Grandes marcas copiam o trabalho de artesãos mexicanos que lutam por crédito

A iconografia distintiva usada pelo povo indígena Otomí atraiu atenção não solicitada de lojas de moda, que incorporaram imagens semelhantes em seus designs, muitas vezes sem crédito
Elisabeth Malkin, The New York Times

Os padrões variados dos têxteis desta região agora aparecem por toda parte, de bonés a tênis e canecas de café. Foto: Celia Talbot Tobin para The New York Times

SAN NICOLÁS, MÉXICO – Há um mistério por trás da origem das figuras pintadas no elaborado bordado de San Nicolas, uma aldeia no altiplano central do México. Mas para Glafira Candelaria José, que bordou essas imagens durante toda a sua vida, só pode haver uma fonte, “Diosito”, afirmou, usando a forma carinhosa de Deus em espanhol.

O desenho vívido dos artesãos da comunidade indígena Otomi desta área se inspira na flora e na fauna locais: veados, aves, leões da montanha e raposas. Nas últimas décadas, os artesãos de San Nicolás e de outras aldeias ao redor da cidade principal da região, Tenango de Doria, no estado de Hidalgo, transformaram uma habilidade que eles exerciam para sobreviver, em uma indústria caseira.

Os tenangos, como as peças bordadas são chamadas, chegaram ao mercado mundial. Nos últimos meses, as marcas internacionais andaram divulgando produtos decorados com a iconografia dos Otomis, sem mencionar a sua origem. Para alguns, trata-se de apropriação cultural, os aldeões a chamam plágio. Agora, as cópias internacionais resultaram em cartas duras do ministro da Cultura do México e renovadas discussões sobre a necessidade de proteger a propriedade intelectual das comunidades indígenas.

Vários artesãos tenangos começaram a registrar os seus desenhos de acordo com a legislação de direitos autorais do México. Entre eles, Adalberto Flores, que há três anos processou a Nestlé pela venda de uma caneca de cerâmica com imagens semelhantes às suas. A companhia negou ter cometido um crime, e o caso continua sem solução.

Ao mesmo tempo, este ano, a Nestlé ganhou uma decisão do tribunal invalidando o registro de direitos autorais de Adalberto. A Benetton usou o que parecia uma estampa tenango em um maiô de verão. A companhia disse que o design era “o resultado de pesquisa online”, e que o seu “departamento de produtos não tinha conhecimento dos trabalhos tradicionais desta comunidade”.

Já Alma Yuridia Santos Modesto, que faz parte de um coletivo de artesãos na aldeia próxima de El Dequeña, admite que a visibilidade proporcionada pelas marcas globais “dá um grande impulso ao nosso artesanato. Seria bom se eles levassem em conta a gente. Pelo menos dando um pouco de trabalho para nós”.

O seu coletivo bordou bolsas para a Carolina Herrera, anos atrás. Mais recentemente, a casa de moda usou a iconografia tenango em suas coleções para resorts sem dar-lhe o crédito. Depois de uma queixa do ministro da Cultura, a companhia disse que o seu criador “queria mostrar seu profundo respeito “para o “artesanato mexicano”.

tradição dos tenangos é nova pelos padrões mexicanos, e os Otomis, ou hñãhñu, como eles se denominam, criaram a sua iconografia peculiar na década de 1960. Para a maioria dos artesãos, a ligação com a moda internacional constitui uma distração das preocupações do ganha-pão.

Quem faz o trabalho de agulha ganha menos de US$ 10 para bordar um quadrado do tamanho de uma pequena almofada. Alguns artesãos, conhecidos como “dibujantes”, transferem os desenhos para o tecido, e ganham mais. Alguns, cujos desenhos se tornaram muito conhecidos, sonham em exibir seu trabalho para um público global.

Ezequiel Vicente José, um dos dibujantes mais conhecidos da aldeia, acha que o artesanato poderia gerar o ganha-pão para mais pessoas se os artesãos concordassem com os preços e em “aprimorar os desenhos”. Em Tenango de Doria, não há um banco. A estrada para San Nicolás é pavimentada, mas a maioria das outras aldeias fica no final de estradas de terra. Consequentemente, muitos artesãos não têm outra escolha senão vender seus trabalhos aos intermediários, que estabelecem os preços.

“Nós competimos entre nós e isto contribui para baixar os preços,” disse Rebeca López Patiño abrindo uma toalha de mesa que,segundo ela, deveria custar cerca de US$250. Mas um eventual comprador ofereceria apenas US$ 150, prosseguiu. Entretanto, a maior preocupação na aldeia é talvez com quem, na próxima geração, seguirá o caminho dos pais. Faustina José, 43, disse que somente um dos seus quatro filhos desenha e borda como ela; os outros três estão nos Estados Unidos.

“Começa a se perder”, ela disse referindo-se à arte que a ajudou a sair da pobreza. “Os jovens não querem fazer isto. Eles preferem trabalhar, ou estudar”. Os desenhos bordados com linhas coloridas pelos indígenas Otomi do México também são usados em muitas outras coisas, como bonés e tênis ou canecas de café. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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