo de viajar que nunca termina. Um desejo de conhecer outros lugares, outros rostos, outras situações, e me sentir sempre em uma jornada sem fim.”

CARTA A THEO (LETTRE A THÉO)

  • Quando Sesc 24 de Maio (SP), dom. (14), às 17h. Estação Net Botafogo – sala 3 (Rio), seg. (15), às 17h
  • Produção Bélgica, 2019
  • Direção Elodie Lélu

Brad Pitt e Angelina Jolie estão oficialmente solteiros

Mais de dois anos após pedido de divórcio, juiz decide separação

Angelina Jolie e Brad Pitt

Após mais de dois anos desde que Angelina Jolie, 43, pediu o divórcio de Brad Pitt, 55, pela primeira vez, o antigo casal finalmente conseguiu ganhar o status de “solteiros”.

Um juiz determinou que os atores podem voltar a ser legalmente solteiros antes de finalizar o acordo de divórcio, de acordo com documentos judiciais arquivados na sexta-feira (12).

“Ambos os pais estão focados no que é melhor para as crianças“, disse uma fonte ao site americano People depois da decisão judicial. Os atores tiveram seis filhos juntos, e Jolie pediu a custódia das crianças após o divórcio.1

Jolie e Pitt se conheceram ao fazerem o filme “Mr. & Mrs. Smith” em 2005, começando a namorar logo após as gravações dele. Em 2014, eles se casaram em uma pequena cerimônia em um castelo no sul da França, mas dois anos depois, em setembro de 2016, Jolie pediu o divórcio alegando diferenças entre os dois.

Desde então, Jolie e Pitt estão em negociações sobre a custódia dos filhos e dividindo suas finanças. Em novembro de 2018, eles chegaram a um acordo temporário de custódia das crianças.

Enquanto isso, Pitt se prepara para o lançamento em julho de seu próximo filme, “Era Uma Vez em Hollywood”, e Jolie está na continuação de “Malévola”, além de permanecer com seu trabalho de defesa internacional.

Décor do dia: sala de jantar geométrica com detalhes de latão

Estruturas metálicas pontuam projeto assinado pelo escritório italiano Marcante Testa

Passado e presente se encontram no projeto de interiores deste apartamento situado em um edifício dos anos 1960 no Corso Sempione, em Milão. Marca registrada do escritório italiano Marcante Testa, as estruturas metálicas pontuam esta sala de jantar geométrica. Uma elegante combinação de materiais luxuosos e do dia a dia compõe o décor, evocando um irresistível mood high & low.

Décor do dia: sala de jantar geométrica com detalhes de latão (Foto: Divulgação)

A área de refeições é delimitada por uma variação do mármore que reveste o piso e uma parte das paredes. Em contrapartida, a madeira clara em estado natural foi eleita para a mesa e as cadeiras, revestidas com um alegre tom de rosa. As candy colors, aliás, salpicam alguns detalhes da marcenaria, trazendo à tona o senso de humor característico dos arquitetos.

As juntas do piso também formam a base para uma tela em latão e vidro, peça única feita sob medida pelo Marcante Testa, que atua tanto como um filtro visual entre a entrada e a área de jantar quanto como recurso de armazenamento de utensílios e outros objetos.