Celebração ou apropriação cultural: quais os limites para inspiração?

Nenhuma marca está imune: as acusações de apropriação cultural se tornaram uma constante no universo da moda. Aqui, investigamos os limites entre apropriação e apreciação cultural
PEDRO DINIZ

Desfile de alta-costura verão 2003 da Dior, inspirado na China e Japão (Foto: Imaxtree)

Não parece haver na moda uma única grife que não tenha passado incólume pela régua da cultura. Ou melhor, de todas as culturas. Porque se, até a virada do século, criar roupas era pescar referências ao redor do mundo para depois diluí-las em embalagem própria, captando o que os olhos viam com o intuito de encaixar a realidade dos outros dentro de cortes, estampas e formas reconhecíveis a um público-alvo, agora costurar é um exercício de entender os limites dessa apropriação.

Apropriação cultural, sabe-se, é o termo que balançou a indústria quando a tirou, na última década, das páginas de estilo para as de sociedade e geopolítica. Consiste basicamente na adoção de traços de culturas alheias por aqueles que os interpretam dentro de uma visão estética própria, geralmente eurocêntrica. Esse uso, para alguns grupos sociais, povos e etnias, descaracteriza seus valores e sua história. Trocando em miúdos, eles acreditam que grafismos, desenhos antigos, peças usadas em cerimônias religiosas e acessórios com simbolismo histórico não deveriam ser vistos como objetos quaisquer, ainda que seduzam quem julga tê-los – atenção à palavra-chave para entender a apropriação – “descoberto”.
O uso de formas e matéria-prima de comunidades indígenas, africanas e orientais, para citar os grupos que a moda mais tem olhado, era até pouco tempo tido como homenagem. Quando muito, esses elementos aparecem como criações originais nos textos das coleções. Agora, com a visibilidade da internet e das redes sociais, esses traços saíram da sombra para virar farpas em polêmicas próprias da história da moda.

Coleção resort 2020 de Carolina Herrera, inspirada no México (Foto: Divulgação)

O caso mais recente dessa relação sem moeda de troca entre “criador” e “fonte de inspiração” é o da marca Carolina Herrera. Em uma coleção apresentada em fevereiro, a grife capitaneada pelo estilista Wes Gordon colocou em seu resort 2020 peças cujos bordados e padrões reproduziam elementos gráficos de povos indígenas nativos do México. Quatro meses depois, a secretária de cultura do governo, Alejandra Frausto, enviou uma carta pedindo explicações à grife. No texto, ao qual o jornal espanhol El País teve acesso, ela pede que o designer explique o que o levou a usar elementos cuja “origem está plenamente fundamentada” e esclareça se as comunidades serão beneficiadas com as vendas.

Entre as peças citadas por Alejandra, está o bordado de animais coloridos entrelaçados em ramos e flores, que, na coleção concebida pelo diretor criativo da marca, foi aplicado em um vestido branco. “O desenho provém da comunidade de Tenango de Doria […]. Nestes grafismos, encontra-se a própria história da comunidade, e cada elemento tem um significado pessoal, familiar e comunitário”, explica a secretária. Não há notícias sobre uma possível transferência de royalties por parte da Carolina Herrera pelo uso dos padrões das comunidades de Oaxaca e de Tenango de Doria, locais de onde partiram as padronagens.

Procurada por Marie Claire, a grife enviou uma nota na qual afirma que a coleção foi criada “devido ao amor e à apreciação da casa pela rica cultura do México”, e que ela “sempre se orgulhou, e continua a se orgulhar, de suas raízes latinas, enquanto se esforça para celebrar ‘a alegria de viver’” por meio das coleções. O texto denota um sinal de que a marca pode vir a discutir formas de recompensar as comunidades, visto que acredita “numa conversa aberta” sobre como pode,“respeitosamente, destacar e celebrar as culturas ao redor do mundo”.

Outros casos
Talvez pior tenha sido o caso da grife de Isabel Marant. Em 2015, a designer lançou uma blusa de US$ 290 com bordados típicos da mesma região de Oaxaca. Quem comprou nem sabia do que se tratava, porque a estilista não apontou a origem. O caso explodiu quando os próprios artesãos do lugar alegaram ter recebido uma carta do governo francês intimando-os a não usar o padrão, pois estaria protegido intelectualmente. A notificação teria chegado a eles porque Marant, supostamente, pediu registro do desenho. A prefeitura da cidade de Santa Maria Tlahuitoltepec, onde ficam esses artesãos, contradisse seus moradores negando a existência da carta do governo francês. Após o imbróglio, Marant chegou a dizer não ter pedido o registro dos padrões. A peça foi retirada do mercado.

Não parece coincidência que o México tenha virado alvo das grandes marcas num momento de euforia sobre a cultura do país, que culminou numa grande retrospectiva, a Mexique (1900-1950), em cartaz no Grand Palais no ano de 2017. Também não parece aleatório, nesse contexto, o fato de sua elite ter tomado do Brasil pós-crise o topo do consumo de luxo na América Latina.

Já as referências à cultura asiática deram uma tremenda dor de cabeça à Kim Kardashian West. Ela lançaria, no mês passado, uma marca de bodies modeladores com o nome Kimono, uma óbvia referência a seu primeiro nome, mas também ao traje tradicional do Japão. Uma celeuma virtual desencadeou críticas de internautas que a acusaram, entre outras coisas, “de estragar a cultura japonesa”. A hasthag #KimOhNo entrou nos tópicos mais comentados do Twitter, e, no final do mês, a estrela do programa de TV Keeping Up With The Kardashians concedeu entrevista ao jornal The New York Times para jurar que em nenhum momento pretendeu “desonrar” a cultura japonesa. Agora, Kim corre para cobrir o nome controverso nas mais de 2 milhões de peças confeccionadas.

Imagem de divulgação da marca kimono, de kim kardashian west (Foto: Divulgação)

Navegar é preciso?
Tantos casos estridentes podem sugerir que a apropriação cultural é um fenômeno recente, mas ele é inerente à produção de moda ao longo dos séculos. Foi ela que fez muita gente achar, por exemplo, que o jeans é americano, quando na verdade tem origem na França, ou que a gravata é invenção francesa, quando é croata. Apoiadas sob a égide do multiculturalismo e pela ideia de globalização, que criou a fantasia de vivermos num mundo sem fronteiras, as marcas ocidentais estão tendo de rever neste século o que sagraram no passado: a colonização do estilo.

O que seria do argelino Yves Saint Laurent (1936-2008) se não tivesse destilado sua origem africana, criado o look safári e apresentado tantos elementos exóticos à cultura francesa do século 20? A diferença, contudo, é exatamente o fato de que, para ele, nada disso era exótico, porque manteve tanto os laços imagéticos quanto os econômicos com o continente. Essa relação baseou o último desfile mais comentado da temporada intermediária de “cruise” (“cruzeiro”, em inglês). A também francesa Christian Dior levou uma comitiva de clientes abastados e jornalistas de moda a Marrakech, no Marrocos, onde apresentou uma coleção feita em parceria com comunidades locais e pessoas-chave da moda na África. O alfaiate do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela (1918-2013), Monsieur Pathé’O, a estamparia Uniwax, da Costa do Marfim, e mulheres das montanhas Anti-Atlas marroquinas, que tingem tecidos artesanalmente, foram contratados para trabalhar junto à estilista Maria Grazia Chiuri.
Não está claro se essa troca será reverberada nas próximas coleções da grife, uma continuidade apontada por ativistas e historiadores como cabal para diferenciar a apropriação do mero esforço marqueteiro, mas é notória a preocupação da casa em gerar renda para o lugar e resgatar heranças de forma ética para além da caricatura. São essas as premissas básicas apontadas pelo designer e tecelão Renato Imbroisi para uma troca sadia entre culturas. Há quase 40 anos ele se dedica a tocar projetos de governos e entidades que se propõem a resgatar a identidade têxtil de lugares tão distantes quanto Muquém, em Minas Gerais, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Autor de Lá e Cá – Trocas Culturais Entre o Brasil e Países Africanos de Língua Portuguesa, Imbroisi acredita que o fascínio da moda pelos países africanos deveria estar acompanhado de impacto social. “Não adianta ir, absorver e não devolver. Essa devolutiva não pode ser só royalties de vendas, mas estrutura, como uma escola para os filhos das mulheres que trabalharam”, diz. Quanto ao uso de estampas nativas por marcas estrangeiras, ele não vê como problema, “até porque, a maioria dos tecidos vendidos em grande escala pelo continente africano são produzidos na Holanda”, ou seja, já cruzaram a fronteira da apropriação há muito tempo. Mas, segundo ele, é imprescindível que as marcas evitem usar padrões de cerimônias religiosas e festividades, “por respeito à cultura e à história de cada povo”.

Brasil miscigenado
Por aqui, há discussões semelhantes. A coleção de inverno 2019 da Animale foi em homenagem à “mulher nômade”, nesse caso, a da Namíbia, com traços gráficos, cores e formas da indumentária local. A campanha foi fotografada no país e a coleção ainda ganhou dois tênis. Os sapatos levaram os nomes Zebra e Onça, sendo forrados com desenhos dos bichos. O caso gerou polêmica. Procurados, porta-vozes da marca disseram que a coleção não poderia ser incluída no escopo da apropriação porque houve apenas inspiração por parte do time criativo, ou seja, uma leitura sobre o local.

Ainda no Brasil, a grife mineira Coven foi criticada, em 2017, por colocar na passarela da São Paulo Fashion Week apenas duas modelos negras no casting de um desfile composto por franjas, sandálias amarradas como turbantes e túnicas similares às do continente. A marca não comentou o episódio.

Mas como é possível falar de apropriação num país miscigenado como o Brasil, onde as culturas europeia, indígena, oriental e negra convergem num grande caldeirão de referências? Se a valorização da herança e o comércio justo são os temas centrais do problema, o que impede qualquer brasileiro de, por exemplo, querer usar estampas, acessórios ou outro símbolo de sua ancestralidade?

Para o estilista Isaac Silva, expoente da nova leva de designers que reinterpretam a cultura negra sob a ótica dos negros no país, não há nenhum, desde que se tenha o bom senso de discernir símbolos estéticos de religiosos. “Não é um problema vestir roupas que contem suas origens, o problema é maquiá-las dentro de uma estética europeizada e branca, muitas vezes transformando tudo em acessório para Carnaval”, explica Silva, citando o turbante e o cocar indígena como pontos de conflito.

Look do desfile Cruise 2020 da Dior, que celebrou, com sucesso, referências Africanas (Foto: Divulgação)

O turbante carrega um significado de enaltecimento da negritude, então, segundo Silva, “não é algo que se use aleatoriamente se você não vivenciar aquela realidade”. Solução prática? “Por que não usar um lenço?” Para a artista visual e professora do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da Universidade da Bahia, Carol Barreto, não é possível fazer um manual sobre o que pode ou não pode, porque a apropriação é o alicerce de todas as formas de expressão cultural da sociedade branca. “Desde o conceito sobre o que é elegante e deselegante até o sotaque passam por juízos de valor de quem colonizou. Quando não há uma ampla participação do povo apropriado na concepção de uma coleção ou de imagens de moda, há apropriação”, explica.

Yves Saint Laurent com as modelos Betty Catroux e Loulou de La Falaise vestindo a jaqueta safari, desenhada pelo estilista (Foto: Getty Images)

Prestes a lançar um doutorado sobre a relação entre moda e ativismo, fruto de vivências em mais de dez temporadas de moda focadas na questão racial, do Senegal a Paris, ela afirma que a apropriação não pode ser confundida com o multiculturalismo, porque apropriação é “a ideia de que uma determinada raça ou comunidade está apenas a favor de quem planeja desconstruí-la”. Estes, enfim, a reproduzem, tentando padronizá-la e, por consequência, “findá-la”.

E para quem vê patrulha nesses pormenores, ou não entende os limites do que é ou não plausível usar, basta compreender que o conceito de apropriação cultural está relacionado a dores e traumas dos povos apropriados. Na colonização, foram os indígenas, e no período escravocrata, africanos. “Deve-se sempre pensar como se sente quem usa determinado cabelo ou roupa, e o que esses símbolos representam em sua história, porque toda apropriação implica um processo de jugo de uma cultura minoritária por uma majoritária”, diz a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz. Ela cita como problemática no Brasil, por exemplo, a relação de brancos e, por conseguinte, da moda, com a cultura indígena. 

Principalmente em um momento de revisões por parte do governo federal das leis que tratam a demarcação das terras dos indígenas e do garimpo em áreas protegidas. “O Brasil não enfrentou sua história de maneira correta. Ainda aprendemos na escola que o país foi ‘descoberto’ pelos portugueses, e isso diz muito sobre a construção do olhar sobre os índios.” Autora do recém-lançado Sobre o Autoritarismo Brasileiro (Companhia das Letras), ela acredita que, para além da miscigenação, o debate da apropriação cultural no país “trata de hierarquia, porque a atitude da civilização ocidental foi sempre a de dominar sem culpa, acreditando que seu domínio era bom e não deveria nada ao dominado”, diz. “Estamos num tempo importante para os direitos civis. É momento de cobrar.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.