Rádios independentes brasileiras crescem na contramão dos algoritmos

Projetos abrem espaço a artistas que não caem nas listas de grandes estações ou das plataformas de streaming
Felipe Maia

O coletivo Metanol, que tem em suas atividades festas gratuitas de rua e programa de rádio online – Gabriel Cabral/Folhapress

Ao menos uma vez por semana, a publicitária Natalia França ouve música em rádios independentes. Em vez de playlists no Spotify ou estações FM, ela escuta a seleções feitas por DJs que vão de faixas garimpadas em lojas de vinil a lançamentos que chegam a poucos ouvidos.

Essas plataformas, funcionando integralmente online, formam um movimento que vem crescendo no Brasil em contraponto à pasteurização de rádios comerciais ou à onipresença dos algoritmos do streaming.

“Quando é uma rádio dessas, tem uma pessoa por trás das músicas, e isso me leva para algo mais emocional, algo menos frio, parece que estou conhecendo um pouco do que a pessoa tem a falar”, diz Natalia, ouvinte contumaz da rádio NaManteiga, de São Paulo.

A capital reúne ainda a Veneno, a Cereal Melodia, a Víruss e a veterana Metanol. Mesclando transmissão contínua e programas esporádicos a uma ferrenha curadoria, elas se juntam a nomes como Nas Radio Show, de Porto Alegre, e Magma Radio, do Rio de Janeiro. ​

“A curadoria de quem vai tocar na rádio cria recortes específicos sobre temas que dificilmente você encontra no streaming. Num mundo em que tudo é por algoritmo, botar a escolha na mão de alguém é quase uma contracultura”, explica Thiago Arantes. Ele é um dos fundadores da NaManteiga ao lado do DJ Caio Taborda e do publicitário Marcel Guainaim. 

O projeto começou em 2015 em uma pequena sala da Galeria Ouro Fino, na rua Augusta, por onde já passaram DJs e produtores de diferentes escolas, origens e países. É o caso dos coletivos Discopédia e Feminine Hi-Fi e habitués de clubes internacionais como DJ Marky e Laurent Garnier. Em troca do espaço para tocar, os artistas não cobram cachê. A rádio é mantida pelos próprios fundadores e por algumas parcerias pagas. 

A Veneno opera no mesmo esquema desde outubro de 2018 em uma saleta na Vila Madalena. A plataforma também transmite seus programas sem interrupção em um site próprio. Segundo Rico Jorge, músico que comanda o projeto ao lado do pesquisador Rafael Toledo, a rádio tem cerca de trinta mil acessos por mês.

“Por mais que você tenha uma busca ou um conhecimento, você pode virar um refém do algoritmo”, explica Jorge. “Só o fato de ter um site também já é um contraponto aos serviços de streaming porque essa página não é limitada a certo algoritmo.”

O artista vê o surgimento de rádios independentes em São Paulo também como resposta às dificuldades práticas da cena noturna. Na primeira metade desta década, a cidade experimentou um boom de festas promovidas por coletivos e DJs de diferentes estilos: Carlos Capslock, Venga Venga e Mamba Negra são alguns dos nomes que surgiram na época. 

“Hoje ficou inviável fazer festas, a prefeitura começou a inviabilizar os alvarás, as companhias que tomam conta dos espaços começaram a cobrar alto”, diz Jorge. “Esse movimento das rádios está em ascendência pela forma com que a cena tem se gerido, e nesse circuito as pessoas tem sido bem abertas.”

Taborda ressalta que os custos de uma rádio independente online nem se comparam ao orçamento de uma difusora tradicional, que podem incluir manutenção de uma estrutura parruda e pagamentos ao Ecad. 

Toca-discos ou picapes, uma mesa de som, uma câmera e um computador que conecte esse sistema à internet são suficientes para botar a rádio para cima. O DJ estima um valor máximo de R$ 5 mil para dar um pontapé inicial. “Se o cara fizer algo do quarto dele, com R$ 500 dá para fazer. Se ele tiver os equipamentos, pode não custar nada”, explica Taborda.

A transmissão fica por conta de serviços de áudio, como SoundCloud ou Mixcloud, ou vídeo, como Facebook Live e YouTube. Nesse estágio, contudo, volta à cena o enigmático e onipresente algoritmo.

Essas plataformas rodam sistemas de rastreamento de músicas que, ao identificar uma faixa protegida por direitos autorais, podem tirar uma transmissão do ar ou eliminar uma gravação disponível para download. 

“É o Shazam do mal”, diz Taborda, em referência ao aplicativo que pode identificar músicas. Segundo ele, cerca de 70% dos programas da NaManteiga foram retirados do YouTube nos seus primeiros meses de atividade. 

A limitação criou uma prática curiosa entre DJs: os sets à prova de algoritmo. Seleções mais lapidadas, escolhas pouco ortodoxas e artistas desconhecidos tornaram-se a tônica entre alguns seletores. A ideia é evitar músicas muito populares e tocar faixas inexistentes ou pouco acessadas na base de dados desses robôs de rastreamento.

Conflitos com a regulação vigente não são novidade para rádios de música independentes. A necessidade de uma concessão para radiodifusão forçou a criação de centenas de rádios piratas pelo mundo até meados dos anos 1990. Na Inglaterra, novas ondas da música eletrônica são até hoje acompanhadas por novos projetos do tipo. É o caso da Rinse, da NTS ou da Reprezent Radio.

Jorge lembra que uma das inspirações para a criação da Veneno foram justamente as rádios britânicas, ponto compartilhado pelos fundadores da NaManteiga. Se a internet hoje parece indissociável do oráculo do algoritmo, ela também favorece a um maior contato entre projetos do Brasil e do mundo. “Não é muito mapeado esse movimento, mas existe uma grande comunidade de rádios online, e todos tem os mesmos problemas que a gente”, diz Taborda.

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