Como o mundo da arte está reagindo ao Brexit

Eventos e exposições em Londres mostram que o mercado de arte tenta passar incólume pela saída da União Europeia
Scott Reyburn, O Estado de S.Paulo

Da esquerda para a direita: ‘Untitled’ (1986), ‘Treppenhaus Rund’ (1982) e ‘Als Hätte Man Mir die Muschel’ (1982), de Albert Oehlen, na Galerie Max Hetzler Foto: Albert Oehlen/Galerie Max Hetzler

LONDRES — A Grã-Bretanha está em convulsão por causa do Brexit, mas o mundo da arte contemporânea e 0,1% da população que o faz se movimentar continuam a vida normal. Pelo menos parece.

Esta semana milhares de colecionadores internacionais, marchands e curadores se reúnem para as feiras de arte Frieze London e  Frieze Masters em Regent’s Park, além da muitas mostras de comerciantes de arte, leilões e outros eventos paralelos.

“Em termos geopolíticos parece que o mundo está caminhando na direção errada, mas o mercado de arte segue em frente”, disse Wendy Cromwell, conselheira de arte sediada em Nova York, que, estava em Londres para participar dos eventos.

“As vendas primárias estão ativas e vão bem, como também o mercado secundário de obras raras, de alta qualidade e sob demanda, referindo-se ao mercado de novas obras de galerias comerciais, no mercado primário, e os negócios no “secundário” no caso de peças revendidas, como aos leilões.

“O material dos leilões está mais fraco este ano com as preocupações em torno do Brexit, disse Wendy Cromwell, que não sabia que um Bansky fora leiloado pela Sotheby’s na quinta-feira por US$ 12 milhões. “Mas a libra teve uma queda recorde, de modo que essas vendas favorecem os ousados”.

Os leilões menos espetaculares (Bansky à parte) foram equilibrados por uma série formidável de mostras realizadas por marchands de obras de arte. Dentro um espaço de pouco mais de dois quilômetros quadrados no centro da cidade havia novos trabalhos assinados por Mark Bradford à venda na Hauser & Wirth, de Damien Hirst na White Cube e de Peter Doig na galeria de Michael Werner.

Uma exposição de pinturas novas e antigas do admirado artista alemão Albert Oehlen na Serpentine Gallery animou as ofertas no discreto mercado secundário de obras mais antigas de Oehlen nas galerias Max Hetzler e Lévy Gorvy. E até uma mostra de novas pinturas e esculturas do popular artista de rua americano KAWS na galeria Skarstedt.

Impulsionado pelos recentes resultados excepcionais nos leilões, KAWS se tornou um fenômeno de mercado. A galeria Skarstedt ofereceu 10 novas pinturas abstratas em acrílico do artista, como também duas esculturas enormes em resina, e todas foram vendidas.  Os preços das pinturas variavam de US$ 450.000 a US$ 575.000, ao passo que as esculturas, cada uma disponível uma edição total de sete, eram oferecidas a US$ 850.000 cada uma.

“O problema é que se é uma boa mostra, 200 pessoas querem comprar”, disse Candace Worth, outro conselheiro de arte de Nova York. “Há uma enorme clientela para um número relativamente pequeno de artistas. É uma panela de pressão”.

Um exemplo foi a exposição na Stephen Friedman Gallery de 20 novos pinturas e trabalhos em papel da artista sul-africana Lisa Brice, que realizou uma exposição individual na Tate Britain em 2018.

“Confrontar e reinterpretar as representações tradicionais do nu feminino a partir da perspectiva de uma artista mulher”, segundo comentário da galeria, essas imagens politicamente carregadas estavam perfeitamente em sintonia com a missão de muitos curadores de museus e colecionadores privados de ampliar o cânone histórico. As obras dela foram vendidas por valores variando de US$ 11.000 pelas gravuras a US$ 213.000 pelos biombos pintados, disse Mira Dimitrova, porta-voz da galeria.

Os trabalhos de artistas mulheres afro-americanas são imensamente populares no mercado atual. Na quarta-feira, no vernissage da Frieze London, novas pinturas de Jack Whitten que foram apresentadas na exposição da Tate de 2017 intitulada “Soul of a Nation: Art in the Age of Black Power”, e de Kerry James Marshall foram rapidamente vendidas.

A obra de Marshall , muito irônica, intitulada Car Girl 2, mostrando uma mulher se inclinando num carro do qual um cachorro aparece na janela foi vendida pelo marchand de Nova York, David Zwirner, por US$ 3,8 milhões, ao passo que a Lisson Gallery, de Londres, vendeu quatro novos abstratos geométricos coloridos de Whitten por preços entre US$ 350.000 e US$ 450.000 para compradores do Oriente Médio, Noruega e Estados Unidos.  

Enquanto a Frieze London no seu vernissage estava lotada, a atmosfera era bem mais contida no evento irmão, Frieze Masters, que apresenta uma mistura “cruzada” de obras abrangendo 6.000 anos. Os velhos mestres foram vendidos agressivamente neste elegante evento, como também os mestres do século 20. Marchands influentes do mercado secundário no campo da arte moderna, como Lévy Gorvy e Luxembourg & Dayab, ambos com sedes em Nova York e Londres, e a Galería Elvira González, de Madrid, foram os grandes ausentes desta última edição.

Mas na quarta-feira o marchand nova-iorquino Van de Weghe vendeu uma pintura de Jean-Michel Basquiat, de 1986, por US$ 2,2 milhões, e a galeria londrina Moretti Fine Ar encontrou um comprador para uma pintura florentina de 1.400, Christ at the Column, avaliada em US$ 200.000.

Com o aceno do Brexit e grandes galerias como David Zwirner, White Cube e Pace abrindo espaço alternativos em Paris, conseguirá Londres manter sua posição antiga de capital internacional do mercado de arte europeu?

Max Edouard Hetzler, marchand de arte contemporânea com galerias em Berlim, Paris e Londres, acha que a capital britânica não vai ceder esse status em breve. A galeria de Hetzler no elegante distrito de Mayfair está com uma mostra de sete Spiegelbilder, de Albert Oehlen, pertencentes a coleções privadas. Algumas obras foram colocadas à venda, com preços que variam de US$ 2 milhões a US$ 4 milhões.

“Há muitos museus, escolas de arte e coleções em Londres. E não sairão daqui”, disse Hetzler.

Tradução de Terezinha Martino

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