Atriz Tilda Swinton estreia em curadoria de arte em exposição de fotografias, em NY

Inspirada em Virginia Woolf, Tilda Swinton organizou a mostra ‘Orlando’, mesmo nome de romance da autora, que gira em torno dos temas desafiadores de gênero
Ted Loos, The New York Times

Em NY, a atriz Tilda Swinton na Aperture Foundation, local da mostra ‘Orlando’ Foto: Micaiah Carter/The New York Times

A atriz britânica Tilda Swinton pode se vangloriar de muitas conquistas, entre elas uma carreira de mais de 70 filmes que inclui Conduta de Risco, pelo qual ganhou um Oscar em 2008. Sua trajetória no cinema começa com ela ainda inexperiente nos anos 1980, trabalhando com o aclamado diretor Derek Jarman, para chegar a sua participação neste ano em Vingadores – Ultimato, que já é uma das maiores bilheterias de todos os tempos. 

Até agora, porém, Swinton, de 58 anos, não havia organizado uma exposição de arte. A mostra Orlando, que foi inaugurada na Aperture Foundation, de Nova York, e traz cerca de 50 fotografias de 11 artistas, é a primeira experiência de Swinton em curadoria de arte.

Os trabalhos expostos, alguns encomendados especialmente para o projeto, abordam os temas de identidade e transformação explorados no romance Orlando, lançado por Virginia Woolf em 1928, e na adaptação de 1992 do livro para o cinema, de Sally Potter, na qual o papel principal foi a porta para o sucesso de Swinton.

A lista de artistas na mostra inclui nomes consagrados como Mickalene Thomas, Lynn Hershman Leeson e Potter, além de novos talentos como Elle Pérez. A edição de verão da revista Aperture é dedicada ao projeto, com Swinton como editora convidada trabalhando com o editor da publicação, Michael Famighetti. 

“Ela tem um ótimo olho”, disse Thomas, que fotografou dois temas – sua companheira e musa, Racquel Chevremont, e o artista performático Zachary Tyler Richardson – e depois se correspondeu com Swinton por e-mail para selecionar as imagens para a mostra. Swinton falou com entusiasmo de seu trabalho durante uma visita a Nova York no mês passado. 

Como isso começou?
Eu havia conversado com a revista Aperture sobre fazer alguma coisa, e aí surgiu essa ideia de Orlando.

Curadoria é novidade para você, não?
Há muito tempo, fiz curadoria para uma mostra de filmes experimentais no Instituto de Artes Contemporâneas (ICA) de Londres. Também fui curadora de festivais de cinema. Mas até agora não havia feito curadoria de nada que estivesse em paredes.

Discussões de gênero são comuns hoje, mais do que quando você fez o filme Orlando. Isso a levou de volta a essa história?
Me parece que essa discussão sobre o que é Orlando – o filme e principalmente o livro – se dá toda em torno de gênero. E na verdade não é assim.

Então o que é?
É sobre mudanças inevitáveis e ininterruptas serem a única coisa em que se pode confiar, e sobre identidade ser positivamente irrelevante. É um livro adequadamente revolucionário. Eu me arrisco a pensar que, se Virginia Woolf tivesse continuado por mais mil páginas, Orlando acabaria se transformando em um camundongo.

No entanto, o livro é tocante no modo como aborda a transformação homem-mulher: o protagonista acorda um dia como mulher e continua assim.

Identidade de gênero é um aspecto do livro, e Woolf lida com isso de maneira linda, espirituosa, engraçada e profunda. Mas o livro também é importante ao falar de classe, e isso é um tabu sobre o qual ninguém fala, nunca.

Você parece inspirar filmes de fluidez de gênero – em Suspiria, do ano passado, fez papéis de homem e de mulher. Por que os diretores pensam em você para isso?
Com frequência instigo isso, então me cabe alguma responsabilidade. Não culpem os diretores! (risos)

De onde vem essa tendência?
Sou realmente interessada em transformação – especialmente no que chamo de o precipício da transformação. Para mim é natural fazer uma dona de casa burguesa que cuida de sua família e de repente sente atração por seu chantagista, como em Até o Fim. Ou como em Julia, fazendo uma alcoólatra que, de certo modo, se transforma em mãe.

O que a levou a essa mostra?
Foi um convite que fiz a algumas pessoas e ao qual todas responderam, exceto uma que estava muito ocupada.

Você conhece vários dos artistas participantes, especialmente Lynn Hershman Leeson.
É uma velha amiga e colaboradora. Nós nos conhecemos quando ela me escreveu pedindo que trabalhasse com ela. Aceitei imediatamente e juntas fizemos cinco filmes. O primeiro foi Conceiving Ada, sobre Ada Lovelace, filha de Lorde Byron, hoje reconhecido como o primeiro programador de computador.

Leeson é famosa por ter uma outra identidade, correto?
Seu alter ego, Roberta Breitmore, era algo muito vivo. Tinha vida conhecida do público, caixa postal, número de Previdência Social e até passaporte, mas nunca existiu.

O que a surpreendeu quanto ao resultado artístico da mostra?
Adoro o que (o fotógrafo e artista americano) Paul Mpagi Sepuya fez. Sou muito grata por ele mostrar que ali há mais do que a simples questão de gênero do livro – há raça, também. “Sim, há esse racismo bárbaro”, disse ele, o que foi muito significativo.

Há no romance de Woolf um momento particularmente forte relacionado a racismo que não está no filme, certo?
Paul Mpagi Sepuya estava se referindo a um Orlando enfastiado, brincando com o que parecia um punching ball (saco de boxe), mas que na verdade era a cabeça enrugada de um mouro que seus ancestrais trouxeram das Cruzadas.

Talvez identidade seja algo dispensável, como você sugere, mas na arte não estamos todos olhando para nós mesmos?
Veja o trabalho de Mickalene Thomas. Ela acertou na mosca: a verdade é que todos são Orlando.

Parece que o livro significa mais para você do que o filme no qual trabalhou.
Acho que me sinto meio acanhada por gostar do livro porque eu também cresci numa grande casa, com muitos retratos nas paredes de pessoas que se pareciam comigo, mas com bigode ou cavanhaque. Ocorre que milhões que leram o livro se sentem da mesma forma, não importando onde cresceram, qual sua identidade de gênero ou como é sua vida. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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