Ex-Eurythmics, Annie Lennox mostra sua essência em instalação de arte

Desde o colapso da dupla de sucesso da música pop que ela liderou com Dave Stewart, em 1990, Lennox tem se dedicado a pautas humanitárias
Jillian Steinhauer, The New York Times

Cerca de 250 objetos pertencentes a Annie Lennox estão em exibição em instalação artística em um museu de Massachusetts.
Cerca de 250 objetos pertencentes a Annie Lennox estão em exibição em instalação artística em um museu de Massachusetts. Foto: Lauren Lancaster / The New York Times

Annie Lennox está falando sobre a morte. Não é mórbido nem é vão, são as preocupações de uma celebridade sobre seu legado. A ex-cantora do Eurythmics é, de fato, uma mulher de certa idade – 64 anos – e, portanto, alguém que começou a olhar para trás e não para a frente. “O que é a única coisa garantida a todos nós?”, perguntou-se. “Que vamos morrer”.

Desde o colapso de 1990 da Eurythmics, a dupla de sucesso da música pop que ela liderou com Dave Stewart, as preocupações de Lennox se tornaram mais fundamentadas e existenciais. Nas décadas seguintes, ela lançou apenas álbuns solo esporádicos e tirou folga para criar suas duas filhas.

Inspirada por suas experiências com a campanha 46664 de Nelson Mandela, ela se tornou uma ativista sobre a conscientização da aids, concentrando-se especificamente na situação de mulheres e meninas na África. E deixou para trás a fama por uma chance de viver, e talvez até mesmo fazer a diferença no mundo. “No meu tempo, sempre achei que a fama era resultado de alguma coisa realmente boa que você fez musical ou artisticamente. É apenas um sintoma”, refletiu. “Eu mergulhei e fiquei imersa. E foi essa imersão que me manteve humana”.

Humanidade é o tema do mais recente projeto de Lennox, que revela um lado mais pessoal dela não visto pelos fãs até então, em um meio totalmente diferente: uma instalação de arte. No mês passado, no Museu de Arte Contemporânea de Massachusetts (MASS MoCA), em North Adams, Massachusetts, Lennox revelou um monte de terra de aproximadamente 2,5 metros de altura e 20 metros de comprimento contendo quase 250 objetos que ela adquiriu durante sua vida: o estojo de maquiagem que ela usou durante as turnês, a máquina de costura de sua mãe, uma máscara que era um presente de um namorado, figuras mexicanas do Dia dos Mortos, dezenas de pares de sapatos de criança e muito mais.

Os itens são organizados em telas de miniatura que sugerem associações e histórias, e estão embutidos em um monte de terra manchada de glitter, que é cercada por cordas de veludo vermelho. No topo do monte fica um piano. É parcialmente iluminado por um holofote. “O piano tem sido tão, tão importante durante toda a minha vida”, afirmou Lennox. “Desde que eu tinha 3 anos de idade e me deram um piano de brinquedo”, lembrou. 

A exposição, intitulada Agora eu deixo você ir … representa uma espécie de tentativa de pôr a casa em ordem, tanto física quanto emocionalmente. “Eu estava confusa sobre o que mostrar, o que era relevante, o que não era”, explicou. “Mas é lindo que eu possa fazer isso. Porque não temos um ritual no mundo ocidental para isso. Nós simplesmente não sabemos o que fazer com o que é deixado para trás”.

Em uma visita recente, o clima na galeria era calmo e tinha a iluminação baixa. Lentas e suaves melodias de piano soavam – canções improvisadas por Lennox, que as chama de “música borboleta” por seu efeito calmante. A montanha de terra lembra antigos túmulos e valas comuns, além de escavações arqueológicas. Alguns de seus clipes são exibidos na parede do fundo, silenciosos e tocando de trás pra frente, de modo que seu rosto expressivo e os olhos penetrantes geralmente pairam sobre todo o espaço.

Lennox disse que espera que a instalação, que continuará aberta ao público até a próxima primavera, inspire a reflexão sobre “nossa humanidade comum”. Deixando para trás os alter egos que ela passou anos criando para videoclipes e sessões de fotos – celebrados em um show de 2011 no Victoria and Museu Albert – ela se desconstruiu para um autorretrato convincente.

“É uma parte minha que eu gostaria de ter sido, uma artista visual convencional”, disse, explicando que estudou brevemente arte na escola. Quando criança, crescendo em um prédio da classe trabalhadora na Escócia, Lennox se refugiou na galeria de arte de Aberdeen.

Mas a artista, que agora divide seu tempo entre Londres e Los Angeles, não tem pretensões de iniciar uma nova carreira no final da vida e credita grande parte do sucesso da instalação ao diretor do MASS MoCA, Joseph Thompson, que aceitou sua proposta para o monte, e à equipe técnica e de curadores que a tornou realidade. “É o meu sonho”, compartilhou. “E eles me ajudaram a fazê-lo acontecer”.

Lennox diz que ela se tornou cada vez mais sintonizada com a qualidade onírica da vida, mas como compositora, ela captou habilmente o tempo todo – está lá no pop de sintetizador de Sweet Dreams de 1982, na balada poderosa de 2007 Dark Road e em muitas outras músicas. 

Agora ela deu a essa sensibilidade uma forma física que é, em última análise, mais fugaz que sua música. “Se você tivesse me conhecido nos anos 80, eu estava na minha juventude, experimentando e tentando descobrir tudo. Não estou dizendo que descobri muito, mas uma coisa que estou começando a perceber mais e mais é que a vida é apenas um sonho, e nós a carregamos na memória”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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