Histórias de horror vão fundo na ansiedade materna

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Ficção literária está emprestando cada vez o gênero de terror para explorar os medos das mães
Alexandra Alter, The New York Times

Uma safra crescente de obras de ficção usa o horror para descrever as ansiedades e as questões modernas da maternidade. Foto: Tony Cenicola/The New York Times

Anos atrás, a romancista Helen Phillips acordou com os gritos da sua filhinha. Não conseguiu acalmar a criança, que estava tendo um pesadelo e gritava: “Quero a mamãe! Quero a mamãe!”. “Foi um dos momentos mais assustadores da minha vida”, disse Helen. “Esta é uma metáfora da maternidade. Sempre teremos de enfrentar coisas que nos dão toda a dimensão da nossa impotência”.

Aquele momento deu origem a uma cena inquietante do seu novo livro, The Need, um thriller que explora os tormentos psicológicos e físicos da maternidade. A narrativa gira em torno de Molly, uma paleobotânica mãe de duas crianças, praticamente incapaz de dormir, cuja estressante rotina doméstica, certa noite, é conturbada por um intruso do outro mundo. Ele representa o medo mais angustiante de Molly: o de que algo ruim possa acontecer com as crianças.

Para Helen, 37, escrever sobre uma ameaça sobrenatural foi a maneira mais precisa de sondar o terreno emocional da maternidade. The Need pertence a uma safra crescente de obras de ficção surreal especulativa que usa o horror para captar o pânico, a insegurança e as pressões que as jovens mães enfrentam. A exaustão que beira a alucinação. 

A sensação de que o nosso corpo se tornou uma fonte de alimento e deixa de nos pertencer. As tarefas intermináveis e monótonas, pontuadas por picos de adrenalina, emanadas de um pavor crescente e constante. E se a febre no meio da noite for o sinal de uma doença que é o prenúncio da morte? E se eu não conseguir cuidar dela?

No livro de suspense de Vanessa Lillie, Little Voices, que será publicado perto do fim do ano, uma mulher não consegue amamentar o filhinho prematuro e precisa bombear constantemente o leite durante a noite. Então começa a ouvir uma voz ameaçadora que a leva a crer que esteja sendo possuída.

“Ele nunca vai sentar ou levantar ou engatinhar ou andar”, diz a voz. “Você não foi feita para ser mãe”. Orange World, a história título da última coletânea de Karen Russell, fala de Rae, que faz um pacto com o diabo para manter o seu recém-nascido vivo. O diabo exige ser alimentado todas as noites às 4h44 da madrugada.

Desgastada pela impossibilidade de dormir, Rae se sente isolada, indefesa e até mesmo louca. No romance de estreia de Melanie Golding, Little Darlings, publicado recentemente, a protagonista, Lauren, teme não estar preparada para cuidar dos gêmeos que choram constantemente. Mais tarde, ela se convence de que os seus bebês foram roubados por uma velha bruxa e substituídos por crianças semelhantes, e acha que o seu corpo não produz mais leite para os dois sósias que não param de chorar.

Melanie, que mora em Gloucester, Inglaterra, e seus dois filhos, hoje com sete e nove anos, disse que o romance foi inspirado em parte por sua difícil experiência no parto, e por lendas folclóricas europeias sobre crianças trocadas, filhos de fadas postos no lugar de filhos de seres humanos.

Estas histórias se articulam em torno de antigas ansiedades, mas soam como contemporâneas em suas descrições da moderna maternidade. Muitas falam de temas como o processo fisicamente brutal do parto e da amamentação, a dificuldade de equilibrar a carreira e o cuidado dos filhos, a pressão que as mulheres sofrem para subverter as suas necessidades pelas dos filhos, o medo de serem julgadas por seu modo de agir em relação aos filhos, e o fato da possibilidade de cada novo filho acabar com a sua identidade.

Helen Phillips, que mora em Nova York, disse que em The Need procurou captar não apenas o medo que ela sente enquanto mãe, mas a ferocidade quase igualmente aterradora do amor maternal. “O amor que nos sentimos por eles é absurdamente tenso, intenso, visceral, animal”, ela disse.

“Ela se perguntava se as outras mães experimentavam este estado permanente de ligeiro pânico”, escreve Helen em The Need. “Que fenômeno era estar com os filhos, passar cada momento tão agudamente consciente do abismo, do eventual sofrimento espreitando a cada segundo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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