As séries da nova Apple TV+: do mediano ao muito ruim

O novo serviço chamou de Reese Witherspoon a Jason Momoa e torrou grana, mas não adiantou: suas quatro estreias parecem algo tirado do forno antes da hora
Por Isabela Boscov

The Morning Show (Apple/Divulgação)

As grandes corporações adoram falar na “cultura” delas – seu jeito particular de fazer as coisas para assim incentivar as qualidades que as destacam. No caso da Apple, essas qualidades seriam o arrojo, a busca pelo perfeito e pelo único, a capacidade de criar produtos que imediatamente se tornam objetos de desejo porque não há nada na concorrência que sequer se compare a eles. Pois no serviço Apple TV+, lançado no último dia 1º de novembro, disso tudo só sobrou a arrogância de achar que, por ser Apple e ter custado caro, automaticamente vai ser melhor: das quatro séries para gente grande (há ainda três infantis e uma de natureza) com que o serviço estreou, não há nenhuma que se salve com alguma honra – sendo que See, com Jason Momoa, está além de qualquer possibilidade de salvação. Em maior ou menor grau, as quatro parecem algo tirado do forno antes de ter assado direito, e o que se vê na tela é um misto de amadorismo, ingenuidade e desconhecimento. Em tempo: só três episódios de cada série foram liberados. Os seguintes vão entrar no ar semanalmente.

Vamos lá, então, da menos ruim à catastrófica:

MEDIANA: “THE MORNING SHOW”

Steve Carell é o apresentador de um jornalístico matinal demitido em desonra, sob acusação de assédio sexual. Jennifer Aniston, sua companheira de bancada há quinze anos, fica segurando várias batatas quentes na mão: tem de lidar com a radiação dessa explosão, tem de convencer a audiência de que não sabia o que se passava debaixo de seu nariz e ainda tem de manobrar uma negociação ruim de contrato. Entra em cena Reese Witherspoon como a repórter que, por ser estourada, nunca conseguiu sair do circuito das emissoras locais de TV. Coisas totalmente previsíveis – e absolutamente implausíveis – acontecem. Mas acontecem len-ta-men-te, porque o roteiro não para de dar voltas em torno de si mesmo. Consta que a série já havia entrado em produção quando o #MeToo estourou e tudo foi reformulado. Em vão: as discussões soam requentadas e não parecem ter um argumento final em vista.. E, com o perdão dos fãs (que são muitos) da Rachel de Friends, acrescento às ressalvas o fato de que Jennifer Aniston parece ter recuperado todos os seus tiques de sitcom. No lado positivo da conta, coloco Reese Witherspoon, que consegue dar alguma forma humana a uma personagem escrita à base de clichês, e Billy Crudup, muito afiado e divertido como o executivo do canal.

Faltou aos produtores assistir a… The Good Wife, que dez anos atrás mostrou tintim por tintim, em 156 episódios na grande maioria irresistíveis, como é que se faz.

The Morning Show
(Apple/Divulgação)

VACILANTE: “DICKINSON”

A americana Emily Dickinson (1830-1886) escreveu mais de 1 700 poemas, mas teve menos de uma dúzia deles publicada em vida. A posteridade reconheceu o gênio de suas frases curtas, rimas internas, pontuação idiossincrática e honestidade feroz. Como moça de boa família nos Estados Unidos dos anos 1850, porém, Emily teve uma juventude asfixiante – que esta série com Hailee Steinfeld recria com ambientação de época mas com pegada, diálogos e trilha sonora (muito rap) contemporâneos. A ideia é, sim, interessante. Já a execução – essa denota que o conceito não foi pensado de ponta a ponta, e suas ramificações não foram inteiramente consideradas. Há alguns momentos verdadeiramente interessantes (a maneira como Emily vai concebendo o poema “Because I could not stop for Death / He kindly stopped for me”), mas há muitos outros mais que parecem de série adolescente do CW.

Faltou aos produtores assistir a… a sensacional Gentleman Jack, da HBO, que também trata de uma mulher – uma figura real, como Emily – deslocada no século 18 e prova que não é preciso modernizar à força para caracterizar espíritos à frente de seu tempo.

Dickinson
(Apple/Divulgação)

EQUIVOCADA: “FOR ALL MANKIND”

Uma série sobre a corrida espacial dos anos 60 com Joel Kinnaman? Estou nessa, pensei – até, aos 10 minutos, notar que For All Mankind é daqueles roteiros de “história alternativa”: aqui, os soviéticos chegam à Lua antes da Apollo 11, o que primeiro tira dos trilhos e depois transforma todo o programa americano. O astronauta interpretado por Kinnaman é inventado, mas ele convive na trama com um sem-número de personagens verídicos que se veem obrigados a fazer coisas que nunca fizeram. Estão aqui o célebre diretor de voo Gene Krantz, o chefe de programa Deke Slayton, o gênio da propulsão a jato Wernher von Braun, o astronauta Neil Armstrong – quase todos interpretados por atores assim-assim, dizendo falas chochas e, coitados, indo contra seus prováveis princípios de cientistas sérios ao protagonizar desdobramentos fictícios (e tolos) de eventos reais e assim induzir o espectador ao erro e à confusão. Primeiro, então, há a questão do desserviço histórico. Segundo: o que não faltou na corrida espacial foi drama da mais alta estirpe, e não era preciso inventar mais nada. Terceiro e mais importante: é tudo morno, escrito nas coxas e com aquela cara de produção de segunda linha de série do History.

Faltou aos roteiristas assistir a… Os EleitosApollo 13From the Earth to the MoonO Primeiro Homem… Todo mundo já fez melhor.

For All Mankind
(Apple/Divulgação)

DESASTROSA: “SEE”

É inacreditável, mas See é de Steven Knight, o criador/roteirista/supervisor da soberba Peaky Blinders. Não faço a menor ideia do que Knight terá tomado, nem do que passava pela cabeça de quem aprovou o piloto desta fantasia com Jason Momoa mais as ótimas (em outras situações) Alfre Woodard e Hera Hilmar. O fato é que See se parece com um Vikings que perdeu o caminho de casa e despencou do barranco (a pretensão era se parecer de alguma forma com Game of Thrones – mas nem de brincadeira). No século 21, um vírus roubou a visão a quase toda a humanidade. Passados vários séculos, o sentido da visão se tornou um mito classificado como bruxaria; a civilização regrediu a sistemas tribais e caminha às cegas (não resisti). E então a mulher de Momoa dá à luz um casal de gêmeos que enxerga muito bem, e é preciso escondê-los dos caçadores de bruxas. Os três primeiros episódios não sabem se vêm ou se vão; a concepção visual é espalhafatosa mas curiosamente banal; os diálogos são vazios e repetitivos – e nada, mas nada mesmo, empolga. O aspecto mais decepcionante, porém, é que nada na maneira como See é filmada recria a sensação de um mundo envolto na cegueira. E o que é essa gafe do “Skol, Skol! Ó o latão Skol”????

Faltou aos produtores… parar de pensar em Game of Thrones, que é um patamar inatingível para See. Eu recomendaria que eles assistissem antes de tudo a A Bruxa, um exemplo impecável de como, sem necessidade de inventar muita moda, mergulhar o espectador em um mundo estranho e assustador.

See
(Apple/Divulgação)
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