Sem feiras, galerias apostam na internet para manter vínculos com colecionadores

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Casas vão além do Instagram com projetos multimídia, salas de exibição virtuais e bate-papos com artistas
Clara Balbi

Vista da exposição ‘AAA – Antologia de Arte e Arquitetura’, organizada em conjunto pela Bergamin & Gomide e pela Fortes d’Aloia & Gabriel; exposição será exibida em ambiente virtual por causa da pandemia de coronavírus Eduardo Ortega/Divulgação

​Esqueçam os beijinhos, os apertos de mão e o “tim tim” das taças de champanhe dos vernissages. Como as demais áreas da cultura, também as galerias de arte estão sendo afetadas pela pandemia do novo coronavírus.

A começar pelas feiras. Responsáveis por 45% de todo o faturamento do mercado de arte, segundo o relatório mais recente do grupo Art Basel, elas foram canceladas em sequência nas últimas semanas –da SP-Arte, programada para a primeira semana de abril, à Frieze, em Nova York, prevista para maio, o futuro desses eventos neste ano é incerto.

Em São Paulo e no Rio de Janeiro, a maioria das galerias continuava a marcar visitas com hora marcada até a conclusão desta reportagem. Mas, com os sucessivos decretos de quarentena por parte dos governos municipais e estaduais, muitas têm buscado o universo virtual para estreitar vínculos com os colecionadores e, quem sabe, manter as vendas em tempos de pandemia.

Segundo a maioria dos espaços ouvidos, isso significa investir em conteúdo para atualizar sites e alimentar as redes sociais –a mais citada é o Instagram. Foi por ali, por exemplo, que a galeria Luisa Strina revelou uma obra nova de Cildo Meireles, “Shit Coin”, que ela pretendia lançar na SP-Arte.

Algumas casas têm, no entanto, aproveitado a crise para ir além dessas plataformas. A galeria Nara Roesler, por exemplo, desenvolve um ambiente virtual de exposições, solução implementada pela Art Basel Hong Kong deste ano –o evento físico foi cancelado por causa do coronavírus.

Além disso, conta Alexandre Roesler, sócio da galeria, eles têm organizado conversas entre artistas representados e colecionadores. No dia 19 de março, por exemplo, o fotógrafo Cássio Vasconcellos, que teve sua mostra na galeria interrompida por causa da pandemia, participou de um bate-papo virtual com 30 deles.

“O tempo estava tão escasso”, diz Roesler. “Agora, é possível que uma pessoa gaste dez ou 15 minutos nesses conteúdos.”

O fechamento ou adiamento de exposições planejadas por meses, aliás, fez com que alguns galeristas corressem atrás de uma forma de mostrá-las ao público, mesmo que a distância.

Foi o caso da Bergamin & Gomide e da Fortes d’Aloia & Gabriel. As duas pretendiam inaugurar, em conjunto, a mostra “AAA – Antologia de Arte e Arquitetura” no galpão da Fortes, na Barra Funda, no último dia 21.2 5

Com o início da epidemia, porém, suspenderam a abertura por tempo indeterminado. Mas já tinham investido na montagem da exposição, que apresenta, em 300 metros quadrados, interações entre a arte e arquitetura brasileira de quase 70 artistas

“Já estava tudo pronto, e tínhamos gasto uma grana. Não dava para simplesmente dizer: ‘vamos guardar isso para outro momento’. É como se estivéssemos criando uma ópera e ensaiando isso há três meses”, compara Thiago Gomide, da Bergamin & Gomide.

Dessa forma, eles preparam uma série de vídeos curtos que percorrem a exposição e a relacionam com imagens e a textos. O projeto será lançado num site independente no dia 26, mas também pode ser acessado pelos sites oficiais das galerias participantes.

Alex Gabriel, sócio da Fortes d’Aloia & Gabriel, conta que o plano da galeria agora é estender o formato às outras mostras que exibia antes da chegada do coronavírus –uma individual de Lucia Laguna em São Paulo e uma coletiva que refletia sobre questões urbanas na Carpintaria, a sede da casa no Rio de Janeiro.

Ele faz questão de diferenciar o modelo das salas de exibição da Art Basel Hong Kong ou da realidade virtual dos museus da plataforma Google Arts & Culture. “No nosso caso, é muito importante defender objetos reais. Essas coisas existem e têm uma materialidade”, afirma.

No geral, porém, os galeristas admitem que o clima não é de vendas. “Não é o momento de oferecer obras para vender, mas de tentar prover conteúdo e experiências diferentes”, diz Roesler. “Com certeza, exploraremos ainda mais formas de interagir com o público. Toda coisa ruim tem um lado bom”, continua.

Gomide ainda lembra que o cancelamento das feiras significa, sim, menos negócios fechados, mas também menos gastos. “Uma feira dessas pode custa R$ 1 milhão”, exemplifica. “Então, ao mesmo tempo, economizaremos muito, pois é nosso investimento mais arriscado e caro.”

A exceção em meio a esse marasmo causado pelo coronavírus são as vendas para colecionadores estrangeiros, diz Gomide. Com a alta do dólar –que na semana passada bateu mais um recorde, com o câmbio acima dos R$ 5,20–, ele conta que muitos donos de obras estão dispostos a oferecer grandes descontos em alguns trabalhos, já que vão receber mais ou menos o mesmo que antes em reais.

“Não vou ligar para um colecionador que está preocupado com a mãe, com a tia, e perguntar se ela não quer comprar um trabalho. Mas se sei que ele está com 30% de desconto, e que a pessoa o queria muito, aí sim teria a cara de pau de ligar para um banqueiro”, afirma o galerista.

AAA – ANTOLOGIA DE ARTE E ARQUITETURA

  • Quando Abertura nesta quinta (26)
  • Onde bergamingomide.com.br
  • Onde fdag.com.br

MAIS CONTEÚDO

  • Luisa Strina
    Vem publicando, a cada dia, uma das 45 entrevistas com artistas, colecionadores, galeristas e curadores que realizou no Art Weekend no ano passado. Já é possível assistir no YouTube da galeria a entrevistas com Anna Maria Maiolino e Jac Leirner. Também adaptará o material da exposição “Nuestra América”, que pretendia inaugurar no dia 14 de março, para as redes sociais.
  • Mendes Wood DM
    Iniciou no último fim de semana o “Weekend Screenings”, que apresenta, da manhã do sábado à noite do domingo, trabalhos em vídeo dos artistas que representa no site da galeria. O primeiro deles foi Paulo Nazareth, que teve “For See Things in the Sea Only”, de 2008, e “Pé Vermei”, de 2005, exibidos.
  • Vermelho
    Convidou os artistas que representa a assumirem o controle do seu Instagram nas próximas semanas.
  • Zipper
    É possível visitar duas exposições que estavam em cartaz no espaço, “Museu de Novidades”, de Marcelo Tinoco, e “Na Raiz/Caminho/Pelos Laços/Passarinho”, de Vítor Mizael, num modelo 3D virtual.

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