Epidemia do engajamento: a pandemia é hora da virada para indústria da moda

Scroll down to content

Desfiles internacionais cancelados, lojas fechadas, quedas assustadoras no varejo global. Em meio ao caos gerado pelo coronavírus, pensar em moda pode parecer fútil e inoportuno. Mas não é. Agora é a hora da virada para uma indústria que não tem como sair dessa pandemia ilesa nem repetindo padrões
MARIA RITA ALONSO

Epidemia do engajamento - Loja de departamento Printemps, em Paris, de portas fechadas (Foto: Divulgação)
Epidemia do engajamento – Loja de departamento Printemps, em Paris, de portas fechadas (Foto: Divulgação)

Ainda que as pessoas sentadas diante da passarela vejam tudo através da tela do iPhone, fazer um desfile da coleção resort sem plateia parece algo de uma esquisitice absurda. Na era do culto à experiência elevada à máxima potência pelas marcas de luxo, o contato pessoal e personalizado é justamente o que faz toda  diferença. Nas altas rodas da moda, o jogo da sedução passa pelos cinco sentidos e a atmosfera de um desfile é criada para fazer o espectador se sentir especial, mimado e inserido em um universo criativo de surpresas e prazeres. Por isso, tirar o calor do momento evitando a reunião de consumidores e influenciadores em torno de uma passarela soa nonsense.

No entanto, estamos todos nós aqui, em meio a uma pandemia sem precedentes na história, vendo marcas como Gucci e Prada cancelarem suas apresentações da coleção resort marcadas para os próximos meses porque, como todos sabem, o mundo parou. Com esse surto de coronavírus, não se pode mais nem dar um aperto de mão em alguém, muito menos viajar para destinos exóticos ou paradisíacos localizados no Japão, na Rússia ou em Dubai. Dior e Chanel, as últimas a tomarem a decisão de cancelar seus eventos, coincidentemente desembarcariam nesta temporada na Itália – a primeira em Lecce, região da Puglia, dia 9 de maio, e em Capri, em 7 de maio.

Epidemia do engajamento -  De repente, muitas pessoas tiveram que adotar a prática do home office  (Foto: Divulgação)
Epidemia do engajamento – De repente, muitas pessoas tiveram que adotar a prática do home office (Foto: Divulgação)
Epidemia do engajamento -  Máscaras se tornaram o acessório da nova década (Foto: Divulgação)
Epidemia do engajamento – Máscaras se tornaram o acessório da nova década (Foto: Divulgação)

Para entender o impacto desses cancelamentos, é preciso saber que as coleções chamadas resort chegam às lojas sempre no fim do ano, antes do Natal. Elas surgiram para oferecer, em pleno inverno europeu, um guarda-roupa de verão para os que viajavam por balneários solares, fugindo do frio. Hoje, com a globalização da moda e a expansão das redes sociais, essas coleções acabaram ganhando um calendário próprio e badalado, com apresentações grandiosas, que envolvem organização com staffs de até mil pessoas, em locações cinematográficas, gerando um mega-awareness de marca.

Em termos comerciais, as coleções resort se tornaram as principais responsáveis pelo lucro anual de boa parte das marcas de luxo. Suas peças são mais casuais, mais leves, têm um preço melhor dos que as de prêt-à-porter e ficam à venda por um período maior nas lojas.
Enquanto governos de toda a Europa ordenaram o fechamento temporário do comércio e das grifes de luxo e dezenas de grandes lojas e magazines norte-americanos anunciam o encerramento temporário de suas lojas físicas, gigantes globais do varejo, como a H&M, começam a sofrer quedas brutais de venda. Em uma indústria que faturou $ 150 bilhões nos meses de março e abril de 2019, as previsões agora não chegam nem perto desse número para o mesmo período de 2020. Só nos últimos meses, por exemplo, a H&M precisou fechar mais de 300 lojas em 13 países. Paralelamente, marcas pequenas e estilistas independentes desprevenidos enfrentam a pandemia como podem. Muitos devem ficar pelo caminho, com uma situação financeira complicada, tendo de cancelar suas próximas coleções.

“A economia europeia está passando pelo equivalente a uma guerra”, declarou Mário Centeno, presidente do Eurogrupo, em uma videoconferência dos ministros das Finanças da Europa. No Brasil, as perspectivas também são nebulosas. Analistas econômicos esmiúçam os acontecimentos recentes na China para tentar prever os próximos passos nos mercados do Ocidente, com a propagação do coronavírus.

Epidemia do engajamento -  Há um segmento de roupas que tem tudo para crescer: o loungewear, de olho na prática de home office  (Foto: Divulgação)
Epidemia do engajamento – Há um segmento de roupas que tem tudo para crescer: o loungewear, de olho na prática de home office (Foto: Divulgação)

Uma pesquisa realizada pela agência espanhola Red Points mediu como a quarentena está mexendo com os hábitos de compra do consumidor na Europa e nos Estados Unidos. O resultado foi exatamente o esperado: mais de 46% dos consumidores têm maior probabilidade de comprar moda, roupas e vestuário em e-commerces do que nas lojas físicas devido aos temores causados pelo vírus. Assim, a expectativa é de que as vendas on-line de moda saltem de 16% para 21% nos Estados Unidos, apesar de esse número não ser suficiente para compensar os prejuízos computados.

Epidemia do engajamento -  Máscaras se tornaram o acessório da nova década (Foto: Divulgação)
Epidemia do engajamento – Máscaras se tornaram o acessório da nova década (Foto: Divulgação)
Epidemia do engajamento - A fast fashion H&M fechou mais de 300 lojas em 13 paÍses  (Foto: Divulgação)
Epidemia do engajamento – A fast fashion H&M fechou mais de 300 lojas em 13 paÍses (Foto: Divulgação)

A boa notícia é que essa pode ser a hora da virada para diversos setores da moda, acostumados a dar respostas rápidas a tudo que é novo – olha aí o grupo francês de luxo LVMH fabricando álcool gel para hospitais de Paris e as fábricas têxteis da Itália vendendo máscaras hospitalares de algodão a preço de custo. De fato, não tem como a indústria da moda sair dessa ilesa nem repetindo padrões. Faz sentido, por exemplo, produzir toneladas de roupas com estoques excedentes que depois viram lixo? Que roupas sejam feitas por meios análogos ao trabalho escravo? E que o abuso, a discriminação e a violência de gênero contra mulheres sejam endêmicos na indústria global de vestuário? Claro que não. Isso tudo, de fato, é inaceitável!

Epidemia do engajamento -  Butique da Dior em Paris com as portas fechadas por conta das restrições do coronavÍrus (Foto: Divulgação)
Epidemia do engajamento – Butique da Dior em Paris com as portas fechadas por conta das restrições do coronavÍrus (Foto: Divulgação)

Redes sociais
Em tempos em que as conexões não são feitas no campo real, é preciso buscar engajamento estimulando a interatividade. Para agir nesse cenário de distanciamento social, as marcas terão de se dedicar a uma escuta atenta. E tomar atitudes a partir dessa demanda. “A moda pode aprender a construir melhor a relação de lealdade à marca, criando uma experiência personalizada para cada cliente”, disse Jay Hakami, diretor da Skypad, serviço de software usado por 72% das marcas de luxo globais, ao portal WWD.
Nesse contexto, há um segmento de roupas que tem tudo para crescer: o de loungewear, como já haviam previsto birôs de tendência, de olho na prática de home office. Kim Kardashian, inclusive, anunciou recentemente a criação de uma marca com essa pegada.
É verdade que pensar em moda agora, nesse momento dramático, pode até parecer fútil e inoportuno. Mas a moda tem um lado admirável e positivo. Roupas têm potencial para transmitir emoções, influenciar nosso estado de espírito e fazer com que a gente se sinta parte de um todo. A moda se define por se referir ao conjunto. Na moda, tudo acontece em cadeia, ninguém é por si só. Estamos juntxs!

Maria Rita Alonso (Foto: Divulgação)
Maria Rita Alonso (Foto: Divulgação)

Maria Rita Alonso é jornalista e consultora de moda. Para ela, falar de moda é falar de como as pessoas vivem, se posicionam, se reunem e se expressam.
(@mariaritaalonso)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: