A Vida Invisível: “filme tem uma missão social e ética de dar luz a essas mulheres silenciadas”

As atrizes Julia Stockler e Carol Duarte fazem suas estreias no cinema em A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, que busca uma vaga no Oscar 2020; Confira uma entrevista exclusiva com as protagonistas e com o diretor
CHANTAL SORDI

Julia usa vestido Atelier Le Lis. Carol, blazer Argalji + Discreta Estúdio (Foto: Marina Benzaquem)

As atrizes Carol Duarte e Julia Stockler não se conheciam antes de serem aprovadas para os papéis das irmãs Guida e Eurídice Gusmão no novo filme do diretor Karim Aïnouz, A Vida Invisível, que desde sua apresentação em Cannes, em maio, venceu a mostra Um Certo Olhar (sendo o primeiro brasileiro a levar o prêmio maior da competição paralela à oficial do festival francês) e já contabiliza mais de 14 vitórias em diferentes festivais, além de ter sido selecionado para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro.

Ambientado no Rio de Janeiro dos anos 50, A Vida Invisível (baseado no romance homônimo de Martha Batalha) estreia dia 21 no Brasil e retrata a vida das duas irmãs em meio a uma sociedade machista. Sempre unidas, elas compartilham sonhos e planos até que uma gravidez aos 18 anos faz comque Guida seja rejeitada pela família. Separadas, elas passam a vida tentando se reencontrar.

No elenco também estão Gregorio Duvivier, Bárbara Santos, Flavia Gusmão e Fernanda Montenegro. “Nós tivemos um mês para ficar loucas uma pela outra e fazer com que a ausência fosse muito presente”, conta Carol, em entrevista à Vogue. “A Nina (Kopko, diretora-assistente do longa) foi muito certeira na preparação, chegando até a entrevistar mulheres que viveram naquela época”, completa a atriz paulista, atualmente em cartaz em São Paulo com a peça As Siamesas – Talvez Eu Desmaie no Front. “Houve uma pesquisa grande sobre o período, mas era importante não imitar os jeitos das pessoas, e sim entender como estavam a situação política e o ambiente do Rio para o sexo feminino naquele momento”, recorda Carol, que faz um excelente trabalho ao representar uma mulher silenciada no ambiente privado, enquanto Julia, igualmente talentosa na pele de Guida, representa a opressão no âmbito público. “A Eurídice é sobre o não falar, sobre engolir e buscar formas de se expressar neste cenário do casamento, em que a violência é muito sutil e no filme isso se transparece de diversas formas”, explica.

Além das oito horas diárias de ensaios, realizados de segunda a sábado, Julia e Carol aprenderam a bordar, tiveram aulas de etiqueta, de grego e de piano. “O bordado foi pela época, mas também por ser uma técnica de concentração”, conta Julia. “Foi muito intenso, especialmente porque não sabia nada sobre a Carol e tivemos que construir essa relação de muito carinho e amor.” Para isso, as duas fizeram desde exercícios sensoriais até improvisações no set, onde ninguém podia usar celular e nem falar com elas, exceto os diretores. Lá, eram Eurídice e Guida. “Muitas vezes recebíamos a cena na noite anterior à filmagem, pois Karim não queria que cristalizássemos as palavras”, diz a atriz carioca, que agora vive Justina na novela Éramos Seis, na Rede Globo. “Também mantínhamos diários das personagens para criar as memórias e a falta”, completa Carol.

Carol Duarte (à esq.) usa top Andrea Bogosian para Ka Store e calça MSGM na NK Store. Julia veste camisa MSGM na NK Store (Foto: Marina Benzaquem)

“Fui me encantando com as duas”, revela Karim Aïnouz, que buscou no teatro o time de atores deste projeto. “O filme está sempre no limite do excesso da interpretação. Ele não tem um estilo naturalista clássico, então procurei mulheres jovens, mas que tivessem um repertório de interpretação teatral mais sólido e conhecessem bem o processo”, diz. Para a seleção, o diretor cearense realizou dois testes: um em que os atores descascavam batatas, “para entender seus limites de carisma”, depois, com os nomes pré-aprovados, outro com leituras de textos selecionados por ele. Julia se destacou logo de cara. “Acho que ela estava tão aflita de fazer aquilo (descascar batatas) que uma hora acendeu um cigarro, mas de um jeito tão verdadeiro, que pensei: quem é essa maluca desobedecendo o que pedi e fumando no meio do teste?”, recorda Aïnouz, aos risos. “Foi muito bonito, pois tinha muita genuinidade naquela ação”, elogia.

Enquanto Carol impressionou por seu tempo dramático e jeito misterioso – “você não sabe quem está ali ou o que ela está pensando, acho isso muito fascinante em uma atriz” –, com Julia a voltagem era mais alta. “Foi intenso. Ela fez várias versões do mesmo texto e tinha a questão do corpo, que era importante, então incluímos danças.”

Sempre se perguntando sobre o seu lugar de fala num projeto essencialmente feminino, Karim também cuidou para que as chefes de departamentos, como som e fotografia, fossem mulheres, originando uma equipe 90% feminina. “Desde que o Rodrigo Teixeira (produtor) me mostrou o livro, eu me questionava se tinha direito de contar essa história e, se pudesse, como faria isso, pois não queria, por exemplo, um homem pegando na coxa da Julia para colocar o microfone.” Além das questões práticas, era fundamental criar um campo magnético no ambiente de filmagem que não expusesse as atrizes e onde o diretor tivesse acesso a essa sensibilidade. “Queria outro clima, que não fosse o dos homens brincando com máquinas, como funciona geralmente nesses departamentos do cinema. Foi bonito gerar algo mais horizontal.”

O resultado geral é uma obra poética e cheia de afeto, rica em detalhes e na qual toda mulher (não importa idade, origem ou classe social) irá se identificar de alguma maneira. “Acredito que o filme tem uma missão social e ética de dar luz a essas mulheres silenciadas”, pondera Julia. “Falamos dos anos 50, mas isso ainda acontece.” Carol concorda: “Talvez eu nunca tivesse me aprofundado tanto em me perguntar o que elas poderiam ter sido, se tivessem tido outra escolha”, reflete. “Penso também no quanto elas abriram caminho para nós e como foram fortes em aguentar tudo isso.”

Para Karim, o pensamento é similar tanto pela temática feminista do longa-metragem, que em tempos de #metoo nunca foi tão importante ser discutida, mas também pela possibilidade de concorrer ao Oscar neste período conturbado pelo qual o cinema nacional está passando. “Quando soube que iríamos representar o Brasil na disputa, pensei na enorme responsabilidade, mas ao mesmo tempo gostei do desafio. Acho que é um momento para a gente se afirmar”, diz. “Esse é um projeto que começou na retomada do cinema nacional, com a criação da Ancine (em 2001), e estamos colhendo os frutos – o Brasil teve mais de dez filmes no Festival de Berlim, vitórias históricas em Cannes tanto com A Vida Invisível quanto com Bacurau. Porém, o terreno está sendo queimado justamente agora, então estou empenhadíssimo nessa questão do Oscar, não por razões narcísicas, mas por posicionamento.”

Styling: Marina Brum
Cabelo e maquiagem: Bárbara Vitória Carvalho
Produção de moda: Aline Swoboda
Assistente de fotografia: João Rios
Agradecimentos: Nayde Pinto

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