Britânicos negros elogiam afastamento de Meghan e Harry de família real

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Para minorias britânicas, decisão foi motivada por agressões, muitas com conotação racial, por parte da imprensa do Reino Unido
Ceylan Yeginsu, The New York Times, O Estado de S.Paulo

Meghan Markle e príncipe Harry não consultaram a rainha Elizabeth nem o príncipe Charles sobre o anúncio de afastamento da família real. Foto: John Stillwell/Pool Photo via AP

LONDRES – Quando o príncipe Harry  e sua jovem mulher, Meghan Markle, anunciaram que se afastariam das suas obrigações reais e passariam mais tempo na América do Norte, muitas pessoas pertencentes à minorias no Reino Unido expressaram seu alívio.

Muitas disseram ao New York Times, em entrevistas, que o casal finalmente conseguiria escapar das agressões, grande parte com conotação racial, contra eles por parte da imprensa britânica, particularmente os ruidosos tabloides do país.

“Graças a Deus estão livres”, afirmou Sanaa Edness, levantando os braços para o céu enquanto atravessava o Fordham Park, a sudoeste de Londres. “Ninguém deve tolerar o assédio moral e o comportamento abusivo por causa da cor da sua pele. Tudo isto tem a ver com a raça dela. Sei disto porque, como caribenha que não nasceu aqui, sofro com isto também”.

Não se esperava que a situação terminasse desta maneira. A cerimônia de casamento de Harry e Meghan, ministrada por um bispo afro-americano e animada por um coro gospel, no Castelo de Windsor, em maio de 2018, foi algo sem precedentes para muitos negros no Reino Unido, que até então se sentiam excluídas da cultura e das tradições profundamente brancas da monarquia britânica.

A decisão de Harry e Meghan

Jovens negras sem nenhum interesse particular na família real se reuniram à frente dos televisores para assistir, empolgadas, a bela atriz americana birracial entrando na St. George Chapel e se tornar a duquesa de Sussex. E esperavam que esta união fosse o prenúncio de uma nova era para a família real, com novos valores, mais identificados com a população.

Mas, mesmo antes do casamento, Meghan sofreu ataques frequentes dos tabloides, levando Harry, quando ainda eram noivos, a emitir um comunicado condenando as “insinuações de conotação racial” de artigos e noticiários na imprensa.

Mural em Brixton, bairro historicamente negro no sul de Londres
Mural em Brixton, bairro historicamente negro no sul de Londres Foto: Andrew Testa / The New York Times

Desde a manchete no Daily Mail, em 2016, “a namorada de Harry é (quase) Straight outta Compton” (referência ao filme que conta a história de rappers de Los Angeles), a duquesa tem sido objeto de dezenas de reportagens racistas e sexistas com referências ao seu “DNA exótico” e à história da sua família, que vão desde “escravos do algodão a realeza através da libertação na Guerra Civil americana”.

Após seu casamento em 2018 e Meghan oficialmente ingressar na família real, os tabloides mudaram de atitude, apresentando-a como uma megera que gritava com os funcionários e que levou sua cunhada Catherine, a duquesa de Cambridge, às lágrimas. Algumas manchetes se referiam a ela como “Furacão Meghan” e “A difícil duquesa”. “Eles queriam mostrá-la como uma mulher negra irritada, um espinho nas doces pétalas de rosa inglesa, que é Kate”, disse Edness.

Numa rara entrevista para a ITV, a duquesa falou das suas dificuldades e reconheceu que seus amigos a alertaram de que, se ela se casasse com Harry, os tabloides ingleses “destruiriam sua vida”.

Os tabloides negaram que sua cobertura tinha conotação racial, declarando que tinham direito de criticar o casal uma vez que ele era sustentado com dinheiro público.

“Grande parte da mídia ignora o fator racismo que claramente teve um grande papel na decisão do casal”, disse Nadine Batchelor-Hunt, ex-presidente da campanha Black and Minority Ethnic, da universidade de Cambridge.

“Questões de racismo são mais discutidas nos Estados Unidos”, disse Nadine. “As pessoas lá são mais conscientes do problema, ao passo que aqui a comunidade negra é muito menor e ele na verdade não surge regularmente como uma questão importante”.

No mais recente censo realizado no país, em 2011, os residentes negros constituíam 3% da população britânica e os restantes 87% eram formados por brancos e outros grupos étnicos. Nos Estados Unidos, ao contrário, as pessoas brancas não hispânicas representam somente 60,4% da população em 2019 e os negros eram uma grande minoria, com 13,4%.Nas entrevistas, um tema persistente era a surpresa das pessoas com o fato de membros da família real não oferecerem apoio a Meghan. Muitas pessoas disseram ter ficado espantadas quando o Buckingham Palace divulgou vários comunicados em defesa do príncipe Andrew, que havia se envolvido num escândalo de pedofilia, a ao mesmo tempo se calou no caso dos ataques sistemáticos contra a duquesa.

Falta de apoio da família real britânica

“Ela não teve o apoio que precisava da família real”, disse Carol Lengolo, que tem dois filhos, vive a sudeste de Londres, nasceu e cresceu na África do Sul e sempre foi uma grande admiradora da monarquia. “Você nunca os viu se manifestando sobre o racismo, ficando ao lado dela e a defendendo. Ela ficou sozinha”.

Os colunistas dos tabloides se mostraram chocados e indignados com o anúncio feito por Harry e Meghan, chamando-os, entre outras coisas, de “egoístas”, “intrigantes” e “hipócritas” que mostraram uma falha de julgamento atroz” e estavam tentando “derrubar a monarquia”.

Carol Lengolo, com sua filha de 13 anos, Tshego, em Londres
Carol Lengolo, com sua filha de 13 anos, Tshego, em Londres: apoio à decisão Foto: Andrew Testa/The New York Times

“Já vi alguns absurdos reais vergonhosos, mas por pura arrogância, privilégios, cobiça e desrespeito voluntário, nada se compara ao comportamento do duque e da duquesa de Sussex”, escreveu o colunista Piers Morgan do Daily Mail.

A popular comediante negra Gina Yashere respondeu a Morgan no Twitter, dizendo, “por favor, todos os negros sabiam que isto ocorreria. O abuso racista corrosivo constante disfarçado de crítica”.

Morgan respondeu: “Oh Gina, deixe de ser ridícula. A crítica a Meghan Markle não tem nada a ver com a cor da sua pele e tudo tem a ver com o fato de ela ser uma pessoa descarada causando enormes danos à nossa família real”.

A filha de 13 anos de Lengolo, Tshego Legolo, entende a situação de modo diferente. Ela idolatra Meghan e espera ser um dia atriz em Los Angeles. E disse ter ficado decepcionada com o fato de a duquesa se distanciar da família real, mas também ficou orgulhosa de ela ter tomado uma decisão tão “corajosa” e “poderosa”. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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