Cineasta põe abuso sofrido na infância em ‘Inocência Roubada’

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Originalmente uma peça de teatro, longa mostra as consequências da violência na vida da vítima agora adulta
Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

Traumas. Conspiração do silêncio sabota o grito acusador Foto: FRANCE 2 CINÉMA

No original, chama-se Les ChatouillesAs Cócegas. No Brasil, ficou sendo Inocência Roubada. O longa de Andréa Bescond e Eric Métayer estreia nesta quinta, depois de integrar o recente Festival Varilux do Cinema Francês.

Originalmente, trata-se de uma peça de Andréa, codirigida por Métayer. Como em Graças a Deus, de François Ozon, também no Festival Varilux – e em cartaz nos cinemas –, o tema é o abuso infantil. No caso de Ozon, o abuso é institucional, praticado por agentes (um padre) da Igreja Católica. No de Andréa e Métayer, no âmbito da família.

Nada mais inocente, em princípio, do que brincar de cócegas. Mas o que a pequena Andréa, agora adulta, e chamada Odette, após muita análise – o filme é autobiográfico –, descobre é que as cócegas praticadas pelo amigo da família eram invasivas, abusivas. Pela força do tema, Inocência Roubada tem dado o que falar desde que passou numa mostra paralela de Cannes, no ano passado.

É o tipo do filme que questiona a família, a organização social. A criança pode ser uma vítima inocente, mas nem o pai nem a mãe dela inspiram confiança, muito menos a mulher do ‘tio’. A própria Odette levanta dúvidas quanto a ser uma narradora confiável, porque é a primeira a questionar o próprio hedonismo. É usuária de drogas, promíscua, faz piada disso. É como se existisse uma conspiração do silêncio para evitar assunto tão desagradável.

A questão do abuso, como a do assédio, liga-se muito à coragem de falar. Andréa expressa-se por meio da dança. O filme passa essa sensação de que a dupla de diretores está armando o gran finale, quando Odette vai, enfim, falar sobre o que nós, o público, vimos nos flash-backs da infância. Mas justamente porque já vimos – olha o spoiler –, Andréa e Métayer cortam o som, suprimem a palavra acusadora. É o aspecto que, desde Cannes, tem sido mais polemizado na abordagem de Inocência Roubada.

O filme evoca os clássicos – Senhorita Júlia, de Alf Sjoberg, e Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman –, ao fazer com que Andréa adulta interaja com a menina que foi, mas a questão é por que a sociedade, por hipocrisia ou desejo de respeitabilidade, e as próprias vítimas muitas vezes sabotam o grito acusador.

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