Filme de ex-alunos da USP concorre no Festival de Cinema de Berlim

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Longa retrata o Brasil uma década depois do fim da escravidão e levanta questionamentos sobre o reflexo disso hoje
Por Maria Laura López

Cena de Todos os Mortos, que concorre neste ano ao prêmio de Melhor Filme no Festival de Berlim – Foto: Divulgação/Vitrine Films

Dentre as principais premiações da indústria cinematográfica, o Festival de Cinema de Berlim talvez seja o mais político de todos. O que não é nenhuma surpresa, considerando o contexto pós-guerra em que ele foi criado, em 1951. O caráter crítico do festival se mantém até hoje, e aparece principalmente na seleção dos filmes exibidos e premiados. O Brasil já ganhou o Urso de Ouro de Melhor Filme duas vezes, a primeira em 1998, com Central do Brasil, e a segunda em 2008, com Tropa de Elite. Buscando repetir o feito este ano está Todos os Mortos, longa produzido por ex-alunos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. O festival começa nesta quinta-feira, dia 20, e vai até 1º de março.

Marco Dutra, Caetano Gotardo e Juliana Rojas – os produtores de Todos os Mortos – são da turma de 1999, formados em Cinema pela ECA. “A gente se conheceu na faculdade, há mais de 20 anos. Fazíamos trabalhos juntos e essa amizade acabou se desenvolvendo com o nosso repertório cinematográfico”, diz Juliana. Eles já fizeram outras colaborações, como O Lençol Branco, que Juliana e Dutra, com assistência de Gotardo, apresentaram como Trabalho de Conclusão de Curso e que foi selecionado para o Festival de Cannes, na seção Cinéfondation, destinada a filmes universitários, em 2006.

Caetano Gotardo e Marco Dutra nos bastidores do filme Todos os Mortos – Foto: Beth Gotardo

Todos os Mortos se passa em 1899, onze anos após a abolição da escravatura no Brasil, e conta a história de Iná Nascimento, mulher que viveu a escravidão por muito tempo e agora batalha para cuidar de seus familiares em um mundo ainda muito hostil. “Uma mudança grande parecia se impor naquele momento, mas a gente percebe que as questões raciais e os abismos sociais continuam como base da sociedade brasileira até hoje”, afirma o diretor Caetano Gotardo, que espera que o longa possa servir como mais uma peça dentro de um debate muito maior sobre a estrutura social brasileira.

Ainda segundo ele, a ideia do filme surgiu em 2012, mas até o roteiro estar completo foi um longo e dinâmico processo de escrita entre os dois diretores. Para Gotardo, a amizade e cumplicidade deles foi fundamental tanto nesse momento como depois, ao longo das filmagens. “Quanto à direção, nós fizemos absolutamente tudo juntos, nós nos entendemos muito bem e rápido, então deu tudo certo.”

Gotardo faz questão de ressaltar a importância das produtoras Sara Silveira e Maria Ionesco, da Dezenove Som e Imagens, que, além do trabalho realizado no filme, também foram responsáveis pelos primeiros longas dos ex-alunos. “São figuras insistentes e batalhadoras do cinema brasileiro. Elas estão sempre apostando em novos diretores, e isso é muito importante para a manutenção do cinema nacional.”

Juliana Rojas fez a montagem do filme – Foto: Silas Vanetti

Além de Todos os Mortos, outros 19 filmes brasileiros estarão no Festival de Berlim, incluindo coproduções com outros países. “Considerando o momento cultural que o Brasil vive, é importante destacar essa comunidade criativa, muito ativa e reconhecida internacionalmente”, diz Marco Dutra. Segundo ele, a quantidade de filmes em um festival como o de Berlim aparece como um contraponto à política de cortes e restrições do governo federal e mostra a força do cinema nacional. 

Os três ex-alunos da ECA estão alinhados quanto às expectativas para o evento, que também será a primeira exibição pública do filme. “Só de saber que o filme foi acolhido pelos organizadores do festival já é ótimo, mas estamos animados para ver a reação do público também”, conta Dutra. O filme será apresentado no Festival de Cinema de Berlim neste domingo, dia 23, e ainda não tem data de estreia no Brasil.

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