Slack arrebenta na estreia e encerra primeiro dia na Bolsa valendo US$ 23,1 bi

O papéis encerraram o pregão negociados a US$ 38,62, um salto de 48,54% em relação ao preço inicial de US$ 26 estabelecido pela empresa

Durante o dia, as ações do Slack chegaram a valer US$ 41

As ações do aplicativo de mensagens corporativas Slacksubiram 48,54% nesta quinta-feira, 20, na estreia da empresa na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE, na sigla em inglês). O papéis encerraram o pregão negociados a US$ 38,62, um salto em relação ao preço inicial de US$ 26 estabelecido pela empresa – com essa valorização, o Slack atingiu o valor de mercado de US$ 23,1 bilhões. Durante o dia, as ações chegaram a valer US$ 41. 

Em termos de dinheiro movimentado no momento da abertura, a estreia do Slack foi a terceira maior da história da Bolsa de Nova York – foi movimentado US$ 1,75 bilhão em ações. O valor só fica atrás das estreia de Alibaba e Facebook, que movimentaram respectivamente US$ 4,5 bilhões e US$ 3,2 bilhões. 

No ano passado, o Slack foi avaliado em US$ 7,1 bilhões, após uma rodada de investimento de US$ 427 milhões. A abertura de capital do aplicativo foi uma oferta pública direta de ações (DPO, na sigla em inglês). É um processo pouco usual, no qual a empresa simplesmente põe seus papéis à disposição, sem o processo prévio de leilão pelo preço das ações ou preparação com bancos de investimento. A manobra, porém, tem atraído empresas de tecnologia: no ano passado, o Spotify fez o mesmo para abrir seu capital na NYSE.

Para o analista Alejandro Ortiz, da SharesPost, o sucesso do Slack em sua estreia na Bolsa segue a tendência de outras empresas de software empresarial que abriram capital recentemente, como o serviço de chamadas de vídeo Zoom, que teve valorização de 72% em abril, no seu primeiro dia de venda de ações. “Os investidores têm um caso de amor com empresas de software corporativo e com boas razões. Eles continuam a ter um desempenho muito bom ”, disse ele à agência de notícias Reuters

A oferta pública direta de ações do Spotify foi percebida como um sucesso em abril do ano passado, embora ações tenham caído cerca de 15% abaixo do preço de estreia, à medida que a empresa sacrifica as margens de lucro para o crescimento do negócio. 

Novo email

Fundado em 2013 por Stewart Butterfield, um dos fundadores do serviço de armazenamento de fotos Flickr, o Slack nasceu como um serviço de comunicação interno de um jogo criado por Butterfield. O sistema, no entanto, acabou virando uma ideia própria e hoje conta com milhares de usuários pagos em todo o mundo, além de ter uma versão gratuita – o serviço tem sido considerado um substituto contemporâneo ao email em várias corporações.

De acordo com a empresa de investimento Wedbush Securities, a plataforma tem hoje mais de 10 milhões de usuários diários e é usada em mais de 150 países. Segundo o Slack, a receita do aplicativo aumentou 80% no ano passado, para US$ 400 milhões.

O Slack faz parte de um grupo de empresas de tecnologia que escolheram o ano de 2019 para abrirem capital. Quem começou o movimento este ano foi a Lyft, rival do Uber, que estreou na bolsa de valores Nasdaq em março. No mês seguinte, a rede social Pinterest começou a negociar seus papéis na bolsa de valores de Nova York. A estreia mais recente foi do Uber, que teve um resultado abaixo da meta da empresa. O serviço de hospedagem Airbnb também deve fazer sua oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) este ano. /COM AGÊNCIAS REUTERS

Naomi Yang for Vogue China with Daisy Cvit

Photography: Naomi Yang. Styling: Chloé Dugast. Hair: Olivier de Vriendt. Makeup: Carole Colombani. Casting Director: Megan McCluskie. Model: Daisy Cvit.

Senado dos EUA fará audiência sobre moeda digital do Facebook em julho

A audiência vai explorar os pontos principais do projeto da rede social e também questões de privacidade; esta semana o Facebook anunciou a criação de uma moeda digital própria, que pretende entrar no mercado em 2020
Por Agências – Reuters

Moeda digital do Facebook, libra, terá transferências por WhatsApp

O Comitê Bancário do Senado dos Estados Unidos quer explicações sobre a moeda digital do Facebook, anunciada esta semana. A rede social terá que participar de uma audiência no dia 16 de julho sobre o assunto. 

A audiência vai explorar os pontos principais do projeto da rede social e também questões de privacidade, disse o comitê nesta quarta-feira, 19. 

Ainda não há informações sobre os nomes que participarão da audiência. De acordo com fontes familiarizadas com a situação, David Marcus, líder da área de blockchain do Facebook e um dos principais responsáveis pelo projeto, deverá depor sobre o assunto. 

Nesta terça-feira, 18, o Facebook anunciou seu projeto ambicioso de criação de uma moeda digital própria.Chamada de libra (sem nenhuma ligação com a moeda britânica), ela pretende entrar no mercado a partir de 2020, permitindo transações e transferências monetárias dentro das plataformas da empresa, incluindo o WhatsApp e o Facebook Messenger. O anúncio atraiu a atenção de reguladores ao redor do mundo.

A deputada Maxine Waters, democrata que preside o Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Estados Unidos, disse na terça-feira, 18, que planejava pedir depoimentos do Facebook sobre a moeda digital, e pediu que a empresa suspendesse o projeto enquanto os políticos o estudavam.

O Fed, banco central dos EUA, também comentou sobre a moeda digital do Facebook, dizendo que ela deve enfrentar regulação. “Temos alta expectativa de um ponto de vista de segurança e de regulação se eles decidirem avançar com o projeto”, disse Jerome Powell, presidente do Fed. 

O barato saiu caro: Forever 21 busca fugir da falência

A companhia contratou uma consultoria de reestruturação para ajudá-la a negociar mudanças nas lojas e o levantamento de um empréstimo
Por Karin Salomão

As operações internacionais também estão em dificuldade, mas devem ser reestruturadas separadamente 

Os dias das blusinhas baratas podem estar perto do fim. A Forever 21, varejista voltada ao público jovem, está buscando maneiras de financiar sua operação e evitar a falência. A companhia contratou uma consultoria de reestruturação para ajudá-la a negociar mudanças nas lojas e o levantamento de um novo empréstimo, segundo o Wall Street Journal. Para continuar operando, a empresa precisaria de 150 milhões de dólares.

De acordo com o jornal, o fundador, o sul-coreano Do Won Chang, usou um empréstimo recém tomado do JP Morgan Chase para cobrir as perdas da companhia, mas ficou sem caixa para comprar novos produtos e abastecer suas lojas.

As operações internacionais também estão em dificuldade, segundo a Bloomberg, mas devem ser reestruturadas separadamente. Em abril, a companhia anunciou que sairia do mercado chinês.

A varejista foi criada em 1984, pelo sul-coreano Do Won Chang, que juntou 11 mil dólares como lavador de pratos e frentista. A rede chegou a mais de 700 lojas pelo mundo, mas está sofrendo com quedas nas vendas depois de uma rápida expansão geográfica.

“A Forever 21, que divulga pouco sobre suas finanças, previu que as vendas subiriam 10% este ano, para US $ 4,7 bilhões”, escreve o Wall Street Journal. “Mas as pessoas familiarizadas com a empresa dizem que suas vendas e lucros diminuíram depois de anos de forte crescimento”.

A dívida soma mais de 500 milhões de dólares que vencem em 2022. A varejista vendeu sua sede em Los Angeles em fevereiro, por 166 milhões de dólares.

chegada de novos concorrentes, como a H&M, Target e dezenas de varejistas online, pressionou a Forever 21 ainda mais. Com peças a preços muito baixos e de qualidade duvidosa, a marca se baseia em um consumo acelerado, com muitas compras anuais e um enorme desperdício. Concorrentes oferecem peças com uma qualidade ligeiramente maior por alguns dólares a mais.

Reestruturação do varejo

A Latham & Watkins LLP deverá ajudar a Forever 21 a negociar os termos de aluguel com os proprietários de suas lojas, enquanto a Alvarez & Marshal deve reestruturar as operações da companhia.

A Forever 21 não é a única preocupação dos proprietários dos espaços das lojas. Com os fechamentos recentes do apocalipse financeiro nos Estados Unidos, há muitos espaços vagos.

Com o aumento do comércio eletrônico e menos idas às lojas físicas, diversas varejistas voltadas ao público jovem enfrentam riscos de falência, como Aéropostale, Rue21 e American Apparel.

“Apocalipse do varejo” já levou ao fechamentos de quase 6 mil lojas nos Estados Unidos esse ano, mais do que as 5,8 mil lojas encerradas no ano passado. Abercrombie & Fitch, Victoria’s Secret, JCPenney e Gap anunciaram o fechamento de centenas de lojas esse ano.

Apesar do cenário devastador, é só o começo. Um relatório do UBS acredita que mais de 75 mil lojas devem fechar na América do Norte entre 2019 e 2026.

O principal vilão das lojas físicas, nos Estados Unidos, é o comércio eletrônico. No Brasil, as lojas físicas impulsionam as vendas online e vice-versa, principalmente a partir da modalidade clique e retire, de retirada na loja do produto comprado pela internet.

No entanto, nem todas as companhias passam pelo mesmo sufoco. A modalidade de fast fashion, com novas coleções constante e grande apelo de moda, continua forte. A rival da Forever 21, H&M, apresentou crescimento de 10% nas vendas no primeiro semestre do ano. A companhia não tem lojas no Brasil.

Apple argumenta que aumento de impostos afetará seus investimentos nos Estados Unidos

CEO Apple Tim Cook e Donald Trump

Apesar de estar considerando levar (boa) parte da sua produção para fora da China, a Apple sabe que ainda dependerá das instalações atuais e continua tentando mudar a cabeça do presidente americano Donald Trump.

Alguns dias após Tim Cook ter visitado a Casa Branca para discutir a guerra comercial dos Estados Unidos com a China, hoje a Apple enviou uma carta ao Ministério do Comércio Exterior americano mais uma vez clamando pela suspensão do aumento de impostos.

Na carta, a Apple alega que o aumento terá um impacto significativo em quase todos os seus produtos (incluindo iPhones, iPads e Macs) e que, por isso, os investimentos da empresa nos EUA teriam que ser reduzidos.

Além disso, considerando que várias gigantes chinesas não têm uma participação muito significativa nos EUA e outras fabricantes de fora seriam menos impactadas pelos impostos reajustados, a Apple afirma que a medida afetará a sua competitividade no mercado global.

A Apple termina a carta afirmando que é uma “orgulhosa companhia americana”, além da “maior pagadora corporativa de impostos ao Tesouro dos EUA”, e agradece antecipadamente pela reconsideração da medida.

Fazer Trump e sua equipe mudarem de ideia sobre algo não é lá muito trivial, mas certamente essa pressão da Apple não é pouca coisa. [MacMagazine]

VIA POLITICO

À Queima Roupa | Anthony Mackie e Frank Grillo se unem em trailer de ação

Longa será lançado na Netflix em 12 de julho
JULIA SABBAGA

Point Blank Poster Netflix

À Queima-Roupa, longa de ação da Netflix com Anthony Mackie e Frank Grillo, ganhou o seu primeiro trailer, que pode ser conferido abaixo. 

O filme conta a história de uma parceria improvável por Paul (Mackie), um enfermeiro da área de emergência do hospital, e Abe (Grillo), um suspeito procurado por assassinato. Eles se unirão para enfrentar gangues rivais e policiais corruptos em uma corrida mortal para salvar a esposa sequestrada de Paul e seu futuro filho.

Os atores já trabalharam juntos em nos filmes do Capitão América, onde Mackie vive o herói Falcão, enquanto Grillo é o vilão Ossos Cruzados.

Joe Lynch dirige a produção a partir do roteiro de Adam G. Simon.

Assassinos da Lua das Flores: Paramount lançará longa de Scorsese e DiCaprio

Longa é adaptação de best-seller de David Grann
JULIA SABBAGA

A Paramount anunciou o desenvolvimento de uma nova parceria entre Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, na adaptação do best-seller de David GrannAssassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon, no título original). Esta é a sexta colaboração entre os dois, que trabalharam juntos pela última vez em O Lobo de Wall Street, de 2013.

O livro se passa em Oklahoma em 1920 e foca nos assassinatos de Osage Nation, em que membros de uma tribo nativo-americana foram assassinados um por um após terem se tornado ricos ao encontrar petróleo em suas terras. Os assassinatos chamaram a atenção do recém-criado FBI, que investiga os crimes. 

A adaptação está sendo escrita por Eric Roth (Forrest Gump: O Contador de Histórias, O Curioso Caso de Benjamin Button) e deve começar filmagens no final deste ano. 

Scorsese ainda trabalha em The Irishman, longa que será lançado pela Netflix ainda este ano. Seu último trabalho, o documentário Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese, também foi lançado pela plataforma. 

CINEMA I Estreias: Casal Improvável, Maya, Deslembro, Espírito Jovem, Graças a Deus, Toy Story 4

‘Toy Story 4’, ‘Deslembro’ e novos filmes de François Ozon e de Nanni Moretti

Charlize Theron e Seth Rogen em Casal Improvável (2019) (Foto: Divulgação)

Casal Improvável
Long Shot. EUA, 2019. Direção: Jonathan Levine. Com: Charlize Theron, Seth Rogen e Alexander Skarsgard. 126 min. 16 anos.
Um jornalista reencontra uma amiga de infância, por quem tinha uma quedinha. Ela está prestes a lançar sua candidatura à presidência dos Estados Unidos e decide contratá-lo como seu assessor.

Deslembro
Brasil, 2018. Direção: Flávia Castro. Com: Jeanne Boudier, Eliane Giardini e Jesuíta Barbosa. 96 min. 14 anos.
Situado no fim da década de 1970, o filme acompanha uma adolescente que vive em Paris com a família. Quando a anistia é decretada no Brasil, ela volta contra sua vontade ao Rio de Janeiro, cidade onde seu pai desapareceu. Prêmio do público e da crítica de melhor filme no Festival do Rio. Exibido na 42ª Mostra.

Espírito Jovem
Teen Spirit. Reino Unido/EUA, 2018. Direção: Max Minghella. Com: Elle Fanning, Agnieszka Grochowska e Archie Madekwe. 96 min. 12 anos.
Jovem tímida que sonha em sair de sua pequena cidade entra em um concurso de canto para amadores. Talentosa, ela chama a atenção de personalidades do meio artístico e vê sua carreira deslanchar.

Graças a Deus
Grâce à Dieu. França/Bélgica, 2018. Direção: François Ozon. Com: Melvil Poupaud, Denis Ménochet e Swann Arlaud. 137 min. 14 anos.
Um homem que foi abusado sexualmente por um padre durante a infância descobre por acaso que o clérigo continua trabalhando com crianças. Ele então se junta a duas outras vítimas para tentar afastá-lo de suas funções. Prêmio do júri no Festival de Berlim.

Maya
Idem. França/Alemanha, 2018. Direção: Mia Hansen-Love. Com: Roman Kolinka, Aarshi Banerjee e Alex Descas. 107 min. 14 anos.
Um repórter francês é libertado após ficar meses em cativeiro na Síria. Tempos depois, ele percebe que não conseguirá reconstruir a vida em Paris. O rapaz, então, vai para a Índia, onde passou a infância. Próximo de suas raízes, ele espera conseguir dar os próximos passos de sua vida. Exibido na 42ª Mostra.

Relatos do Front
Brasil, 2018. Direção: Renato Martins. 100 min. 12 anos.
Documentário sobre segurança pública no Brasil, filmado no Rio, reúne relatos de pessoas que vivem ou viveram a rotina de combate entre traficantes de drogas e polícia. Sem tomar partido, o longa apresenta diferentes lados de uma mesma tragédia. Exibido na 42ª Mostra.

Santiago, Itália
Santiago, Italia. Itália/França/Chile, 2018. Direção: Nanni Moretti. 80 min. 12 anos.
O documentário mostra o trabalho da embaixada da Itália no Chile durante a ditadura de Augusto Pinochet, quando auxiliou diversos perseguidos políticos a encontrarem exílio na Europa. Do mesmo diretor de “O Quarto do Filho” (2001).

Toy Story 4
Idem. EUA, 2019. Direção: Josh Cooley. 100 min. Livre.
No quarto filme da franquia da Pixar, Woody e Buzz ganham nova companhia quando sua dona, a menina Bonnie, transforma um garfo em brinquedo. Mas o personagem entra em crise com sua nova condição e foge, forçando o caubói a resgatá-lo.

Direito à cidade da população LGBT+: qual o papel da arquitetura?

Apesar de abrigar a maior Parada LGBT+ do mundo, São Paulo ainda se mostra hostil em muitos aspectos aos membros da comunidade
POR RAFAEL BELÉM | FOTOS ASSOCIAÇÃO DA PARADA DO ORGULHO LGBT DE SÃO PAULO/FLICKR

Multidão aglomerada na Avenida Paulista durante a Parada do Orgulho LGBT+ de 2018

“Ser LGBT+ é existir em espaços específicos para nós”, relata o publicitário Beto Navareño, nascido em São Paulo. Essa é uma afirmação corriqueira entre lésbicas, gays, bissexuais e transexuais da cidade. Apesar de abrigar a maior Parada do Orgulho LGBT+ do mundo, a capital ainda se mostra hostil em muitos aspectos aos membros da comunidade que, muitas vezes, veem seu direito à cidade negado em alguma instância. Um cenário que se repete em muitas metrópoles do país.

Circular pela rua, usar o transporte público em segurança ou mesmo conseguir um emprego: várias são as barreiras impostas às vidas LGBTs. A luta da comunidade, por sinal, está desde o início relacionada à sua existência nas cidades, isto é, poder transitar pelos espaços públicos e atuar na construção cotidiana sem a necessidade de ocultar sua identidade.

Afinal, o que é o direito à cidade?

O direito à cidade propriamente dito é um conceito defendido pelo Instituto Pólis desde 1987. Há mais de 30 anos, a ONG atua na construção de cidades mais justas, democráticas e inclusivas por meio de planos de ações e políticas públicas. “Esse conceito pensa a cidade como um bem comum para todos, sem nenhuma forma de discriminação”, explica a arquiteta Danielle Klinotwtz, diretora da instituição. “É um direito que protege todos os costumes, memórias, identidades e vivências das cidades”.

Por vezes subjetivo, ele engloba desde o direito à moradia e ao saneamento, mas também uma agenda simbólica de acolhimento e de afeto pela metrópole. Na teoria, trata da possibilidade de as pessoas criarem vínculos com suas cidades e construí-las coletivamente. Na prática, é um direito negado para quase todos os cidadãos. “Nossa visão é de que nenhum cidadão hoje tem o direito pleno à cidade. Sempre existe algo sendo violado. No caso da população LGBT, existe a questão fundamental da LGBTfobia e os crimes que acontecem na cidade motivados por ela”, afirma a arquiteta.

Ao ser marginalizada, por exemplo, a comunidade tem a área pública limitada ou mesmo negada. Fora dos guetos e dos espaços de acolhimento já conhecidos em São Paulo, como a região do Largo do Arouche, da Avenida Paulista, da rua Frei Caneca e o centro expandido, gays, lésbicas e transexuais lidam com a resistência e intolerância. “Na maior parte da cidade, os espaços públicos não são acolhedores e as LGBTs não se sentem seguras. Isso é uma violação muito grande do direito à cidade, porque essa população não consegue exercer sua vivência, sua cultura”, diz Danielle.

Foi dentro destes centros de acolhimento que a universitária Thais Rezende encontrou apoio para vivenciar sua identidade. Moradora de São Bernardo do Campo, a estudante passa a maior parte do tempo no centro expandido da capital paulista. “Frequento muito a região da Paulista e da Consolação. Quando me descobri lésbica, foi um local que me acolheu”, conta. “Vi que existiam pessoas como eu ali e acabei criando vínculos. Era onde me sentia bem”, completa a jovem, que lamenta não ter a mesma experiência em outros locais da cidade. “Não consigo viver minha identidade na plenitude porque não me sinto segura em outros espaços. Amo São Paulo, mas gostaria de poder ser quem sou em qualquer lugar”.

Em junho, o grupo Rede Nossa SP, em parceria com o Ibope, divulgou uma pesquisa que detectou o aumento da percepção entre os paulistanos sobre a intolerância da cidade com a população LGBT+ em comparação com 2018, quando a sensação de tolerância era de 50% entre os entrevistados. Neste ano, o índice caiu para 40%. Segundo o levantamento, essa compreensão é mais forte entre os mais jovens, pobres e aqueles que se autodeclaram pretos ou pardos. “Existem locais de acolhimento em São Paulo, mas são espaços restritos que criam uma bolha. Hoje já temos estudos que mostram que, até duas quadras depois destes locais, é possível observar crimes de LGBTfobia”, afirma arquiteta Danielle.

O ir e vir

O acesso à mobilidade, por exemplo, é outra questão que tem impacto direto na vivência LGBT+ na cidade. Existem relatos de gays, lésbicas e transexuais impedidos de pegar ônibus porque o condutor evita parar no ponto e transportá-los. “O mesmo acontece com os aplicativos de transporte. Motoristas cancelam a viagem ao perceberem que o passageiro é uma pessoa LGBT”, relata Danielle Klinotwtz. “Isso faz com que a comunidade simplesmente não consiga exercer a possibilidade de vivência dentro da cidade, de circular onde bem entender”.

A hostilidade gera resistência, e muitos acabam criando hábitos para seguirem normalmente com suas vidas. Acostumado aos olhares tortos no transporte público, o publicitário Beto Navareño permanece em estado de alerta ao usar serviços de carona. “Fico com o celular sempre à mão e já conheço todos os mecanismos possíveis de segurança para caso alguma coisa aconteça”, conta. Felizmente, ele nunca foi vítima de violência física e nem passou por grandes apuros ao se locomover com os aplicativos. “Apesar disso, já fui avaliado com uma nota muito baixa de um motorista sem entender o porquê, e acredito que era por ele estar em contato com alguém que era ‘muito gay’”.

Para Guilherme Takahashi, trans não-binário (termo associado a pessoas cuja identidade não se limita às categorias “masculino” ou “feminino”), a situação se repete. Há locais na cidade que permitem a sua existência, enquanto outros nem tanto. “Sinto que consigo transitar porque sou muito protegido pelo dinheiro. Tenho sorte de não ter sido expulsa de casa, ter acesso ao ensino superior e me posicionar no mercado, coisas que geralmente a população trans não tem”, explica. “Mesmo assim, ainda existem espaços onde não me sinto com o direito de transitar”, conta, lembrando-se de episódios em que foi proibida de frequentar vestiários e banheiros femininos. “Mas, dentro do meu cotidiano, não fico limitado a ser quem eu sou”, celebra.

O papel da arquitetura

Ao se falar sobre habitação e cidadania, fica evidente a urgência da arquitetura urbana em promover a cidade de fato para as pessoas. Como instrumento social, a arquitetura inclusiva pode garantir ambientes apropriados não só para uma comunidade específica como a LGBT+, mas para todos. “Os arquitetos e urbanistas têm várias ferramentas para ajudar na criação de espaços mais acolhedores. Áreas mais abertas e livres, por exemplo, geram espaços com mais possibilidades de apropriação e convivência”, explica Danielle. Por si só, a apropriação cria um espaço mais seguro, onde as pessoas apoiam a vigilância umas das outras e geram espaços de segurança comuns. 

Segundo a arquiteta, a chave para o combate à intolerância e o ao preconceito na cidade está na criação de mais áreas públicas como o Largo do Arouche. “A discriminação só diminuirá quando a cidade possuir lugares que propiciem o encontro do diferente de forma espontânea, onde as pessoas possam conviver com diferentes tipos de vivência, corpos e estilos”, sugere. “A arquitetura deve propor espaços mais diversos possíveis, pensados para que pessoas diferentes convivam. Afinal, muito da discriminação vem do desconhecimento do outro, do diferente. As pessoas negam a existência das outras”.

Para o agora, a arquiteta ressalta a importância de a própria cidade escutar a população LGBT+. “A comunidade precisa estar em espaços de poder e decisão sobre a cidade. Sem isso, nunca vamos conseguir uma sociedade realmente inclusiva. É fundamental que a população LGBT construa a cidade enquanto sociedade civil, sendo escutada, mas também dentro das posições de tomadas de decisão”, argumenta.