Nova biografia de Janis Joplin mostra os preconceitos e os amores da superestrela do rock

Escrito por Holly George-Warren, obra mostra as aventuras e as dores da primeira mulher a conquistar um gênero até então dominado por homens
Dwight Garner, The New York Times

Janis Joplin
Cena do documentário ‘Janis: Little Girl Blue’, dirigido pela americana Amy J. Berg e lançado em 2016 Foto: Zeta Filmes/ Divulgação

Se não tivesse morrido aos 27 anos de overdose de heroína, Janis Joplin teria hoje 76 anos – dois anos menos que Paul Simon e quatro menos que Mavis Staples. Cantores e cantoras de vozes cáusticas costumam envelhecer muito bem – já ouviu o último álbum da Marianne Faithfull? A gente fica imaginando os discos que Joplin teria gravado.

Janis, a nova biografia assinada pela crítica musical Holly George-Warren, presta o grande serviço de acabar com muitos dos ruídos que cercam Joplin – hilária e obscena, ela foi a primeira estrela feminina do rock dos Estados Unidos, a gatinha autodestrutiva de Haight-Ashbury – e conta sua história de maneira clara e simples, com algo do tom e do sabor de um bom romance.

É, fundamentalmente, a história de uma desajustada da era Eisenhower – e existem muitas outras. Mas a história de Joplin tem uma carga especial de dor. Antes de abraçá-la, o Texas a transformou em uma pária. Ela cresceu em Port Arthur, uma cidade petrolífera e conservadora na Costa do Golfo, onde seu pai trabalhava na Texaco. Uma menina-moleque que desde cedo sabia que era diferente das outras.

Tinha sua sexualidade complicada (ela viria a se relacionar com mulheres e com homens) e havia também sua aparência, que ela odiava. “Achava que seu nariz era grande demais, que sua boca era grande demais”, comentou uma amiga. “E era cheia de sardas”. Joplin dizia que tinha “olhinhos de porco” e se queixava de seus cabelos rebeldes.

No Texas, porém, toda essa vibração de Joplin afastava as pessoas. Ela leu On the Road e começou a dizer que era beatnik. Passou a se vestir de maneira desleixada. E não recebeu nenhum convite para seu baile de formatura. Até mesmo os amigos mais próximos escreveram coisas cruéis em seu anuário.

Viajava com os garotos para ver as bandas de Louisiana, do outro lado da fronteira, e ganhou o rótulo de prostituta. Um jogador de futebol americano a apelidou de ‘Beat Weeds’, uma referência aos pelos pubianos. “Quando Janis andava pelo corredor”, escreve George-Warren, “os atletas da escola jogavam moedas de um centavo nela e a chamavam de ‘puta’ e ‘vagabunda’”.

Durante o breve período em que Joplin frequentou a Universidade do Texas, em Austin, uma fraternidade promoveu o concurso “O homem mais feio do câmpus”. Alguém deu um jeito de Joplin entrar e todos ergueram os cartazes, declarando voto nela.

Desde cedo, Joplin buscou refúgio na música. Era o tipo de fã que, depois de ouvir Elvis Presley cantar Hound Dog no rádio, procurava a gravação original de Willie Mae “Big Mama” Thornton – anos depois, Joplin faria sucesso com uma versão de Ball and Chain, de Thornton.

Sua personalidade forte tinha um lado sombrio: depressão, ansiedade, variações de humor. Tinha talento para os excessos e sempre trazia consigo um halo de inesgotável hedonismo. Fumava, bebia mais que todo mundo e entrou nas drogas lenta, mas entusiasticamente. Aos 22 anos, já estava viciada em metanfetamina. O resto da história de Joplin é mais conhecido. 

Ela se juntou à Big Brother and the Holding Company e se tornou uma estrela internacional depois da apresentação da banda no festival de Monterey, em 1967. Alguns achavam que os membros da Big Brother não estavam no mesmo nível musical da cantora; pouco depois, ela foi para carreira solo. 

Amores

George-Warren deve ter montado um banco de dados especial para listar os amores de Joplin. “Baby, faça enquanto pode”, ela cantava. E seguiu seu próprio conselho. Era uma onívora sexual. Joplin trocou de homens e mulheres como as pessoas trocam de roupa. Foi para a cama com marinheiros, músicos, fãs e membros do Hells Angels. Fez das suas quando precisou de dinheiro. Cruzou a fronteira do México por causa de um aborto. Ela teve relacionamentos com Ron “Pigpen” McKernan, do Grateful Dead, e com Country Joe McDonaldLeonard Cohen compôs Chelsea Hotel No. 2 para ela. Teve namoricos com Peter Coyote e Kris Kristofferson, de quem gravou uma versão de Me and Bobby McGee. Dormiu com Joe Namath e, provavelmente, como sugere George-Warren, com Joe NamathJimi Hendrix e Dick Cavett

Nem todo mundo gostava da sua música. “Quando quero ouvir negros cantando, ouço cantores negros”, disse Mick Jagger. As apresentações de Joplin eram tão intensas que faziam as pessoas temerem por sua segurança e sanidade. Escrevendo para a New Yorker, Willis descreveu um show de Joplin: “O mais emocionante e desgastante que já tive o privilégio de ver, ouvir e sentir”. Joplin se entregara tanto que Willis ficou preocupada, com razão. “Depois de dois bis, decidi: a partir de agora, paro de bater palmas”, escreveu.

(TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU)

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