O enfrentamento ao racismo precisa ser mais do que posts para aliviar a consciência

A era da inocência acabou, já foi tarde, escreveu Jurema Werneck

Linoca Souza/Folhapress

“Recusamos esta branquitude ora desresponsabilizada, ora culpada, fundada na falsa ideia de ausência de cor e de raça, que goza privilégios como se direitos fossem. Que se orgulha de ter e ser o que nos foi expropriado. Que repousa em um lugar confortável de onde, então, pode ser generosa… Nosso orgulho é ter sobrevivido, a despeito do que nos foi —e tem sido— imposto. Nosso orgulho é possuir o que não nos foi dado nunca. É continuar. Nossos instrumentos para chegar até aqui precisam ser cada vez mais contados, pois podem traduzir a chave para outro futuro.”

Começo esta coluna com esse trecho do marcante texto “A Era da Inocência Acabou, Já Foi Tarde”, escrito em 2001 por Jurema Werneck, referência para todas nós há muitos anos. A branquitude brasileira é tão racista que, diante dos protestos nos Estados Unidos pela morte de George Floyd, inaugura o debate racial. Descobriram o racismo, ironiza Silvio Almeida.

“Levou séculos para que o Estado brasileiro pudesse reconhecer a presença do racismo como fator estruturante das relações sociais no país. E isto só acontece agora, ao final do século 20 e início do século 21, como resultado de um trabalho longo, árduo. Denunciávamos o racismo, enquanto demonstrávamos a perversidade com que esse definia privilégios e exclusões, vidas e mortes; enquanto éramos nós mesmos nosso próprio testemunho, o restante da sociedade permanecia em silêncio”, afirma Werneck no poderoso texto.

É claro que é importante que a branquitude brasileira se mobilize contra o sistema que a beneficia.

Agora, mobilizar significa reconhecer o silenciamento com o qual as produções negras foram tratadas, o sufocamento das personalidades, opiniões. Ora, se vamos mesmo lutar contra o racismo, um sistema montado em cima da manutenção do privilégio racial branco, vamos discutir por que eu ligo a televisão e não tem uma programação, uma emissora predominantemente negra. Ora, é pedir muito em um país com 54% da população negra? Acho que não.

Mas aí vivemos num governo cujo projeto é o desmonte de políticas públicas. Que combate ao racismo é esse que busca se esquivar de responsabilidade do fundo do poço que esse país atingiu? Políticos que se vangloriam de sua desumanidade chegaram aonde chegaram sozinhos? Se hoje passamos vergonha no exterior, se políticas de precarização da população brasileira, negra e pobre em sua maioria estão em curso, há um sistema que privilegia a branquitude por trás disso.

Quanto tempo a branquitude dedicou em seus círculos financeiros energias, conspirações e dinheiro ao desmonte do Estado, de políticas públicas, quanto falaram mal do Bolsa Família, quanto tentaram barrar as cotas, quanto puseram em marcha reformas trabalhista e da Previdência que prejudicam a população negra? Aliás, há quanto tempo estão no ar programas policiais vespertinos que reproduzem
estereótipos da negritude e chancelam a violência policial?

Ou seja, é mesmo para combater o racismo, branquitude? Pois muito bem, só que a era da inocência acabou, já foi tarde.

O combate não será com uma única reportagem na TV, não será com 20 segundos de entrevista de uma pessoa negra a um jornal inteiro branco, não será com a contratação na empresa de uma única pessoa negra para dar conta de toda a coletividade e utilizá-la de escudo. Não será assim. Não funciona mais. A era da inocência acabou, já foi tarde.

Não será diminuindo o movimento negro brasileiro, pondo em comparação com uma imagem do movimento negro americano. Não será fetichizando imagens de corpos negros sempre em combate, mas debochando quando esses mesmos corpos saem dos lugares impostos, quando esses mesmos corpos demonstram alegria e prazer em ser o que são a despeito de todas as tentativas de humilhação.

Não será sem contar nossas histórias. Não será sem contar do quilombo dos Palmares, da Balaiada, da Conferência de Durban de 2001, que essa história será passada a limpo. Não será sem valorizar as estratégias de resistências dos povos de terreiro. A era da inocência acabou.

O enfrentamento ao racismo precisa ser mais do que hashtags e posts com a cor preta para aliviar a consciência. É preciso refletir, ceder, ter compromisso de fato.

Um levante está em curso e quem quiser ficar na frente que fique, será atropelado pela marcha da história. Quem quiser somar, que some, mas de modo profundo, pois não cabem mais estratégias caquéticas que destroem um Brasil por dia. A era da inocência acabou.

Já foi tarde.

Djamila Ribeiro

Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais.

Animação ‘Central Park’ da Apple com Kristen Bell naufraga

Mistura de musical e desenho, ‘Central Park’ não rende nem sorrisos amarelos
Luciana Coelho

Cena de ‘Central Park’ Divulgação

Nunca é bom sinal quando uma série (ou filme, ou livro ou música —ou qualquer coisa, na verdade) ganha mais atenção pela polêmica ao seu redor do que por suas qualidades artísticas. A animação adulta “Central Park” não fugiu dessa sina.

Duas vezes foco de alarde nas últimas semanas, a primeira por escalar para dublar uma personagem negra uma atriz branca (Kristen Bell, da maravilhosa “The Good Place”) e a segunda porque a mesma atriz se envolveu em controvérsias em sua vida pessoal, a série que se propõe ser um misto de animação e musical não mostra a que veio. Com proposta ousada, tem elenco de nomes estrelados.

Além de Bell e Josh Gad (“Frozen”), cantam em cena Stanley Tucci (de “A Grande Noite” e “Spotlight”) e Tituss Burgess (“Unbreakable Kimmy Schmidt”). Isso, tristemente, não é o suficiente.

Ancorada no humor nonsense, conta a vida do zelador de parque Owen, que vive com a mulher jornalista e dois filhos adolescentes no quadrilátero mais famoso dos Estados Unidos. Diante do parque, mora Bitsy, que de sua imensa cobertura planeja trocar as árvores tão caras aos nova-iorquinos por mais prédios e muitas parcerias comerciais. É isso.

Esta colunista aprecia tanto animações como musicais, se bem feitos, mas a mistura resultou indigesta. Os longos números, com letras que poderiam tirar alguma graça por seu absurdo, ficam muito aquém das cenas do tipo em “South Park”, por exemplo.

Pode ser uma questão de puritanismo. “Central Park” é excessivamente limpinha em suas piadas, tanto em termos de linguagem (de novo, “South Park” com seus palavrões consegue despertar o aluno de quinta série dentro de nós com eficácia) quanto em termos de cinismo (“Os Simpsons”, “Family Guy”) ou absurdo surrealista (“BoJack Horseman”, “Tuca e Bertie”).

Pode ser, também, o fato de ter como personagem central um guarda-parques, essa figura meio esdrúxula aos telespectadores brasileiros. Embora, claro, “Parks and Recreation” tratasse do mesmo departamento e até hoje seja lembrada com saudade por aqui.

Mas provavelmente o problema está na fórmula demasiadamente infantil, com números musicais intermináveis.

Parece um desperdício ver Tucci, um grande ator, constrito a uma vilã bidimensional. Parece também estranho os autores terem a possibilidade de entrar no campo da fantasia e se aterem à verossimilhança, sem nem ao menos fazer troça dela. Não é escapista o suficiente para fazer esquecer os problemas do mundo real; não é realista o suficiente para abordá-los de forma provocativa.

A série é uma aposta da Apple TV+, a primeira de animação da plataforma da Apple, cujo catálogo de produções originais ainda não conseguiu realmente fazer sombra nem à Netflix nem a suas concorrentes mais próximas, Amazon Prime Video e HBO, ainda que alguns títulos brilhem. Em meio à quarentena imposta por uma pandemia global, há coisa bem mais interessante para ver.

Os três primeiros episódios de ‘Central Park’ estão disponíveis na Apple TV+; outros dez serão lançados às sextas.

No Twitter, Elon Musk afirma que a Amazon deve ser desmembrada

O fundador da Tesla se irritou nas redes sociais com a retirada de um livro sobre coronavírus do catálogo da plataforma

Comentário do fundador da Tesla contra a Amazon surgiu na última quinta-feira, 4

O presidente executivo da TeslaElon Musk, afirmou nesta quinta-feira, 4, que a Amazon deveria ser desmembrada em várias empresas. O comentário surgiu no Twitter, em resposta a um autor que teve a publicação de seu livro negada pela plataforma, citando o presidente da empresa, Jeff Bezos.

“Isso é loucura, Jeff Bezos” disse em um tuíte. “Chegou a hora de desmembrar a Amazon. Monopólios são errados!”, continuou Musk. Detalhe: o tuíte polêmico vem dois dias depois de ele afirmar que estava fazendo uma pausa no uso da rede social.

Alex Berenson, autor do livro “Verdades não relatadas sobre a covid-19 e lockdowns”, compartilhou uma captura de tela, onde mostra uma mensagem da recusa da Amazon em registrar sua obra no sistema, alegando incompatibilidade com as diretrizes. Na temática sobre a crise causada pelo coronavírus, o livro do ex-repórter do The New York Times aborda seus pensamentos sobre a doença, afirmando que as reações foram exageradas e que o número de mortos não é tão alto quanto dizem as autoridades.

Em nota ao site americano Business Insider, a Amazon afirmou que o livro foi retirado da plataforma por engano e que será instalado novamente na biblioteca.//COM REUTERS

Billie Eilish sobre mensagens de haters na web: “Quase me matei”

“Eu só pensava a maneira como ia morrer”, explica cantora em entrevista, dizendo que só não se matou porque família entrou em seu quarto

Billie Eilish © Danielle Levitt

Billie Eilish revelou em uma entrevista que quase se matou em fevereiro 2018 depois de ler mensagens de ódio na internet dirigidas a ela. A cantora, hoje com 18 anos, explicou que estava em um hotel em Berlim, na Alemanha, quando após horas lendo comentários de haters no Twitter se sentiu como se estivesse sendo consumida por veneno, decidindo se suicidar.

Billie Eilish © Danielle Levitt

“É inacreditável. Eu quase me matei por conta de um tuíte há alguns anos atrás. Eu só pensava a maneira como ia morrer”, afirmou ela em entrevista à edição inglesa da revista GQ, explicando que só parou porque sua mãe, Maggie Baird, e seu irmão, Finneas O’Connell, que também é músico, entraram no quarto. “Lembro como fui trazida de volta à realidade. Eles dissseram ‘nós vamos pegar comida, você vai ficar bem sozinha?’. E eu fiquei tipo ‘sim, eu estou bem'”, contou.

Billie Eilish © Danielle Levitt

Mas Maggie percebeu que a filha não estava nada bem e pediu ao manager da turnê de Billie para vê-la – quando ele chegou no quarto, a cantora estava sentada na janela perto da cama. Os dois conversaram, e o manager fez várias piadas, mudando o humor da artista.

Billie Eilish © Danielle Levitt

Billie revelou ainda que demorou anos para se livrar desses pensamentos negativos e ponderou ainda sua relação com as mídias sociais e mensagens de ódio. “Mesmo quando eu tento evitar, o que eu faço atualmente, eu acabo vendo algo porque os fãs, que de fato me defendem, repostam e respondem ao comentário maldoso original no feed deles”, explicou.

Billie Eilish © Danielle Levitt

“Eu não consigo ganhar. Eu tentei apagar os comentários do Instagram, mas, sabe, eu me sinto igualmente mal de fazer isso. Eu não posso me desligar completamente. O Instagram coloca os comentários de quem você segue, meus amigos, no topo dos posts, mas se eu descer um pouco mais na seção de comentários, isso destrói meu mundo. É tão difícil não ler o ódio”, desabafou.

Billie Eilish © Danielle Levitt
Billie Eilish © Danielle Levitt
Billie Eilish © Danielle Levitt

Micha Freutel for Annabelle Magazine with Karen Joigny

Photographer: Micha Freutel. Styling: Nathalie De Geyter. Hair & Makeup: Daniela Koller. Model: Karen Joigny.

Apontada por racismo, Lea Michele é acusada de transfobia pela atriz Plastic Martys

Plastic Martyr deixou comentário nas redes relatando caso de transfobia que teria sofrido ao conhecer Lea em premiação

Plastic Martys acusa Lea Michele de transfobia (Foto: Reprodução/Instagram)

Em um comentário no Instagram – que foi replicado em seu Twitter – Plastic afirmou ter tido seu primeiro encontro com Lea na premiação Emmy, quando as duas estavam no banheiro do local. A cantora afirmou que estava no processo de sua transição e ainda não tinha “100% de passabilidade” e que quando Lea a encontrou no banheiro, teria dito “com licença, você sabe que está no banheiro feminino, né?”.

“Eu me lembro que estava me sentindo linda aquele dia, e saí daquele banheiro me sentindo extremamente envergonhada”, afirmou.

As polêmicas envolvendo o nome de Lea Michele começaram após ela ter feito uma publicação em apoio ao movimento Black Lives Matter e pedindo justiça a George Floyd. Na sequência, a atriz Samantha Marie Ware tirou sarro, afirmando que a atriz “fez da minha estreia na TV um inferno”.

Depois dela, outros atores negros da série como Amber Riley – que viveu Mercedes – e Alex Newell (Unique) postaram indiretas em seus perfis concordando com as afirmações de Samantha.

Nesta quarta-feira, Lea fez uma publicação pedindo desculpas a seus colegas de elenco, afirmando: “Se foi minha posição e perspectiva privilegiada que me levou a ser percebida como insensível ou inadequada às vezes ou se era apenas minha imaturidade e eu sendo desnecessariamente difícil, peço desculpas pelo meu comportamento e por qualquer dor que tenha causado.”

Além de atores negros, outros participantes do elenco como Heather Morris – que viveu Brittany – e Melissa Benoist – que viveu Marley -, além de uma série de figurantes, também fizeram comentários e curtiram publicações sobre ter sido muito difícil trabalhar com Lea na época das gravações.

Amber Riley, de ‘Glee’, se pronuncia após Lea Michele ser acusada de racismo

Atriz participou de live com influenciadora e falou abertamente pela primeira vez sobre atitudes de Lea Michele

Amber Riley e Lea Michele (Foto: Reprodução/ Instagram)

Amber Riley se pronunciou sobre as acusações de racismo contra Lea Michele, com quem atuou em Glee. A atriz participou de uma live com a influenciadora Danielle Young e afirmou que seria a primeira e última vez que falaria sobre o caso.

“Eu não sei qual é o melhor jeito de falar sobre isso porque eu não sou uma pessoa vingativa e mesquinha. Não sou. Minha resposta no Twitter foi apenas porque eu sou uma palhaça e achei que ia ser engraçado”, explicou Amber sobre os gifs publicados por ela na acusação feita por Samantha Marie Ware, que expôs o comportamento de Lea nos bastidores da série.

“[Mas] Nós já vimos outras pessoas dizerem que não era o ambiente mais confortável”, declarou. Eu vou dizer isso pela Samantha Ware. Eu estou muito orgulhosa dela por ter se imposto. Eu falei com ela por FaceTime. Tenho orgulho dela não ter tido medo disso e ter falado a verdade dela de: ‘Não vou deixar você pular nesse movimento agora, sendo que você não me tratou direito'”, disse Amber.

Amber Riley e Lea Michele em Glee (Foto: Divulgação)
Amber Riley e Lea Michele em Glee (Foto: Divulgação)

“Eu não vou dizer que a Lea Michele é racista. Isso não é o que eu estou dizendo. Isso foi o que assumiram por causa do que está acontecendo neste momento no mundo e porque aconteceu com uma pessoa preta. Mas eu não vou dizer que ela é racista. Ela também está grávida e acho que não pode se estressar neste momento, ela já está sendo detonada”, justificou ela.

“Ao mesmo tempo, nas minhas mensagens, tinham muitos atores e atrizes pretos me contando suas histórias e contando que já lidaram com as mesmas coisas em um set e que morriam de medo das garotas brancas que eram as protagonistas de suas séries, porque todos nós sabemos que uma pessoa de cor e uma pessoa negra são sempre as substitutas, número 3, 4 ou 5 na folhas de chamada. É muito raro elas serem as primeiras, se não for um elenco todo negro”, continuou Amber.

“As histórias que eu estou lendo sobre garotas brancas usarem seu privilégio e o fato de não ‘poderem’ ser demitidas – algo que já me disseram no set, depois de eu ter minhas próprias reclamações – elas usam isso para aterrorizar suas co-estrelas. Estou falando sobre a cultura de Hollywood e como eles tratam personagens pretos, homens pretos, mulheres pretas”, disse.

“Eu não ligo pra essa coisa da Lea Michele. Não dou a mínima. Eu não quero ser questionada sobre isso. As pessoas estão morrendo. Sendo assassinadas pela polícia. Mulheres trans estão sendo assassinadas nas mãos de homens. Eu desejo o bem para a Lea Michele, espero que ela tenha uma ótima gravidez, espero que ela tenha crescido e entendido”, acrescentou.

“Eu não li o que ela escreveu, porque eu realmente não dou a mínima. Esse é meu desejo pra ela. Ela veio falar comigo, eu respondi e isso acabou ali. Eu não converso com ela há dois anos. Minha vida e o que eu falo não vai ser sobre isso. Essa vai ser a primeira e última vez que eu falo sobre isso”, finalizou Amber.

Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos

O inédito confinamento da população em escala global desperta sentimentos desconhecidos e perguntas ainda sem respostas ao passo em que as pessoas se confrontam com a realidade e consigo mesmas. A boa notícia é que a experiência pode ser transformadora se conseguirmos conferir nova dimensão ao isolamento em casa
TEXTO MARIA CLARA VIEIRA | FOTOS RAFAEL JACINTO

E agora, José? O verso de Carlos Drummond de Andrade volta com força ao imaginário nos dias atuais. Quem diria que um novo vírus iria redesenhar a vida de bilhões de pessoas e deixar tantas perguntas em aberto? O perigo invisível transformou casa e caos em faces da mesma moeda. Se lá fora pairam medos e incertezas, é dentro do lar que as pessoas se protegem – mas isso não torna o ato de se isolar menos penoso. “O confinamento possui várias etapas, como qualquer situação em que há um corte abrupto”, explica a psicanalista Vera Iaconelli, doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). “Primeiro vem a negação, depois o choque, a revolta. Até que assumimos: é real e precisamos encarar isso.”

Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos (Foto: Rafael Jacinto)

Para o fotógrafo brasileiro Rafael Jacinto, que vive há um ano em Milão, uma das maneiras de lidar com a Covid-19 foi registrar imagens da nova realidade. Ele viu a cidade, antes tão viva e pulsante, virar um deserto. “Mudou tudo desde que declararam a quarentena aqui”, lembra. “A ideia de fotografar o isolamento surgiu após duas semanas, quando entendi que as coisas não voltariam tão cedo ao normal.” Munido de smartphone e um aplicativo que conecta vizinhos, ele se disponibilizou para clicá-los nas janelas, fechados em suas residências. “Na manhã seguinte, recebi muitos contatos de gente interessada”, diz. Assim nasceram as imagens que ilustram esta matéria. O olhar de Rafael, a partir da rua, mira os habitantes dos apartamentos por volta de 18h30, horário em que ainda há um resquício de sol e, ao mesmo tempo, as luzes das casas já se acenderam, insinuando os interiores.

Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos (Foto: Rafael Jacinto)

No Brasil, desde meados de março, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu que o vírus havia se espalhado em escala mundial, cada estado implantou suas próprias medidas de distanciamento social a fim de minimizar infecções. Com tantas empresas e estabelecimentos fechados, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas estima que até 5 milhões correm o risco de perder o emprego no segundo trimestre deste ano. Neste cenário instável, aqueles com possibilidade de fazer home office se agarraram a ela. “Mas quem achou que ficar em casa seria como sair de férias já notou que não é assim”, aponta Vera. Isso sem mencionar o desafio extra de equilibrar as obrigações profissionais com a rotina de aulas on-line das crianças. “As pessoas estão passando por privações. No paralelo, intensificam-se as relações dentro de casa, com quem você está confinado e até com você mesmo. Não é pouca coisa. É preciso acessar recursos internos para administrar o tempo e criar uma agenda, o que requer organização e planejamento”, diz a psicanalista. Tudo isso pode suscitar um mix de sentimentos nada agradáveis. Normal experimentar angústia, medo, tristeza. Mas o sinal de alerta acende quando o sofrimento psíquico é muito intenso ou paralisante – aí chegou a hora de ouvir a opinião de um profissional. Atendimentos virtuais com psicólogos e psiquiatras, até mesmo gratuitos, aumentaram desde o início da pandemia. Vera cita ainda outro tema preocupante na quarentena: o abuso de medicações controladas, álcool e drogas.

Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos (Foto: Rafael Jacinto)

DENTRO DA MENTE
Segundo levantamento da agência de notícias AFP, em torno de 3,9 bilhões de pessoas em todo o mundo já passaram pelo isolamento desde o início da crise – mais da metade da população do planeta. Você, possivelmente, faz parte da estatística. Se a nova rotina lhe parece desafiadora, saiba que não está só. Uma pesquisa do Institute for Employment Studies, no Reino Unido, com 500 trabalhadores, constatou que 50% estavam infelizes com o desequilíbrio entre home office e vida pessoal, 33% se sentiam sozinhos e apreensivos, e 64% relataram insônia. Sem o encontro diário com familiares, amigos e colegas, as interações, relações e diálogos diminuem muito, mesmo com contatos via telefone ou vídeo. Além de fechados no âmbito doméstico, estamos inevitavelmente mais voltados a nós mesmos, ao nosso interior, essa casa primeira. E não é fácil se ver assim. “Muito provavelmente, pessoas em quarentena desenvolverão oscilação de humor, sono irregular, ansiedade, raiva, irritabilidade, exaustão emocional, depressão e estresse pós-traumático”, escreveu o professor de psicologia Elke Van Hoof, da Universidade Livre de Bruxelas, em artigo publicado pelo Fórum Econômico Mundial. Ele entende este inusitado momento histórico como o maior experimento psicológico já realizado, e prevê que os efeitos sobre a saúde serão melhor compreendidos em até seis meses.

Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos (Foto: Rafael Jacinto)

Uma revisão de estudos conduzida pelo King’s College, de Londres, mostrou que a duração do isolamento, o medo da doença, a frustração, o tédio, os prejuízos e o acesso à informações inadequadas configuram as principais fontes de estresse nessa situação. Aliás, consumir notícias com critério, sem excessos e provenientes de fontes confiáveis é uma das recomendações da OMS para conservar a sanidade mental. E quais são as outras estratégias para enfrentar tempos tão duros? “Todos os dias, a pessoa deve se levantar, tomar banho e se arrumar. É essencial montar uma rotina e destinar um canto tranquilo ao home office”, ensina o professor e psiquiatra Wagner Gattaz, diretor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. Ele sublinha a importância de usufruir das tecnologias disponíveis para conduzir reuniões, falar com amigos e família, enfim, socializar. “O distanciamento se limita ao físico”, diz. Manter o corpo em movimento, dentro do possível, também influencia o equilíbrio psíquico, além de contribuir coma imunidade. E, claro, prever momentos prazerosos. Um estudo recente publicado pela British Academy of Sound Therapy revelou que ouvir 13 minutos de música lenta, com melodia simples e sem letra, basta para aliviar tensão muscular, minimizar pensamentos negativos e propiciar paz e satisfação. “Mais do que nunca, o lar representa segurança, proteção e aconchego. Evite enxergá-lo como prisão”, aconselha o médico.

Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos (Foto: Rafael Jacinto)

DENTRO DA CASA
Para Angelo Bucci, fundador do escritório SPBR Arquitetos e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, vivemos uma conjuntura muito particular com relação às residências. “Elas vêm desempenhando papéis estendidos. Precisam acolher o convívio intenso das famílias, que, antes, mal se viam ao longo do dia”, reflete ele. Mais do que observar os aspectos arquitetônicos de seus lares durante os dias de confinamento, Bucci acredita que os moradores vão se ligar nos pequenos atos cotidianos. “Espero que todos cozinhem mais, aprendam a apreciar o sossego doméstico e valorizem o contato como outro. Que a reclusão não nos convença de que é melhor trabalhar à distância, e, sim, ressalte a relevância de estarmos juntos”, sintetiza. Mas como a arquitetura e a decoração conseguem nos ajudar a vencer essa fase com mais leveza? “A palavra lar remete a um ambiente de aconchego, de restauração. Ali não podem faltar objetos, lembranças e mobiliários que nos vinculem à nossa história”, resume a arquiteta Cláudia Garcia, vice-diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB). Fato: quanto menor a conexão emocional com a residência, mais sofrido tende a ser o isolamento nela. Se esse laço ainda não existe, chegou, portanto, a hora de criá-lo. A sugestão da professora é renovar o universo entre quatro paredes com pequenas atitudes guiadas por gostos pessoais. “Para os que amam ler, vale montar um cantinho de leitura com poltrona, mesinha e abajur. Quem curte meditação pode colocar um tapete felpudo e confortável num local reservado para a prática, com velas. E os que gostam de trabalhos manuais devem investir num miniateliê”, ensina.

Cláudia reforça a potência de outras medidas simples, porém eficientes, como abrir as janelas para que o ar circule e a luz natural entre. Cultivar plantas e distribuir vasos de flores pelos ambientes também faz toda a diferença para o bem-estar – um estudo da Universidade de Michigan mostrou que uma dose diária de 20 minutos de contato com plantas reduz os níveis de estresse. E a lista continua: organizar gavetas, doar o que não se usa, consertar um móvel, repintar uma parede, redesenhar o layout da sala, imprimir fotos antigas, espalhar porta-retratos pelos cômodos, mudar os quadros de lugar… opções não faltam para estabelecer conexões com os espaços que habitamos.

Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos (Foto: Rafael Jacinto)

VAI PASSAR
Até o fechamento desta matéria, no final de abril, Milão não havia divulgado previsão de término do confinamento e o fotógrafo Rafael, sua esposa e os dois filhos continuavam dentro do apartamento. Por lá, a vida segue com pensamentos positivos e criatividade. “Dá trabalho manter tudo em ordem com quatro pessoas aqui, 24 horas por dia. Agora mesmo, há uma barraca no meio sala, feita de guarda-chuvas e cobertores para minha filha de 5 anos brincar”, revela Rafael. “É uma montanha-russa de humores, mas nós nos apoiamos, respeitamos os limites de cada um, e tentamos estabelecer uma rotina saudável.” No Brasil, boa parte da população também segue em isolamento em nome do controle da disseminação da doença. Para a psicanalista Vera Iaconelli, este episódio guarda o potencial de modificar profundamente a relação do brasileiro com a casa. “No nosso país, o lar de alguns é todo terceirizado, o que mantém um nível de limpeza e de ordem que só existe aqui, por causa da absurda desigualdade social. Muitas questões serão revistas.” O psiquiatra Wagner Gattaz concorda que tudo estará diferente após a tempestade. “Esta tragédia vai mudar o mundo. Tenho certeza de que a humanidade sairá dessa melhor do que entrou. A pandemia despertou em nós um anseio por solidariedade, de atuar mais no coletivo e menos no individual”, defende. Se muitas perguntas continuam pairando, algumas respostas já se esboçaram. Cheguem logo, novos tempos.

Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos (Foto: Rafael Jacinto)
Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos (Foto: Rafael Jacinto)
Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos (Foto: Rafael Jacinto)
Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos (Foto: Rafael Jacinto)
Como o isolamento em casa pode ser transformador? Especialistas indicam caminhos (Foto: Rafael Jacinto)

“Mais do que nunca, o lar representa segurança, proteção e aconchego. Evite enxergá-lo como prisão””Aconselha o psiquiatra Wagner Gattaz, do HC-USP

Casa do Porco e Bar da Dona Onça estreiam no delivery

Restaurantes do casal Jefferson e Janaína Rueda lançam cardápios desenvolvidos exclusivamente para entrega, com foco na comida caseira
Por Renata Mesquita, O Estado de S.Paulo

A #CPF, a Caixa Prato Feito
A #CPF, a Caixa Prato Feito Foto: Mauro Holanda

De portas fechadas há mais de dois meses – desde o início da quarentena imposta na cidade devido à pandemia do novo coronavírus –, os quatro restaurantes comandados pelo casal Janaina e Jefferson Rueda, que inclui a premiada Casa do Porco, o Bar da Dona Onça, a lanchonete Hot Pork e a Sorveteria do Centro, estavam, inclusive, fora dos serviços de delivery, alternativa a que muitos restaurantes da cidade recorreram no período. 

Depois de muita reflexão, o casal faz sua estreia esta semana nos aplicativos de entrega. Desde hoje (3), pela primeira vez, já é possível escolher entre os pratos do Bar da Dona Onça para comer em casa, pelo Ifood. 

Estão ali da sua clássica galinhada (The modernist, R$ 59) a pratos criados exclusivamente para o canal, como seção macarrão da Jana, com receitas que ela costuma fazer na cozinha de casa, como o nhoque de batatas (R$ 42). Aos sábados, a célebre feijoada da chef também vai sair da cozinha do bar no Edifício Copan. 

O cachorro-quente do Hot Pork voltou ao delivery na terça (2) – antes da pandemia já era possível pedir o sanduíche em casa –, com opção de pedir o dog sozinho (R$ 20) ou em combos (a partir de R$ 30) com bebidas e acompanhamentos como nuggets, porcopoca ou batata chips, tudo caseiro. 

A novidade agora é que é possível pedir kits semiprontos, que incluem os pães de batata artesanal, salsichas, picles de cebola roxa e pepino, catchup de tomate com maçã, mostarda e maionese com limão (R$ 60, 4 unidades), para replicar o sanduíche em casa, acompanhado de instruções de como fazer. 

Lançamento. Kit do Hot Pork para finalziar o sanduba em casa  
Lançamento. Kit do Hot Pork para finalziar o sanduba em casa   Foto: Mauro Holanda

Amanhã (4) é a vez da Casa do Porco lançar seu menu para viagem. A demora, entrega Jefferson, tem motivo: “delivery não é só colocar comida na embalagem”. A preocupação era garantir a qualidade dos pratos na “viagem” até a casa do cliente. Por essa razão, não espere encontrar o cardápio da Casa do Porco tal e qual nas telas do celular. 

Rueda desenvolveu, como era de se esperar da sua mente criativa, uma nova proposta, que batizou de  #CPF – Caixa Prato Feito, mas que você pode chamar como quiser: de Casa do Porco Funcionando, ou Comfort Pork Food, ou Comida Por Favor ou, ainda, Caminhando Para a Frente… 

Trata-se de uma caixa com seis itens, da salada ao prato principal, sempre com preparos que seguem a premissa de “comfort food”, uma comida caseira e afetiva. A cada semana, os itens mudam, de acordo com os ingredientes disponíveis. Mas o Porco San Zé, estará sempre lá. 

Os combos incluem clássicos do menu-degustação do restaurante, que é o único brasileiro entre os 50 melhores do mundo pela lista do 50 Best, como o sushi de papada, que compõe a caixa (ou #CPF) Do Centro, que vem ainda com bife milanesa, arroz branco, cogumelos na brasa, salada de batata, rabanete fermentado e coalhada. 

Preparados com ingredientes orgânicos de produtores de São José do Rio Pardo, terra natal de Jefferson, os pratos chegam em embalagens ecológicas e recicláveis, com design inspirado nas antigas caixas de camisas. Adesivos bem humorados com retratos de Jefferson e Janaína dão graça ao conjunto. 

Croquete de carne de panela com mostarda no delivery do Bar da Dona Onça 
Croquete de carne de panela com mostarda no delivery do Bar da Dona Onça  Foto: Mauro Holanda

Além de seis opções do #CPF – incluindo versões vegetariana e vegana -, o cardápio ainda inclui os embutidos e curados produzidos por Jefferson, vendidos em gramas, como a mortadela e o seu presunto real, além de picles e geleias, pães e sanduíches. O cardápio segue com opções de carnes direto da churrasqueira e pratos compartilhar, além de sacos da famosa porcopoca. 

Seguindo a proposta já vista em outras casas da cidade, Jefferson também vai disponibilizar alguns dos seus pratos icônicos para serem finalizados pelos clientes em casa, como a pancetta com goiabada. 

Todos disponíveis pelo Ifood ou para buscar nos restaurantes, das 12h às 23h. 

Serviço
Hot Pork
A partir de 2 de junho
Pedidos “retire aqui” Hot Pork, cardápio aqui, das 12h às 22h30
R. Bento Freitas 454, Centro

Bar da Dona Onça
A partir de 3 de junho
Pedidos “retire aqui” Bar da Dona Onça (cardápio), das 12h às 22h30
Edifício Copan, Av. Ipiranga 200, Centro

A Casa do Porco
A partir de 4 de junho
Pedidos “retire aqui” A Casa do Porco (cardápio) das 12h às 22h30
R. Araújo 124, Centro