Bruce Springsteen une Califórnia a Nashville em novo disco

Primeiro álbum sem a E-Street Band desde 2005, ‘Western stars’ aposta em abundantes arranjos de cordas e já nasce um clássico
Sérgio Luz

O cantor e compositor Bruce Springsteen Foto: Divulgação

Quando lançou seu primeiro disco sem a lendária E-Street Band, o perturbador “Nebraska” (1982), Bruce Springsteen já era reverenciado como um dos grandes cronistas da vida americana de sua geração. Aquele álbum, no entanto, marcou uma virada na carreira do cantor e compositor de Nova Jersey, apresentando uma faceta até então desconhecida de seu público, com canções sombrias sobre personagens obscuros e sem qualquer perspectiva de redenção, talvez o tema mais recorrente de sua obra.

Primeiro trabalho de inéditas do artista desde “Wrecking ball” (2012), “Western stars” — lançado nesta sexta — é também sua primeira coleção de faixas solo em 14 anos, sucessora de “Devils & dust” (2005), que havia seguido ao soturno e híbrido “The ghost of Tom Joad” (1995), com sete canções solo e cinco acompanhadas por banda.

Ao contrário dos três LPs supracitados, “Western stars” não mergulha em desesperança, crítica social e escuridão, mas aposta numa melancolia solar calcada na sonoridade do sofisticado folk-rock californiano do início dos anos 1970 e no country pop moderno, num encontro repleto de frescor entre Laurel Canyon, onde floresceu uma cena musical que abrigou de Crosby, Stills & Nash a Jackson Browne, e Nashville, capital do country nos EUA.

Esse é o vagão sonoro que Springsteen usa para levar o ouvinte numa viagem pela vastidão do Oeste americano, atravessando paisagens ora desoladoras, ora acolhedoras, por onde trafegam narradores inquietos que buscam mudança, novos horizontes e transformações enquanto enfrentam seus próprios demônios, como em “Hitch hikin’”, “The wayfarer” e “Tucson train”, de versos como “Eu venho aqui procurando por uma nova vida / uma que eu não tenha que explicar / para aquela voz que me mantém acordado à noite.”

Se os dedilhados de violão e os arranjos acústicos não são novidades na obra do Boss, o que “Western stars” traz de diferente são os abundantes arranjos de cordas, que dão unidade ao disco. Às vezes exagerada, a roupagem orquestral chega a flertar com o brega, mas transforma-se em acerto ao proporcionar familiaridade às canções já a partir da primeira audição, enriquecida por sintetizadores esparsos, backing vocals e delicadas linhas de pedal steel.

Essa opção estética atinge a sua glória na épica “Chasin’ wild horses”, na qual um homem arrependido por algo cometido no passado abandona casa e amigos sem se despedir para perseguir cavalos selvagens nas amplas pradarias do estado de Montana, numa paisagem tão cinematográfica que poderia ter sido tirada de uma sequência de um filme de John Ford.

Outros pontos altos são as baladas retrô “There goes my miracle”, “Hello, sunshine”, primeiro single do disco, e “Sundown”, que traz a melhor performance vocal do artista em todo o disco, com direito a vozes de apoio num radiofônico e contagiante “sha la la la”.

Aos 69 anos, o democrata Springsteen não seguiu em “Western stars” uma expectativa de criar um álbum que fosse um libelo contundente contra a administração ultraconservadora de Donald Trump. Mas ao contar as histórias de personagens desiludidos que não abandonam a violenta esperança de um recomeço, ele narra de maneira introspectiva — o contrário da forma explosiva que adotou em “Born to run” e “Born in the USA” — os anseios de toda uma geração que se vê perdida num país dividido e mergulhado numa crise de identidade.

Em meio a uma discografia abundante e celebrada, “Western stars” tem a façanha de já nascer como um clássico. E o maior mérito de seu autor — que acabou de sair de uma longa temporada com um espetáculo intimista e autobiográfico na Broadway e já planeja gravar ainda este ano um novo disco com a E-Street Band — é seguir produzindo uma obra relevante e atual mesmo prestes a entrar na sexta década de sua carreira, patamar que praticamente nenhum colega de sua geração conseguiu atingir ou manter.

Cotação: Ótimo.

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