Ben Affleck fala sobre se manter sóbrio e tentar recalibrar sua carreira

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Ator falou francamente sobre seu problema de alcoolismo ao lançar ‘The Way Back’, no qual interpreta um treinador de basquete de faculdade, alcoólatra contumaz que destrói seu casamento e acaba numa clínica de reabilitação
Brooks Barnes, NYT

Ben Affleck, hoje com 47 anos, vem trabalhando como um louco para colocar sua carreira de volta nos trilhos. Foto: Magdalena Wosinska/ The New York Times

Alerta: este não é um daqueles perfis de celebridade que usa alguma pequena nova informação para apimentar histórias antigas. Não há nenhum parágrafo em que o astro e o jornalista fingem ser amigos. Não, você não vai ter alguma citação preparada de Matt Damon. Trata-se de Ben Affleck, franco e vulnerável, falando extensivamente pela primeira vez sobre se manter sóbrio (novamente) e tentar recalibrar sua carreira (novamente).

Affleck, roteirista vencedor de um Oscar, diretor de Argo, filme que também recebeu o prêmio, e, sim, alcoólatra, divorciado e orgulhoso possuidor de uma tatuagem mítica da qual se orgulha – tem quatro filmes a serem lançados este ano. Dad Bod Batman foi banido e filmes atuais estão de volta à sua lista, incluindo o primeiro concentrado nele em quatro anos, The Way Back, um comovente drama sobre esportes que chega aos cinemas em 6 de março. 

Ele interpreta um treinador de basquete de faculdade relutante e com enormes problemas – um sujeito corpulento, obstinado, alcoólatra contumaz que destrói seu casamento e acaba numa clínica de reabilitação. “Pessoas com comportamento compulsivo, e sou uma delas, têm esse tipo de desconforto o tempo todo em que tentam se livrar do seu problema”, disse-me ele há algumas semanas durante uma entrevista de duas horas em Los Angeles. 

“Você procura se sentir melhor comendo, bebendo, fazendo sexo ou apostando, ou comprando, seja lá o que for. Mas acaba tornando sua vida pior. Então se afunda mais no vício para ver se o desconforto desaparece. E, nesse ponto, o sofrimento real começa, é um círculo vicioso que você não consegue romper. Pelo menos foi o que aconteceu comigo”, desabafou. 

“Eu bebi de modo relativamente normal por um longo tempo. O que ocorreu foi que comecei a beber cada vez mais quando meu casamento estava ruindo. Isto foi em 2015, 2016. A bebida, claro, criou ainda mais problemas conjugais”, compartilhou o ator.

O casamento de Ben com Jennifer Garner, com quem ele tem três filhos, acabou em 2018, depois de uma longa separação. Ele disse que ainda se sente culpado, mas deixou a vergonha no passado. “O maior arrependimento da minha vida foi esse divórcio. Vergonha é algo realmente tóxico. Não existe nenhum resultado disto que seja positivo e tudo fica fermentando, dando uma sensação tóxica, horrível, de autodesprezo e uma baixa autoestima”, lamentou.

Ben respirou profundamente e expirou lentamente. “Não é particularmente saudável para mim ficar obcecado por esses fracassos – as recaídas – e me culpar. Certamente cometi erros, fiz coisas que lamento. Mas você tem de se levantar, aprender com os erros, tentar seguir em frente”, ensinou ele.

O título original de The Way Back era The Has-Been. Esse título deprimente foi abolido durante a produção à medida que o filme se concentrava mais no talento do basquete que o principal personagem foi na faculdade, explicou Affleck.

Basta dizer que nenhum astro vai desejar aparecer num cartaz de um filme intitulado The Has-Been, especialmente depois de dois fracassos de bilheteria, Liga da Justiça (2017), que angariou U$ 658 milhões, uma soma muito pequena pelos padrões dos super-heróis, e A Lei da Noite (2016), drama de época sobre gangsters, que ele também dirigiu e rendeu US$ 23 milhões.

Affleck, hoje com 47 anos, vem trabalhando como um louco para colocar sua carreira de volta nos trilhos. A dura verdade é que o resultado não está garantido. Os cinéfilos, mulheres em particular, é que no fim decidirão: o perdão no caso de transgressões é ainda algo que a sociedade com toda a polarização no Twitter permite? Para alguns, Ben Affleck é ainda aquele sujeito que partiu o coração de Jennifer Garner e foi acusado de tocar a apresentadora durante um talk-show em 2013. “Agi inadequadamente”, reconheceu ele em 2017, referindo-se ao incidente, quando teve início a era do #MeToo. “E peço desculpas, sinceramente”.

Hollywood certamente assegurou sua clemência. Ele acabou seu trabalho em Deep Water, um thriller psicológico que estrela ao lado de Ana de Armas (de Entre Facas e Segredos), a ser lançado em novembro. Está no filme a ser lançado neste mês pela Netflix, The Last Thing He Wanted  / A Última Coisa Que Ele Queria), um filme de suspense dirigido por Dee Rees com Anne Hathaway

Ele está trabalhando também com Nicole Holofcener (de Poderia Me Perdoar?)  e Damon no roteiro de The Last Duel  (O Último Duelo), cujas filmagens começam este mês na França. Ambientado no século 14, Affleck e Damon se juntam como roteiristas de um filme pela primeira vez desde Gênio Indomável, em 1997. 

Ridley Scott dirige o filme e a Disney planeja lançá-lo no período das festas de fim de ano por meio da 20th Century Fox. 

Affleck também está focado em outro projeto de direção. Mas em vez do remake de Testemunha de Acusação, um filme de 1957, que pretendia realizar, ele agora vai levar em frente um outro, King Leopold’s Ghost, um épico sobre a exploração colonial da que é hoje a República Democrática do Congo. Martin Scorsese é um dos produtores. (Affleck ajudou a fundar a Eastern Congo Initiative, grupo de defesa sem fins lucrativos, em 2010).

Ben Affleck
Em ‘The Way Back’ Affleck interpreta um treinador de basquete de faculdade relutante e com enormes problemas.  Foto: ‘Magdalena Wosinska/The New York Times

Ben não falou muito sobre seu problema de alcoolismo desde que completou seu terceiro período numa clínica de reabilitação em 2018. Mas a chegada de The Way Back aos cinemas tornou esse um assunto difícil de evitar. E admitiu que a segunda palavra nos Alcoólicos Anônimos não se aplica a ele – certamente depois de ter (por um tempo curto) tido uma recaída no ano passado, aparecendo embriagado no TMZ alguns meses depois de comunicar que havia completado um ano sem beber. “Uma recaída é algo vergonhoso, obviamente. Não queria que isso ocorresse, que isso fosse parar na internet para meus filhos verem. Jen e eu fizermos o máximo para resolver e ser honestos”, afirmou.

Tendo crescido em Massachusetts, Ben viu seu próprio pai bêbado diariamente. “Nunca vi meu pai sóbrio, até eu completar 19 anos”, relembrou o ator, ficando mais cauteloso com as palavras – esta foi uma das únicas duas vezes em que ele escolheu cuidadosamente as palavras. 

No outro caso foi quando respondeu a uma pergunta sobre o processo contra Harvey Weinstein, acusado de estupro e abuso sexual. No início da sua carreira, Bem estrelou diversos filmes financiados pelas empresas de Weinstein. “Não sei se teria algo a dizer ou acrescentar ou que já não foi dito, e melhor, por pessoas que foram pessoalmente vítimas ou sobreviventes do que ele fez”, argumentou. 

Há três anos Affleck anunciou que doaria todos os pagamentos residuais dos filmes financiados por Weinstein para organizações beneficentes ligadas ao combate dos abusos sexuais. “Quanto mais envelheço, mais reconheço que meu pai fez o máximo que podia. Na minha família tem muitos casos de alcoolismo e doença mental. O legado é poderoso e às vezes difícil de afastar”. 

Seu irmão mais novo, Casey, de 44 anos, já falou sobre o seu próprio alcoolismo e sobriedade. Sua avó paterna suicidou-se num motel quando tinha 45 anos. Um tio se matou com uma espingarda. E uma tia era viciada em heroína. “Foi preciso um longo tempo para reconhecer fundamentalmente, profundamente, que eu era alcoólatra”, disse.

Pareceu um bom momento para sublinhar como muitos astros começaram a falar abertamente sobre se manter sóbrio – especialmente Brad Pitt – e como isto vem ajudando a atenuar o estigma do vício e talvez inspirando as pessoas com problemas de dependência de substâncias a buscarem ajuda. Jamie Lee Curtis, sóbrio durante duas décadas, apareceu na capa da Variety em novembro. Outros que falaram a respeito em livros e entrevistas recentes foram Demi LovatoAnthony Hopkins, Jessica Simpson, Demi Moore e, claro, Elton John.

Ben citou Bradley Cooper e Robert Downey Jr. como “pessoas que me deram muito apoio e sou muito grato a elas”. “Uma das coisas sobre recuperação que eu acho que as pessoas às vezes ignoram é o fato de que ela inculca alguns valores. Ser honesto. Ser responsável. Ajudar outras pessoas. Pedir desculpas quando você erra”, indicou.

A vida real nas telas

The Way Back foi dirigido por Gavin O’Connor (de O Contador, filme também estrelado por Ben Affleck e um sucesso surpreendente); o roteiro é de O’Connor e Brad Ingelsby. A produção custou para a Warner Bros e Bron Studios a soma de US$ 25 milhões e ele foi rodado em San Pedro, bairro operário de Los Angeles.

Jack Cunningham (Affleck) é um operário do setor de construção enfrentando uma perda pessoal devastadora. Sua casa, além daquela onde vive, é um bar de terceira categoria, o tipo de lugar que você sente o cheiro antes mesmo de entrar. As vezes ele se refugia no seu apartamento e esvazia caixas de garrafas de cerveja. Começa seu dia bebendo embaixo do chuveiro, a lata de cerveja balançando na saboneteira.

Sem saber a que ponto vai seu alcoolismo, o diretor da faculdade onde estudou pede a ele para treinar o time de basquete, cuja autoestima é ainda menor do que a dele. “A parte mais difícil do filme para ele foi realmente o basquete”, confirmou O’Connor. “Se você nunca jogou antes, é como patinar no gelo pela primeira vez”.

Mais para o fim do filme, Jack tem uma interação muito forte com sua ex-mulher (Janina Gavankar, de The Morning Show). Nesse ponto, ele está numa clínica de reabilitação e quando ela chega e vê o seu estado, ele pede desculpas. “Falhei com você. Falhei com nosso casamento”, desculpou-se.

É uma cena dura, especialmente quando vista através do prisma de tudo o que aconteceu com Ben Affleck fora da tela. Só podemos imaginar conversas similares que ele deve ter tido com Jennifer Garner. “Foi, de fato, importante, sem ser muito sentimentalista ou falso, ele se redimir perante ela e assumir a culpa pela dor que ele, e somente ele, causou”, destacou Affleck.

O’Connor disse que o ator quase teve um colapso nervoso no set, quando terminou a cena. “Foi como se uma comporta tivesse sido aberta, algo espantoso e poderoso. Acho que foi um momento muito pessoal no filme. Acho que era ele”.

Tradução de Terezinha Martino

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