“Camp” como modo de vida e veiculação de ideias

No Museu Metropolitano de Arte (MET), público pode conferir exposição com roupas que apresentam extravagância, exagero, obsessão pelo detalhe e luminosidade, características do estilo camp (Foto: BFA.com/Zach Hilty)

O modo de vida camp é guiado pelo exagero. Ou seja, seus adeptos gostam de viver de maneira extravagante, enfeitam-se com brilhos, muitas cores e estampas e experimentam situações até as últimas consequências.

O artista camp revela em sua proposta de viver luxuosa uma experiência contrária ao modo de vida da maioria da população do planeta. Exemplo disso são os Red Carpets dos festivais e prêmios de cinema mundo afora, que contrastam o luxo e a excentricidade camp com as dificuldades das pessoas nos dias de hoje.

Virou tendência se manifestar, nesses espaços, contra algo ou alguma situação utilizando-se de vestimentas e acessórios personalizados com frases de efeito. O Festival de Cannes é o principal entre eles. Por ter mais prestígio no mundo cinematográfico, tem se tornado não só um evento para a exibição de filmes, mas também um ambiente para discursos politizados e movimentos de minorias ou de protesto.

A professora Maíra Zimmermann, do curso de moda da FAAP, explica: “Podemos utilizar como exemplo o tapete vermelho de Cannes, que eu acho que talvez seja a maior representação do extravagante e da utilização da moda e da vestimenta para adquirir uma posição ou falar de algum assunto que incomoda a sociedade. A gente faz relação do camp também com o posicionamento político, o diálogo, o lugar de fala”.

A mais recente manifestação feminista ocorreu na edição de 2018, quando atrizes, diretoras, figurinistas, cantoras e modelos se uniram para combater a imposição do uso do sapato de salto alto nos tapetes vermelhos, ao subirem descalças a escadaria principal do festival de Cannes.

As mulheres podem usar qualquer tipo de calçado e vestuário para receber seus prêmios.

A moda que negava a politização da sociedade deu uma virada e se tornou veículo de conscientização política, como as coleções “Marc Jacobs Spring 2019”, “Christopher Kane Spring 2018”, “Balmain Spring 2019 Couture”, “Valentino Spring 2019 Couture”, que evocaram o clima de expectativa das eleições norte-americanas e mexeram com o mundo cibernético, provocando invasões em muitos países.

Onde nasce o estilo camp na história da moda

O ponto de partida mais sólido do surgimento do estilo camp parece ser o final do século XVII e o início do século XVIII, devido ao sentimento de artifício desse período. A professora de moda Maíra Zimmermann disse que um dos maiores representantes históricos de camp é Luís XIV. Tanto na construção de Versalhes, como enquanto o personagem Rei Sol, Luís XIV constrói uma espécie de estética do absurdo com a própria imagem, fazendo da luxúria o símbolo da realeza francesa.

O monarca conseguiu isolar sua corte em uma bolha de ignorância sobre o mundo ao redor e utilizava-se da moda para manipular a burguesia, como instrumento de dominação apenas por usar uma peruca maior do que as outras, por exemplo.

O estilo camp consolidou-se com a esposa de seu netoMaria Antonieta, conhecida como a autêntica imagem do modo camp de se comportar. Para Zimmermann, o camp do século XVII pode ser adequado ao contexto moderno e contemporâneo, onde mulheres usam calças e possuem um lugar maior de fala. Maíra cita o filme A favorita, do diretor grego Yorgos Lanthimos, que segundo a professora usa o exagero no figurino (criado pela estilista Sandy Powell).

Do estilo Barroco, o quadro Os músicos, de 1595, do pintor italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), pode ser considerado camp. Na França, o Palácio de Versalhes representa o Rococó camp — o ouro, o detalhe e o luxo são explorados em sua construção, mobiliário e decoração. Hoje uma das maiores referências do estilo camp e que está em exposição é um abajur feito com vitrais coloridos, da joalheria Tiffany’s.

Confira outra parte da reportagem em Camp, Notes on Fashion: o exagero na moda

Reportagem de Bruna Nóbrega, Camila Piva, Isabella Maria, Izabella Ricciardi e Mariana Garcia Menendez, da graduação em Jornalismo da FAAP

Foto cedida pelo The Metropolitan Museum of Art
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