Diretor criativo do ensaio da Quatro Cinco Um com Fernanda Montenegro fala sobre a concepção das imagens e a receptividade da atriz
Marília Kodic

Fernanda Montenegro – Mariana Maltoni

Quando chegou a confirmação de que a atriz Fernanda Montenegro havia topado posar para a nossa capa de outubro, a resposta positiva veio com dois pedidos. O primeiro deles: a sessão de fotos deveria ser realizada na casa dela. As ideias que o diretor criativo Luciano Schmitz tinha para o ensaio da edição de outubro da Quatro Cinco Um, no entanto, eram grandiosas demais para o apartamento da atriz: requeriam cenários elaborados, pé-direito alto e uma volumosa parafernália de iluminação, cenografia, figurino e maquiagem, além de uma equipe numerosa — onze profissionais, mais a diretora de arte da revista, Julia Monteiro —que certamente causaria alvoroço na casa de Fernanda.

Conversa vai, conversa vem, e a dama da dramaturgia brasileira topou — desde que o estúdio fosse próximo à sua casa, que fica no bairro do Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. Só não contava com o fato de que, no dia do shooting, o motorista de táxi que transportava a assessora de imprensa que a acompanhava e guiava o caminho para o seu motorista se recusasse a subir a rua que levava ao estúdio, uma viela que separa o bairro do Leme da comunidade da Babilônia. 

“No Rio de Janeiro há pouquíssimos estúdios, a maioria concentrada na Barra da Tijuca, que era longe, e então encontramos esse, perto do Leme. Eu não sabia que era, na verdade, na entrada da favela”, relembra Schmitz, que desceu a ladeira a pé para convencer o motorista de que era seguro subir e que seu medo não se justificava. Não sem alguma tensão… mas com sucesso. Horas depois, o designer estaria animadamente dançando uma valsa com Fernanda Montenegro.

Lilith, a deusa adorada na Mesopotâmia e na Babilônia considerada demônio por outras culturas, foi uma das bruxas que inspiraram o ensaio

Fogueira sem vaidades

O segundo pedido de Fernanda tinha a ver com o conceito do ensaio, pensado para passar uma mensagem dupla: o lançamento do livro de memórias da atriz e a edição especial sobre livros infantojuvenis que a Quatro Cinco Um tradicionalmente publica em outubro — ela seria caracterizada como uma bruxa numa fogueira de livros. “Quero ser uma bruxa muito elegante”, pediu ela.

Nas mãos de Schmitz, no entanto, esse pedido nem seria necessário. Com larga experiência em editoriais de moda e na criação de capas, ele ganhou prêmios nacionais e internacionais pelos trabalho que publicou nas revistas Elle e Serafina — revista de moda, artes e comportamento que foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, da qual foi diretor de arte por alguns anos. Ele trouxe para o Brasil uma cultura de produção ousada e perfeccionista que faz a grandeza das capas de revistas americanas como Vogue e Vanity Fair. A ideia era essa mesmo: criar uma capa teatral, impactante, surpreendente, que impressionasse o leitor e desse a justa medida da importância de Fernanda para a cultura brasileira. Uma bruxa com olhar desafiador, prestes a arder numa fogueira de livros — uma fogueira sem vaidades. 

Schmitz concebeu três diferentes caminhos para que a atriz escolhesse, na hora da sessão de fotos, a bruxa com que mais se identificava e a incorporasse. Para orientar tanto a atriz como a equipe de profissionais que convidou para o trabalho, Schmitz produziu um moodboard, esquema gráfico que resume em imagens e poucas palavras as principais referências do projeto. Tudo deveria ser produzido em detalhes e estar pronto para que a escolha dela, no calor da hora, fosse executada com perfeição e imediatamente. A ideia era que a atriz escolhesse um dos caminhos, mas a atriz, empolgada, acabou topando os três — e a revista ganhou três ensaios para a capa.

Desenho de Luciano Schmitz

Na primeira proposta, a atriz aparece vestida de preto, amarrada por cordas, sobre uma fogueira de livros prestes a ser incendiada, em meio a um cenário ígneo. “Eu não poderia ser leviano a ponto de representar uma bruxa sem ter em mente a caça a elas que sempre existiu e que está muito forte hoje na cultura brasileira. Ver como bruxa qualquer pessoa que questione, que saia do lugar-comum, do que é o ‘correto’, não é novidade, é algo que sempre existiu e a história nos mostra isso”, diz Schmitz.

Nas pesquisas para esse primeiro caminho criativo estavam as bruxas de Salem, Joana D’Arc e o livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, romance distópico em que livros são proibidos — e de onde vem também o nome desta publicação. O cenário foi pintado à mão por Schmitz, que cita entre as referências do painel vermelho os pintores Candido Portinari, Salvador Dalí e William Turner (“mas é óbvio que não tenho a pretensão de parecer qualquer um deles!”, esclarece).

Desenho de Luciano Schmitz

Para a segunda dramatização, a inspiração foram os códigos do universo da bruxaria, como chapéus, caveiras, livros e elementos de magia e alquimia. Também foram evocadas algumas bruxas clássicas, a começar por uma espécie de precursora de todas elas, Lilith, deusa adorada na Mesopotâmia e na Babilônia que passou a ser considerada uma espécie de demônio em diversas culturas, tendo inclusive levado a fama de ser a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido.

Outra inspiração nesse segundo caminho foi Santa Luzia, a santa-bruxa italiana que, segundo a narrativa religiosa, no século 4o, depois de sobreviver ao martírio no fogo e de ter sido cegada por ordem do imperador Diocleciano, ganhou olhos nas palmas das mãos, tornando-se padroeira dos deficientes visuais. Os olhos nas mãos de Fernanda foram pintados por Dindi Hojah, maquiador e cabeleireiro que já trabalhou com nomes como o músico Kanye West e a artista Vanessa Beecroft. 

Fernanda Montenegro – Mariana Maltoni

A terceira e última encenação mistura influências de Carlos Amorales, artista mexicano conhecido por ocupar espaços com borboletas pretas, e de Richard Avedon, fotógrafo norte-americano que retratou um homem albino coberto de abelhas negras. A infância de Schmitz em Enéas Marques, município do sudoeste do Paraná, também teve peso na criação dessa imagem. “Quando eu era criança, a mariposa era chamada de bruxa. Minha mãe falava ‘tem bruxa dentro de casa’. Eram as mariposas, essas borboletas feiosinhas que procuram a luz. Aquilo me intrigava muito, porque minha mãe falava como se fosse mau agouro tê-las em casa, mas, para mim, elas eram lindas”, diz Schmitz, explicando que a ideia do ensaio era que Fernanda fosse a luz que atraísse os insetos de papel — que foram cortados a laser e dobrados à mão, um a um. 

Fernanda Montenegro – Mariana Maltoni

“Pensei no que ela representa para o país e em mostrar que, em tempos de escuridão, existe beleza. É na adversidade que temos as ideias mais iluminadas.”  “A receptividade dela foi melhor do que eu imaginava. Ela aceitou tudo, achou tudo ótimo. O clima no dia das fotos foi maravilhoso”, conta o diretor criativo. 

Uma valsa com Fernanda

“Alma, corazón y vida”, canção de Frankie Reyes — californiano que faz versões de valsas e boleros antigos usando apenas um sintetizador analógico — ressoava no estúdio quando Fernanda exclamou: “Adoro essa música na versão da Edith Piaf!”. Quando a valsa “La Foule”, da cantora francesa, começou a tocar no intervalo entre uma foto e outra, a atriz tirou o stylist Marcel Maia para dançar. “Ele é um stylist fabuloso, mas tem dois pés esquerdos, então eu falei ‘deixa que eu conduzo”, diverte-se Schmitz. “Era óbvio que eu tinha que roubar essa dança [risos].” 

Já ter criado antes uma capa com a atriz, para a Serafina, não diminuiu o impacto de estar na presença dela. Fã de Fernanda desde criança, ele conta que chorou ao assistir Central do Brasil — que rendeu à atriz indicações ao Oscar de Melhor Atriz e ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática em 1999. “Sou enlouquecido por ela. Ela tem uma força, uma voz, uma imagem que não tem como mensurar. Passar uma tarde com ela foi uma honra inacreditável”. 

Ele conta também que se surpreendeu com a vitalidade da atriz, que completa noventa anos no dia 16  de outubro. “Ela tem uma disposição e uma atenção que impressionam. Ela é vívida e realmente iluminou o ambiente: ela tem presença, é uma força da natureza”, diz, citando a capacidade de resistência da “senhora de noventa anos”, que ficou em pé durante vários minutos em uma diminuta caixa para as fotos feitas com a fogueira de livros.

Mais que mil palavras

“O feedback que eu recebi por esse trabalho foi de longe o melhor da minha carreira”, afirma Schmitz, destacando os comentários em suas redes sociais: “Era tudo ‘lindo, lindo, lindo’, e foi maravilhoso entender que o carinho não era só pelas imagens, mas pela Fernanda”. A melhor das reações para ele, no entanto, foi, digamos, negativa. “Fiquei sabendo de um texto escrito contra a Fernanda, falando do ‘movimento esquerdista’ e da ‘mulher mentirosa’, e foi o que eu achei melhor de todos, na verdade. É o reflexo do quanto ela é importante e do quanto essas imagens incomodam, e era o que eu queria: tocar na ferida de quem está atacando a cultura, a educação, as artes. Eu não preciso de elogios. Preciso entender que de alguma forma, eu provoquei.” 

Schmitz conta que não queria que o resultado fosse só mais um retrato da atriz, mas um conjunto de códigos visuais que expressasse o momento que estamos vivendo — resultado alcançado graças ao talento de Mariana Maltoni, destaque da nova geração de fotógrafos de moda brasileiros, autora de inúmeras capas para edições internacionais de VogueElle e outras publicações. “A fotografia tem esse caráter de ser eterna, então essas imagens sempre estarão lá, no futuro, representando esse momento que a gente teve: o porquê de nessa época, em setembro de 2019, a Fernanda Montenegro se propor a fazer essas imagens para a revista Quatro Cinco Um. Estou realizado.”

Fotos: Mariana Maltoni
Direção criativa: Luciano Schmitz
Edição de moda: Marcell Maia
Beleza: Dindi Hojah
Cenografia: Luciano Schmitz, Anderson Rodrigues e Pedro Flutt
Tratamento: Studio Bruno Rezende
Assistentes de fotografia: Naelson Castro e João Júlio Melo
Produção de moda: Luiza Gil e Mariana Corrêa
Figurino: Sonia Pinto (vestido e echarpe pretos), Hugo Boss (vestido branco), Frou Frou (luvas)

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