Simone de Beauvoir faria 112 anos hoje

A antropóloga Debora Diniz faz uma reflexão sobre o trabalho da filósofa e feminista Simone de Beauvoir: “Beauvoir espelhou a disputa entre os sexos do patriarcado no conflito de classes. Chegou a antecipar o que feministas críticas do neoliberalismo sentenciam neste século ‘não ha igualdade entre os sexos no capitalismo'”

Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir faria 112 anos hoje. Viverá mais do que o corpo permitiria. Segundo sexo, sua obra mais conhecida, ganhou mais do que leitoras, virou palavra franca: “não se nasce mulher, torna-se mulher”, escreveu.

Beauvoir espelhou a disputa entre os sexos do patriarcado no conflito de classes. Chegou a antecipar o que feministas críticas do neoliberalismo sentenciam neste século “não ha igualdade entre os sexos no capitalismo”. A exploração do capital pressupõe a dominação dos corpos —dos corpos das mulheres, assim mesmo, no plural. Patriarcado e capitalismo se metamorfoseiam, explicava.

Beauvoir conta que foi na escrita de Segundo Sexo que se deu conta da própria “consciência feminista” e do quanto havia se beneficiado das vantagens da sociedade patriarcal para ignorar o sexismo como uma realidade de opressão. Ao viver esse giro de consciência, compreendeu como as desvantagens de classe vividas por outras mulheres eram barreiras intransponíveis para o que poderia imaginar como um mantra de empoderamento feminino “se eu posso, elas podem”. Não, as mulheres pobres não podem o mesmo que as mulheres da elite podem em uma sociedade capitalista patriarcal.

Os privilégios injustos e imerecidos a rodeavam de uma epistemologia da ignorância: passiva e ativa, pois a exploração se faz hábito em nossas vidas. Quando a ouvi dizer que a exploração é uma “forma de hábito” e que, portanto, nossos privilégios são como “traição” para outras mulheres, pausei nos meus próprios “antolhos”, uma expressão comum a várias feministas para descrever os limites de nossa conexão com a realidade de outras mulheres.

Hoje é dia de mergulhar fundo nas “armadilhas do poder em nós”, como diz Audre Lorde. As armadilhas do poder são como narrativas míticas, diz Lorde, que fazem crer que nossas singularidades são mais expressivas à opressão que as de outras mulheres. Sei que as minhas são rarefeitas. Como Beauvoir, me beneficiei dos privilégios naturalizados a mim como uma herdeira da casa grande: as de classe e raça são duas delas. Faço hoje um mergulho nas armadilhas do poder que consigo remoer em mim em sua memória.

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