Pesquisa equivocada aumenta medo sobre rede 5G

As ondas de rádio se tornam mais seguras conforme sua frequência aumenta, e não mais perigosas, como foi prospectado em estudo
William J. Broad, The New York Times

Um gráfico equivocado deu origem a uma corrente de informações falsas. Foto: Golden Cosmos

Em 2000, as escolas públicas de Broward County, na Flórida, receberam um relatório alarmante. O condado pensava em oferecer computadores laptop e redes sem fio aos seus 250 mil alunos. Isso traria algum risco à saúde? O distrito pediu ao físico e consultor Bill P. Curry que estudasse a questão. De acordo com o relatório dele, a tecnologia “provavelmente representaria um risco grave à saúde”. Ele resumiu as evidências mais preocupantes em um gráfico chamado Absorção de micro-ondas na massa cinzenta (tecido cerebral).

O gráfico mostrava a dose de radiação recebida pelo cérebro aumentando da esquerda para a direita, acompanhando o aumento da frequência do sinal sem fio. A inclinação do gráfico começava discreta, mas, quando a linha chegava às frequências associadas às redes de computador, sua trajetória se inclinava acentuadamente para cima, indicando um perigoso grau de exposição. O material do relatório de Curry detalhava como as ondas de rádio poderiam semear o câncer no cérebro.

Com o passar dos anos, esse alerta foi difundido. Não seria exagero dizer que a crescente ansiedade em relação aos supostos riscos da tecnologia 5G para a saúde tem sua origem no trabalho de um único cientista e nas informações de um único gráfico. O problema é que Curry se enganou. De acordo com os especialistas, as ondas de rádio se tornam mais seguras conforme sua frequência aumenta, e não mais perigosas.

Na sua pesquisa, Curry analisou estudos de como as ondas de rádio afetavam os tecidos isolados no laboratório, e interpretou equivocadamente os resultados como válidos para células dentro do corpo humano. A análise dele não identificou o efeito protetor da pele humana. No caso das frequências mais altas, a pele funciona como barreira, protegendo da exposição os órgãos internos, incluindo o cérebro.

Apesar da avaliação benigna do establishment da medicina, o relatório equivocado de Curry foi amplificado por páginas alarmistas na internet e foi usado como prova em processos jurídicos. Ecos do relatório alimentaram páginas de notícias russas conhecidas por disseminar informações enganosas a respeito da tecnologia 5G. Aquilo que começou como um simples gráfico se tornou um estudo de caso da capacidade de difusão de estudos científicos equivocados. “Ainda acredito que haja efeitos nocivos para a saúde”, afirmou Curry. “O governo federal precisa analisar a questão mais atentamente”.

Os estudos de Curry – ele enviou dois ao distrito escolar em 2000 – apresentam a questão da tecnologia sem fio como algo crucial para a saúde pública. Ele alertou que as crianças estavam particularmente vulneráveis ao risco de desenvolver câncer por causa da tecnologia sem fio. “Seus cérebros estão em desenvolvimento”, destacou. 

Curry pertencia a um grupo nacional de críticos da tecnologia sem fio, seus dois relatórios logo começaram a circular entre os adversários da indústria. Um deles chegou a David O. Carpenter. No fim de 2011, Carpenter introduziu o gráfico de Curry como evidência em um processo que buscava obrigar as escolas públicas de Portland, Oregon, a abandonar suas redes de computador sem fio. O juiz do caso disse que o tribunal não tinha jurisdição para decidir quanto a questões regulatórias nacionais, e encerrou o caso.

Apesar da frustração, o depoimento de Carpenter seguiu chamando atenção. Em 2012, ele apresentou a mesma opinião como parte do depoimento a um conselho estadual de Michigan avaliando os perigos da tecnologia sem fio, e a informação logo passou a circular na internet. E ele enxergou um novo risco. Entre 2010 e 2012, as frequências da nova geração de celulares, 4G, aumentaram e ultrapassaram aquelas das redes sem fio mais típicas. “Há hoje muito mais evidências dos riscos para a saúde, afetando bilhões de pessoas”, disse ele na introdução de um relatório de 1.400 páginas editado por ele a respeito dos perigos da tecnologia sem fio. “A situação presente é inaceitável”. 

Seu BioInitiative Report, publicado em 2012, ganhou destaque no mundo. Mas a ciência tradicional rejeitou suas conclusões. Dois pesquisadores da Universidade de Oxford o descreveram como “desprovido de credibilidade científica”.

Nos anos subsequentes, a associação entre um maior risco de desenvolvimento de câncer no cérebro e as ondas dos sinais sem fio foi repetida de maneira não crítica. Com isso, passou a ser aceita por ativistas como fato científico. Recentemente, Carpenter disse à rede de TV russa RT America, que levou ao ar uma série de programas críticos à tecnologia 5G, que os celulares mais recentes representam uma grave ameaça. “O lançamento da rede 5G é muito assustador”, disse. “Ninguém poderá escapar da radiação”.

Mas os cientistas ainda não observam nenhum indício de dano causado pelas ondas da rede celular. “Se os celulares estivessem ligados ao câncer, teríamos observado uma alta marcante nos casos”, escreveu recentemente no Guardian o pesquisador David Robert Grimes, da Universidade de Oxford. “Não é o que vem ocorrendo”.

Em entrevista, Carpenter defendeu sua opinião, mas concordou que as frequências cada vez mais altas teriam mais dificuldade em penetrar o corpo humano. Ele destacou que construções, chuva, folhas e outros objetos podem bloquear os sinais de alta frequência. Se a pele humana também bloqueia o sinal 5G, disse ele, “talvez o problema não seja tão grande assim”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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