Maryam Touzani mostra uma discreta janela árabe em ‘Adam’

Diretora e roteirista conta como surgiu o filme indicado pelo Marrocos para concorrer ao Oscar
Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

Intimismo. Mulheres, ações do cotidiano e o imenso talento de Lubna Azabal Foto: ARTEPLEX FILMES

Maryam Touzani conversa com o Estado de sua casa, em Casablanca. Nas últimas semanas, tem feito a rota para os EUA, mais exatamente a Costa Oeste. Seu longa Adam, que estreou na quinta, 14, foi indicado pelo Marrocos para concorrer a uma vaga no Oscar de melhor filme internacional. Tem conhecido muita gente. Voltou para casa porque haveria uma sessão com debate na universidade de Casablanca, e ela queria estar lá. Contou a gênese.

Estava grávida, e é um momento muito particular na vida de uma mulher. Veio-me uma história que vivi, ou da qual fui testemunha. Quando estava na faculdade, no estrangeiro, voltei para casa num período de férias. Minha mãe dera guarida a uma grávida que não teria como criar seu bebê. Ela o estava gerando para dar em adoção. Acompanhei o processo no seu final, a dor dessa mulher que não queria se apegar ao bebê. A história voltou quando gerava meu filho. Comecei a pensar, e se ocorresse comigo? O filme e o bebê foram gestados juntos. Lembro da excitação do primeiro chute, que foi um pouco semelhante ao momento em que o roteiro começou a tomar forma no computador. O filme que eu queria fazer.”

E que filme era esse? “Um filme intimista, pequeno no formato, mas com uma ambição. Queria dar voz às mulheres, filmar sua condição humana e social. Samia está na rua, terá esse filho e se livrará dele para poder voltar para casa. Abla cria a filha sozinha, após a morte do marido. Tudo o que as separa também as aproxima.”

Na trama de Adam, Samia, acolhida por Abla, começa a ajudá-la em seu pequeno negócio. Pães, massas. Um lugar pequeno, apertado. Uma janela para o mundo, que passa ali fora.

Ecos de Alfred Hitchcock, mas Janela Indiscreta era sobre um crime. Claro, Hitchcock é sinônimo de suspense. Maryam queria apenas olhar o mundo, recriar o mundo lá fora. Os efeitos sobre as mulheres aqui dentro. Seu marido, o cineasta Nabil Ayouch, foi o produtor. “Me deu as condições de fazer o filme, mas dizia que a obra era minha e não ia interferir em nada.”

Na fase da escrita, Maryam via Samia com a cara daquela jovem que havia conhecido. Pensou em fazer o filme com não profissionais, mas resolveu mesclar atrizes com o espetáculo da vida lá fora, e dosar situações recriadas com flagrantes arrancados à realidade. Filmou com Lubna Azabal, que fora atriz de seu marido e hoje mora na Bélgica. “Ela topou, mas eu queria que fosse uma autêntica mulher da Medina. Lubna viveu a rotina. Foi ao mercado, fez o pão, a massa. É um filme simples, mas verdadeiro, feito de emoções sinceras”, define.

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