Aprender a programar vira meio de acesso à classe média nos EUA

Projetos de ONGs ajudam jovens sem diploma a deixar pobreza; escala, porém, não basta para repor vagas perdidas pela indústria
Por Steve Lohr – The New York Times

Aprender código fez Brittney deixar de ser sem-teto e passar a ganhar US$ 50 mil por ano

A americana Brittney Ball estava vivendo num abrigo para pessoas em situação de rua com seu bebê quando soube de um programa de um ano que oferecia cursos de programação, formação profissional e estágio. Passados cinco anos, hoje ela é engenheira de software em Charlotte, na Carolina do Norte, ganhando mais de US$ 50 mil por ano. Mãe solteira de 30 anos, ela agora tem seguro-saúde, plano de aposentadoria e pretende passar suas próximas férias no México. “O programa realmente me deu um impulso”, diz ela.

Preparar pessoas para trabalhar na área de tecnologia é algo visto como a grande esperança para o futuro dos empregos. Cidades e Estados dos EUA estão ensinando alunos de ensino fundamental e médio a criar softwares. “Aprenda a programar” é o novo mantra. Segundo especialistas, criar linhas de código e aplicá-los a negócios promete ser a nova forma de acesso à classe média, especialmente para pessoas sem grau universitário. Para isso, programas sem fins lucrativos como o que beneficiou Britney são decisivos. 

“Empregos em tecnologia podem ser vistos como os substitutos da manufatura”, disse Byron Auguste, diretor do Opportunity@Work, um grupo sem fins lucrativos que foca seus esforços em auxiliar a força de trabalho. No entanto, apesar das perspectivas promissoras, esses programas seguem se desenvolvendo em pequena escala. Expandi-los rapidamente traz muitas complicações. Orientar, treinar e aconselhar pessoas – frequentemente em situações de desvantagem social – não é um processo de produção em massa.  

“A ideia de que empregos tecnológicos vão criar uma classe média substancial em futuro próximo não é realista”, disse Hal Salzman, professor do Centro John J. Heldrich de Desenvolvimento de Força de Trabalho, da Universidade Rutgers. Uma pesquisa realizada pelo professor mostra um crescimento de 70% nos empregos de tecnologia da informação nos EUA nos últimos 15 anos. 

Em 2018, havia 4,7 milhões de pessoas no setor no país. Cerca de um quarto dos empregos em tecnologia são ocupados por trabalhadores sem grau universitário, segundo os pesquisadores.  Mas o total ainda está longe dos 12,8 milhões que trabalham diariamente em fábricas – e isso considerando as 1,5 milhões de vagas em manufatura fechadas nos 15 anos. 

Programas ainda têm longo percurso a percorrer

Financiados por fundações, corporações e governos estaduais e municipais, os cursos exploram uma ampla mudança que vem ocorrendo no mercado de trabalho. A maioria dos empregos em tecnologia não está mais na indústria tecnológica – mostrando uma crescente tendência que, segundo especialistas, promete criar bons empregos em campos como marketing, saúde e finanças. 

Mas as iniciativas centradas em tecnologia têm um longo caminho a percorrer para atingir um porcentual do mercado de trabalho que chegue perto do tamanho da manufatura. A YearUp, que deu o curso para Britney, ilustra a evolução e os limites do modelo. Fundada em Boston em 2000, a ONG começou formando técnicos de suporte a PCs. Foi se adaptando e criando cursos que incluem controle de qualidade, engenharia de software, segurança cibernética e análise de dados. Sozinha, a fundação tem 15,5 mil alunos – em 2019, tem 4,7 mil matriculados, na maioria pessoas de baixa renda entre os 18 e os 25 anos. 

Seu programa tem seis meses de treinamento e seis meses de estágio em empresas, com um pequeno salário. Mais de 70% dos formados conseguem um emprego ao final do ano, com salário anual entre US$ 34 mil e US$ 50 mil. “Em um ano, a pessoa já se afastou da linha de pobreza”, diz Gerald Chertavian, fundador da Year Up. 

A Year Up “incorpora as fórmulas que mais parecem funcionar”, disse David Fein, pesquisador da Pathways for Advancing Careers and Education, organização que avalia programas de treinamento e educação através dos anos. “O impacto para os que foram escolhidos é real.” No entanto, seu alcance ainda é bastante limitado – cada estudante tem um custo e o modelo depende de um bom relacionamento com empregadores. 

Isso porque seus programas envolvem aprendizado em empresas, unindo treinamento e necessidades dos que empregam. Tipicamente, essas instituições ensinam tanto qualificação técnica quanto práticas como trabalho em equipe, confiança para falar em público e economia doméstica. A fórmula é abrangente, o que exige mais tempo e dinheiro.

O modelo também requer uma mudança no modo de contratação das empresas. A exigência de grau universitário continua valendo em muitas companhias, mas nos últimos anos algumas derrubaram esse obstáculo para certas ocupações, respondendo a exigências do mercado de trabalho, a pressões pela diversidade e ao sucesso de programas como Year Up. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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