‘Tela Quente’ vai a Themyscira: ‘Mulher-Maravilha’

Rodrigo Fonseca

Tem “Mulher-Maravilha” (2017) esta noite na TV aberta, na “Tela Quente”, em versão dublada com Flávia Saddy emprestando a voz à atriz Gal Gadot, que interpreta a princesa Diana. Sua bilheteria: US$ 821,8 milhões. A parte dois, “Wonder Woman 1984”, estreia por aqui em 4 de junho. Antes, sua protagonista passa por SP, na CCXP, no início de dezembro.

Sente-se um perfume de “O Resgate do Soldado Ryan” (1998) num canto deste farfalhante filme, aliás, em seu canto mais terno e vivo, no qual todas as dúvidas acerca de Gal (como estrela eficiente e transcendente) caem por terra. Embora sempre que se fale da obra-prima de Spielberg (no âmbito da guerra) a primeira citação costume ser referente à icônica sequência da batalha na Normandia, a passagem mais potente daquele cult, em termos de dramaturgia, é o trecho no qual o capitão vivido por Tom Hanks revela para sua tropa que era um professor de Redação e não um matador. Ali, há um sopro de desconserto, no qual os heróis caem do pedestal e experimentam o desamparo, sem máscaras.

Há um trecho na nova aventura da Princesa das Amazonas, criada por William Moulton Marston em 1941, na qual essa mesma sensação se faz sentir, impregnando o semblante da super-heroína a partir olhar de Gadot: o trecho no qual ela experimenta a felicidade e a gratidão de um grupo de aldeões ao qual acabou de salvar. Em cada um deles, há mais do que reverência: há uma centelha de conforto, de pertencimento. Uma centelha expressa pela diretora Patty Jenkins na tela com um filtro neorrealista, de melodrama social, de reflexão sobre a inclusão. Tem neorrealismo ali porque Patty – conhecida pelo patológico “Monster – Desejo Assassino” (2003) – é uma diretora com muito a dizer sobre fraturas existenciais de figuras em busca de pertença, de um lugar que as acolham. A Princesa Diana de Gal é alguém assim: precisa buscar uma relação especular que lhe dê segurança, porto. A jornada para debelar o Deus Ares, rival dos deuses apolíneos, pode ser um caminho para essa zona de conforto. E o abraço do piloto Steve Trevor (vivido com elegância por Chris Pine) também pode significar um abrigo. Isso porque Patty não fez o filme sexista (anti-homem) que se esperava, mas sim uma trama pautada pela delicadeza na qual todos os gêneros têm lugar.

É o próprio Trevor quem dá a dica ao expor que a Maldade da raça humana não é uma dádiva de Ares, mas sim uma questão de escolha e de natureza, que não passa por fisiologias, sejam masculinas ou femininas. Outro eco spielberguiano se remonta ao clima de Indiana Jones, na recriação da I Guerra Mundial em viagens pelo mundo. A vilã Dr. Maru, especialista em venenos vivida por Elena Anaya, tem todo o padrão dos vilões nazistas que Harrison Ford combatia com seu chicote.

Pautado pela equidade de gêneros, cuidadoso no trato das figuras masculinas, “Mulher-Maravilha” tem um roteiro maduro, pilotado com competência por Patty apesar da pífia assistência de produção a seu redor. A luta final do filme beira um desfile da Unidos de Cabuçu, mas não por equívoco da cineasta, e sim por falta de aparas na produção. Mas Gal Gadot, com seu sorriso neorrealista de Anna Magnani, impõe respeito como boa atriz. Ele tem, de sobra, a dádiva da sutileza.

p.s.: “Adoráveis Mulheres”, da Sony Pictures, será o filme de abertura do Festival do Rio 2019. Dirigido e escrito por Greta Gerwig, o longa é estrelado por Emma Watson, Saoirse Ronan, Florence Pugh. Ainda no elenco estão Meryl Streep e Timothée Chalamet. O filme é baseado no livro clássico de Louisa May Alcott e chega aos cinemas do Brasil em 09 de janeiro de 2020. O filme está sendo considerado forte candidato à premiação. A gala do Festival do Rio 2019 será dia 09 de dezembro, no Odeon.

p.s.2: Referência no teatro contemporâneo, a atriz, diretora e pesquisadora, Ana Kfouri lança nesta terça-feira, dia 26 de novembro, a partir das 19h, na Livraria Blooks, no Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo, o livro “Forças de um corpo vazado” (parceria das editoras 7Letras e PUC-Rio). O livro aprofunda e dá continuidade à pesquisa de linguagem que a encenadora vem desenvolvendo ao longo de 42 anos de carreira: pensar o corpo e a palavra tendo a linguagem como a viga mestra dessa questão. “Forças de um corpo vazado” é fruto da tese de doutorado da autora em Artes Visuais, na linha Poéticas Interdisciplinares na EBA/UFRJ, sob a orientação de Angela Leite Lopes, tradutora e dramaturgista. Conhecida por levar ao palco textos de literatura e filosofia – um arco que vai de Hilda Hilst a Valère Novarina, passando por Samuel Beckett –, Ana Kfouri deseja partilhar com o leitor a experiência corpo-palavra. Cria a noção de corpo vazado/corpo-sopro a partir daí. Como interlocutores nessa investigação da linguagem, e também da fala como criação, estão Gilles Deleuze, Samuel Beckett e Valère Novarina, entre outros, pensadores que vêm estimulando essas questões e inquietações em sua trajetória artística.

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