Dificilmente alguém pergunta a uma mãe se ela está bem

Mesmo se essa mãe for a duquesa Meghan Markle
RITA LISAUSKAS

Imagem: Reprodução ITV

A imagem da duquesa de Sussex, Meghan Markle, visivelmente emocionada respondendo à simples pergunta “como está a sua vida de mãe de primeira viagem?” pipocou na minha timeline e senti um aperto no peito ao ouvir sua resposta. A atriz começou dizendo que muitas mulheres se sentem vulneráveis quando estão grávidas e continuam frágeis ao enfrentar os primeiros tempos com um recém-nascido. “Você sabe como é”, comentou com o repórter, que assentiu e disse que lembrava bem das dificuldades que passou, mesmo tendo filhos já crescidos. Meghan parece se sentir acolhida com a colocação e agradece à pergunta, “ultimamente poucas pessoas têm me perguntando se estou bem”, diz, magoada.

A entrevista com a esposa do príncipe Harry, o sexto na sucessão pelo trono britânico, faz parte do documentário “Harry & Meghan, an African Journey”, exibido no último dia 20 pela ITV na Grã-Bretanha e produzido por uma equipe que acompanhou a viagem dos dois à África. Toda narrativa parece desenhada para vender a imagem de perfeição do novo casal real – e a gente sabe o quanto a sobrevivência da monarquia britânica depende da veneração dos seus súditos. Por isso, Meghan aparece rindo, brincando e abraçando crianças africanas em cenas que nos lembram as viagens da princesa Diana, mãe de Harry. O príncipe é mostrado quase sempre em companhia da esposa e do filho Archie, 5 meses. O documentário parece uma tentativa de humanizar a figura de Meghan que desde que se mostrou avessa ao excesso de regras reais e de invasão de sua privacidade e do seu filho, começou a ser massacrada pela imprensa.

Faça um exercício e jogue no googgle “Meghan Markle criticada” e entenda o que ela está falando. Meghan é alvo diário da imprensa britânica, vejo em uma primeira reportagem. Grávida, “tocava muito a barriga”, aponta uma publicação. “Já sabemos que você está grávida, não precisa chamar atenção o tempo todo!”, escreveu outro jornal, de forma muito, muito cruel. Também são comuns os textos que a compara com a cunhada Kate Middleton que, ao contrário dela, “nasceu para ser mãe”. Foi alvo de mais críticas ao ousar batizar o filho em uma cerimônia a portas fechadas, sem a participação da imprensa. Nem a divulgação da foto oficial no site da realeza aplacou o ódio contra Markle, já conhecida pelo epíteto “a duquesa difícil”. Qualquer mulher que questiona o status quo recebe uma alcunha como essa, já reparou?

Claro que Meghan não tem que se desdobrar em três como muitas de nós para dar conta de filho, de casa e de trabalho. Mas o julgamento que está enfrentando nós conhecemos muito bem, porque somos submetidas a ele. Se você trabalha demais, “não está nem aí para o bebê”. Se decide parar de trabalhar para cuidar de filho está “jogando fora a vida profissional”. Já tive meu bebê tirado do colo por uma mulher enquanto tentava consolá-lo porque, segundo ela, eu “não sabia” acalmar meu próprio filho. Uma conhecida foi denunciada ao conselho tutelar pela sogra porque o bebê era amamentado “só” com leite materno. E há alguns anos lembro de uma mãe que foi massacrada nas redes sociais porque o filho estava dormindo sobre uma fraldinha de pano no chão de um aeroporto.

Agora imagina só se cada vez que estivéssemos frágeis, tateando para entender como lidar com os nossos filhos e com a nova realidade de mãe aparecesse um paparazzo para nos fotografar e oferecer a foto para alguma publicação apontar o dedo ao que “fazemos de errado”. “Rita leva o filho para passear sem casaco em dia de frio.” ou então“Fernanda deixa a filha comer fast food”, “Daniela falta em mais uma reunião de trabalho porque seu bebê ficou doente”.  Pense como se sentiria se todas as suas escolhas e decisões virassem manchetes nos portais, alimentando uma caixa de comentários de leitores não menos cruéis que os jornalistas:  “Relapsa”. “Mãe irresponsável.” “Péssima profissional.” Essa é a realidade diária de Meghan Markle, a mais nova Geni do povo britânico.

Harry – assim como os pais dos nossos filhos – jamais enfrentariam tamanho massacre. Qualquer deslize seria facilmente perdoado e um simples passeio no parque devidamente registrado nas redes sociais é capaz de transformar os homens em “ótimos pais”, estrelinha concedida inclusive àqueles que nunca lavaram o uniforme da escola, planejaram uma lancheira ou pagaram pensão alimentícia. E quando esses homens se descontrolam por qualquer motivo, adivinhe: a culpa também é nossa. Hoje mesmo li que Meghan (mas podia ser qualquer uma de nós) “bota fogo na instabilidade do marido”. Não, esse não era um comentário de um vizinho fofoqueiro. Quem infere isso é uma reportagem que ainda estampa uma foto da duquesa de Sussex com um ar maquiavélico.

O puerpério, aquele período de alguns meses após o parto, é altamente desafiador para as mulheres. Os hormônios sofrem uma queda brusca, a amamentação muitas vezes se mostra difícil, o sono parece que nunca mais será como antes. Também ficamos extremamente mexidas quando nos damos conta da responsabilidade que é cuidar e educar uma criança. E a angústia não é exceção, mas sim regra: oito em cada dez mulheres enfrentam no puerpério uma onda de tristeza chamada ‘baby blues’ e duas em cada dez encaram a temida depressão pós-parto. É uma fase de muitas mudanças e de poucas mãos estendidas, sejam essas mães princesas ou plebeias. E assim como fazem com a Meghan, dificilmente alguém nos pergunta se estamos bem.

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