Mulher-Maravilha 1984 | Amazonas terão tatuagens douradas na sequência

Foto dos bastidores revela detalhe sobre o visual das guerreiras de Themyscira
GABRIEL AVILA

Uma nova foto dos bastidores de Mulher-Maravilha 1984 revela que as amazonas terão tatuagens douradas. A imagem mostra o processo de maquiagem de uma das guerreiras, que agora carrega marcas na própria pele.

Ainda não há detalhes sobre a história de Mulher-Maravilha 1984, mas agora a amazona vivida por Gal Gadot será mostrada na década de 1980. Chris Pine retorna ao papel de Steve Trevor, Kristen Wiig será a vilã Barbara Minerva, a Mulher-Leopardo, e Pedro Pascal será o também vilão Max Lord. 

De Beatles a Elton John: todos queriam ser como Little Richard

Pai do rock and roll quebrou barreiras musicais e estéticas de gênero
DAVID BROWNE, DA ROLLING STONE EUA

Little Richard, em foto de 1966 — Foto: AP/Arquivo

Little Richard, um dos fundadores do rock, cujos gritos fervorosos, roupas extravagantes e persona alegre e desafiadora de gênero incorporava o espírito e sonoridade daquela nova forma de arte, morreu neste sábado, 9. Tinha 87 anos. O filho do músico, Danny Jones Penniman, confirmou a morte do pioneiro do rock à Rolling Stone EUA, mas a causa da morte é desconhecida. 

Começando com “Tutti Frutti”, em 1956, Little Richard teve uma série de sucessos irrefreáveis – “Long Tall Sally” e “Rip It Up” naquele mesmo ano, “Lucille” em 1957, e “Good Golly Miss Molly” em 1958 – guiadas pelo piano simples e vibrante, exclamações vocais influenciadas pela música gospel e letras carregadas de sexualidade (muitas vezes sem sentido). “Ouvi Little Richard e Jerry Lee Lewis, e aquilo era tudo”, contou Elton John à Rolling Stone EUA, em 1973. “Eu não queria mais ser outra coisa. Sou mais um do estilo Little Richard que um Jerry Lee Lewis, acho. Jerry Lee é um pianista muito intrincado e muito habilidoso, mas Little Richard tem mais peso.”

Apesar de nunca ter chegado ao top 10 novamente depois de 1958, a influência de Little Richard foi massiva. The Beatles gravou diversas músicas dele, incluindo “Long Tall Sally”, e os vocais de Paul McCartney nessas músicas – e em “I’m Down”, dos próprios Beatles – é um tributo ao estilo da garganta desfiada de Little Richard.  As músicas de Richard se tornaram partes canônicas do rock and roll, com covers de todos desde Everly Brothers, The Kinks e Creedence Clearwater Revival a Scorpions. “Elvis popularizou [o rock]”, Steven Van Zandt postou após a notícia. “Chuck Berry era o narrador. Richard era o arquétipo.”

A persona de Little Richard no palco – o topete pompadour, maquiagem andrógina e camisas com pingentes de vidro – também definiu o padrão para o espetáculo do rock. Prince é o Little Richard da geração”, Richard disse à Joan Rivers, em 1989, antes de olhar para a câmera e se dirigir a Prince. “Eu usava roxo antes de você!”

Nascido Richard Wayne Penniman, em 05 de dezembro de 1932, em Macon, Georgia, era uma entre 12 crianças, e cresceu com tios pastores. “Eu nasci na periferia. Meu pai vendia uísque, uísque pirata”, contou à Rolling Stone EUA, em 1970. Apesar de cantar em uma ignreja próxima, o pai, Bud, não apoiava a música do filho e o acusava de ser gay, resultando na saída de Penniman de casa aos 13 anos, para  morar com uma família branca em Macon. Mas a música o seguiu: um dos amigos dos tempos de menino era Otis Redding, e Penniman escutou R&B, blues e country enquanto trabalhava em um estande concedido no auditório da cidade. 

Depois de se apresentar no Tick Tock Club, em Macon, e vencer um show de talentos local, Penniman fechou o primeiro contrato, com a RCA, em 1951. (Ele se tornou “Little Richard” quando tinha cerca de 15 anos, quando os mundos do R&B e blues estavam cheios de atos como Little Esther e Little Milton; e também estava cansado de ouvir a pronúncia errada do último nome como “Penny-man”). Aprendeu o estilo distintivo no piano de Esquerita, uma cantora e pianista da Carolina do Sul que também usava um topete pompadour alto. 

Nos cinco anos seguintes, o avanço da carreira de Little Richard foi apenas adequado; razoavelmente manso, os singles convencionais gravados para RCA e outras gravadoras não chegaram nas paradas. “Quando comecei, nunca ouvi nenhum rock and roll”, contou à Rolling Stone EUA em 1990. “Quando comecei a cantar [rock and roll], cantei por muito tempo antes de apresentar ao público porque tinha receio de que não gostariam. Eu nunca escutei ninguém fazer isso, e estava assustado.”

Em 1956, Richard lavava louças na estação de ônibus da Greyhound, em Macon (um emprego de alguns anos antes, depois que o pai foi assassinado e Richard Wayne Penniman precisou sustentar a família). Na época, apenas uma música, “Little Richard’s Boogie”, deu sinais do tornado a caminho. “Coloquei aquela coisa pequena”, contou à Rolling Stone EUA, em 1970, sobre a presença das raízes gospel. “Sempre tive isso, mas eu não sabia o que fazer com o que tinha.”

Durante a decaída, enviou uma gravação com versões sem edição de uma novidade obscena chamada “Tutti Frutti” para Specialty Records, em Chicago. Ele criou o famoso refrão da música – “a wop bob alu bob a wop bam boom” – enquanto lavava louças. (Richard também escreveu “Long Tall Sally” e “Good Golly Miss Molly” no mesmo emprego.)

Por coincidência, Art Rupe, dono da gravadora e produtor, buscava um vocalista para algumas músicas para gravar em Nova Orleans, e a entrega uivante de Penniman se encaixava. Em setembro de 1955, o músico gravou uma versão de “Tutti Frutti” com letra higienizada, que se tornou o primeiro sucesso, alcançando a posição 17 na parada de pop. “‘Tutti Frutti’ realmente começou a unir as raças”, comentou, em 1990, para Rolling Stone EUA. “Desde o início, minha música foi aceita pelos brancos.”

A sequência, “Long Tall Sally”, chegou ao número 6, e se tornou o sucesso melhor posicionado da carreira. De  “Long Tall Sally” a “Slippin’ and Slidin”, os sucessos de Little Richard – uma mistura gloriosa de boogie, gospel, e jump blues, produzido por Robert “Bumps” Blackwell – soava como se ele nunca ficasse parado. Com o pompadour característico e maquiagem (que começou a usar para parecer menos ‘ameaçador” ao tocar em clubes de brancos), Richard ficou instantaneamente no nível de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e outros ícones do começo do rock, completa com fãs raivosos e shows lotados. “Era com isso que jovens na América estavam animados”, disse à Rolling Stone em 1970. “Não querem uma farsa, querem a verdade.” 

Assim como Presley, Lewis e outros contemporâneos, Penniman também participou dos primeiros filmes de rock, como Música Alucinante (1956) e Sabes o que Quero (1957). Em demonstração de como a indústria da música e rádio era segregada, na época, os covers tímidos de Pat Boone de  “Tutti Frutti” e “Long Tall Sally” tiveram desempenho tão bom ou melhor quanto as versões do próprio Richard. (“Tutti Frutti” de Boone chegou ao décimo segundo lugar, superando Little Richard por nove posições). Mais tarde, Penniman contou à Rolling Stone que fez questão de cantar “Long Tall Sally” para garantir que Boone não conseguiria copiar tanto. 

Então os sucessos pararam, por escolha própria. Depois do que interpretava como sinais – a máquina de um avião que pareceu pegar fogo e um sonho sobre o fim do mundo e a danação -, Penniman desistiu da música em 1957, e começou a frequentar a Oakwood University, na escola de Alabama Bible, onde foi ordenado como ministro. Quando finalmente lançou um novo álbum, em 1959, o resultado foi uma seleção gospel chamada God Is Real

Com o fracasso na carreira gospel, Little Richard retornou ao rock secular em 1964. Apesar de nenhum dos álbuns e singles lançados na década seguinte em diversas gravadoras ter vendido bem, foi bem recebido de volta por uma nova geração de roqueiros, como The Rolling Stones e Bob Dylan (que tocava as músicas de Little Richard no piano quando era criança). Quando Little Richard tocou no Star-Club, em Hamburgo, no começo dos anos 1960, o ato de abertura era ninguém menos que os Beatles. “Costumávamos ficar nos bastidores para assistir Little Richard tocar”, John Lennon contou depois. “Ele costumava ler a Bíblia nos bastidores, e só de ouvi-lo falar, nós sentávamos em torno para ouvir. Ainda o amo e ele é um dos melhores.”

Nos anos 1970, Little Richard vivia respeitosamente no circuito de veteranos do rock, imortalizado em uma performance abrasadora e suada no documentário Let the Good Times Roll, de 1973. Durante esse período, Richard também se tornou viciado em maconha e cocaína e, ao mesmo tempo, retornou às raízes gospel.

Little Richard também desmantelou estereótipos sexuais no rock & roll, mesmo que deixasse muitos de seus fãs confusos no processo. Durante a adolescência e no estrelato do rock, sua personalidade estereotipada e extravagante fez algumas especulações sobre a sexualidade dele, mesmo sem nunca se assumido publicamente. Mas essa extravagância não inviabilizou sua carreira. Na biografia de 1984, The Life and Times of Little Richard (escrito em conjunto com o artista), Richard denunciou a homossexualidade como “contagiosa… Não é algo com que você nasce”. (Onze anos depois, disse em entrevista à Penthouse que foi “gay durante toda a vida”.)

Mais tarde, se descreveu como “omnisexual”, com atração por homens e mulheres. Mas em uma entrevista com o grupo cristãos do Three Angels Broadcasting Group, em 2017, condenou o estilo de vida gay e transexual. “Deus, Jesus, Ele fez homens, homens, Ele fez mulheres, mulheres, entende? Você precisa viver como Deus quer. Muitas afeições não naturais. Muitas pessoas fazendo o que desejam sem pensar em Deus.”

No entanto, nada disso pareceu prejudicar a mística ou lenda. Nos anos 80, apareceu em filmes como Um Vagabundo na Alta Roda e em programas de TV como Três é Demais e Miami Vice. Em 1986, foi um dos 10 indicados originais para o Hall da Fama do Rock and Roll e, em 1993, recebeu o Lifetime Achievement Award no Grammy. A última gravação conhecida foi em 2010, quando gravou uma música para um álbum de homenagem à cantora gospel Dottie Rambo.

Nos anos anteriores à morte, Little Richard, em Nashville, na época, ainda se apresentava periodicamente. No palco, no entanto, a fisicalidade do passado desapareceu: graças à cirurgia de substituição da anca, em 2009, Richard só conseguia se sentar ao piano. Mas seu espírito rock and roll nunca o abandonou. “Sinto muito, mas não posso fazer isso como deveria ser feito”, disse a uma platéia em 2012. Depois que a platéia deu gritos de encorajamento, ele disse – com um gritinho de Little Richard – “Oh, você vai me fazer gritar como uma garota branca!”


Tradução de Larissa Catharine Oliveira

Little Richard; FOTOS

Little Richard durante apresentação no Hamburg Star Club, em outubro de 1962 — Foto: Sven Simon/dpa Picture-Alliance via AFP/Arqui
Little Richard durante apresentação no Hamburg Star Club, em outubro de 1962 — Foto: Sven Simon/dpa Picture-Alliance via AFP/Arqui
Little Richard, em foto de novembro de 1986 — Foto: AP/Arquivo
Little Richard, em foto de novembro de 1986 — Foto: AP/Arquivo
Little Richard durante apresentação em Colônia, na Alemanha. Foto de dezembro de 1986 — Foto: Horst Galuschka/DPA/Picture-Alliance via AFP/Arquivo
Little Richard durante apresentação em Colônia, na Alemanha. Foto de dezembro de 1986 — Foto: Horst Galuschka/DPA/Picture-Alliance via AFP/Arquivo
Little Richard, em foto de janeiro de 1988 — Foto: Mark Lennihan/AP/Arquivo
Little Richard, em foto de janeiro de 1988 — Foto: Mark Lennihan/AP/Arquivo
Little Richard, em foto de novembro de 1986 — Foto: Mark Avery/AP/Arquivo
Little Richard, em foto de novembro de 1986 — Foto: Mark Avery/AP/Arquivo
Little Richard durante apresentação em São Paulo, foto de setembro de 1993 — Foto: Luiz Prado/Estadão Conteúdo/Arquivo
Little Richard durante apresentação em São Paulo, foto de setembro de 1993 — Foto: Luiz Prado/Estadão Conteúdo/Arquivo
Nesta foto de arquivo de 21 de abril de 2002, Little Richard apresenta 'Good Golly Miss Molly' com as Pointer Sisters, no Pasadena Civic Auditorium, em Pasadena, na Califórnia — Foto: Chris Pizzello/AP/Arquivo
Nesta foto de arquivo de 21 de abril de 2002, Little Richard apresenta ‘Good Golly Miss Molly’ com as Pointer Sisters, no Pasadena Civic Auditorium, em Pasadena, na Califórnia — Foto: Chris Pizzello/AP/Arquivo
Little Richard, em foto de junho de 2005 — Foto: Stephane de Sakutin/ AFP/Arquivo
Little Richard, em foto de junho de 2005 — Foto: Stephane de Sakutin/ AFP/Arquivo
Nesta foto de arquivo de 19 de agosto de 2004, Little Richard se apresenta no Westbury Music Fair, em Westbury, NY — Foto: Ed Betz/AP/Arquivo
Nesta foto de arquivo de 19 de agosto de 2004, Little Richard se apresenta no Westbury Music Fair, em Westbury, NY — Foto: Ed Betz/AP/Arquivo
Little Richard durante apresentação no festival Crossroad, em Gijon, norte da Espanha. Foto de julho de 2005 — Foto: Alonso Gonzalez PH/DY/Reuters/Arquivo
Little Richard durante apresentação no festival Crossroad, em Gijon, norte da Espanha. Foto de julho de 2005 — Foto: Alonso Gonzalez PH/DY/Reuters/Arquivo
Little Richard, em foto de dezembro de 2004 — Foto: Chris Stanford/Getty Images North America/AFP/Arquivo
Little Richard, em foto de dezembro de 2004 — Foto: Chris Stanford/Getty Images North America/AFP/Arquivo
Little Richard durante apresentação em outubro de 2001 — Foto: Tim Parker/Reuters/Arquivo
Little Richard durante apresentação em outubro de 2001 — Foto: Tim Parker/Reuters/Arquivo
Little Richard durante performance na Califórnia em 2005 — Foto: Fred Prouser/Reuters
Little Richard durante performance na Califórnia em 2005 — Foto: Fred Prouser/Reuters
Little Richard, em foto de julho de 2006 — Foto: Andre Durand/AFP/Arquivo
Little Richard, em foto de julho de 2006 — Foto: Andre Durand/AFP/Arquivo
Little Richard, em foto de março de 2005 — Foto: Kevin Winter/Getty Images North America/AFP/Arquivo
Little Richard, em foto de março de 2005 — Foto: Kevin Winter/Getty Images North America/AFP/Arquivo
Little Richard e Jerry Lee Lewis durante apresentação no 50º Grammy Awards, em Los Angeles. Foto de fevereiro de 2008 — Foto: Mike Blake (United States)/Reuters/Arquivo
Little Richard e Jerry Lee Lewis durante apresentação no 50º Grammy Awards, em Los Angeles. Foto de fevereiro de 2008 — Foto: Mike Blake (United States)/Reuters/Arquivo
Nesta foto de arquivo de 30 de maio de 2009, Little Richard se apresenta no 'The Domino Effect', um concerto em homenagem ao músico Fats Domino, no New Orleans Arena, em New Orleans, na Luisiana — Foto: Patrick Semansky/AP/Arquivo
Nesta foto de arquivo de 30 de maio de 2009, Little Richard se apresenta no ‘The Domino Effect’, um concerto em homenagem ao músico Fats Domino, no New Orleans Arena, em New Orleans, na Luisiana — Foto: Patrick Semansky/AP/Arquivo
Little Richard, em foto de julho de 2001 — Foto: John Hayes/AP/Arquivo
Little Richard, em foto de julho de 2001 — Foto: John Hayes/AP/Arquivo
Ashanti, Stevie Wonder, Smokey Robinson, Mya, Little Richard e Don Cornelius participam da premiação TV Land Awards, em Santa Monica, na Califórnia. Foto de março de 2005 — Foto: Kevin Winter/Getty Images North America/Getty Images via AFP/Arquivo
Ashanti, Stevie Wonder, Smokey Robinson, Mya, Little Richard e Don Cornelius participam da premiação TV Land Awards, em Santa Monica, na Califórnia. Foto de março de 2005 — Foto: Kevin Winter/Getty Images North America/Getty Images via AFP/Arquivo
Little Richard durante apresentação no Grugahalle, em Essen, na Alemanha. Foto de julho de 1997 — Foto: Herbert Spies/dpa Picture-Alliance via AFP/Arquivo
Little Richard durante apresentação no Grugahalle, em Essen, na Alemanha. Foto de julho de 1997 — Foto: Herbert Spies/dpa Picture-Alliance via AFP/Arquivo
Cathy Hughes e Little Richard durante o NMAAM's Celebration Of Legends Red Carpet And Luncheon. Foto de 6 de maio de 2016, em Nashville, no Tennessee — Foto: Terry Wyatt/Getty Images for National Museum of African American Music/AFP/Arquivo
Cathy Hughes e Little Richard durante o NMAAM’s Celebration Of Legends Red Carpet And Luncheon. Foto de 6 de maio de 2016, em Nashville, no Tennessee — Foto: Terry Wyatt/Getty Images for National Museum of African American Music/AFP/Arquivo

Sinner & Saint

Uri Valls and Simon Lucadamo at Sight Management photographed by Vinyet Feliubadaló and styled by Mariana Moura, in exclusive for Fucking Young! Online.

Hair & Make-up: Vinyet Feliubadaló @byvinyet
BRANDS: Orate Studio, Eñaut, Avellaneda, Balenciaga, New Rock, KM By Lange, Juanjo Villalba, Sonia Carrasco, Carlota Barrera, Ángel Campano, Tatiana Gil de la Visitación.

Mercado de games é superaquecido com isolamento social

Coronavírus faz indústria de jogos movimentar US$ 10 bilhões só em março deste ano no mundo todo; no Brasil, das 375 empresas do setor, 96,8% são pequenas, com faturamento de até R$ 3,6 milhões
Letícia Ginak

Jogo Pixel Ripped 1995, lançado durante a quarentena, pelo estúdio Arvore REPRODUÇÃO

Pode causar surpresa, mas há um segmento que está passando pela crise econômica gerada pelonovo coronavírus sem prejuízos: a indústria de games. De acordo com a Superdata, empresa do grupo Nielsen, os gastos feitos por consumidores do mundo todo com jogos digitais em março deste ano atingiram a cifra de US$ 10 bilhões, o maior total mensal de todos os tempos e um reflexo direto do isolamento social em prática em boa parte do mundo.

Jogo Pixel Ripped 1995, lançado durante a quarentena, pelo estúdio Arvore DIVULGAÇÃO

Os dados globais não mostram apenas o potencial do setor, mas também apontam a principal característica dele: games são produtos que nascem de forma internacional. Jogar não requer idioma. Além disso, o game que você comprou pode até ter sido lançado por uma empresa norte-americana, mas ele certamente passou pelas mãos de desenvolvedores, animadores, criadores e demais profissionais de qualquer lugar do mundo.

No Brasil, essa indústria é composta em sua imensa maioria por PMEs (pequenas e médias empresas). Das 375 empresas do ramo no País, cerca de 96,8% têm faturamento abaixo de R$ 3,6 milhões, segundo o II Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais realizado pela Associação Brasileira de Games (Abragames), em 2018.

Com modelos de negócios diversos, as PMEs nacionais corroboram os dados globais, com lançamentos durante a pandemia e aumento de receita devido à alta do dólar (que ultrapassou a cotação de R$ 5), principal moeda em que ocorrem as transações comerciais do setor.


Modelos de negócios e oportunidades

Para ganhar agilidade e escala, grandes estúdios contratam pequenas empresas para produzir e desenvolver etapas de um novo jogo ou versão de um game já publicado, por exemplo. Outro ponto importante é que criar um game à distância, sem necessariamente ir todos os dias a um estúdio, é uma realidade do mercado. Há empresas em que os funcionários já trabalham de suas casas, muito antes de a pandemia exigir a adoção dohome office.

De acordo com o diretor da Abragames Fernando Chamis, as empresas que trabalham com jogos de entretenimento estão ganhando mais no período. “Para aquelas que têm jogos recém-lançados, há um benefício. Com muita gente em casa, o número de jogadores aumenta. Consequentemente, as empresas estão ganhando mais, seja com a venda do jogo, de itens dentro do jogo, com a exibição de anúncio (se tem mais gente jogando, tem mais anúncio sendo exibido). No Brasil, com o dólar mais alto, as empresas estão ganhando mais dinheiro ainda porque tanto as vendas quanto o pagamento de visualização dos anúncios são feitos na moeda”, diz Chamis.

Jogo Avakin Life, para o qual o estúdio paulistano Flux Games colaborou com cenas brasileiras REPRODUÇÃO

O diretor ainda pontua que o cenário atual traz novas oportunidades. “Para empresas que estavam passando por dificuldades antes desse período, pode ser uma oportunidade de se reinventar. A demanda por jogos corporativos, para promover a integração de equipes à distância, aumentou”, explica. Dono do estúdio WebCore, Chamis completa que em sua empresa a demanda de companhias que buscam orçamentos para fazer jogos internos cresceu quatro vezes.

O trabalho remoto, lembra Chamis, é uma realidade do setor. “A produção de um game não para, diferentemente da de um filme. Não afeta em nada você desenvolver um game em casa. Já existem empresas que trabalham 100% remotas”, diz.


Formas de atuar na indústria de jogos

O estúdio pode desenvolver o jogo do início ao fim e ainda publicá-lo, realizando todas as etapas do processo e, assim, ganhando 100% da receita gerada pelo game. O estúdio também pode criar e desenvolver o game e encontrar uma publicadora para lançá-lo no mercado.

Há publicadoras que querem novos títulos e, apresentando temática específica ou não, buscam estúdios para criá-los. Por fim, muitos estúdios atuam no segmento de external development, que é a criação ou desenvolvimento de etapas específicas de um game (com ou sem propriedade intelectual envolvida).

É o caso do Flux Games Studio, de São Paulo. Há 8 anos no mercado, os primeiros três anos da empresa foram focados no desenvolvimento de jogos eletrônicos por encomenda e não necessariamente de entretenimento. Paulo Luis Santos, CEO do Flux conta que a empresa decidiu, em 2014, focar no mercado internacional de jogos de entretenimento e passou a atuar no desenvolvimento completo de games ou em etapas específicas de jogos produzidos por estúdios maiores.

Em 2015, eles já tinham clientes na Holanda, na Alemanha e na Argentina, entre outros países. Em 2020, a expectativa é que a receita venha de 90% de exportação de trabalhos.

Não tem muito sentido a empresa mirar no mercado local a não ser que ele tenha uma particularidade muito grande. A regra é criar uma propriedade intelectual que possa ser comercializada no mundo inteiro”Paulo Luis Santos, CEO do Flux Games Studio

Segundo Paulo Luis Santos, dólar em alta gerou receita para novas 4 vagas no estúdio DIVULGAÇÃO

Sobre o atual momento de crise global, Santos acredita que ele é oportuno. “Esse é um mercado que atravessa crises com bastante sucesso mesmo diante das adversidades. É o que a gente está vivendo agora. Há visibilidade para quem já tem produtos ou está lançando produtos. O lado bom da crise é que tem mais gente olhando para nós”, acredita.

O trabalho mais recente que o Flux realizou foi uma cena brasileira para o game Avakin Life, que em 2019 atingiu a marca de 1 milhão de usuários ativos por dia. Publicado por uma empresa do Reino Unido e popular no Brasil, Santos conta que a empresa queria contemplar os jogadores brasileiros. “Criamos uma cena brasileira, com roda de samba e baile funk, representando a vida noturna no Sudeste”, conta. A cena entrou no jogo na última quinzena de abril.

Sobre a folga orçamentária que a crise cambial gerou para as empresas de games, Santos diz que o projeto valendo mais em real fez com que ele abrisse quatro vagas de trabalho no estúdio.

Cartaz do game World War Doh, do estúdio Puga, de Recife REPRODUÇÃO

A maior prova de que nascer internacional é a melhor forma para se estabelecer na indústria de games vem de Rodrigo Carneiro, CEO do estúdio Puga, localizado em Recife (PE). Fundada em 2013, a empresa quebrou três anos depois.

“Afunilamos o escopo da empresa e de jogadores. Fizemos um game para o Esporte Clube do Recife. Na época, poderíamos ter atacado o mundo, mas atacamos o Brasil, pessoas do Estado de Pernambuco, que são torcedores do Esporte Clube do Recife e, por fim, do time de basquete”, conta.

Em 2017, a empresa decidiu retomar as atividades com a exportação de serviços e, de acordo com Carneiro, a Puga renasceu com força um ano depois, em 2018. O resultado é que, mesmo sem o fim do primeiro semestre de 2020 e em meio a uma pandemia, a empresa já superou o faturamento bruto de 2019. A Puga já exportou serviços para Bélgica, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, entre outros.

“Nesse momento, o mundo demanda produtos de entretenimento. Quem tem projeto para ser lançado agora vai ter uma vantagem comercial absurda, pois as plataformas de publicação estão batendo recorde de usuários jogando e de vendas. O mundo quer mais conteúdo por conta do isolamento social”, acredita Rodrigo, que não pode contar sobre os próximos lançamentos devido a contratos de confidencialidade.

Jogo Pixel Ripped 1995, lançado durante a quarentena, pelo estúdio Arvore REPRODUÇÃO

Promover um lançamento em meio à pandemia do coronavírus parece loucura? Não para os sócios do Arvore, que cria conteúdos imersivos e games de realidade virtual. O estúdio é o responsável pelo game Pixel Ripped 1989, um hit do segmento. No dia 23 de abril, eles lançaram a segunda versão do game, o Pixel Ripped 1995.

Rodrigo Terra, um dos sócios da empresa, diz que o cenário da Arvore muda em relação às outras empresas de games neste período de pandemia, principalmente sobre o home office.

“A realidade virtual não existe sem a física. Por mais que a gente crie um produto digital, a gente depende do espaço físico. É diferente de um game que você faz todo o desenvolvimento no computador. O desenvolvedor tem que colocar o óculos de realidade virtual e se mexer na cadeira, levantar, subir, andar. A pandemia trouxe um novo entendimento para a gente. Faz falta o espaço físico em determinadas etapas do processo”, explica.


Festival e projeto de internacionalização

8ª edição do BIG Festival, maior evento de games realizado no Brasil, informa que não será cancelado por conta da covid-19. Será realizado de forma online entre os dias 22 e 26 de junho, quando serão promovidas rodadas de negócios para que as empresas nacionais possam ter contato com publishers e players do mercado internacional.

O evento é uma iniciativa da Abragames e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), que coordena o projeto de internacionalização do setor, o Brasil Games. Para Mariana Gomes, analista de negócios internacionais da Apex-Brasil, mesmo em tempos de pandemia, o projeto não sofrerá alterações.

“Esse mercado não é baseado em fronteira, mas em consumo. Como é um produto que nasce digital, existe essa facilidade de fazer negócios quando eu comparo com outros setores”. A entidade promoveu um estudo em que aponta os Estados Unidos como um dos principais mercados para empresas nacionais fazerem negócios.

“O estudo aponta o constante crescimento de jogos para mobile para o mercado americano. Mesmo com a pandemia, isso não vai mudar. A oportunidade existe.”