Zendaya e Gigi Haddid são armas de Tommy Hilfiger para se reinventar na moda

Em parceria com celebridades do momento, estilista se afasta do azul, vermelho e branco
Pedro Diniz

Tommy Hilfiger x Zendaya: an all-black cast of models bring message of inclusivity to Paris Fashion Week | London Evening Standard

PARIS​​ – Até a virada do século, a moda parecia girar em torno de seus próprios estetas. Logotipos pareciam falar mais sobre o nome por trás deles do que servir de retrato das tribos urbanas.

Ralph Lauren, Michael Kors, Marc Jacobs, fulano de tal. O final do século criou mais egos do que estilos. Nome forte dessa casta de medalhões, Tommy Hilfiger agora quer mudar todo esse sistema.

Desde que abriu mão da assinatura solitária e dividiu a tesoura com a modelo Gigi Haddid, há três anos, numa coleção que de tanto vender viraria outras três desfiladas fora do circuito americano, o estilista da juventude preppy nova-iorquina abriu as portas da moda para as redes sociais.

Não parece coincidência que isso aconteceu em paralelo ao surgimento da linha Adidas Yeezy, do rapper Kanye West, e da Blue Ivy, de Beyoncé. Um movimento coroado no mês passado, quando o grupo francês LVMH deu sinal verde para a criação da marca Fenty, da cantora Rihanna.

Hilfiger entendeu que a moda não caminha mais só por suas bolhas fashionistas e sagrou no mundo das roupas a ideia de trazer para dentro de casa, e da loja, nomes improváveis.

“Vivemos numa vila, só que global. As pessoas hoje, no mundo inteiro, são ecléticas, fanáticas por redes sociais e desejam experimentar. Por isso, é mais autêntico fazer uma celebridade criar ideias do que fazer apenas com que ela vista a sua marca”, afirma Hilfiger.

O piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton ganhou a pole position das araras masculinas do estilista, e, mais recentemente, a multiartista Zendaya, protagonista da série “Euphoria”, da HBO, tem uma linha completa de roupas estilo setentista para chamar de sua.

A garota com 57 milhões de seguidores no Instagram, que encabeça no canal de TV paga um retrato da adolescência decadente dos Estados Unidos, mergulhou em brilhos, listras e lurex para criar a explosão de cores apresentada na última semana de moda de Paris, em março, no palco do Teatro de Champs Elysées.

Ela traz elementos modernos de alfaiataria despojada, calças de boca larga e decotes profundos, mas as roupas conservam as estampas sinuosas e a mistura de padronagens comuns à estética lisérgica dos 1970.

Com uma performance de Grace Jones e várias modelos negras, gordas e magras, o desfile empurrou para o olimpo da costura a imagem de diversidade que os jovens querem ver a moda reproduzindo, como um contraste ao exército branco e sílfide das passarelas.

“Zendaya representa sua geração. É atriz, ativista, cantora, várias ao mesmo tempo. Ela traz uma personalidade inteira, e é isso que os jovens esperam ver. É curioso ver como as pessoas hoje, independentemente se fazem o estilo casual da Califórnia ou o fashionista de Nova York, vestem as mesmas marcas só que de formas diferentes. Precisamos traduzir esses novos olhares”, diz Hilfiger.

Por isso também o estilista furou a roda da moda e levou para outras praças seus desfiles fulgurosos que costumava fazer na semana demoda de Nova York. A contragosto da indústria local, fez apresentações em Los Angeles, Milão, Londres e Pequim.

Paris, “a capital da moda”, segundo Hilfiger, entrou no radar quando ele percebeu que era hora de mostrar mais do que as peças com o logo azul, vermelho e branco que enche as malas dos maníacos por “free shops” de aeroporto.

“Estou mais confiante sobre a marca que tenho. Antes tínhamos uma moda mais casual, e agora quero mostrar algo mais sofisticado, em corte e tecido, diferente do urbano esportivo que fazia antes. É um ponto de mudança na estratégia”, afirma.

Essa mudança tem a ver, claro, com crises. Quando estourou a global, em 2008, o estilista percebeu que as pessoas não compravam mais como antes, dando mais valor a itens considerados “premium”, ou seja, mais caros, porém com durabilidade e estilo consistentes.

“Passaram a consumir ou o ‘top’, das grifes de luxo, ou o ‘low’, das varejistas de fast fashion. No meio, estávamos nós, Michael Kors, Coach e Tory Burch, as grifes ‘premium’ americanas de preço médio. Elevamos a qualidade do nosso produto e, por isso, tivemos os melhores anos no pós-crise”, diz o estilista. 

Os preços seguiram o upgrade. A coleção de Zendaya, por exemplo, chegou ao Brasil com preço nada modesto de R$ 730.

Ao mesmo tempo, surgiu o ingrediente novo dos países emergentes, como Índia, China e Brasil, que viraram coqueluche do mercado de moda a partir do interesse das classes médias locais.

No Brasil, a marca fechou uma joint-venture com o grupo Inbrands, proprietário, entre outras marcas, da Ellus e da Richards, que passou a expandir os tentáculos da marca nos guarda-roupas brasileiros.

O contrato de parceria se encerra no fim deste ano, e a marca tem a opção de continuar ou não com o parceiro local. Nenhum dos lados, porém, comenta o assunto.

Certo mesmo é que Tommy Hilfiger não desanima com o cenário de crise do país e bancou dois movimentos importantes na cena local de moda. O primeiro foi abrir a loja online da marca, com o mesmo design de todas as outras espalhadas pelo mundo. No mês passado, ele trouxe pela primeira vez a Tommy Jeans, uma linha de produtos urbanos com pinta dos anos 1990. 

A nova divisão da grife é repleta de moletons, calças, camisetas e acessórios de pegada vintage “street”, bem diferente do combo camiseta polo e camisa social ao qual a grife ainda é vinculada no imaginário brasileiro.

“Olho para o resto do mundo, para a força do mercado latino, e sempre penso, ‘porque ainda não somos grandes no Brasil? ’ É um país onde que quero concentrar esforços, porque, assim como a China, é um lugar de grandes oportunidades.” Quem sabe um desfile? “É possível, sim.”


Tommy Hilfiger, 68
Um dos magnatas da moda dos Estados Unidos ao lado de Ralph Lauren e Calvin Klein, o americano começou a carreira nos anos 1980. Abriu sua própria marca em 1985, conquistando estrelas do rock, como Mick Jagger, e do rap, como Snoop Dogg. A grife fundada por ele ficou associada ao estilo preppy, influenciado pelos uniformes das escolas de elite de Nova York. Em 2010, ele vendeu a marca por cerca de R$ 12 bilhões ao conglomerado PVH, mas mantém o cargo de diretor criativo da grife

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