Emre Unal for ELLE Turkey with Elsa Hosk

Photographer: Emre Unal. Stylist: Oguz Erel. Hair Stylist: Benoit Moeyaert. Makeup: Hung Vanngo. Nails: Mar y Soul. Model: Elsa Hosk.

É hora de reavaliar a importância da música para a Bauhaus

Com as comemorações do centenário da escola de arte e design alemã, a relação da Bauhaus com a música vem sendo redescoberta
Joshua Barone, The New York Times

‘Balé Triádico’ de Oskar Schlemmer, que estrou em 1922, foi experiência singular Foto: The New York Times

Um centenário é muitas vezes uma ocasião para reavaliar a história, talvez com descobertas mantidas em esquinas negligenciadas do passado. Como exemplo, as comemorações em torno da Bauhaus, a escola de arte e design de curta duração, mas imensamente influente, fundada há 100 anos. Na Alemanha, novos museus que revisitam seu legado estão abrindo em Weimar e Dessau. (Um terceiro, uma expansão do Arquivo da Bauhaus em Berlim, está planejado para 2022.) Mulheres estudantes e professoras, negligenciadas por décadas, estão finalmente recebendo o que merecem em livros, filmes e TV.

Talvez também seja a hora de repensar o relacionamento da Bauhaus com a música. Embora sua missão fosse combinar todas as formas de arte, a escola jamais teve um departamento adequado de música. Mas o pensamento musical permeou a vida de seus alunos e corpo docente. Alguns adotaram uma abordagem sinestésica de cor e tom, ou usaram a linguagem das sinfonias para descrever seu trabalho; muitos eram instrumentistas amadores que se reuniam em uma banda exuberante e com uma finalidade específica; e alguns também cultivaram relacionamentos com compositores inovadores, incluindo Schoenberg e Stravinski.

“A música era fundamental para os corações e mentes das pessoas da Bauhaus”, disse em uma entrevista Torsten Blume, pesquisador da Bauhaus em Dessau, especialista em história do teatro e da dança da escola. Eles tinham paixão pela música, mas nem sempre o conhecimento, ele acrescentou, chamando-os de “diletantes profissionais”. Quando os “Bauhauslers” tocavam música, era tanto um simples entretenimento e – através da adoção do folk e do jazz, bem como a adoção de barulhentos “não-instrumentos” feitos de objetos do cotidiano – uma extensão do ethos inovador da escola. Isso equivalia a um retorno ao pensamento fundamental, os pintores eram considerados sistemas de cores; escultores, formas e espaço. Houve experimentos com luz, materiais e movimento.

“Eles viviam em uma era de mudança e movimento – de mídia, fenômenos sociais e políticos”, disse Blume. (A Bauhaus operou de 1919 a 1933, virtualmente no mesmo período da República de Weimar.) “Eles pensaram: se o mundo está em movimento, não podemos ficar parados. E a banda Bauhaus estava fazendo o som para essa ideia”. A história musical da escola é escassamente pesquisada e mal documentada. E as biografias dos “Bauhauslers” que tiveram uma vida musical, como os compositores Stefan Wolpe (mais tarde professor de Morton Feldman e David Tudor) e Hans Heinz Stuckenschmidt, mencionam a escola como pouco mais que uma nota de rodapé.

Não ajuda que os frequentadores da Bauhaus tivessem gostos variados, às vezes conflitantes. Paul Klee, um violinista amador, adorava Mozart; Lyonel Feininger, que criou a catedral de xilogravuras que acompanhava o manifesto Bauhaus de Walter Gropius em 1919, era conhecido por interpretar fugas de Bach e escreveu algumas próprias. Mas também havia os defensores da vanguarda, como Kandinski, próximo de Schoenberg, e Oskar Schlemmer, que usou uma partitura de piano para Hindemith para uma versão de seu Triadic Ballet. Em experimentos com fonógrafos, Laszlo Moholy-Nagy previu a música concreta e o trabalho de John Cage.

“Klee e Feininger eram mais voltados para o passado”, disse Steffen Schleiermacher, pianista que pesquisou e gravou músicas da Bauhaus. “Além de Kandinski e (Johannes) Itten – mais tarde também de Moholy-Nagy – os mestres da Bauhaus podiam não estar tão atualizados quanto ao desenvolvimento da música contemporânea.” Mesmo sem ter uma identidade musical definitiva, a Bauhaus, apesar de tudo, tinha um apetite pelo que a música poderia oferecer aos mundos da arte e da arquitetura. Kandinski descreveu suas obras como composições, usando palavras como “ritmo” e “melodia”. Alexander Scriabin era um favorito da casa por sua mistura sinestésica de música e cor, que Gertrud Grunow, que ensinava na Bauhaus em Weimar, ecoou em suas teorias sobre as relações entre som, cor e espaço. A música, para ela, era essencial para a energia criativa. E Heinrich Neugeboren, ao projetar um monumento a Bach ao visualizar as linhas de uma fuga, tentou tornar a famosa descrição da arquitetura de Goethe como música congelada.

Este monumento não realizado é uma das muitas oportunidades perdidas na história musical da Bauhaus. Durante os anos de Weimar da escola, 1919-1925, Schlemmer repetidamente fracassou em colaborar com Schoenberg: primeiro, em persuadi-lo a lecionar em uma escola de música próxima, depois em fazer com que ele escrevesse uma partitura para o Balé Triádico.

“Era o que hoje chamamos de playlist”, disse Blume. “Mas ouvir essa música clássica e ver o movimento no palco, realmente cria um grande contraste.”No entanto, Schlemmer apontou para algo mais contemporâneo quando o Balé Triádico foi encenado como parte da Bauhaus Week, série de eventos que acompanhou a exposição da escola de 1923 em Weimar. Na época, Hindemith estava fazendo experimentações com música mecanizada e ofereceu a Schlemmer uma partitura de piano que ele mesmo havia perfurado. Desde então, foi perdido; este ano, numa encenação em Berlim foi usada uma trilha moderna de Hans-Joachim Hespos.(Outras performances durante a Bauhaus Week incluíram obras de Hindemith, Busoni e Krenek, assim como A História do Soldado de Stravinski, uma peça cujo espírito de mídia mista era perfeito para a Bauhaus. E Stuckenschmidt forneceu música de piano para Kurt Schmidt, The Mechanical Ballet, cujo registro também foi perdido.

Mais tarde, quando Schlemmer conduziu seus experimentos teatrais em Dessau, para onde a Bauhaus se mudou em 1925, ele era menos específico quanto ao acompanhamento musical. Escrevendo no Bauhaus Journal, ele disse que cada produção exigia uma “expressão auditiva apropriada”, mas acrescentou: “Por enquanto, estimuladores tão simples quanto o gongo e o tímpano são suficientes.”

Esses instrumentos de percussão não são muito diferentes dos usados na banda Bauhaus, que começou como um grupo provisório para festas. “Não havia dinheiro”, disse Blume, “e eles precisavam de música”. O arranjo era mais ou menos o de um combo de jazz, com contribuições incomuns de percussão trazidas da vida cotidiana – até mesmo, às vezes, tiros e sirenes.

Acredita-se que seu líder tenha sido Xanti Schawinski, treinado como saxofonista. O som deles era um jazz bastardo e uma mistura de música folclórica de suas diversas origens: Hungria, Checoslováquia e outros lugares, incluindo os Estados Unidos. Ocasionalmente, eles reimaginavam uma peça de Bach para um banjo ou outro instrumento não tradicional. Adicionado ao espírito turbulento havia o stomping, com o ritmo complexo da dança da Europa Central. “Esta é a atitude dos diletantes profissionais”, disse Blume. “De tentar entender as coisas da maneira o mais simples possível. Mas um diletante está aberto a muitas direções e curioso, então você vê isso na conexão com o senso de experimentação deles.”

Dentro do Teatro Bauhaus, no campus em Dessau, a programação era mais refinada. As edições do Bauhaus Journal frequentemente incluíam relações de recitais, alguns dos quais mostravam a vanguarda da música contemporânea, como a de Berg ou George Antheil. Uma edição menciona um trabalho teatral em andamento por Kandinski, Violet, que nunca chegou a ser montado; terá sua estreia, no próximo mês, completada por uma equipe que inclui o compositor Ali N. Askin, no Teatro Anhaltisches, em Dessau. O artista finalizou um projeto para o palco: Pictures at an Exhibition, usando a partitura de Mussorgski, que estreou no Friedrich Theater em 1928. Mas assim que a Bauhaus entrou na década de 1930 – muitas vezes em uma posição financeiramente e politicamente precária, e agora em seu terceiro líder, Ludwig Mies van der Rohe – os shows apareceram com menos frequência no Bauhaus Journal, e ele próprio começou a sair com menor frequência. A música, sempre na periferia, dificilmente parecia uma prioridade, pois um conselho da cidade controlado por nazistas em Dessau forçou a escola a fechar e se mudar para Berlim, onde durou menos de um ano antes de ser fechada pela Gestapo. O legado da escola, no entanto, está na sua diáspora. /TRADUÇÃO DE CLAUDIO BOZZO

Produção de Keanu Reeves ocupa a Paulista para filmar cena decisiva de ‘Conquest’

Com uma trama futurista, ‘Conquest’, produzido por Keanu Reeves, se passa num mundo distópico e tem a ver com refugiados e os riscos de desumanização do mundo; gravação será no domingo, 1º
Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

Conquest, produção de Keanu Reeves
Cerca de 3 mil pessoas participaram de 20 dias de filmagens de ‘Conquest’ Foto: Santiago Cerini

Cenário emblemático de São Paulo, a Avenida Paulista tem abrigado manifestações, passeatas, protestos. Num domingo, digamos, comum, é aquele lugar, fechado ao tráfego, em que as famílias passeiam, artistas apresentam suas performances, artesãos vendem seus produtos. Mas este domingo, 1.º, será diferente. Várias quadras estarão fechadas – mesmo –, haverá movimentação de seguranças, helicóptero, um tanto de tiroteio, mas calma. Será tudo ficção. Nada de guerra, nem de fim de mundo. 

A Paulista abriga neste domingo a produção de Conquest, a série que Keanu Reeves grava em São PauloKeanu Reeves, o astro de MatrixJohn WickVelocidade Máxima? O próprio, mas não exatamente ele. Não existe a menor chance de você ver aquele sujeito conhecido correndo e dando patadas. Keanu Reeves estará bem longe, em casa, mas ele já esteve aqui, há quatro meses. Foi fotografado com o prefeito Bruno Covas, a diretora da Spcine, Laís Bodanzky, assinando o acordo com a São Paulo Film Comission que trouxe à cidade a produção de Conquest.

Grandes cenas já foram gravadas no Anhangabaú, na própria Paulista. Numa noite dessas, alta madrugada, a energia foi desligada e o Anhangabaú ficou totalmente às escuras para uma cena de Conquest. O curioso é que não adianta falar com Laís Bodanzky, nem com Andréa Barata Ribeiro, da O2 Filmes. A legislação exige que produções estrangeiras contratem os serviços de produtoras locais, e a O2, de Fernando Meirelles, está fazendo a prestação de serviços. 

Andréa já filmou, aqui mesmo em São Paulo, uma grande produção internacional – Ensaio sobre a Cegueira, que Meirelles dirigiu, a partir do romance de José Saramago, para uma produtora do Canadá. Ela explica – “São Paulo é uma metrópole, uma grande cidade que tem um viés futurista, mas tem uma São Paulo oculta, que nem os paulistanos conhecem. Isso é muito bom, essa riqueza, essa diversidade, para quem filma. A cidade tem infraestrutura hoteleira e de serviços, aeroportos. A equipe de Conquest descobriu que a cidade pode ser um paraíso para filmar.”

Andréa sabe muitas coisa sobre Conquest. Afinal, cabe à equipe da 02 organizar tudo para que cenas grandiosas como a deste domingo deem supercerto. Ela sabe que vai usar seguranças, figurantes, um helicóptero e toda uma estrutura de socorros, o que internacionalmente se chama de ‘safe’. “Vamos ter bombeiros, paramédicos, ambulâncias.” Só não lhe peçam para contar a história de Conquest. “Não sei, de verdade, e o que sei não posso contar. Só sei que é uma trama futurista, num mundo distópico. Tem a ver com refugiados.” 

Faça a mesma pergunta a Laís Bodanzky e não será possível avançar. O motivo é simples. “Eles explicaram o conceito, mostraram cenas para definir o visual, mas nunca apresentaram o roteiro, que é mantido secreto.” Em busca de informações, a reportagem foi mais longe. Tentou a produtora executiva Gabriela Rosès Bentancour e o próprio diretor Carl Erik Rinsch. Nada. “Desculpe, querido, mas a gente faz questão de manter o segredo. Acreditamos que o elemento-surpresa será muito importante na série e queremos fazer de tudo para assegurar que o público seja surpreendido ao assistir ao produto final”, explica a produtora.

Conquest, produção de Keanu Reeves
Produção de Conquest vai fechar a Avenida Paulista mais uma vez Foto: Santiago Cerini

Acostumada a trabalhar com Fernando Meirelles, Andréa Barata Ribeiro sabe o que são esses diretores meticulosos. “O Carl (Erik Rinsch) tem um cuidado muito grande com os detalhes. Nada lhe escapa.” E Gabriela, que trabalha pela primeira vez com o cineasta. “É um visionário. Estou impressionada com sua visão. Ele chegou aqui e foi logo se interessando por marcos visuais muito fortes da cidade. A Av. Paulista, o Anhangabaú, a arquitetura de Niemeyer. São Paulo pode ser grandiosa e íntima, arrojada e decadente. Quem trabalha com imagem fica louco nessa cidade.” 

Na direção da Spcine há quatro meses, Laís Bodanzky conta que o primeiro contato da produção de Conquest com a São Paulo Film Comission começou há oito meses. “É uma história de sedução. Há muitas cidades no mundo que adorariam sediar um filme desses. Então, a gente tem de atrair, seduzir. O que eles podem trazer é muito forte – visibilidade, dinheiro injetado na economia, empregos. Mas a gente também tem de mostrar que tem condições. Fizemos muitas reuniões com secretarias de Estado e do município para mostrar que São Paulo está aparelhada como centro audiovisual.”

Em três anos de atuação, de maio de 2016 a maio de 2019, 2,8 mil obras audiovisuais foram filmadas na cidade, gerando mais de 69 mil postos de trabalho e uma movimentação financeira de pelo menos R$ 1,3 bilhão. Por ano, a cidade recebe cerca de mil produções, entre filmes, séries e publicidades, em mais de três mil diárias de filmagens. Somente em 2019 foram atendidas 644 obras e emitidas 997 autorizações de filmagem que geraram 15,2 mil postos de trabalho. “As solicitações são tantas que outro dia tivemos três filmes sendo feitos no centro e o cuidado era evitar que um set interferisse no outro”, diz Laís. 

Ela conversa com o repórter pelo telefone e, de repente, dá uma parada para pegar uma informação com um assessor. “Agora mesmo, enquanto estamos conversando, entrou no ar o Instagram da Spcine, com informações práticas e curiosidades de filmagem para compartilhamento de quem se interessa em acompanhar o movimento do cinema na cidade.”

Produtores executivos de Conquest
Os produtores executivos de Conquest: Keanu Reeves, Carl Erik Rinsch e Gabriela Rosés Bentancour  Foto: Ethan Weiner

‘Conquest, um testemunho sobre o riscos de desumanização do mundo

Carl Erik Rinsch é a alma do projeto de Conquest. Arrebatou o astro Keanu Reeves, que virou seu produtor. É chamado de detalhista por Andréa Barata Ribeiro, da O2, que faz a produção local, e de visionário pela produtora Gabriela Rosès Bentancour.

Por que escolheu São Paulo como locação?
Um dos motivos foi certamente a diversidade pujante dessa metrópole. Encontramos uma diversidade étnica e cultural muito forte. São Paulo já foi centro de imigração europeia e hoje segue acolhendo refugiados da Ásia, da África, da América Latina. Nossa trama tem a ver com isso. A situação dos imigrantes, dos refugiados, virou uma tragédia em todo o mundo. Nos EUA, sob (Donald) Trump, são demonizados. O que nossa história busca é uma reabilitação da dignidade dessas pessoas.

Sua trama passa-se no futuro distópico. Já sei que você não quer falar, mas o que pode dizer?
Sou um grande admirador de ficção científica, na literatura como no cinema. Tenho meus mestres. Stanley Kubrick, Ridley Scott, (Andrei) Tarkovski, Neill Blomkamp, para citar um cineasta mais recente. A ficção científica russa é muito rica. São autores que permitem refletir sobre o estado do mundo. Conquest inscreve-se na indústria do entretenimento, mas nasceu da nossa vontade de dar um testemunho sobre o riscos de desumanização do nosso pobre mundo.

Filmagens de ‘Conquest’ incluem 10 atores brasileiros

Em média 300 pessoas atuaram diariamente na produção de Conquest, entre produtores, técnicos e seguranças. Cerca de 3 mil figurantes participaram de 20 dias de filmagens em locações como Praça do Patriarca, Paulista, Anhangabaú, Memorial da América Latina, Praça Pedro Lessa.  Neste domingo, a Paulista recebe 400 figurantes, carros de época, câmera car. Já a equipe internacional é de 25 pessoas, além de 25 atores, sendo 10 brasileiros, com destaque para Bruna Marquezine. 

Mundo da arquitetura esconde mulheres, diz historiadora Silvana Rubino

Atuação feminina no campo foi deixada em segundo plano por prêmios e pelo mercado
Silvana Rubino

denise
A arquiteta Denise Scott Brown em sua casa, na Filadélfia, em 2013 – Ryan Collerd/The New York Times

[RESUMO] Atuação feminina na arquitetura foi deixada em segundo plano pela história, por prêmios e pelo mercado, cenário que começou a mudar nas últimas décadas a partir de publicações alternativas e exposições dedicadas a iluminar a obra de mulheres.

Em 1967, a arquiteta sul-africana Denise Scott-Brown se casou com seu colega de profissão Robert Venturi. Ela já havia trabalhado universidades de Pensilvânia e Berkeley como docente e estreava na prestigiada Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Depois do casamento, passou a ver sua participação nos escritos e projetos subsumida à do marido.

Mais sensível à linguagem suburbana e à “vida real” do que ele, foi dela a iniciativa do projeto que resultou no influente livro “Aprendendo com Las Vegas” (Cosac Naify), frequentemente atribuído apenas a Venturi. Refletindo a respeito em texto dos anos 1980, Denise relatou o impacto negativo dessa exclusão —”afinal”, afirmou, “arquitetos não dão conta de críticas hostis”— e concluiu: “as prima donnas da arquitetura são todas homens”.

Em 1991, Robert Venturi foi agraciado com o Prêmio Pritzker, considerado o equivalente ao Nobel para a arquitetura. Reza a lenda que, ao receber a boa notícia, teria perguntado: “E a Denise?”.

Posteriormente, houve uma reação por parte de pesquisadoras da Universidade Harvard, que encabeçaram uma petição assinada, dentre muitos, pelos arquitetos Rem Koolhaas, pelo próprio Venturi, por Zaha Hadid (que seria a primeira mulher a receber o Pritzker, em 2004), pela historiadora da arquitetura Beatriz Colomina, que declarou “somos todas Denise”, e até mesmo por esta articulista.

De nada adiantou. A nomeação permaneceu exclusiva de Venturi, mas em 2017 Denise Scott-Brown ganharia o prêmio Jane Drew.

Caro leitor, cara leitora: quem é Jane Drew? Proponente de uma “arquitetura tropical”, dentre outros feitos, ela colaborou com Le Corbusier nas habitações de interesse social construídas em Chandigarh, a cidade modernista que Jawaharlal Nehru, primeiro-ministro da Índia, encomendou ao arquiteto franco-suíço.

A colaboração é, no mundo da arquitetura, especialmente no meio dos star architects, uma espécie de caixa-preta ou, como afirmou Beatriz Colomina, uma modalidade de segredo de família, aquilo que sabemos e não comentamos. Parece interpelar a noção de autoria, debilitar a visão de gênio solitário do arquiteto artista —se isso obscurece colaboradores homens, o faz de modo ainda mais explícito com as profissionais mulheres.

Os exemplos seriam vários, um verdadeiro catálogo de nomes ofuscados, de Anne Tyng a Itala Fulvia Villa, passando por Janete Costa. Coletivos como o brasiliense Arquitetas Invisíveis, o argentino Un Dia, Una Arquitecta ou o californiano Design for Equity, dentre muitos, realizam esse trabalho de inventariar as esquecidas. Há um projeto de uma grande enciclopédia das mulheres arquitetas, a ser editado proximamente em inglês.

Há, contudo, aquelas que lograram construir um renome e uma carreira, e a figura que surge nesse capcioso contra-argumento é nossa conhecida Lina Bo Bardi.

Um exame de sua trajetória, que atente também para questões de gênero, pode ser revelador, por mais que ela se declarasse, em uma de suas conhecidas blagues, antifeminista. Lina revelou em várias ocasiões que, quando trabalhava com o conhecido Gio Ponti, ouviu-o dizer que ela é que deveria remunerá-lo, pois aprenderia tudo com ele.

Destino semelhante teve a francesa Charlotte Perriand. Autora das conhecidas cadeiras concebidas no ateliê de Le Corbusier, que hoje levam as iniciais LC, trabalhou em seu mitológico escritório por dez anos sem remuneração. A própria autoria das cadeiras é assunto controverso, mas recentemente o mais importante fabricante global da peça incluiu o nome de Charlotte no processo de criação.

No tocante à participação feminina, a moderna Bauhaus, fundada em 1919, fez de tudo para manter as alunas longe do ateliê de arquitetura. Como as mulheres eram aceitas por um preceito constitucional da República de Weimar, era preciso dar a elas outros papéis na escola, de modo que acabaram se concentrando no ateliê do mais feminizado dos materiais: os têxteis.

E, em um primeiro momento, tentou-se pagar menos a Gunta Stölzl, professora de tecelagem, do que aos outros professores da casa. O fato de Anni Albers e Stölzl, para citarmos apenas as mais conhecidas, terem se notabilizado pelo que realizaram com fios não minimiza a violência simbólica expressa na fala de Oskar Schlemmer: “Onde houver lã, encontraremos as mulheres, tecendo para passar o tempo”. 

Tais cenas dramatizam e atualizam regras tácitas, silenciosas, incorporadas. O caso da austríaca Margarete Schütte-Lihotzky é elucidativo. Depois de trabalhar com Adolf Loos em Viena, ela desenhou uma cozinha para um conjunto residencial na Alemanha, projeto de Ernst May.

A cozinha de Frankfurt não foi a primeira moderna, mas foi a primeira a ser fabricada na escala de 11 mil exemplares para 11 mil apartamentos: quase o nascimento de um desenho industrial no sentido mais lato do termo, que se faz para uma produção em larga escala.

Schütte-Lihotzky enfrentou o nazismo, se exilou, projetou escolas na União Soviética, casas burguesas na Turquia, morou na China, na Bulgária e em Cuba e ressentiu-se de ver sua rica trajetória reduzida a um único projeto. “Eu não sou uma cozinha”, queixava-se no final da vida. “Criei a cozinha como arquiteta, não como dona de casa”, acrescentava, pontuando que não cozinhava.

O fato de hoje conhecermos um pouco dessas histórias femininas deve-se a uma intensa movimentação no mundo das publicações e dos museus nas últimas décadas, visando, se não corrigir, ao menos apontar lacunas.

A fundação de um debate a respeito de tais lugares reservados à mulher surgiu com uma revista alternativa nova-iorquina, Heresies: a Feminist Publication on Art and Politics, criada em 1977 a partir de um coletivo que tinha a intenção de encorajar a reflexão sobre a atuação feminina em diversos campos.

Nos últimos anos, muitas exposições, da “Elles” (Pompidou, 2010) à “Making Space” (MoMA, 2017), para ficarmos em poucos exemplos, jogaram luz sobre as mulheres dos respectivos acervos, produzindo inclusive catálogos memoráveis como o “Modern Women” (MoMA, 2011). 

No caso brasileiro, o esforço capitaneado por Marcelo Ferraz e colaboradores, nos anos 1990, resultou em uma exposição no Masp, um documentário em vídeo (dirigido por Aurélio Michiles e Isa Grispun Ferraz) e um livro-catálogo que recolocaram Lina Bo Bardi, pouco depois de sua morte, no debate de arquitetura, museus e cultura popular, abrindo espaço para uma saraivada de teses, artigos, seminários e exposições sobre a arquiteta. 

Ao longo do século 20, enquanto mulheres chegavam ao mundo do trabalho, reivindicavam participação política e o próprio corpo entrava em revolução silenciosa por meio de cortes de cabelo, indumentária e posturas, os grupos de arquitetura permaneceram ainda um tanto presos a um modelo renascentista de ateliê ou escritório, hegemonicamente masculinos. 

É mais do que tempo de, em um esforço conjunto, abrirmos mais caixas-pretas. 


Silvana Rubino é professora livre-docente do Departamento de História da Unicamp, universidade na qual fez doutorado em ciências sociais.

Somente o necessário

Poucos móveis e espaço de sobra: eis a receita desse apartamento paulistano da Vila Leopoldina
ANA LOURENÇO – O ESTADO DE SÃO PAULO

Vista geral do living, a partir da porta de entrada do apartamento Foto: Mariana Orsi

O visual neutro é o primeiro dado percebido por quem visita este apartamento de 70 m², na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo. Assinado por Stella Teixeira e Alexandra Pinho, da Stal Arquitetura, o projeto de interiores foi criado para ser a primeira moradia de um jovem casal. Em síntese, uma casa com estilo próprio, mas avessa a contrastes bruscos.

“A construtora entregou o apartamento totalmente aberto. Assim, o piso de cimento queimado e a laje de concreto aparente foram mantidas, bem como a integração entre os ambientes”, explica Stella. “Acredito que os clientes escolheram o imóvel justamente pela arquitetura do prédio. Por isso, resolvemos manter seus traços na decoração, apenas mudando o recheio”, explica ela.

Segundo a arquiteta, a decoração procurou comunicar a essência de um apartamento urbano, sem muitos elementos e informações. “Os objetos expostos são poucos, mas cada um têm um significado especial”, diz. 

Dentre as mudanças mais radicais, a área social foi separada da íntima, que recebeu a suíte do casal. Já o banheiro com acesso pela sala, que antes continha um box, foi transformado em lavabo. De acordo com a dupla de arquitetas, a maior dificuldade de todo o projeto, pois os pontos de esgotos existentes dificultavam a criação do novo ambiente. 

“Criamos um degrau, entre o quarto e o banheiro, para permitir que toda a tubulação ficasse escondida. Eliminamos também o caixilho que separava a cozinha da área de serviço, criando uma bancada que hoje acomoda tanto a pia e a lava-louças, quanto o tanque e a lava e seca”, detalha. Em sintonia com a proposta, os móveis foram escolhidos com base na estrutura do apartamento, daí o predomínio da madeira e do cinza. Colorido mesmo, só o grande tapete da sala e o armário da cozinha. 

“Trata-se de um projeto que se torna especial pelos seus detalhes. Tem o nosso toque, mas também a cara dos nossos clientes. Entender a vontade deles e colocá-la em prática foi essencial para que conseguíssemos fazer um trabalho legal”, conclui Stella. 

Confira fotos do projeto: 

Mariana Orsi
Tapete multicolorido imprime vibração à sala de estar. Foto: Mariana Orsi
Mariana Orsi
Em um dos poucos momentos de cor de todo o apartamento, tons de azul contrastam com o cinza e o branco da decoração. Foto: Mariana Orsi
Mariana Orsi
Vista do living para a porta de entrada e cozinha. Elementos estruturais e móveis ganham base neutra. Foto: Mariana Orsi
Mariana Orsi
Suíte com box recebeu móveis construídos sob medida, além de pia com duas cubas, instalada a pedido dos clientes, Foto: Mariana Orsi
Mariana Orsi
Entrada para o quarto do casal, que tem acesso a partir da sala. Ao fundo, poltrona serve de apoio para o guarda-roupa e a sapateira. Foto: Mariana Orsi
Mariana Orsi
Armário de madeira, feito sob medida. Foto: Mariana Orsi
Mariana Orsi
Integração entre lavanderia e cozinha abriu vista para a cidade. Foto: Mariana Orsi

Telegram pretende lançar criptomoeda Gram em até dois meses

Objetivo do mensageiro é criar uma moeda de manuseio mais fácil que as já existentes; projeto vem sendo mantido sob segredo e investimentos chegam a US $ 1,7 bilhão
Por Agências – AFP

Telegram propõe uma criptomoeda mais intuitiva ao usuário

Após mais de um ano sob sigilo, o serviço de mensagens instantâneas Telegram está se preparando para lançar sua própria moeda virtual, chamada de Gram. Junto com ela, será feito um ambicioso sistema de pagamentos direcionado ao público em geral. O objetivo do Telegram é criar um produto com acesso mais fácil do que as criptomoedas atuais, como o Bitcoin, que são usadas pelos usuários já iniciados.

Para esse fim, o Telegram alcançou a soma recorde de US $ 1,7 bilhão em investidores privados em um massivo levantamento de fundos em criptomoedas (ICO), realizado em duas fases. O sucesso foi tão grande que o serviço cancelou uma terceira rodada arrecadadora de fundos, desta vez pública, impondo aos investidores não selecionados que esperassem o lançamento oficial do Gram para adquirir a nova criptomoeda. A empresa, no entanto, tem de correr até outubro para lançar a moeda; se não o fizer, perderá os ativos. 

Em um documento divulgado no ano passado, a plataforma disse que queria criar mais do que apenas uma moeda. Agora, espera-se que sua rede TON (Telegram Open Network), que depende da tecnologia blockchain, desenvolva um sistema de pagamento rápido e seguro como uma “alternativa à Visa e Mastercard para uma nova economia descentralizada” .

Acordo de confidencialidade

O Telegram nunca falou oficialmente sobre o assunto: as informações estão vazando com conta-gotas através de investidores, localizados principalmente nos Estados Unidos, Ásia e Rússia.

“Eles estão vinculados a um acordo de confidencialidade”, disse uma fonte próxima à mídia financeira de Moscou à AFP, dizendo que ele conhece pessoalmente “pelo menos um dos principais banqueiros e um empresário incluído na lista da Forbes na Rússia” na lista. de investidores. “Você só pode investir com convite, muitas pessoas queriam participar”, acrescentou.

De acordo com o jornal econômico russo Vedomosti, o Telegram começará a testar seu projeto TON a partir de 1º de setembro, colocando parte do código em acesso público e instruções para criar um “nó” e, assim, se tornar atores na rede.

Está previsto que o primeiro Gram seja colocado em circulação em dois meses, segundo o The New York Times, que cita anonimamente os investidores, ou seja, antes da partida de Libra, a criptomoeda que o Facebook espera lançar no primeiro semestre de 2020. De acordo com a imprensa especializada, o Telegram prometeu dar o equivalente em gramas aos investidores antes de 31 de outubro ou devolver seu dinheiro.

“Tanto o Facebook quanto o Telegram veem que há um espaço para ocupar: isso permitirá que as pessoas troquem pequenas quantias sem passar por moeda fiduciária, banco ou aplicativo”, explica Manuel Valente, diretor de análise e estratégia da Coinhourse, que propõe às ferramentas do público em geral para investir em moedas virtuais. “Isso reforçará o medo dos estados nacionais de perderem sua influência”, acrescenta.

E, neste jogo, serviços de mensagens como Telegram ou WhatsApp têm muito a ganhar. De acordo com um relatório da Aton, um dos principais fundos de investimento russos, “as criptomoedas que obtiverem sucesso serão aquelas que farão parte integrante do ecossistema de mensagens de uma rede social existente”.

Riscos para o sistema financeiro internacional

Uma rede importante de usuários, como a de 250 milhões com a qual o Telegram possui, permitiria “aumentar a aceitação da criptomoeda entre o público em geral”, acrescenta Aton, segundo o qual produtos como Gram ou Libra poderiam “introduzir a criptomoeda em cada família literalmente “.

Na cúpula do G7 Finance em julho em Chantilly, perto de Paris, os ministros e chefes de bancos centrais dos países membros haviam alertado sobre os riscos para o sistema financeiro internacional desses ambiciosos projetos de moeda virtual.

A plataforma Telegram, criada em 2013 pelos irmãos russos Nikolai e Pavel Durov, é conhecida principalmente por proteger e tornar as trocas anônimas. Seu uso pelos movimentos jihadistas criou polêmica. O Telegram é baseado em programas de “código aberto”, ou seja, livres de direitos e acessíveis a todos, a fim de melhorar o programa e rejeitar todo tipo de controle sobre seu financiamento ou gerenciamento.

Série da HBO, ‘Years and Years’ antecipa o futuro – ou quase

Ambientada entre 2019 e 2034, ‘Years and Years’ traz novidades tecnológicas e ficção próxima da realidade – é o que dizem os especialistas
Por Ana Carolina Sacoman – O Estado de S. Paulo

Os Lyons assistem às transformações – nem sempre boas – do mundo entre 2019 e 2034 na primeira temporada

Nossas crianças usarão hologramas de emojis no rosto, os adolescentes tentarão se transformar em máquinas e adultos vão recorrer a robôs na hora do sexo. Antes de morrer, faremos download dos nossos cérebros e ficaremos na nuvem. Depois de mortos, teremos nossos corpos dissolvidos em água.

O ciclo da vida no futuro próximo mostrado na série Years and Years, exibida pela HBO, é excitante e aterrorizante. Entre 2019 e 2034, a família Lyons – quatro irmãos, avó e agregados –, moradora de Manchester, na Inglaterra, vê robôs roubarem seus empregos, comidas produzidas por bactérias e doenças serem diagnosticadas a distância, com um prosaico escaneamento da íris.

Ao mesmo tempo, mãos viram celulares após o implante de nanochips de conexão nos dedos e corpos se transformam em máquinas de altíssima performance, com direito a conexão à internet e acesso a dados sigilosos quase que pela força do pensamento.

Tudo ficção? Mais ou menos. A reportagem do Estado conversou com especialistas em diversas áreas para entender o que já existe, o que vem por aí e o que é pura invenção saída da mente de Russell T. Davies, o criador da série. Enfim, o que podemos esperar do futuro? A resposta surpreende. “Nada é impossível. Se alguém da raça humana pensou algo, alguém da raça humana pode executar”, diz Walter Carnielli, professor do Centro de Lógica da Unicamp.

Junto à alta tecnologia, o mundo de Years and Years enfrenta catástrofes ambientais – faltam bananas e as borboletas estão extintas –, acompanha atônito uma guerra nuclear entre China e EUA e segue uma crise de imigrantes. 

Ainda há a ascensão de governos populistas ao redor do planeta, que defendem o fechamento de bairros com altos índices de criminalidade, discriminam minorias e querem que o direito ao voto seja concedido somente aos cidadãos “inteligentes”.

A primeira temporada completa está disponível no serviço de streaming HBO Go. Uma continuação não está descartada. Abaixo, confira as principais “apostas” de Years and Years para o futuro e quão perto estamos delas. 

Alô. Ultratecnológica, Bethany implanta celular na mão
Alô. Ultratecnológica, Bethany implanta celular na mão

Transumanismo propõe fusão entre homem e máquina

A personagem Bethany convoca os pais para uma conversa séria: quer virar trans. Eles ensaiam um discurso de aceitação aos transgêneros, e a menina de 15 anos se impacienta. Não é nada disso, ela quer ser transumana, virar máquina, viver na “eternidade digital”. Mais tarde, a mesma garota implanta um celular nos dedos. Basta um estalo e ela pode atender uma ligação. “Isso não é impossível em um futuro próximo”, afirma Walter Carnielli, professor do Centro de Lógica da Unicamp. “Temos energia elétrica no corpo. Por que não usar essa energia com nanochips ligados ao batimento cardíaco, ao cérebro ou aos dedos?”, diz. Esse caminho já começou a ser desbravado por cientistas das universidades Harvard e Surrey. Eles fabricaram nanossondas para medir a corrente elétrica que corre dentro dos neurônios. Isso, de acordo com artigo dos pesquisadores publicado em julho na revista Nature, pode ser um grande passo para a provável “interseção entre humanos e máquinas”.

A Waymo é uma empresa de carros autônomos pertencente a Alphabet, dona do Google 
A Waymo é uma empresa de carros autônomos pertencente a Alphabet, dona do Google 

Nas ruas, carros autônomos são caminho sem volta

Com gigantes da tecnologia como Google, Tesla e Uber de olho neles, os carros autônomos são quase uma realidade. Mas, desde que um deles atropelou e matou um pedestre durante testes nos EUA, ainda há muita discussão sobre a tecnologia pela frente. “Há questões legais que precisam ser resolvidas”, afirma Fernando Osório, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP. Para ele, poderemos ver os primeiros carros autônomos nas ruas em dez anos, mas tudo vai depender das leis – no Brasil não é possível nem fazer testes nas ruas – e da aceitação dos usuários. “Se já foi complicado com os aplicativos de mobilidade, imagina a aceitação dos carros autônomos”, diz. O professor faz ainda um alerta: os veículos não devem rodar sozinhos, precisam de um motorista capaz de tomar decisões ao volante. “Como acontece com um avião, que sempre tem um piloto por perto.”

Mark Post apresenta hambúrguer de laboratório
Mark Post apresenta hambúrguer de laboratório

À mesa, comida com bactérias

“Essa é a comida do futuro, feita de água eletrificada, que produz hidrogênio, que alimenta bactérias, que produzem a comida.” A complicada equação dá vida, na série Years and Years, a um risoto de cara bem pouco amistosa, que comeremos por volta de 2030. Será? Para a professora Priscilla Efraim, da Unicamp, é difícil saber com certeza. Mas não se trata da ideia mais maluca do mundo. “Hoje já temos alimentos produzidos biotecnologicamente, envolvendo micro-organismos”, afirma. A especialista, no entanto, acredita que o futuro “pé no chão” está nas pesquisas relativas a novas fontes proteicas produzidas de vegetais, como os hambúrgueres que começam a ganhar as geladeiras dos supermercados. “A carne cultivada em laboratório também vem ganhando espaço”, diz ela, que vê ainda a popularização da produção em “fazendas urbanas”, altamente tecnológicas e que dispensam o uso de agrotóxicos.

Projeto da sede da Recompose, que receberá famílias 
Projeto da sede da Recompose, que receberá famílias 

Cremação líquida: corpos dissolvidos em água

Está certo que é uma realidade muito pouco conhecida, mas já há empresas nos Estados Unidos oferecendo a hidrólise alcalina de corpos, o nome oficial da cremação líquida. Caso da Bradshaw Celebration of Life Centers, funerária com várias filiais no Estado de Minnesota. O processo é oferecido no site da empresa como uma alternativa ecológica à cremação tradicional, com preços que começam em US$ 2,4 mil (cerca de R$ 10 mil). A coisa toda usa água e hidróxido de potássio para reduzir o corpo a apenas ossos, que são transformados em pó e entregues aos familiares. Estima-se que pelo menos mais uma dúzia de empresas no mundo oferecem a alternativa. A compostagem dos mortos – autorizada no Estado de Washington, também nos EUA e já praticada por startus como a Recompose – e a criomação, que é o congelamento dos corpos em nitrogênio líquido, são outras propostas que poderão ser usadas para os mortos do futuro. Quem viver, verá. 

Identificação por meio do sopro

Por volta de 2030, falsificadores de passaporte e outros documentos terão algumas dificuldades adicionais. Eles terão de driblar a tecnologia de identificação pessoal, que poderá ser feita por meio do… sopro! Apesar de totalmente plausível, a novidade não deve, no entanto, ganhar o espaço de tecnologias avançadas que temos hoje em dia, como a identificação facial. “O sopro de uma pessoa tem, sim, componentes químicos que podem ser usados para identificação”, afirma Antonio Mugica, CEO da Smartmatic, empresa que desenvolve soluções tecnológicas para processos eleitorais, como a votação por biometria. No entanto, segundo ele, como a identificação facial está muito avançada e tem probabilidade de acerto na casa dos 99%, dificilmente deve ser substituída. Por enquanto. “Difícil imaginar que seria mais conveniente. Mas a identificação pelo sopro pode ser usada para diagnosticar doenças, por exemplo”, diz.

Usuário pode escolher ‘look’ de robô da Abyss 
Usuário pode escolher ‘look’ de robô da Abyss 

Sexo e amor com robôs

Tratado em filmes e livros, o sexo com robôs é visto quase como uma inevitabilidade do futuro, ao lado da degradação do meio ambiente e do aumento dos impostos. Já há empresas, como a Abyss Creations e a Realbotix, dedicadas a fabricar bonecas eróticas (“sex dolls”). E, claro, interessados em comprá-las – os chamados digissexuais, considerados uma nova categoria de orientação sexual. Para o professor Walter Carnielli, do Centro de Lógica da Unicamp, a popularização desse tipo de relacionamento não é implausível. “É uma coisa mental, nada impossível de acontecer, como naquele filme Ela (no qual o personagem de Joaquin Phoenix se apaixona pela voz do sistema operacional de seu computador)”, diz. Mesmo no futuro de Years and Years, porém, esse tipo de relacionamento ainda é visto com estranheza e motivo para uma paquera não seguir adiante. Conclusão: pode ser que demore, mas deve acontecer.

Sistema de saúde ficarão mais avançados
Sistema de saúde ficarão mais avançados

Previsões de saúde poderão ser instantâneas

Hipocondríacos de todo o mundo, tremei. Pode ser que no futuro o diagnóstico de doenças seja feito pela internet, após o escaneamento da íris do paciente. Para Antonio Mugica, da Smartmatic, não há dúvidas de que isso acontecerá. “Atualmente, a tecnologia para a verificação eficaz e confiável da íris em dispositivos inteligentes está em sua ‘infância’, mas esperamos desenvolvimentos rápidos nessa área em um futuro próximo”, diz. Será possível ainda que um simples exame de sangue traga estampado a nossa expectativa de vida. Essa possibilidade, no entanto, é um pouco mais difícil. “Conseguimos boa performance para predizer o risco de óbito de idosos, mas precisamos de outras informações sobre a vida dele, não só o sangue”, afirma Alexandre Chiavegatto Filho, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, que completa: “A questão também é saber qual a qualidade dessa previsão e se a margem de erro é aceitável. Uma margem de erro de 20 anos certamente não é.”

‘Coringa’ joga fora o manual dos filmes de quadrinhos

Filme de Todd Phillips exibido no Festival de Veneza traz Joaquin Phoenix em estado de graça num estudo de personagem e história de origem do vilão da DC
Mariane Morisawa – O Estado de S. Paulo

‘Coringa’ é estrelado por Joaquin Phoenix Foto: Nico Tavernise

VENEZA – Coringa não é um filme de super-herói como os outros – e não apenas por tratar de um vilão da DC. O longa-metragem de Todd Phillips prescinde das cenas de ação espetaculares, das lutas sem fim, das explosões e dos prédios derrubados, com milhares de vítimas civis invisíveis. Para quem tinha alguma dúvida, faz todo o sentido o filme estar na competição do 76.º Festival de Veneza, onde foi exibido na manhã deste sábado, 31, tratando de temas relevantes como identidade, empatiasaúde mental e do abismo entre quem tem muito e quem não tem nada. Indicações ao Oscartambém não devem faltar. 

A história evita a repetição das várias aparições cinematográficas recentes do personagem, de Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) a Jared Leto em Esquadrão Suicida (2016), contando a transformação gradual de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix, candidatíssimo à Coppa Volpi de melhor ator e ao Oscar na categoria) em Coringa. É um estudo de personagem e um drama realista na linha de clássicos dos anos 1970 e 1980 como SerpicoTaxi Driver e Rede de Intrigas, o que pode abrir uma nova via para os filmes baseados em quadrinhos da DC e da Marvel.

“Não entendo nada de competição com a Marvel”, disse Phillips na coletiva após a exibição. “Mas, quando concebemos a ideia, queríamos uma abordagem diferente. Não sei se vai ser uma inspiração para outros, até porque os filmes de quadrinhos parecem estar indo bem. Foi duro de convencer a DC e o estúdio a fazer. Mas agradeço à Warner por ter feito uma aposta tão ousada.”

Coringa, que estreia no Brasil em 3 de outubro, se passa, justamente, na Gotham, ou seja, Nova York, dos aos 1980, quando a cidade enfrentava problemas de violência, pobreza e lixo nas ruas, além de cortes nos programas sociais. Arthur divulga uma loja vestido de palhaço, quando um grupo de garotos lhe toma a placa e dá uma surra. Não vai ser a primeira vez que ele será visto no chão. Arthur sofre de problemas de saúde mental, entre eles uma condição que o faz rir descontroladamente – especialmente quando, na verdade, quer chorar. Mas é carinhoso com a mãe, Penny (Frances Conroy), que vive no passado esperando o reconhecimento de um poderoso na cidade. 

O maior sonho de Arthur é ser comediante de stand-up e fazer os outros rirem, de preferência participando do programa de Murray Franklin (Robert De Niro). “Minha mãe sempre me diz para sorrir e fazer uma cara feliz”, ele diz. A violência existe, mas é pontual e causa impacto quando acontece. “Meu desejo é que fosse tudo em fogo brando”, disse o diretor. “John Wick tem muito mais violência. Como tentamos fazer de maneira realista, quando ela ocorre, é um soco no estômago.” 

Phoenix afirmou ter evitado encaixar o personagem numa personalidade específica. “Não queria defini-lo. Muitas vezes explorei suas motivações e terminei recuando. Queria que ele tivesse mistérios.” Mesmo depois de assistir, Coringa é um personagem inclassificável. Mas, para o ator, cuja imagem pública é de um homem angustiado, a atração de Arthur era sua luz. “Sua luta para encontrar a felicidade, a conexão, o calor humano, o amor.” Para Phillips, este Coringa não quer ver o mundo arder. “Ele está procurando sua identidade e quer ser adulado, trazer alegria ao mundo. Vira líder por engano.” 

Coringa: Joaquin Phoenix é ovacionado na estreia e já sai como favorito ao Oscar

Zazie Beetz, Joaquin Phoenix e Todd Phillips na estreia de Coringa, em Veneza Imagem: Alberto PIZZOLI / AFP.

Joaquin Phoenix já está acostumado a colher elogios em festivais, mas talvez nunca tenha recebido recepção tão calorosa como em Veneza, neste sábado. Protagonista de Coringa, aguardado filme de Todd Phillips sobre as origens do grande oponente do herói Batman, o ator foi a estrela mais aplaudida pela imprensa até o momento nesta edição da mostra italiana. Já sai, inclusive, como favorito ao Oscar de melhor ator do ano que vem.

O Festival de Veneza estabelece um embargo para que jornalistas só possam dizer maiores detalhes e emitir comentários sobre os filmes depois que começar a sessão de gala, com a presença do elenco. Por isso, não cabe aqui entrar em maiores especificidades sobre trama, além do mais básico: Coringa mostra como o atrapalhado Arthur Fleck (Phoenix), aspirante a humorista, mas cuja carreira jamais decolou por problemas psicológicos, tornou-se o grande vilão Coringa, o terror da caótica metrópole de Gotham City.

Sofreu muito: com a mãe doente, na infância triste, com o bullying da sociedade por ser “esquisitão”. Mas fez da tristeza um motivo para gargalhar – e, sublimando todo o sofrimento pelo qual passou, juntou forças para se tornar uma figura proeminente na cidade.

“Para mim, o grande atrativo de fazer esse filme é esse personagem e a chance de fazer um projeto do nosso jeito. Então, não segui caminhos já percorridos”, disse Phoenix, em conversa com a imprensa, afirmando que não se preocupou em observar as versões anteriores do Coringa, já feitas por Jack Nicholson, Heath Ledger e Jared Leto.

“O que me atraiu [no projeto] é tão difícil de definir… Algumas vezes eu me identificava com algum traço ou motivação dele, mas também quis deixar algo de misterioso. A cada dia, descobria algo novo sobre esse personagem, e isso aconteceu até o último momento de filmagem”, conta o ator.

Phoenix perdeu cerca de 20 quilos para dar vida ao personagem. Ele surge desde o início um homem em tratamento psiquiátrico, mas o longa não especifica que transtorno exatamente ele tem.

“Assim que identifiquei em Arthur um tipo exato de personalidade, quis uma liberdade de mudá-la para algo que não fosse tão identificável. Não queria que um psiquiatra diagnosticasse o problema exato dele”, diz Phoenix.

Antes de se tornar o Coringa, o personagem anda o tempo todo com um caderno em que há um estoque de piadas. Ao mesmo tempo, é também uma espécie de diário de Arthur, em que exprime aquilo que não consegue transmitir por meio do discurso falado.

“Ter um diário com piadas foi importante”, diz Phoenix, que começou o filme com um caderno em branco em mãos. “Eu não sabia o que escrever ali e pedi sugestões, então comecei a escrever e, de repente, coisas começaram a sair, e isso foi parte da minha descoberta do personagem.”

Mas a maior marca do Coringa criado por Phoenix é sua gargalhada, que o ator repete várias vezes, com algumas alterações, de acordo com o estado de espírito do personagem.

“Antes mesmo de eu ler o script, Todd me falou o que queria, me mandou alguns vídeos e me descreveu o riso de Coringa deveria ser como algo doloroso, algo que Coringa tenta expressar. Ficamos tentando pensar em como seria o riso, pedi ajuda a Todd para testar cada um desses risos. Demorou muito tempo [para encontrar os risos mais adequados], eu não quis que fosse uma gargalhada forçada”, explica Phoenix.

Imagem: Alberto PIZZOLI / AFP.

O diretor complementa: “No filme, há uns três ou quatro tipos de risos: um de aflição, um de quando Arthur tenta ser parte de algum grupo e o do final, que é um riso de alegria intensa.”.

O filme tem uma premissa que lembra o longa O Rei da Comédia (1983), de Martin Scorsese, em que Robert De Niro vive um sujeito atordoado que sonha em se tornar comediante. Para conseguir o que deseja, planeja o sequestro de seu ídolo televisivo. De Niro, aliás, faz uma participação em Coringa, na pele de um apresentador de TV em cujo programa Fleck sonha em fazer números cômicos.

Mas Phoenix diz não gostar de chamar o seu Coringa de “atormentado”. “Acho que me interessou a luz de Arthur, não só seu lado obscuro, mas sua luta para encontrar a felicidade, de se sentir conectado”, diz o ator.

Todd é conhecido por comédias, como Se Beber Não Case, e foi considerado uma escolha inusitada para o projeto. “É um filme bem diferente em tom dos outros que já fiz”, diz o cineasta. “Fui influenciado por filmes dos anos 1970, que eram grandes estudos de personagens. Mas pensei que também poderia mergulhar em um como Coringa e criar alguma coisa especial”.

O diretor assume que o universo das HQs nunca foi o seu forte. “Não sei nada dessa competição [da DC] com a Marvel, não sou desse mundo [dos quadrinhos]. O centro do projeto era ter um novo ‘approach’ sobre esse tipo de filmes [de heróis].”

E assim, faz um filme dramático, sobre um personagem com um mundo interior em desabamento. “O objetivo dele [o Coringa] era genuinamente fazer pessoas rirem e trazer alegria ao mundo. Atrapalhou-se no caminho, mas era isso o que queria.”

Coringa estreia mundialmente no dia 3 de outubro.

Bruno Ghetti
Colaboração para o UOL, em Veneza