Há 30 anos, OMS tirou homossexualidade de catálogo de distúrbios

Avaliação abria espaço para a cura gay, hoje proibida pelo Conselho Federal de Psicologia mas ainda praticada
Dhiego Maia

Foto ilustração mostra bonecos sob o arco-íris, símbolo do movimento LGBTI Karime Xavier/Folhapress

“Diziam que o diabo botava isso na gente”. “A psicóloga perguntou se eu havia sido estuprado na minha infância”. “Ouvi que era coisa de pai muito ausente”.

Os relatos integram o livro “Tentativas de Aniquilamento de Subjetividades LGBTIs”, lançado em 2019 pelo Conselho Federal de Psicologia.

A obra ouviu 32 pessoas apontadas como doentes e obrigadas pela família a passar por “sessões de cura” em consultórios e comunidades terapêuticas para deixarem de ser lésbicas, gays, bissexuais, trans, travestis e intersexo.

Neste domingo (17), faz 30 anos que a OMS (Organização Mundial da Saúde) retirou o homossexualismo (o sufixo “ismo” refere-se a doença na medicina) da 10ª edição da CID, sigla em inglês para Classificação Estatística Internacional de Doenças.

Antes da mudança, a homossexualidade (o sufixo “dade” significa comportamento) estava no mesmo patamar de transtornos como a pedofilia. Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria já havia banido a homossexualidade de sua lista de distúrbios.No Brasil, a mesma medida foi tomada antes da chancela da OMS pelo Conselho Federal de Medicina em 1985 após pressão do Grupo Gay da Bahia, conta o fundador da ONG, Luiz Mott. “Fizemos um abaixo-assinado, que recolheu 16 mil assinaturas, entre elas, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, numa época em que só havia fax.”O 17 de maio virou o Dia Internacional Contra a Homofobia e a Transfobia.

A antropóloga Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, da Unicamp, explica que a OMS despatologizou a homossexualidade, mas deixou um resíduo. “Ficou em aberto a possibilidade de as pessoas que não se sentirem confortáveis com sua homossexualidade procurarem tratamento.”

Para a OMS, essas pessoas tinham orientação sexual egodistônica. No ano passado, a entidade tirou da egodistonia o status de transtorno psíquico na 11ª versão da CID, que passa a valer em janeiro de 2022. No novo catálogo, a transexualidade também deixou de ser considerada uma doença.

Desde 1999, os psicólogos brasileiros são obrigados a cumprir a resolução 001 do Conselho Federal da categoria, que proíbe terapias de reversão sexual em pessoas LGBTIs. Para a entidade, não é possível curar uma doença que não existe.

Mas, por causa da brecha deixada pela OMS, psicólogos cristãos conseguiram nos tribunais aval para fornecer a chamada “cura gay”.

O “Movimento Psicólogos em Ação” obteve na Justiça Federal do Distrito Federal uma liminar em setembro de 2017 e uma sentença favorável três meses depois expedida pelo juiz Waldemar de Carvalho. A decisão do magistrado provocou uma série de protestos pelo país na época.

No seu despacho, Carvalho negou cassar a resolução 001, como pretendia o movimento, mas entendeu que não poderia deixar “desamparados os psicólogos que se dispunham a estudar e aplicar suas técnicas àqueles que procurarem suporte no enfrentamento de seus mais profundos sofrimentos relacionado à orientação sexual egodistônica”.

Psicólogos do movimento também se alinharam a políticos evangélicos para tentar implantar a medida por meio da aprovação de projetos de lei. De ao menos cinco iniciativas apresentadas na Câmara Federal, entre 2005 e 2016, uma ainda está em tramitação e as demais foram arquivadas.

A figura mais conhecida do “Psicólogos em Ação” é Rosangela Justino. Evangélica e bolsonarista, ganhou apoio da nora do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), também psicóloga, quando integrou chapa na disputa pelo comando do Conselho Federal de Psicologia no ano passado. Mas seu grupo acabou na lanterna dos endossos, com apenas 12% dos votos alcançados pela chapa vitoriosa.

A reportagem procurou o “Psicólogos em Ação”, com pouco mais de 5.600 seguidores nas redes sociais; e Justino, mas eles não responderam aos pedidos de entrevista. Em 2009, após ter sido punida por fornecer terapia de reorientação sexual, Justino afirmou à Folha se sentir perseguida por conselhos de psicologia afoitos para “implantar a ditadura gay” no país.

A “cura gay” foi um serviço legalmente fornecido no Brasil de setembro de 2017 a abril de 2019 até que a ministra Cármen Lúcia, do STF, barrou a prática por meio de liminar que atendeu a um pedido do Conselho Federal de Psicologia. Em janeiro deste ano, a ministra suspendeu a tramitação da ação popular movida pelos psicólogos cristãos.

Para Pedro Paulo Bicalho, presidente do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, o desconforto sentido por uma pessoa LGBTI não é um problema dela, mas social.

“Essa sensação de rejeição [egodistonia] em relação à própria sexualidade é o efeito mais direto que uma pessoa não heterossexual vive na sociedade LGBTfóbica brasileira”, diz. “Cabe a nós, psicólogos, tratar a dor causada por isso, mas nunca dizer que ela poderá deixar de ser LGBTI”.

Cris Serra, que pesquisa religião e sexualidade na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), vê na pressão de mercado um dos pilares de fomento da “cura gay”.“As comunidades terapêuticas fazem, na clandestinidade, esses atendimentos”, diz.

Inspeções do Conselho Federal de Psicologia realizadas em 2011 e 2018 em clínicas autorizadas a apenas tratar pessoas com dependência química localizaram LGBTIs sem vícios sendo submetidos a processos de reorientação sexual.

O antropólogo Alexandre Oviedo, que analisou controvérsias no discurso da “cura gay” promovida por 19 organizações que trabalham em igrejas, diz que elas “buscam colocar um verniz científico nos seus discursos e ligar a homossexualidade a abusos na infância ou família desestruturada.”

Para o advogado e ativista Renan Quinalha, da Unifesp, o movimento LGBTI tem, entre muitos desafios, a necessidade de mais uma vez se reinventar no momento em que falta espaço institucional para a causa. “É impossível dialogar com a ministra Damares Alves”, diz.

Folha questionou o Ministério da Família e dos Direitos Humanos sobre quais ações tem tomado para assegurar e ampliar os direitos LGBTIs no Brasil, mas a pasta não se manifestou.


DESAFIOS E CONQUISTAS DOS LGBTIS

A partir dos anos 1950
Surgem as divas trans que se tornam grandes estrelas no Brasil e na Europa, como Rogéria, Jane di Castro, Eloína e Fujika, entre outras.

A artista Divina Valéria
A artista Divina Valéria Marcus Leoni/Folhapress

1969
LGBTs de Nova York colocam fim às agressões que sofriam em batidas policiais realizadas num bar da cidade, o Stonewall Inn. O grupo resistiu por três dias em 1969, numa época em que se relacionar com pessoas do mesmo sexo era ilegal em todos os estados americanos.

O movimento estimulou uma marcha sem volta de LGBTs por mais igualdade de direitos em várias partes do mundo e ficou conhecido como a revolta de Stonewall

1978
Início do movimento pelos direitos LGBT no Brasil. É fundado, no Rio de Janeiro, o jornal Lampião na Esquina, voltado para as questões da comunidade. Em São Paulo, surge o Somos

1982
Ocorre a famosa passeata contra o delegado José Wilson Richetti, que realizava batidas policiais no centro de São Paulo contra travestis, gays e prostitutas sobre o pretexto de moralização social

1983
Em 19 de agosto de 1983, um protesto realizado por lésbicas e apoiado por grupos feministas pôs fim às discriminações sofridas no Ferro’s Bar, centro de SP. O ato ficou conhecido como o “Stonewall brasileiro”

Anos 1980 e 1990
Anos de pânico: o HIV chega ao Brasil e faz estrago conhecido como “peste gay”. Na Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo é organizado o primeiro núcleo de luta anti-Aids. Morrem Darcy Penteado, Caio Fernando Abreu e Cazuza por complicações da doença

1985
O Conselho Federal de Medicina retira a homossexualidade de sua lista de doenças

1990
OMS (Organização Mundial da Saúde) retira a homossexualidade de sua lista de transtornos mentais

1992
No Piauí, Kátia Tapeti é eleita a primeira vereadora trans na história da política brasileira

1995
As primeiras Paradas do Orgulho LGBT são realizadas em Curitiba e no Rio

1997
A cidade de São Paulo sedia sua primeira Parada LGBT. Em 2006, a passeata paulistana entra para o Guinness Book como o maior evento do gênero

2001
O governo de São Paulo promulga a lei 10.948 que penaliza práticas discriminatórias em razão da orientação sexual e identidade de gênero

Manifestantes promovem beijaço gay em frente ao Congresso contra a permanência do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara
Manifestantes promovem beijaço gay em frente ao Congresso contra a permanência do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Pedro Ladeira/Folhapress

2002
O processo de redesignação sexual, a chamada cirurgia de “mudança de sexo” do fenótipo masculino para o feminino é autorizada pelo Conselho Federal de Medicina. Em 2008, passa a ser oferecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde)

2011
STF (Supremo Tribunal Federal) reconhece a união homoafetiva, um marco na luta pelos direitos LGBT

2018
STF decide que transexuais e transgêneros podem mudar seus nomes de registro civil sem necessidade de cirurgia

2019
STF enquadra a homofobia e a transfobia na lei de crimes de racismo até que o Congresso crie legislação própria sobre o tema

2020
STF declara inconstitucionais as normas que proíbem gays de doar sangue

Fonte: Livro Devassos no Paraíso – João Silvério Trevisan. Editora OBJETIVA

Britney Spears comemora aniversário de 20 anos do álbum Oops!… I Did It Again

Segundo trabalho da cantora foi lançado em 16 de maio de 2000
JULIA SABBAGA

Britney Spears – Oops! I Did It Again (2009)

Britney Spears publicou um vídeo em seu Instagram celebrando os 20 anos de seu segundo álbum, Oops!… I Did It AgainO post, que relembra a época de lançamento, mostra a própria cantora em maio de 2000, aquecendo para o novo disco:

“A antecipação e as borboletas no estômago que eu senti antes de lançar eram loucas. Todas minhas expectativas foram superadas, e foi graças a vocês. Obrigada por continuarem comigo e crescerem comigo”, escreveu Spears. 

Lançado em 16 de maio de 2000, Oops!… I Did It Again marcou com o hit da faixa-título, além de músicas como “Lucky” e “Stronger”. Este foi o segundo álbum mais bem-sucedido da carreira da cantora, após o álbum de estreia …Baby One More Time. 

Na época de lançamento, Oops!… I Did It Again quebrou o recorde de vendas de discos em uma semana por uma artista mulher. O recorde foi quebrado apenas 15 anos depois por Adele, com 25.

O último álbum de estúdio de Britney Spears foi Glory, lançado em 2016.

Anja & Ibrahim — Vogue Italia May/L’Uomo Italia May 2020 By Harley Weir

Anja & Ibrahim   —   Vogue Italia May/L’Uomo Italia May 2020   —   www.vogue.it
Photography: Harley Weir Model: Anja Rubik & Ibrahim Kamara Styling: Ibrahim Kamara Hair: Cyndia Harvey Make-Up: Hiromi Ueda

Lynn Shelton, diretora de Love, Glow e Mad Men, morre aos 54 anos

Cineasta também comandou longas como Encalhados e A Irmã da Sua Irmã
JULIA SABBAGA

Lynn Shelton, diretora de diversos filmes independentes e episódios de séries como GlowLove e Mad Men, morreu ontem, dia 15, aos 54 anos. De acordo com a Deadline, Shelton faleceu de uma doença sanguínea não identificada. 

A diretora comandou longas como Outside In (2017), Encalhados (2014) e A Irmã de Sua Irmã (2011). Ela chamou atenção da crítica com o longa O Dia da Transa, que estreou em Sundance em 2009. 

Na televisão, Shelton também comandou capítulos de séries como New Girl, Projeto Mindy, Master of None, The Good Place e Santa Clarita Diet.

Mais recentemente, Shelton dirigiu quatro episódios de Little Fires Everywhere, série do Hulu produzida por Reese Whiterspoon, que estreia no próximo dia 22 no Prime Video. 

Andrews Diez for Marie Claire Malaysia with Nuria Oliu

Photographer: Andrews Diez. Art Direction & Stylist: Anna Chernyak. Hair & Makeup: Jorge Balzaretti. Retouch: Cristina García. Model: Nuria Oliu at Trend Models Management.

Quando os cinemas reabrirem não serão mais os mesmos

O legado da covid-19: menos salas de cinema, exibição de filmes de grande sucesso
The Economist

Incertezas marcam futuro das salas de cinema Foto: The Economist

As luzes se apagaram em muitas salas de cinema da Flórida. Mas em meio a essa escuridão o brilho da tela de mais de 25 metros do Ocala Drive-In é visto a um quilômetro e meio de distância da estrada. Com metade dos espaços de estacionamento no seu terreno de quase três mil metros quadrados para permitir o distanciamento social, o Ocala abriga 240 veículos e está repleto todas as noites. “Somos a única coisa que vem dando certo agora”, disse o proprietário John Watzke. As famílias se sentam em cadeiras dobráveis para assistirem a filmes como Trolls 2 ou De Volta para o Futuro pagando seis dólares por adulto (os menores de cinco anos e cães não pagam). Watzke decidiu manter o espaço aberto por causa da sua experiência na época do furacão Katrina em 2005, “quando qualquer coisa que nos oferecesse cinco minutos de uma vida normal era apreciada”.

Mas no caso de muitas das quase seis mil salas de cinema nos EUA a vida está longe da normalidade. Todas praticamente estão fechadas desde março. E embora alguns Estados tenham começado a flexibilizar o lockdown, vai demorar meses até as cortinas serem levantadas. Um quarto dos americanos diz que só voltará a frequentar um cinema no outono e assim os estúdios de cinema estão segurando seus filmes. Nenhum lançamento está planejado para o fim de semana do 4 de julho, normalmente um período muito aguardado. O próximo filme de grande orçamento será Tenet, um filme de ação da Warner Bros, provisoriamente com data de estreia marcada para 17 de julho.

E pode demorar mais do que os cinemas conseguirão esperar. Já endividados depois de anos de investimentos em novos assentos e outras comodidades, há quatro meses estão sem receita, e isto será acompanhado de um retorno lento às atividades normais. A maior cadeia de cinemas do mundo, a AMC, que possui cerca de mil salas, a maior parte nos Estados Unidos, no mês passado conseguiu um empréstimo de emergência de US$ 500 milhões que a ajudarão até novembro. Mas esse empréstimo elevará sua dívida total a dez vezes o lucro operacional bruto, segundo a agência Moody’s. Provavelmente haverá uma reestruturação. A Cineworld, a segunda maior rede de cinemas, anunciou em março que está em risco de falência se for obrigada a continuar fechada por mais de três meses. Os preços das ações das duas companhias despencaram desde o início do ano.

Os Estados Unidos já têm 1.600 menos salas de cinema do que existiam na virada do século. Naquela época o americano médio ia ao cinema cinco vezes ao ano; no ano passado ele foi três vezes e meia. À medida que mais salas de cinema fecham ou cortam gastos e o vírus perdura, o sofá da casa fica ainda mais tentador.

Assim, os estúdios de Hollywood vêm analisando alternativas. Embora tenha chegado às telas em 10 de abril, em meio à pandemia, Trolls 2 foi assistido não só no Ocala Drive In,  uma vez que a Universal Pictures decidiu colocar a animação online no mesmo dia. Ao preço de US$ 20 por um download de 48 horas, o filme arrecadou US$ 95 milhões nos Estados Unidos nas três primeiras semanas, de acordo com o The Wall Street Journal. Ou seja, bem menos do que os US$ 125 milhões que o Trolls anterior arrecadou nas bilheterias. Mas a Universal fica com 80% das receitas obtidas com o download em vez de pagar a metade para os proprietários das salas de cinema. O estúdio elogiou o experimento, afirmando ser um sucesso e pretende realizar mais lançamentos simultâneos no futuro.

Os proprietários de cinemas naturalmente estão horrorizados com o rompimento dessa janela de 90 dias, ou seja, o período em que os filmes devem ser exibidos exclusivamente nas telas grandes. A AMC anunciou que não exibirá mais filmes da Universal, acrescentando que esta não é “uma ameaça vazia ou irrefletida”. No caso da Cineworld, a companhia anunciou que também boicotará filmes que desrespeitarem a janela de 90 dias. Mas a Universal não é o único estúdio a partir para o online. Warner já fez acordo para o lançamento apenas digital de Scoob!, que deveria estrear nos cinemas em 15 de maio. E a Paramount vendeu The Lovebirds para a Netflix. Mesmo a Disney, que normalmente contabiliza melhores bilheterias do que os demais estúdios, decidiu colocar o filme Artemis Fowl – O Mundo secreto no seu serviço de streaming e não o lançará nos cinemas.

Essas decisões foram todas provocadas pela pandemia. Mas os estúdios já estavam sob pressão para fornecer conteúdo para os serviços de streaming lançados pelas suas companhias controladoras. Quando a Netflix encomenda sucessos e os coloca online imediatamente, a Disney oferece filmes antigos, como o seu remake de Robin Hood, que no passado foi lançado nos cinemas e agora vai direto para o Disney+. Este ano serão admitidos ao Oscar filmes produzidos apenas para streaming e a Academia insiste que se trata de uma exceção induzida pela covid-19. Mas as indicações de melhor filme no ano passado incluíram dois filmes da Netflix – O Irlandês e História de um Casamento, vistos num número mínimo de salas de cinema.

Os maiores títulos deste ano, de James Bond a Mulher Maravilha, tiveram seus lançamentos adiados e não colocados online. A própria Universal retardou o lançamento do próximo filme da franquia Velozes e Furiosos para abril do ano que vem. Como os filmes anteriores da série contabilizaram uma bilheteria de US$ 1,2 bilhão no mundo todo, a companhia não pode se permitir deixar de exibir o filme nos cinemas.

Mas cada vez mais os lançamentos nos cinemas só têm sentido no caso daqueles filmes de enorme sucesso de público, os “filmes de evento”. Os estúdios perceberam que apostar pesado em alguns “blockbusters” rende muito mais dinheiro do que lançar inúmeros filmes menores. Os custos de marketing no caso de um blockbuster são proporcionalmente menores e gastar com estrelas globalmente famosas torna mais fácil vender um filme no mundo todo. Com o comparecimento aos cinemas em declínio nos Estados Unidos, os filmes precisam contar com uma das poucas estrelas que as pessoas querem ver. E assim, recompensas cada vez maiores se adicionam aos grandes sucessos. No ano passado os cinco filmes de maior orçamento abocanharam um quarto das bilheterias domésticas, quase o dobro do registrado em 2000.

Os críticos se queixam de que a ênfase nos filmes chamados de “grandes eventos” vem tornando os estúdios tediosamente conservadores quanto ao que eles aprovam. Todos os dez filmes de maior sucesso nos EUA no ano passado eram episódios de séries, como Vingadores: Ultimato, ou remakes como O Rei Leão. Em 2000 foram apenas dois filmes dos dez principais. E o que Hollywood produz, o resto do mundo assiste: os dez principais filmes no mundo todo no ano passado foram quase idênticos aos vistos nos EUA. Na verdade, os estúdios não deixaram de produzir filmes de menor orçamento, uma vez que precisam experimentar novos atores e novas ideias (nem sempre foi claro que adaptações de histórias em quadrinhos renderiam tanto dinheiro). Mas cada vez mais essas produções menores vão direto para os serviços de streaming.

Tudo isso é apenas uma continuação do desvio do conteúdo de cinema para a televisão. Os cinemas outrora abrigavam todos os tipos de vídeo. A partir dos anos 1950, a TV abocanhou as notícias, os desenhos animados e séries, deixando os cinemas somente com os filmes de longa-metragem. Hoje o streaming vem absorvendo grande parte dos filmes também, de modo que a sala de cinema está se tornando um lugar para se assistir os filmes chamados de evento. Alguma coisa vem sendo perdida: uma noite em casa assistindo à Netflix não é igual a uma noite no Ocala, afirmou Watzke. As pessoas podem desfrutar de um filme do mesmo modo que na TV. Mas “se elas assistirem num cinema ao ar livre, isso vira uma memória”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Mahershala Ali aquece para Blade com arte do caçador de vampiros

Ainda não há previsão de lançamento para longa da Marvel
JULIA SABBAGA

Mahershala Ali animou os fãs que antecipam o lançamento de Blade, longa que marcará sua estreia no MCU, ao compartilhar uma arte de fã que mostra o ator caracterizado como o Caçador de Vampiros. Sem explicar a arte na legenda, o ator publicou apenas o desenho, feito por Max Beech. Confira:

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O novo filme do Blade foi anunciado pelo Marvel Studios durante a San Diego Comic-Con, com Mahershala Ali no papel principal. Ainda não há detalhes sobre a produção, mas ela fará parte da Fase 5 do estúdio.

Blade tem uma boa relação com o cinema, tendo sido responsável por um dos primeiros filmes de super-herói de sucesso ao chegar nas telonas em 1998, com Wesley Snipes como o Caçador de Vampiros. Snipes então protagonizou uma trilogia, cuja conclusão estreiou em 2004. Desde então, o personagem perdeu seu espaço na cultura pop.

Saul Bass: o designer que aposentou as cortinas dos cinemas

Graças ao designer agora centenário, os créditos dos filmes tornaram-se peças de arte autônomas
Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

Cenas de aberturas de filmes e cartazes criados pelo designer Saul Bass Foto: Saul Bass

Até a segunda metade do século passado, os créditos de apresentação dos filmes eram tão desenxabidos e enfadonhos que comumente os projetavam sobre as cortinas do cinema, ainda fechadas. Sim, as salas de exibição tinham cortinas cobrindo a tela e as sessões começavam com as luzes lentamente apagadas, a cortina vagarosamente recolhida e uma morrinhenta musak ao piano a entorpecer os ouvidos da plateia. E assim foi até surgir Saul Bass. Ou até O Homem do Braço de Ouro ser lançado, em dezembro de 1955.

Para que nenhum espectador perdesse os créditos que encomendara ao designer Saul Bass (1920-1996), o produtor e diretor Otto Preminger, para quem Bass desenhara, um ano antes, a chamejante apresentação de Carmen Jones, cuidou pessoalmente de colar adesivos nas latas do filme, com uma recomendação expressa aos projecionistas: “Só iniciar a projeção com as cortinas abertas”. 

Sobre um fundo preto, fairans cortavam a tela verticalmente, embaladas pela bateria e os metais em brasa de Elmer Bernstein, com um tema jazzístico que em breve entraria nas paradas de sucesso. Outras faixas, no sentido horizontal, introduziam o elenco, grafado sem serifa, e enquadravam o título do filme, até formarem um braço humano retesado indigitando o nome do diretor. Um hors d’oeuvre visual surpreendente na época. 

Dali em diante, as cortinas dos cinemas que as traças ainda não haviam devorado começaram a ser aposentadas. 

Sete anos depois, outro nova-iorquino, Maurice Binder (1925-1991), levaria avante, na série James Bond, as ideias inovadoras de Bass. Mas a glória pela invenção ou reinvenção dos créditos no cinema é toda do visionário Bass, o primeiro a intuir o potencial artístico do negócio e dele extrair o máximo. 

Dificilmente haverá alguém que nunca tenha visto ao menos uma de suas obras – criações completas, autônomas, abrindo e às vezes também fechando um filme –, pois ele colaborou com uma dezena de cineastas de ponta, ao longo de 40 anos. 

Só para Preminger desenhou 14 créditos de abertura e outros tantos cartazes. Para Scorsese foram quatro; para Hitchcock, três; e um para Billy Wilder (O Pecado Mora ao Lado), William Wyler (Da Terra Nascem os Homens) e Stanley Kubrick (Spartacus), que também lhe encomendou o pôster de O Iluminado, em cuja base o designer encaixou a caricatura de um robalo com a sua cara. Era a assinatura do mestre. “Bass” é robalo em inglês.

Nascido no Bronx (Nova York) e influenciado pela Bauhaus, via Gyorgy Kepes, pintor, fotógrafo, designer e teórico húngaro, que dava aulas em Manhattan, Bass descobriu e destilou, com seu traço e suas animações, a poesia do mundo moderno e industrializado. Com a mesma jouissance e o mesmo gosto de Matisse por papéis recortados (notáveis sobretudo nos créditos de Bom-Dia, Tristeza e Bunny Lake Desapareceu), às vezes, contudo, parecia um discípulo de Mondrian que tivesse estagiado nos estúdios de animação cinematográfica da revolucionária United Productions of America (UPA). 

Bass assimilou tudo o que lhe podiam dar o Construtivismo, a Op Art e o Surrealismo. E não apenas no cinema. Além do Oscar que seus curtas lhe proporcionaram, ganhou prêmios por alguns dos 80 logotipos que criou para marcas como a AT&T, United Arlines, Exxon, Minolta e Aveia Quaker. 

Até porque era um sujeito muito bem-humorado e intelectualmente estimulante, todos sonhavam com o privilégio de o ter em sua equipe, fosse como letreirista, cartazista ou mesmo consultor visual, como fizeram Hitchcock (para a cena do chuveiro em Psicose) e Kubrick (para a sequência da batalha de Spartacus). 

Scorsese demorou anos até tomar coragem de convidá-lo. Além de Os Bons Companheiros, Bass assinou as protofonias visuais de Cabo do Medo, Cassino e a O’Keefeana abertura de A Época da Inocência. “Ele valorizava exponencialmente qualquer filme”, escreveu o cineasta no prefácio de Saul Bass: A Life in Film and Design, escrito por Jennifer Bass (filha do biografado) e a historiadora de design gráfico britânica Pat Kirkham. 

Outros diretores temiam a parceria. Receavam ter a intriga de seus filmes previamente expostas pelo tira-gosto bassiano. Às vezes em menos de um minuto, Bass fazia uma síntese brilhante do tema, do mood e até mesmo da metafísica do filme, não raro aditivado por músicos batutas como Bernard Herrmann, Aaron Copland, Georges Auric, Alex North, Jerry Goldsmith e Nelson Riddle. 

“O bom de trabalhar com Saul é que suas imagens enriquecem até as nossas pausas”, disse Elmer Bernstein, que a seu lado trabalhou em mais duas oportunidades depois de O Homem do Braço de Ouro. Em Pelos Bairros do Vício e A Época da Inocência. 

Quais as melhores criações de Bass? Façam suas próprias escolhas. De memória ou assistindo, no YouTube, ao documentário Saul Bass –Style Movie Poster. No topo das minhas preferências: Um Corpo que Cai, Intriga Internacional, Psicose, Grand Prix (uma cacofônica tapeçaria de pneus, carburadores, capacetes de piloto, espectadores e canos de descarga etc), Pelos Bairros do Vício (uma live action estrelada por um marrento gato preto) e a abertura e o fecho de West Side Story, com aquelas portas e paredes grafitadas, e, no meio dos rabiscos repertoriando os artistas e técnicos do filme, quatro letras enigmáticas: SB-EM. Eram a iniciais de S(aul) B(ass) e E(laine) M(akatura). Elaine foi o grande amor do artista, além de parceira profissional desde meados da década de 1950.