Teste com ‘curtidas’ no Instagram preocupa influenciadores

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Plataforma deixa de mostrar número de likes para evitar distúrbios, mas usuários temem perder atenção de marca
Por Bruno Romani – O Estado de S.Paulo

Depressão tem origem além de rede social, diz Aline Souza

Em meio a fotos de pôr-do-sol, comidas e gatinhos fofos, uma nuvem cinza começou a pairar no universo do Instagram nesta semana. Desde sexta-feira, 3, a rede social de fotos testa no Canadá uma mudança na plataforma: parar de mostrar, para todos os usuários, a contagem de curtidas que aquela publicação recebeu – a partir de agora, só o dono da postagem saberá o quanto é popular. A intenção é boa: melhorar o ambiente do app, que há anos é acusado de deteriorar a saúde mental dos usuários com imagens de um estilo de vida perfeito e inalcançável. Mas teve quem não gostou.

Mesmo sem data para chegar ao Brasil, o “fim da contagem de curtidas” gerou dúvidas em uma parcela de influenciadores e aspirantes a celebridades da rede social. “Para quem trabalha com Instagram e precisa ser notado, não achei que foi uma boa”, diz Aline Jesus de Souza. Com 36 anos e uma conta com quase 30 mil seguidores interessados em decoração, ela faz parte de um grupo que teme não ter como chamar a atenção de marcas e potenciais parceiros.

“Como vamos analisar um conteúdo sem saber a curtidas? Como as empresas vão interpretar isso? Será que vão continuar dando importância para a rede ou ela perderá a credibilidade?”, questiona Vanessa Manfredini, de 32 anos e um perfil com 45 mil seguidores.

Para Alexandre Inagaki, consultor em redes sociais, cujo trabalho é fazer a ponte entre anunciantes e influenciadores, também enxerga alguns problemas no novo modelo. “Para as marcas, o número que continuará visível é a quantidade de seguidores. A tendência é que o foco nisso se agrave”, diz. “Além disso, o influenciador vai continuar ‘na neura’. Ele vai continuar vendo os próprios likes e tentando entender o que fez um post dar certo ou não”.

Se a métrica que passar a importar for o número de seguidores, há ainda outro medo para os influenciadores: o temor de que perfis que compram seguidores, prática bastante criticada dentro do Instagram, sejam nivelados a quem está conquistando público organicamente. “Tem blogueira que compra muitos seguidores, mas têm poucas curtidas. Agora todo mundo vai achar que é igual. Não vai dar para identificar quem é quem nesse primeiro momento”, diz Ana Clara Benevides, 23, influenciadora digital especializada em moda, com 129 mil seguidores. “Não acho interessante essa democratização”.

Saúde mental

A medida foi anunciada nesta semana por Adam Mosseri, chefe do Instagram, durante a conferência de desenvolvedores do Facebook, a F8. Segundo ele, a intenção é que os usuários apreciem as imagens e se desapeguem do número de curtidas, tentando manter o ambiente saudável. “Não podemos dizer se vai dar certo ou se vai ser só mais um teste, mas é algo que estamos tentando para melhorar o ambiente”, disse Mosseri. É uma resposta a anos de críticas – em 2017, um estudo da agência de saúde pública do Reino Unido considerou o Instagram a pior rede social para a saúde mental e o bem estar das pessoas.

Há quem não acredite nas boas intenções da companhia de Mark Zuckerberg. “Depressão e problemas de autoestima são coisas que têm origem além das redes sociais. Acho uma loucura o Instagram esconder as curtidas como se isso fosse resolver a saúde mental das pessoas”, diz Aline.

A possível mudança, porém, não vai acabar com os pedidos de likes feitos pelos influenciadores. Aline, por exemplo, lembrou os seus seguidores que embora o número fique escondido, a curtida ainda é importante para o seu perfil. E a ideia não é apenas apresentar esse dado para parceiros. “O algoritmo do Instagram usa as curtidas para determinar quais conteúdos vão aparecer no feed das pessoas. Isso não mudou”, diz. Há um certo temor entre elas de que os números escondidos desestimulem novas curtidas.     

“A curtida sempre foi uma métrica de vaidade”, diz Isabela Ventura, presidente da Squid, empresa de marketing com foco em microinfluenciadores – isto é, quem está começando. “Olhamos para o conteúdo, a originalidade, a comunidade na qual o influenciador está inserido”, explica. Além disso, métricas internas não foram desativadas do Instagram, de forma que os influenciadores ainda podem gerar relatórios para as marcas. Atraí-las, porém, pode ser um desafio. /COLABOROU EMILLY BENKHE

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