Como o coronavírus matou o debate sobre tempo de tela – e as telas venceram

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Por anos, muita gente se preocupou sobre quanto tempo passava na frente de uma tela luminosa; agora, com a quarentena, parece difícil ficar distante delas e não se isolar do mundo
Por Nellie Bowles – The New York Times

Em meio à quarentena, a ordem natural parece ser se cercar de telas

Antes do coronavírus, havia algo com que eu costumava me preocupar. Era o chamado tempo de tela. Talvez você se lembre disso. Eu pensava sobre isso. Eu escrevi sobre isso. Muito. Eu testava diferentes regimes de desintoxicação digital como se fossem dietas da moda, cada um funcionando por uma semana ou duas antes de voltar aos cômodos vidros brilhantes.

Agora, em meio à quarentena, afastei o peso da culpa sobre o tempo na tela. Minha televisão está ligada. Meu computador está aberto. Meu telefone está desbloqueado, brilhando. Eu quero estar coberta por telas. Se eu tivesse óculos de realidade virtual por perto, eu os usaria. 

A tela é meu único contato com meus pais, de quem sinto falta, mas não posso visitar porque não quero matá-los acidentalmente com o vírus. Ela me leva a um happy hour com meus amigos do Ensino Médio e me mostra fotos de pessoas cozinhando no Facebook. Houve um tempo em que pensei que o Facebook era ruim? Uma artéria de propaganda perigosa inundando o corpo político do país? Talvez. Não me lembro. Aquela era uma época diferente.

Muitas pessoas estão na mesma situação. Walt Mossberg, meu ex-chefe e um experiente crítico de produtos de tecnologia influente, desativou suas contas do Facebook e Instagram em 2018 para protestar contra as políticas e negligências do Facebook em relação a notícias falsas. Agora, enquanto durar a pandemia, ele está de volta.

“Não mudei de ideia sobre as políticas e ações da empresa”, escreveu Mossberg no Twitter na semana passada. “Eu só quero ficar em contato com o maior número possível de amigos.”

Voltar ao básico do Facebook. Estar ali pelos amigos. A caixa de som conectada do Facebook, o Portal, que tem uma câmera que parece espionar a sua casa, não parece tão louca agora. Iniciativas que foram criadas explicitamente para ajudar as pessoas a escapar das telas agora estão se adaptando a elas. 

“Comecei o Forest Bathing Club para levar pessoas como eu para o mundo fora das telas e entrar em contato com a natureza, experimentando o mundo real”, disse Julia Plevin, designer e fundadora do Forest Bathing Club. “Agora estamos explorando florestas virtuais”.

Evitar telas orientou as escolhas de vida de Arrington McCoy, terapeuta em Boston, por muitos anos. “Eu escolhi empregos baseados pelo uso de telas fazer parte deles ou não”, disse ela, que se tornou instrutora para mochileiros e agora trabalha como terapeuta. “E há 10 dias estou conectada a uma vibração diferente.”

Um amigo meu admitiu estar em frente a uma tela em média 16 horas por dia, geralmente usando vários dispositivos ao mesmo tempo. Tenho 31 anos e vivi quase toda a minha vida em São Francisco, o que significa que meus amigos estão tendo bebês ou estão recebendo pessoas que querem entrar em contato com a natureza.

Até mesmo as crianças estão perto das telas

Dada a nossa demografia, a maioria das pessoas que têm bebês elaborou planos cuidadosos para manter os olhos dos pequenos longe das telas. Planos para impedir que os bebês usem telas, é claro, mas também para evitar que eles vejam as telas em uso. Como estão esses planos agora? “Isso virou fumaça na semana passada”, disse minha amiga Ashley Spinelli, administradora da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que acabou de ter um filho, Nico. 

Shary Niv, mãe de um bebê, disse: “Eu imploro que ela assista à programação infantil na Amazon Prime”. Já Daniela Helitzer, audiologista em Boca Raton, Flórida, disse que o tempo de tela costumava ser um debate constante entre os pais de sua cidade. Ela tinha alguns amigos com crianças que nunca tinham visto uma televisão ligada antes disso. Mas isso acabou. “Todos nós oficialmente perdemos a batalha”, disse Daniela, que tem filhos de 2 e 3 anos de idade.

“Acessei todos os aplicativos educacionais possíveis. Eu usei todas as planilhas interativas online que encontrei”, disse Daniela. “Se ele estiver sentado usando o iPad por duas ou três horas por dia, eu literalmente nem me importo. É como se lhe dissesse: “Use essa tela o máximo que puder”. “

Imersa em telas nas últimas semanas, notei algumas mudanças positivas. Faço tantas chamadas de vídeo com meus amigos que os conheço melhor do que antes. Decidi aprender o que era o TikTok e adoro usá-lo. Passo horas com o queixo enfiado no peito e um sorriso estranho no rosto, observando o que há na tela. Estou usando o Duolingo, um aplicativo para aprender idiomas.

Carolyn Guss, mãe de dois filhos e vice-presidente da PagerDuty, uma empresa de computação em nuvem em São Francisco, já foi muito rigorosa. Seus filhos, de 8 e 9 anos, não possuíam nenhum dispositivo. Eles podiam assistir apenas televisão, mas com tempo muito limitado. No primeiro dia de quarentena em casa, Carolyn fez uma programação voltada para mantê-los fora das telas.

“No terceiro dia, eu tinha desistido”, disse ela. “Acho que o fato de chover no primeiro fim de semana destruiu meu plano.” De repente, ela estava dando o telefone para eles e colocando laptops em seus colos. Cada um com um dispositivo diferente. Parecia uma derrota. Então, algo surpreendente aconteceu. Eles começaram a fazer coisas bem impressionantes com essas telas.

“Meu filho aprendeu sozinho a mexer no iMovie e agora as crianças fazem vídeos de si mesmas fazendo coisas básicas – fazendo gelatina, atirando aros – e, depois, editam as imagens para terem aparência profissional”, disse ela. “Então eles compartilham a tela com seus amigos no Zoom. Essas crianças não tinham acesso à tela antes e me ultrapassaram em poucos dias.”

Para céticos, o momento é apocalíptico

Os céticos do uso de telas veem isso como um momento apocalíptico. Muitos ativistas passaram anos lutando contra o aprendizado online nas escolas. A experiência presencial com os professores é insubstituível, eles argumentavam.

“Agora, as empresas de tecnologia educacionais estão pegando carona no momento e dizendo: ‘Veja, nós dissemos isso para você'”, disse Emily Cherkin, consultora em Seattle. “Muitas delas estão oferecendo seus serviços gratuitamente agora. É o capitalismo de desastre. ” Mas mesmo alguns dos padrinhos do movimento cauteloso estão entrando nessa onda.

Uma das vozes mais importantes sobre esse assunto é Sherry Turkle. Durante anos, ela alertou que a tecnologia estava destruindo a estrutura social. Ela escreveu o livro Alone Together (Sozinhos juntos, em tradução livre), sobre a dor social que advém dos silenciosos jantares em família e das pessoas que andam com o queixo para baixo enquanto olham para seus telefones.

Agora, ela está dizendo que talvez parte do movimento que inspirou esteja focado na direção errada. “Acho que isso revela a questão do tempo de tela como uma ansiedade deslocada”, disse Sherry. “Agora, forçados a ficar sozinhos, mas querendo ficar juntos, muitos estão descobrindo o que deve ser o tempo de tela”.Deve ser sobre aprender e se conectar. Deveria ser humanizador, disse Sherry. Todas essas horas de sessões de drinks e coquetéis em videochamadas são ótimos uso de tela. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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