Neto de soldado britânico se engaja para devolver obras de arte da África

Os Bronzes de Benin, alguns dos maiores tesouros da África, foram saqueados em 1897. Após um encontro casual, dois homens assumiram a missão de devolvê-los
Alex Marshall, The New York Times

Máscara no Metropolitan Museum, em Nova York. Itens como os Bronzes do Benin foram saqueados em 1800. Foto: Andrea Mohin / The New York Times

Em 2004, Steve Dunstone e Timothy Awoyemi estavam viajando pelo rio Níger. Ambos policiais da Grã-Bretanha, eles estavam participando de uma viagem pela Nigéria, organizada pela Sociedade de Expedição Policial, e haviam acabado de chegar à cidade de Agenebode. Uma multidão veio recebê-los. Houve até uma apresentação de dança.

No meio da multidão, Awoyemi, de 52 anos, nascido na Grã-Bretanha e criado na Nigéria, notou dois homens segurando cartazes que pareciam ter dizeres políticos. No momento em que o barco estava prestes partir, um deles avançou em direção ao policial. O homem estendeu o braço sobre a água, entregou um bilhete a Dunstone e depois saiu correndo. Naquela noite, Dunstone tirou o bilhete do bolso. As palavras diziam: “Por favor, ajude a devolver os Bronzes do Benin”.

Ele não sabia o que isso significava. Mas o bilhete deu início a uma missão de 10 anos que levaria Dunstone e Awoyemi da Nigéria à Grã-Bretanha e de volta à Nigéria, envolveria o neto de um dos soldados britânicos responsáveis pela pilhagem das obras e colocaria a dupla no centro de um debate sobre como consertar os erros do passado colonial.

Ao final dessa jornada, Dunstone e Awoyemi teriam feito mais para devolver à Nigéria obras de arte pilhadas – dois pequenos artefatos – do que alguns dos principais museusdo mundo, onde o debate sobre o direito de retorno continua. Os Bronzes do Beninnão são do país Benin; eles vêm do antigo Reino do Benin, região agora no sul da Nigéria.

As obras também não são feitas de bronze. Entre os vários artefatos que chamamos de Bronzes do Benin estão presas de elefante esculpidas, estátuas de leopardo em marfim e até cabeças de madeira. Os itens mais famosos são 900 placas de latão, datadas principalmente dos séculos 16 e 17, que ficavam pregadas em pilares no palácio real do Benin.

Existem pelo menos três mil itens espalhados pelo mundo, talvez milhares mais. Você pode encontrar Bronzes do Benin em muitos dos grandes museus do Ocidente, como o Museu Britânico, em Londres, e o Metropolitan Museum of Art, em Nova York. As peças também se encontram em museus menores. As famílias Lehman, Rockefeller, Ford e Rothschild possuíam algumas delas. Pablo Picassotambém.

Sua importância foi apreciada na Europa desde o momento em que foram vistas pela primeira vez, na década de 1890. À época, os curadores do Museu Britânico os compararam ao melhor da escultura italiana e grega. Hoje, os artefatos ainda deixam as pessoas maravilhadas. Neil MacGregor, ex-diretor do Museu Britânico, os chamou de “grandes obras de arte” e “triunfos da fundição de metais”.

No entanto, há um lugar onde é muito difícil encontrar artefatos originais: a Cidade de Benin, onde foram feitos. Mas isso pode mudar. A família real do Benin e os governos locais e nacionais da Nigéria planejam abrir um museuna Cidade de Benin em 2023, com pelo menos 300 Bronzes do Benin.

Essas peças virão principalmente das coleções de dez grandes museus europeus, como o Humboldt Forum, em Berlim, o Weltmuseum, em Viena, e o Museu Britânico. Inicialmente, serão emprestadas por três anos, com possibilidade de renovação. Ou, quando estes empréstimos acabarem, outros Bronzes do Benin poderão substituí-las. O museu pode se tornar uma exibição rotativa da arte do reino.

Essa iniciativa extremamente complexa – organizada por intermédio do Grupo de Diálogo do Benin, que foi convocado pela primeira vez em 2010 – está sendo comemorada como uma chance para os nigerianos verem parte de sua herança cultural. “Quero que as pessoas possam entender seu passado e ver quem éramos”, disse Godwin Obaseki, governador do estado de Edo, onde fica a Cidade de Benin, e figura-chave do projeto.

Mas o plano – um novo museu repleto de empréstimos – é mais uma solução prática ou um retorno em larga escala, algo há tempos reivindicado por muitos nigerianos e por alguns ativistas? Isso provavelmente depende do que você pensa sobre a maneira como os Bronzes do Benin foram obtidos.

Em 2 de janeiro de 1897, o oficial britânico James Phillips partiu da costa da Nigéria para visitar o oba, ou governante, do Reino do Benin. Supõe-se que seu intuito era convencer o oba a parar de interromper o comércio britânico. (Ele havia escrito aos administradores coloniais, pedindo permissão para derrubar o oba, mas fora dissuadido).

Disseram a Phillips que o oba não podia vê-lo, porque estava acontecendo um festival religioso, mas ele foi assim mesmo. E não voltou. Em um mês, a Grã-Bretanha enviou 1.200 soldados para se vingar do assassinato de Phillips e da maior parte de seu destacamento.

Em 18 de fevereiro, o exército britânico tomou a Cidade de Benin em um ataque violento. As forças britânicas saquearam os artefatos da cidade. Um soldado britânico estava “perambulando com um cinzel e um martelo, derrubando figuras de bronze e pilhando todo tipo de coisa”, escreveu o capitão Herbert Sutherland Walker em seu diário.

Em poucos meses, grande parte do butim estava na Inglaterra. Os artefatos foram entregues a museus, vendidos em leilão ou guardados nas prateleiras dos soldados. Quatro itens – entre eles dois leopardos de marfim – foram entregues à rainha Vitória. Tempos depois, muitos artefatos acabaram em outro lugar.

Os Bronzes do Benin não são do país Benin; eles vêm do antigo Reino do Benin, região agora no sul da Nigéria.
Os Bronzes do Benin não são do país Benin; eles vêm do antigo Reino do Benin, região agora no sul da Nigéria. Foto: Lauren Fleishman para The New York Times

A Cidade de Benin pede a devolução de seus artefatos há décadas. Algumas instituições devolveram à Nigéria peças roubadas no ataque. Na década de 1950, o Museu Britânico vendeu várias placas à Nigéria, para um museu planejado em Lagos, e outras no mercado aberto. Mas isso não configurava os retornos gratuitos e em larga escala que as pessoas pedem até hoje.

A pressão por esse tipo de retorno aumentou. Em 2016, estudantes do Jesus College, pertencente à Universidade de Cambridge, fizeram campanha para remover uma estátua de galo de um salão. Em novembro passado, a faculdade anunciou que a obra deve ser devolvida. (Ainda não foi dito quando ou como). Mas nada voltou à Nigéria nas últimas décadas, exceto dois pequenos itens. E isso só ocorreu, pelo menos em parte, graças a Awoyemi e Dunstone. Quando Dunstone voltou da Nigéria para a Inglaterra, ele não conseguia esquecer aquele bilhete.

“Nós realmente roubamos coisas deles”, disse Dunstone. “Não estávamos em guerra, nós simplesmente aparecemos e arrancamos as obras das paredes”. Em 2006, Dunstone criou uma página na web sobre os Bronzes do Benin, com a ajuda de Awoyemi. Ele adicionou uma nota pedindo que qualquer pessoa com informações entrasse em contato. Ninguém respondeu.

Mas, certo dia, em 2013, chegou o email de um médico do País de Gales chamado Mark Walker. Ele disse que possuía dois itens saqueados: um pequeno pássaro e um sino; ele queria devolvê-los. O avô de Walker era o capitão Walker, aquele que descreveu os saques em seu diário. Já usamos os artefatos até como peso de porta, disse Walker. Eles ficariam bem melhor na Nigéria, disse.

Walker não queria ir à Nigéria, por medo de ser processado. Mas Awoyemi e Dunstone o convenceram de que o gesto poderia persuadir outras pessoas a devolver mais itens. Em junho de 2014, Walker, Dunstone e Awoyemi foram à Cidade de Benin para devolver os artefatos ao oba. A cerimônia no palácio do oba foi tão impressionante quanto as boas-vindas na margem do rio, quando começou toda a jornada, disse Dunstone.

As autoridades nigerianas minimizaram a necessidade de os itens serem devolvidos permanentemente. Obaseki, o governador, disse que a Nigéria quer que as obras estejam em exibição em todo o mundo, não apenas na Cidade de Benin. Alguns museus parecem dispostos a devolver os objetos.

Mas, até que o museuda Cidade de Benin seja construído, nada poderá ser devolvido permanentemente, a menos que seja feito por indivíduos. Ninguém sabe quantos itens saqueados estão em mãos particulares, mas esses itens costumavam ir a leilão com alguma regularidade. (O preço recorde, estabelecido em 2016, ultrapassa os US$ 4 milhões).

Há alguns meses, Walker estava vendo online os Bronzes do Benin pertencentes ao Museu Horniman de Londres e se deparou com um remo de madeira esculpido. Era quase idêntico aos dois que ele tinha em casa, os quais ele achava que seus pais haviam comprado nas férias. Ele concluiu que seu avô também tinha saqueado a Cidade de Benin.

Em dezembro, ele emprestou os remos ao Museu Pitt Rivers, em Oxford – membro do Grupo de Diálogo do Benin – sob uma condição: eles teriam de ser devolvidos à Cidade de Benin dentro de três anos. Walker não estava devolvendo os itens por fama e glória, disse: os objetos tinham de retornar à África. É a coisa certa a se fazer. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Zendaya Coleman & Storm Reid – The Euphoric Sisters – Love Magazine #23 S/S By Alasdair McLellan

The Euphoric Sisters   —   Love Magazine #23 S/S 2020   —   www.thelovemagazine.co.uk
Photography: Alasdair McLellan Model: Zendaya Coleman & Storm Reid Styling: Law Roach Hair: Jawara Make-Up: Sir John Manicure: Alex Jachno 
Set Design: Lizzie Lang

‘Acossado’, que completa 60 anos em 2020, reflete tempos nervosos de hoje

Estreia de Jean-Luc Godard e rodado em 23 dias, filme é um dos principais clássicos da nouvelle vague
Roberto Muggiati

Cena do filme ‘Acossado’, do diretor Jean Luc Godard Divulgação

Um grupo de jovens franceses, depois de anos escrevendo sobre cinema na revista Cahiers du Cinéma, decidiu partir para seus próprios filmes. Nascia a nouvelle vague.

Em 1959, Claude Chabrol já fazia um bom dinheiro e François Truffaut foi premiado em Cannes por “Os Incompreendidos”. Prestigiados, convenceram o produtor Georges de Beauregard a bancar o primeiro longa de Jean-Luc Godard, o crítico mais exigente e cáustico da revista.

Truffaut sugeriu o tema, inspirado numa notícia de jornal. O roteiro foi rabiscado por Godard num caderno escolar: “Vai ser a história de um rapaz que pensa na morte e de uma garota que não pensa”.

O anti-herói de “Acossado”, filme que completa 60 anos em 2020, foi interpretado pelo novato Jean-Paul Belmondo. Como atriz principal Godard buscou alguém de nome. A americana Jean Seberg havia estrelado “Santa Joana” (1957), de Otto Preminger, que escolheu uma desconhecida para o papel de Joana d’Arc após maratona de 18 mil candidatas. Seus cabelos foram raspados para as filmagens. Os cabelos de rapaz na cabeça redonda perfeita seriam o grande charme de Seberg, e ela recebeu US$ 15 mil, um sexto do orçamento do filme.

Na trama, Michel Poiccard, 26 anos (idade de Belmondo), rouba um carro, fura uma blitz e mata o policial que o persegue. Em Paris, procura a estudante americana Patricia Franchini (Jean Seberg, 20 anos), que vende o jornal New York Herald Tribune no calçadão da Champs Élysées.

Apaixonado, mas sem dinheiro, sai atrás de um tipo que lhe deve algum. Seu nome e sua foto já estão nos jornais. As cenas de rua, feitas sem permissão oficial, são de uma espontaneidade admirável. O ritmo das filmagens —foram 23 dias, de agosto a setembro de 1959— é caótico.

A trilha de Martial Solal, jazzista nascido em Argel, fazia uma exaltação à Paris, antecipando em mais de dez anos “O Último Tango”.

De repente, a agitação das ruas cessa e mergulhamos no mundo interior do casal. Na cena mais longa do filme — 27% do total— Godard e uma pequena equipe registram o duelo verbal-emocional entre Michel e Patricia no sufocante quartinho de hotel dela.

Nestas cenas íntimas, com Belmondo de cueca samba-canção, Godard mostra como o amor pode ser chato e sem futuro. Mas as curvas suaves da nuca de Patricia redimem tudo.

Acuado, Michel se esconde. Patricia passa a noite com ele. De manhã, sai para comprar leite e jornais. Para se proteger daquele amor bandido, telefona à polícia e entrega Michel. De volta ao estúdio, conta o que fez e insiste para que ele fuja. Michel fica. Sai à rua para receber o dinheiro que o amigo finalmente lhe entrega. A policia chega e atira. Baleado nas costas, Michel corre, depois cai estatelado.

Olhando para o céu, na cena final icônica, diz suas últimas palavras (tradução da versão brasileira do filme): Michael: É mesmo asqueroso[a] (“dégueulasse”). Patricia se pergunta o que significa asquerosa (“dégueulasse”). Até hoje se discute o significado da palavra. Basicamente, vem do verbo “dégueuler”, vomitar, com toda sua carga visceral-existencial.

Ironicamente, 19 anos depois, Jean Seberg foi enterrada a poucos metros do local onde Michel morreu, no cemitério de Montparnasse, na companhia de Sartre, Simone de Beauvoir, Baudelaire e do escritor Carlos Fuentes, com quem teve um tumultuado caso quando filmava no México em 1970.

Ao voltar aos Estados Unidos no final dos anos 1960, Seberg colaborou com os Panteras Negras e se tornou alvo da perseguição do FBI, história contada no filme “Seberg contra Todos”. O desgaste a levou a várias tentativas de suicídio, até a última, bem sucedida, em 1979.

Jean-Luc Godard, 89; Martial Solal, 92, tocando e compondo como nunca; e Belmondo, 87, são os grandes sobreviventes. E, é claro, o “Acossado”. Na lista decenal dos melhores filmes de todos os tempos, feita com rigor científico pelos críticos da revista Sight and Sound/British Film Institute, ele ocupava o cabalístico 13º lugar em 2012.

Não me surpreenderia se, na relação de 2022, desbancasse “Um Corpo que Cai”, assim como o filme de Hitchcock desbancou “Cidadão Kane” em 2012. Vivemos cada vez mais os tempos nervosos de “Acossado” do que o clima sobrenatural do longa de Hitch. Embora alguns ainda possam considerar o road movie niilista de Godard uma coisa bastante “dégueulasse”.

Coronavírus: cultura de segredo da Apple atrapalha trabalho remoto; empresa define regras para apps sobre o COVID-19

Há alguns dias, Tim Cook enviou um comunicado aos empregados da Apple recomendando a todos os que puderem que trabalhem de suas casas — a fim, é claro, de evitar contato desnecessário com outras pessoas e potencializar a disseminação do Coronavírus (COVID-19).

O problema, segundo uma reportagem do Wall Street Journal1, é que a famosa “cultura do segredo” da Apple basicamente impede o trabalho remoto para grande parte dos empregados que estão envolvidos em projetos especiais e afins.

A Apple tem políticas bastante rígidas com relação à retirada de arquivos secretos dos Macs de seus campi, portanto muitos empregados têm dúvidas do que podem ou não fazer de suas casas. Além disso, vários deles já têm reclamado de lentidão no acesso remoto a documentos, dificultando a realização de tarefas.

Sendo assim, vários engenheiros e designers por ora estão ainda preferindo ir aos escritórios da empresa para que consigam fazer seus trabalhos. Alguns, em contato com executivos, afirmaram que algumas flexibilizações já começaram a ser feitas de maneira a “reduzir a densidade de pessoas” nos campi.

Regras para apps sobre o COVID-19

Também já havíamos coberto aqui no site que a Apple passou a só aceitar apps relacionados ao COVID-19 de fontes confiáveis, como governos, órgãos de saúde, empresas especializadas, hospitais e afins.

Ontem à noite, a empresa publicou uma nota bem clara no portal Apple Developer detalhando e reiterando essas regras. Ela afirma, por exemplo, que jogos ou apps de entretenimento que tenham o vírus como temática não serão aceitos na loja.

Aos desenvolvedores que se enquadrarem nas regras, a Apple pede também que marquem a opção de envio urgente no App Store Connect para que o processo de revisão seja feito de forma mais ágil do que o normal.

Lojas ainda parcialmente abertas

Embora a Apple tenha determinado o fechamento de todas as suas lojas fora da China até pelo menos o dia 27 de março, algumas localidades continuam parcialmente abertas para realizar entregas de produtos adquiridos via Personal Pickup, realizar certos atendimentos marcados e, é claro, deixar os clientes informados da nova política.

Obviamente, como notou o MacRumors, mesmo nesses casos a Apple já reduziu drasticamente a quantidade de staff nessas lojas e é bem possível que elas encerrem completamente suas operações até amanhã (16/3). [MacMagazine]

Bilheteria EUA: , Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica, Enquanto Estivermos Juntos , Bloodshot, O Homem Invisível, The Hunt

Dois Irmãos lidera bilheteria americana pela segunda semana

Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica 

Marcado pelo fechamento de diversos estabelecimentos ao redor dos Estados Unidos, o final de semana apresentou uma drástica queda de arrecadação em relação à semana passada. Líder de bilheteria no território pela segunda semana seguida, Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica fez apenas US$ 10,5 milhões entre sexta (13) e domingo (15), apresentando uma diferença de 73% em relação à seu primeiro final de semana em cartaz.

Estreias da semana, Enquanto Estivermos JuntosBloodshot também tiveram arrecadações abaixo do esperado. O longa inspirado na vida do cantor Jeremy Camp e estrelado por KJ Apa (Riverdale) fez US$ 9,5 milhões, enquanto o novo filme de ação de Vin Diesel arrecadou US$ 9,3 milhões.

Estrelado por Elizabeth MossO Homem Invisível chega à sua terceira semana em cartaz nos EUA fazendo US$ 6 milhões, chegando a US$ 64 milhões arrecadados no total.

O polêmico The Hunt fecha o top 5 com uma bilheteria de US$ 5,3 milhões, uma diferença de US$ 1,7 milhão em relação ao quinto colocado da semana passada, O Chamado da Floresta.

Anfitriões do Airbnb sentem impacto do coronavírus

O preço que o vírus está fazendo a indústria do turismo pagar é de US$ 688 bilhões
Por Erin Griffith – The New York Times

Inside Airbnb’s New Sleek Sao Paulo Office

Livia De Felice, dona de duas propriedades para aluguel de temporadas e administradora de outras quatro na Itália, teve todas as suas reservas para março canceladas, o que a deixou “extremamente preocupada”, disse ela.

Austin Mao, que recebe 2 mil visitantes por mês em sua rede de mansões em Las Vegas, reduziu os valores do aluguel das propriedades em 10% e planeja continuar com a redução à medida que o número de hóspedes diminui.

Tracey Northcott e seu marido, que administram 12 apartamentos para aluguel de temporadas em Tóquio, disseram que a taxa de ocupação passou de 80% para zero desde janeiro.

“Tenho que continuar pagando minha hipoteca de alguma forma”, disse Tracey, que emprega uma equipe de cinco pessoas para limpar e administrar as propriedades (três em período integral e duas por meio-período) e começou a depender de sua aposentadoria para pagar as contas.

Livia, Mao e Tracey fazem parte de uma rede de pessoas por trás das sete milhões de propriedades de aluguel no Airbnb, o site de compartilhamento e aluguel de casas, que agora está sofrendo o impacto das consequências do coronavírus. Com a suspensão de viagens para muitos lugares com o intuito de limitar a propagação do surto, os problemas enfrentados pelo Airbnb e outros sites de viagem e hospedagem, como Booking.com e VRBO, aumentaram rapidamente.

O preço que o vírus está fazendo a indústria do turismo pagar é de US$ 688 bilhões e é compartilhado com as companhias aéreas e grandes redes de hotéis. Mas, ao contrário de redes como Marriotts e Hiltons ou linha aéreas como United e JetBlue, muitos sites de viagens e hospedagens são sustentados por listas de proprietários individuais e de pequenos hotéis, que normalmente têm menos recursos para suportar uma crise prolongada.

O impacto já está se espalhando por toda parte. O site Booking.com, que possui 6,3 milhões opções em suas listas de “acomodações alternativas”, que incluem apartamentos e casas para aluguel de temporadas, além de vender estadias em hotéis e passagens aéreas, retirou sua projeção financeira na segunda-feira. A empresa afirmou que o agravamento das condições impossibilitou a “quantificação confiável” do impacto do vírus em seus negócios.

“O mundo mudou e precisamos nos ajustar”, disse Glenn Fogel, executivo-chefe da Booking.com, em uma entrevista recente, acrescentando que a empresa também recuou na publicidade.

O Expedia Group, dono da VRBO, da Hotels.com e de mais de uma dúzia de outros sites de viagens, disse esperar entre US$ 30 milhões e US$ 40 milhões em lucros operacionais no primeiro trimestre. Recentemente, a empresa demitiu 12% de sua força de trabalho, ou mais de 3.000 funcionários, o que, segundo ela, fazia parte de uma reestruturação planejada anteriormente.

“É realmente um desconhecido”, disse Barry Diller, presidente da Expedia, sobre o coronavírus em uma conferência com investidores no mês passado. “Tudo o que estamos tentando fazer é separar o que realmente acreditamos ser o efeito do vírus sob nossos negócios em andamento, para que possamos nos preparar e tornar esses negócios em andamento o mais fortes possível quando isso terminar.”

Um dos mais atingidos pode ser o Airbnb, onde milhões de anfitriões oferecem suas propriedades para estadias curtas desde que a empresa foi fundada em 2008. (O Airbnb cobra uma taxa reduzida por cada reserva.) Ao longo dos anos, os anfitriões do Airbnb se tornaram cada vez mais sofisticados, com mini-economias surgindo para atender às necessidades dos anfitriões de limpeza e gerenciamento das propriedades. Concorrentes como o Booking.com acabaram acompanhando o movimento para o aluguel de casas por temporadas.

Agora o Airbnb encontra-se em terreno estrategicamente complicado.

A empresa de São Francisco, avaliada em US$ 31 bilhões por investidores privados, disse em setembro de 2019 que planejava abrir seu capital este ano – apesar de o mercado de ofertas públicas iniciais para startups de alto perfil e com perda de dinheiro ter sido difícil. O Airbnb indicou que planejava estrear na bolsa de valores por meio de um método incomum conhecido como listagem direta, onde não são vendidas novas ações. E está sob pressão para concluir uma listagem este ano porque, caso isso não aconteça, algumas das ações de seus atuais e ex-funcionários na empresa expirarão.

A oferta agora pode estar em análise. Nick Papas, porta-voz do Airbnb, só se referiria ao anúncio anterior da empresa de que planejava entrar na bolsa de valores este ano. Mas a volatilidade do mercado de ações e um golpe dramático nos negócios devido ao coronavírus podem tornar impensável qualquer empresa abrir seu capital em breve.

Na semana passada, Brian Chesky, executivo-chefe do Airbnb, enviou um e-mail aos funcionários descrevendo a resposta da empresa ao vírus. Na mensagem, analisada pelo The New York Times, Chesky disse que o Airbnb concederia alguns reembolsos aos clientes e estabeleceria um fundo de US$ 10 milhões para apoiar as operadoras de aluguel chinesas enquanto o turismo no país, onde o surto começou, estiver interrompido.

“O Airbnb nasceu durante uma crise global”, escreveu Chesky, referindo-se à crise financeira de 2008 e sem mencionar os planos de abertura de capital da empresa. “Isso não nos impediu e não vai nos deter agora”.

O Airbnb enfrenta outras consequências do coronavírus, incluindo um patrocínio das Olimpíadas de Tóquio neste verão que pode estar em perigo se o evento for cancelado. O Comitê Olímpico Internacional disse que estava totalmente comprometido com a realização dos jogos e seguiria o conselho da Organização Mundial da Saúde.

Acima de tudo, o Airbnb está lidando com um potencial declínio na receita porque os viajantes estão cancelando estadias com seus anfitriões.

Jasper Ribbers, que administra uma empresa chamada Get Paid For Your Pad em Sofia, na Bulgária, que fornece treinamento para os anfitriões do Airbnb, aconselhou aqueles nas regiões afetadas pelo vírus a reduzir os preços noturnos e custos, além de buscar usos alternativos para seus espaços, como encontrar inquilinos para longo prazo.

“Alguns anfitriões estão realizando eventos ou permitindo que artistas locais usem os apartamentos para sessões de fotos”, disse ele.

Mao, anfitrião do Airbnb em Las Vegas, começou a reduzir os preços do aluguel de suas propriedades no mês passado e disse que continuaria fazendo isso à medida que as reservas desacelerassem. Cada uma de suas casas gerava como receita cerca de US$ 10.000 por mês, com custos fixos de apenas US$ 3.500. Embora ele tenha percebido apenas uma ligeira queda nas reservas no início de março, espera que isso aumente à medida que o medo do coronavírus se intensifica.

Em Tóquio, Tracey, que é anfitriã pelo Airbnb há oito anos, disse que estava tentando encontrar outro trabalho para suas diaristas, que são pagas por cada faxina. Seu negócio, Tokyo Family Stays, perdeu cerca de US$ 2.000 em reservas em janeiro, US$ 10.000 em fevereiro, US$ 25.000 até o momento em março e US$ 40.000  do esperado para abril, que normalmente é o mês com maior arrecadação durante o ano.

Papas se recusou a divulgar detalhes sobre os custos dos cancelamentos relacionados ao vírus para o Airbnb. A empresa permitiu que as pessoas que viajam de e para a China, a Coreia do Sul e partes da Itália cancelassem suas reservas com reembolso total. E informou que está avaliando individualmente outras situações, incluindo pessoas cujos voos foram cancelados ou que foram impedidas de viajar.

Na terça-feira, o Airbnb anunciou um programa chamado “reservas mais flexíveis” que permitirá que os anfitriões ofereçam reembolsos mais facilmente aos hóspedes. As viagens reservadas até 1º de junho, que não se enquadram na política de circunstâncias atenuantes da empresa, também serão reembolsadas com cupons de viagem para uma estadia futura.

Em seu memorando para os funcionários, Chesky tentou permanecer otimista.

“O turismo sempre se recupera”, escreveu ele. “É uma das indústrias mais resilientes do mundo.”

Impacto

Além do Airbnb, outras empresas de tecnologia com negócios baseados em viagens e hospedagem também estão sendo afetadas pelo avanço global do coronavírus. O site Booking.com, por exemplo, retirou do ar suas projeções financeiras para o próximo trimestre. Com 6,3 milhões de opções em “acomodações alternativas”, que incluem apartamentos e casas de temporada, a empresa afirmou que o agravamento das condições impossibilitou a “quantificação confiável” do impacto do coronavírus em seus negócios.

“O mundo mudou e precisamos nos ajustar”, disse Glenn Fogel, presidente executivo da Booking.com, em uma entrevista recente, acrescentando que a empresa também recuou em seus gastos com publicidade.

O Expedia Group, dono da VRBO, da Hotels.com e de mais de uma dúzia de outros sites de viagens, disse esperar entre US$ 30 milhões e US$ 40 milhões em lucros operacionais no primeiro trimestre. No quarto trimestre do ano passado, a empresa teve US$ 160 milhões em lucros operacionais. Recentemente, demitiu 12% de sua força de trabalho, ou mais de 3 mil funcionários, o que, segundo ela, fazia parte de uma reestruturação planejada anteriormente.

“O que vem pela frente é realmente imprevisível”, disse Barry Diller, presidente da Expedia, sobre o coronavírus em uma conferência com investidores no mês passado. “Tudo o que estamos tentando fazer é separar o que realmente acreditamos ser o efeito do vírus sob nossos negócios em andamento, para que possamos nos preparar e tornar esses negócios em andamento o mais fortes possível quando isso terminar.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA