A moda me salvou ao me permitir demonstrar atitude e criar uma personalidade

Desfiles como os de Gucci e Prada na Semana de Moda de Milão reafirmam o poder da moda como representação de seu tempo
ADRIANA FERREIRA SILVA

Adriana Ferreira Silva (Foto: Divulgação/ Léo Faria)

Eu era adolescente quando percebi que a moda poderia me salvar. Não sendo o “padrão” desejado pelos rapazes à época (cabelos lisos e longos, de preferência loiros, bunda e peitos grandes etc.), descobri cedo que poderia chamar a atenção sendo “diferente”: de preto da cabeça aos pés, fui gótica; usando camisetas listradas e camisa de flanela xadrez amarrada na cintura, grunge; passei rapidamente pelo hippie, flertando com as saias longas e floridas e as sapatilhas de pano compradas no bairro da Liberdade para, enfim, me tornar clubber, usando botas plataforma e roupas coloridas. Moda para mim sempre foi atitude, comportamento. A mais perfeita expressão de uma personalidade.

Escrevo isso após finalizar a cobertura da Semana de Moda de Milão (17 a 22/9) e sob o impacto dos desfiles das coleções primavera/verão 2020, em especial das grifes italianas Gucci e Prada. Para além do objetivo final que é “vender roupa”, essa é uma indústria formada por artistas, sejam as costureiras, que levam horas cosendo, à mão, um lenço –no caso da Hermès, por exemplo, para fazer cada um de seus famosos “carrés” gasta-se bem umas 30 horas– ou estilistas, que inspirados por “n” razões são capazes de reler seu tempo na forma de um vestido ou um smoking –impossível não mencionar Yves Saint Laurent, o homem que nos permitiu usar essa peça até então masculina.

A moda me salvou ao me permitir demonstrar atitude e criar uma personalidade (Foto: Arquivo pessoal)

Essa delicadeza em captar o “l’air du temps” apareceu em especial nas coleções de Miuccia Prada e Alessandro Michele. Num momento em que a representação mais forte da nova geração de consumidores é Greta Thumberg, adolescente de 16 anos que se recusa a atravessar o oceano de avião, por ser um meio de transporte muito poluente, e no qual estão em pauta o excesso de consumo e a destruição do meio ambiente –bem como a responsabilidade das indústrias da moda e da beleza nesse processo–, Miuccia reduziu sua criação “à essência”, “um antídoto à complexidade”. Na prática, saem de cena as peças que, na estação seguinte já poderiam estar “datadas” –quem se lembra das estampas de macacos? As mesmas que levaram a marca a ser acusada de racismo e à criação do comitê presidido pela ativista e diretora de cinema americana Ava Duvernay–, e entram roupas que devem atravessar gerações. Na passarela, obviamente, o que se destaca é a beleza e o caimento perfeito de casacos, saias, vestidos… Bem de perto (um dos privilégios de cobrir semana de moda é poder ver as coleções no dia seguinte e “pegar” nas roupas), isso se traduz em peças atemporais, que podem ser usadas hoje, no ano que vem ou em dez anos. Isso porque são tão benfeitas que, se bem-cuidadas, se tornam “acervo”, ou seja, passam de mãe para filha, neta etc. Como exemplo, vestidos “básicos” cobertos por bordados primorosos feitos em lantejoulas, as mesmas que aparecem compondo desenhos em casacos e tops. É uma aposta de risco, principalmente em se tratando de uma marca que não está entre as mais lucrativas do mundo, mas, de Miuccia, uma mulher conhecida por seu engajamento e sua refinada pesquisa, não se espera outra coisa.

A moda me salvou ao me permitir demonstrar atitude e criar uma personalidade (Foto: Arquivo pessoal)

Michele, por sua vez, deixou fashionistas boquiabertos ao propor um rompimento contra os “mecanismos que subjulgam e impõem regras de comportamento que são internalizadas pelos indivíduos”. Atento a essa onda conservadora que se espalha pelo mundo na forma de governos semiditatoriais e politicamente incorretos que atuam contra a globalização e para os quais é permitido desrespeitar as minorias, o estilista italiano, um do mais inovadores em atividade, sugere uma moda radical. Essa ideia, que tem como base uma teoria do filósofo Michel Foucault que fala sobre “biopolítica” (o poder das instituições sobre a vida e os corpos das pessoas) foi representada na passarela, primeiro, por modelos vestidos de branco da cabeça aos pés (algo impensável para a colorida Gucci), imóveis sobre passarelas rolantes, presos à camisas de força (muito desejáveis, por sinal), num ambiente que se assemelhava a um manicômio. Ao toque de uma sirene, o apagar de luzes, o cenário se torna quente, colorido (assista ao vídeo, é imperdível), e uma coleção cujo destaque são as peças do universo SM –vestidos transparentes usados com calcinhas fio dental, rendas– são o destaque, além do colorido e das referências aos anos 70 que fizeram a fama de Michele. Ao final, a palavra “orgasmique” impressa em uma bolsa resume o espírito da estação, que insinua o desejo, o sexo, o punk e os extremos como antídoto contra a caretice que tentam nos fazer descer goela abaixo (não sucumbiremos!).

Há, é claro, o espetáculo por si só e o escapismo. Ver J.Lo cruzar a passarela da Versace com a nova e ainda mais sexy versão do Jungle Dress, o vestido usado por ela no Grammy em 2000 –que, de tantas buscas nas redes, levou o Google a criar o Google Images–, me deixou, literalmente, sem voz. Assistir a uma apresentação da Dolce & Gabbana em seu habitat natural –com mulheres usando roupas e acessórios da marca da coroa ao sapato– é uma experiência antropológica que te faz sentir num filme de Federico Fellini, ou embarcar no psicodelismo flower power de Fendi e Peter Pilotto inspiram a ousar e sonhar.

No fim, pode até ser que tudo se resuma apenas a “vender roupas”, mas é bom pensar que existe muito mais por trás das peças que você escolhe para compor sua personalidade –sejam elas de supergrifes ou do brechó da esquina– do que apenas a indústria. Eu sigo querendo ser diferente (o mais possível!).

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