Casa reformada em São Paulo ocupa terreno de só 3 metros de largura

Se as cidades de hoje pedem adensamento urbano, é preciso ocupar os mínimos espaços com inteligência. Exatamente o que propõe o escritório 23 Sul, ao implantar esta pequena joia arquitetônica sobre um terreno estreito e comprido, na zona oeste de São Paulo
TEXTO LARA MUNIZ | FOTOS PEDRO KOK/DIVULGAÇÃO

Vista externa desta mesma divisão evidencia como os espaços da residência distribuem-se em uma sequência sem corredores – o mesmo concreto lixado do piso, polido nos ambientes sociais, se repete nas áreas externas, em versão bruta

Foi na década de 1970 que o Sumarezinho, bairro na zona oeste de São Paulo, recebeu os primeiros habitantes. Logo as ruas abertas em ladeiras lotaram de casas erguidas com muita prática e pouca teoria. Hoje, quase 50 anos depois, não faltam predicados à região: há estações de metrô por perto, praças e parques ricos em áreas verdes e um silêncio quebrado apenas pelo canto dos pássaros. Todo esse conjunto deu a um casal – o diretor de filmes Caetano e a professora Lygia – o ânimo de erguer ali, num lote magrinho encontrado na vizinhança, uma morada cheia de boas sacadas.

Nada de alvenaria na parede frontal da casa: vidro e caixilharia dão conta do fechamento da fachada, solução engenhosa que garante luminosidade e segurança de uma só vez – no mobiliário, destaque para a cadeira Paulistano, de Paulo Mendes da Rocha, na Futon Company, e para o sofá da Oppa

Da antiga estrutura que existia, pouco restou. “Aproveitamos algumas lajes e as paredes dos vizinhos”, revela Gaú Manzi, arquiteto do escritório local 23 Sul, responsável pela obra. Daí vem a dúvida: falamos de uma reforma ou de uma construção? Gaú diz que é reforma. Caetano até concorda, mas se lembra do frio na barriga que sentiu ao ver o céu através da laje original logo no primeiro dia de demolição.

A sauna, voltada para o jardim a pedido do morador, se transformou em um dos lugares mais queridos do lar

Apesar de estreita, a casa soma praticamente 100 m² de área construída ao longo dos três pavimentos de 3 x 33 m – suficiente para abrigar todos os gostos e sonhos do casal. É na distribuição que brilha a inteligência do projeto. “Reduzimos as áreas de circulação e criamos uma sequência de ambientes. Primeiro vem a sala, depois a cozinha, mas praticamente não há corredores”, detalha Gaú. O processo exigiu atenção extra, já que cada centímetro fazia diferença na contagem final – sem mencionar os desafios logísticos. “Não havia espaço no terreno para guardar materiais. Precisávamos usar tudo o que estava disponível antes de receber uma nova entrega”, lembra o arquiteto.

As duas suítes receberam pisos e armários de tauari

Uma surpreendente luminosidade permeia a residência, a despeito do extenso comprimento e dos muitos andares, combinação que costuma roubar claridade nos tradicionais sobradinhos paulistanos. A resposta para o potencial problema foi dada ainda na etapa de projeto: frente e fundos ganharam fechamento com caixilho feito sob medida, de modo que a luz tem passagem livre. Outra solução criativa é a passarela de chapa metálica perfurada ao lado da escada: a peça traz leveza e não bloqueia o caminho do sol.

Surpreendentemente para uma casa estreita e comprida, nem mesmo o espaço sob a escada fica escuro, graças aos degraus vazados e às brechas da chapa metálica perfurada que une as duas suítes no pavimento mais alto

Os econômicos 3 m de largura, embora possam remeter a um apartamento para alguns, não incomodamos proprietários – muito pelo contrário. É o todo do projeto, com seus detalhes e sutilezas, que explica a sensação de liberdade experimentada diariamente pela dupla. A expectativa de viver desse modo os fez encarar a empreitada e decidir trocar de vez a vida em um prédio pela rotina em uma casa, ainda que compacta, com tudo o que desejavam. “Temos uma sauna particular nos fundos e a vista é bonita das varandas. Assim que passamos pelo portão amarelo já estamos na rua”, comenta Caetano. “Morando em um lugar menor, temos menos trabalho e menos gastos com manutenção. Poucas coisas superam o conforto de abrir a porta e pisar na grama”. Dimensão limitada, comodidade máxima.

Os 100 m² dividem-se em três pavimentos de 3 x 33 m: na fachada posterior, a aparência brutalista contrasta com o clima acolhedor

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