Quarteto Fantástico | Estúdio barrou atriz negra como Mulher Invisível

Josh Trank afirma que Fox exigiu que Sue Storm fosse vivida por uma intérprete branca
NICOLAOS GARÓFALO

Josh Trank queria atriz negra para papel de Sue Storm em ‘Quarteto Fantástico’

A infame versão de 2015 de Quarteto Fantástico segue como uma das mais controversas da Primeira Família da Marvel. Além do filme em si ter recebido críticas duras da mídia e dos fãs, as histórias de bastidores envolvendo o diretor Josh Trank e seu elenco se tornaram infames, a ponto do cineasta deixar um projeto na Lucasfilm por saber que seria demitido. Em uma nova entrevista ao blog Geeks of Color, o diretor afirmou que a intervenção da Fox no filme começou muito antes do filme ir à sala de edição, com executivos já barrando a escalação de uma atriz negra para o papel de Sue Storm/Mulher Invisível (via Vulture).

Segundo Trank, ele enfrentou uma “pressão pesada” para escalar uma atriz branca para interpretar a icônica personagem, apesar de já ter pensado em Sue, Johnny e Franklin Storm como uma família negra. O diretor escalou Kate Mara para o papel, justificando no filme que ela seria irmã adotiva do personagem de Michael B. Jordan. “Olhando para trás, eu deveria ter deixado [a produção] quando percebi [que não poderia escalar dois protagonistas negros] e sinto vergonha disso, de não ter ido embora por princípio”, afirmou Trank. “Esses não são os valores nos quais acredito. Não eram nem os valores da época nem os meus. Me sinto mal por não ter levado isso até as últimas consequências. Sinto que falhei neste sentido”.

Em uma entrevista recente ao Polygon, Trank afirmou que as refilmagens foram como “ser castrado” pelo estúdio, que não gostou da reação dos fãs à sua abordagem mais sombria do filme e decidiu refilmar diversas partes.

Lançado em 2015, Quarteto Fantástico arrecadou apenas US$ 167 milhões no mundo, para um orçamento estimado em US$ 155 milhões.

Quarteto Fantástico no MCU
Desde a fusão entre a 20th Century Fox e a Walt Disney Company, o Marvel Studios passou a ter controle sobre personagens que antes pertenciam ao estúdio rival, entre eles o Quarteto Fantástico e os X-Men.

Durante a San Diego Comic-Con, quando anunciou o calendário da fase 4 do MCU, o presidente do Marvel Studios Kevin Feige mencionou a equipe liderada por Senhor Fantástico apenas uma vez, dizendo que não teve tempo para falar sobre ela. No entanto, a primeira dica sobre a chegada do Quarteto foi dada ao final de Homem-Aranha: De Volta ao Lar.

Enquanto Peter Parker retoma sua rotina em Manhattan, ele aterrissa na rua ao lado da Grand Central, onde se pode ver um edifício moderno com um vão livre ajardinado. O endereço da tal construção é a rua 42, justamente onde fica o famoso Edifício Baxter, a casa da equipe de heróis.

Vale notar, porém, que nenhum anúncio oficial envolvendo a equipe foi feito até o momento.

‘Numa crise, a balança é favorável para os visionários’, diz Diretor de Engenharia do Google, Berthier Ribeiro-Neto

Para o primeiro funcionário do Google no País (e diretor de engenharia da empresa na América Latina), pandemia no início dos anos 2000 poderia ter mudado destino do Orkut e das redes sociais
Por Bruno Romani – O Estado de S. Paulo

Berthier Ribeiro-Neto, do Google, imagina o que poderia ter acontecido com o Orkut 

Berthier Ribeiro-Neto chegou na internet brasileira quando tudo ainda era mato. Diretor de engenharia do Google para a América Latina, o mineiro foi o primeiro funcionário da gigante no País. Do início dos anos 2000 para cá, ele viu a evolução da ferramenta de buscas, viu nascimento e morte do Orkut e observou como nos relacionamos com a tecnologia. 

Professor de computação na UFMG, Berthier também é um ativo observador da relação entre humanos e tecnologia. Para ele, caso uma pandemia como a do coronavírus tivesse acontecido por volta de 2005, a trajetória do Orkut e das redes sociais poderia ter sido outra. Mais que isso: ele acredita que superaríamos as deficiências tecnológicas da época para criar conexões. “Existem necessidades humanas mais fundamentais que independem da tecnologia”, diz. 

Uma pandemia naquela época poderia ter dado uma sobrevida aos blogs?
Tendo a achar que não, mas existem necessidades humanas mais fundamentais, que independem da tecnologia. Temos necessidade de reconhecimento por parte dos pares. Essa é uma motivação que parte da espécie que somos e que precede a tecnologia.

Que tipo de conteúdo digital estaríamos consumindo?
Acredito que as lives seriam sucesso também naquela época. A incerteza de uma crise dessas gera uma ansiedade monumental e isso gera problemas de saúde mental. Esses eventos e shows são importantes. Elas dão uma oportunidade para se conectar.

Mas as pessoas comuns estariam fazendo lives? Os smartphones não existiam, as webcams eram horríveis…
Fariam. As câmeras fotográficas já estavam muito disseminadas. Você filmava com a câmera, depois tinha conector especial, mas dava pra fazer em casa. A gente tem a necessidade de compartilhar. Somos uma espécie grupal. Se ficarmos isolados durante muitos anos, nos desestabilizamos emocionalmente. Num momento de crise, de grande dor, suplantariamos as deficiências tecnológicas da época para produzir conexões.

Breonna Taylor completaria mesma idade que eu, mas atiraram nela, diz Selena Gomez

Cantora dá voz aos que pedem justiça racial nos Estados Unidos e pede assinaturas para petição
AGÊNCIA – EFE

Selena Gomez Outfit

A artista, empresária e designer Selena Gomez acrescentou sua voz nesta sexta-feira à voz daqueles que pedem justiça racial nos Estados Unidos, o fim da brutalidade policial e a prisão de os policiais que terminaram a vida do paramédica Breonna Taylor, enquanto sua família comemorou sua a data de seu nascimento.

“Breonna Taylor completaria 27 anos hoje. Minha mesma idade. Mas eles atiraram nele oito vezes. Por favor me ajude assinando este petição”, escreveu Gómez em sua conta do Instagram, na qual acrescentou o endereço de internet de um site que exige justiça para ela e sua família.

A petição, que ultrapassou quatro milhões de assinaturas, exige o levantamento de acusações contra os agentes “John Mattingly, Brett Hankison, Myles Cosgrove e todos os envolvidos na morte e no encobrimento do assassinato de Breonna”.

Além disso, pede ao governador de Kentucky, Andy Beshear, que fale em nome de Breonna para que o procurador-geral, Daniel Cameron, nomeie um advogado especial para investigar o Departamento de Polícia de Louisville. 

O nome de Taylor é um dos mencionados pelos manifestantes que lotam as ruas das principais cidades dos Estados Unidos desde o final de semana passado, protestando contra o assassinato de afro-americanos, o mais recente George Floyd, pelas mãos do Polícia.

Segundo relatos da imprensa local, Taylor dormia com o namorado Kenneth Walker em sua casa na cidade de Louisville, Kentucky,  quando ouviram um barulho alto. Então eles perceberam que abriram a porta da sua casa. 

Acreditando que era um assalto, Walker pegou sua pistola – para o qual ele tinha uma autorização de transporte – e abriu fogo contra os intrusos. Era a Polícia, que não se identificou, e foi erroneamente atender um chamado relacionado a narcóticos. 

Os agentes responderam com uma chuva de 22 tiros, dos quais oito atingiram o corpo de Taylor. 

O episódio ocorreu em 13 de março e, até o momento, não foram divulgados os resultados da investigação.

Outros artistas como Demi Lovato, Audra McDonald, Ben Platt, Cyn, Solange e Kehlani convidaram seus fãs para assinar a petição.

‘Não dá pra achar que fazer post na rede social e colocar uma pessoa com cabelo black vai resolver’, diz publicitário e consultor de diversidade Paulo Rogério Nunes

‘Para consultor, empresas se posicionam após protestos contra racismo nos EUA, mas precisam ir além da propaganda e deixar de ver diversidade como fardo
Mariana Barbosa

Paulo Rogério Nunes recomenda que empresas assumam a diversidade para além da publicidade Foto: Ricardo Prado / Agência O Globo

SÃO PAULO – A morte de George Floyd desencadeou uma onda de protestos por diversas cidades americanas e que dura mais de dez dias. Em meio à comoção por mais um episódio brutal de violência policial contra jovens negros, muitas marcas encontraram sua própria voz. A Nike, que há muito se posiciona de forma contundente contra o racismo, adaptou seu slogan Just Do It (Simplesmente Faça) para Don’t do it (Não faça), e foi seguida por Netflix, Amazon, Disney, Spotify e tantas outras.

No Brasil, o tema também ganhou a comoção das redes, mas são poucas as marcas que ousam ir além da superfície, avalia Paulo Rogério Nunes, publicitário, consultor de diversidade para empresas e autor de “Oportunidades Invisíveis”.

Como o senhor vê o comportamento das marcas em relação ao movimento desencadeado pela morte de George Floyd nos EUA?
O assassinato do George Floyd gerou comoção pública grande e virou movimento global, com impacto muito forte no mundo do entretenimento e no mundo corporativo. Houve muita manifestação de solidariedade nas redes, mas também muita empresa que partiu para a ação. O SoftBank criou um fundo de US$ 100 milhões para investir em startups lideradas por negros. Outras empresas doaram para entidades que combatem o racismo e a desigualdade. E outros surpreenderam ao se engajar na pauta da reparação econômica para descendente de africanos escravizados, como foi o caso da marca de sorvete Ben & Jerry.

E no Brasil?
Aqui a repercussão foi grande nas redes sociais, com algumas marcas como Netflix fazendo uma relação com a morte de jovens no Brasil. A Avon fez uma comunicação interessante, perguntando o que ela poderia fazer pela causa e reconhecendo que pode fazer mais. Mas foi preciso uma ação global para a gente começar a ver alguma movimentação por aqui, um país que onde muito mais jovens são mortos pela polícia.

E o que as empresas precisam fazer mais?
Não dá pra achar que fazer post na rede social e colocar uma pessoa com cabelo black na foto da publicidade vai resolver um problema que é sistêmico e deveria ser tratado de forma 360. Tem a ver com quem você contrata, não só no chão de fábrica mas no nível executivo, tem a ver com a sua cadeia produtiva e com a comunicação. A publicidade é a última ponta.

Aqui a gente está só no nível da publicidade?
Aqui a gente está, no máximo, na publicidade. E é uma pauta de cinco anos pra cá. Trabalho há quase 20 anos com esse tema de movimento negro. No início dos anos 2010, tinha zero presença negra na publicidade. Isso sem dúvida é importante. Mas precisamos ir além e deixar de olhar diversidade como fardo, que tenho que fazer porque o concorrente faz ou consumidor está demandando. É preciso entender que a diversidade é bom para a empresa, gera novos olhares, novas oportunidades de mercado. Ao ignorar tudo isso, além de ser moralmente inaceitável, as empresas estão perdendo dinheiro.

Que tipo de ações as empresas podem fazer?
Podem fazer investimentos para treinar os pequenos negócios para um dia eles virarem fornecedor. As grandes corporações compram de tudo, de uma caneta a um supercomputador, a palestra, bufê. Não basta só denunciar o racismo, tem que promover mudanças. Pessoas estão cansadas de falácias. Vamos fazer um projeto real? Nos EUA, o (político e ativista) Jesse Jackson criou o Wall Street Project e depois o Silicon Valley Project para pressionar o mercado financeiro e as startups a promoverem ações afirmativas. Aqui o setor de tecnologia está começando a fazer alguma coisa. Mas precisamos fortalecer ações como BuyBlack e BlackMoneyMatters, que são movimentos para fomentar negócios liderados por pessoas negras. São outras narrativas que vão além da narrativa da vida. Claro que o principal é estar vivo. Mas há outras violências sistêmicas que fazem com que a população fique marginalizada.

Por que o movimento negro aqui não tem a mesma força que nos EUA?
Por conta da injustiça histórica, os negros nos EUA tiveram que empreender. E criaram um acúmulo histórico de instituições. Lá a mídia negra é muito forte. Tem dezenas de canais de TV, rádios, jornais, revistas, bancos e associações de crédito. E ainda há a pressão de brancos progressistas. No Brasil, pouco mais de 130 anos depois da abolição da escravidão, não há força econômica negra suficiente. Meu bisavô fugiu de uma fazenda. Estou separado do processo de escravidão por três gerações. Os africanos trabalharam de graça por mais de 300 anos. É um passivo econômico muito grande. Famílias que não herdaram nada estão em desnível com aqueles que estavam na burocracia portuguesa e, mais tarde, com os imigrantes europeus. Ser não negro em uma sociedade racista é um privilégio.

As redes sociais ajudam a globalizar o movimento?
É inegável que as redes sociais fortaleceram a comunidade e temos quase duas décadas de ações afirmativas que foram importantes para termos uma geração de pessoas que fizeram faculdade, que viajaram para o exterior e hoje pressionam por mudanças. Mas falta um entendimento por parte das comunidades descendentes de europeus de refletir seus privilégios e buscarem mudança. O fardo fica todo para a comunidade negra resolver um problema que é do país. A sociedade brasileira precisa entender que nunca vai se tornar uma potência excluindo 100 milhões de pessoas sistematicamente da economia, da educação.

O senhor acredita que vai haver mudanças mais profundas, não só nos EUA mas aqui também?
O movimento desencadeou e vai desencadear um processo de aceleração desse debate na sociedade brasileira. Há pessoas nas empresas – temos que lembrar que sempre tem um CPF por trás de um CNPJ – que genuinamente entendem a urgência deste assunto e entendo que essa geração pode fazer algo que as gerações anteriores não fizeram. O Painel da Globonews com as jornalistas negras esta semana foi histórico. A Maju Coutinho falou uma coisa importante: não chama a gente só pra falar de racismo. Chama a gente pra falar de qualquer coisa. Ao falar sobre qualquer coisa, podemos trazer um olhar diferente.

Andrew Nguyen for Marie Claire Mexico with Linda Rosenberg

Photography: Andrew Nguyen. Styling: Emma Acrét. Creative Direction: Nicolas Matear. Hair: Ryan Brown. Makeup: Tri-Anh Nguyen. Model: Linda Rosenberg.

Isabel Fillardis fala sobre racismo: ‘Sofri em diversos momentos na TV e na moda’

‘Geração que veio depois de mim trouxe consciência e engajamento’, diz atriz e cantora, que acaba de gravar um EP
Marcia Disitzer

Isabel Fillardis Foto: Aderi Costa

Em quarentena desde março, a atriz Isabel Fillardis, de 46 anos, acompanha os debates em torno do racismo no Brasil e no mundo. A morte do menino Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, fez com que a cantora ficasse “sem chão”. “Eu não tenho palavras. Além de ser uma doença, é uma crueldade“, lamenta. “Antes, situações como essa aconteciam e ninguém ficava sabendo. A internet fez com que o racismo viesse para fora”, analisa.

Isabel, que estreou em 1992 na TV, na novela “Renascer”, diz que por um bom tempo não se deu conta de sua representatividade. “Sofri racismo em diversos momentos na TV e na moda e tive que me impor”, lembra. “Hoje, sei que quebrei muitos paradigmas“, emenda. O espetáculo “Lapinha”, de 2014, foi um marco nesse processo. “Foi um divisor de águas na minha carreira. Eu atuei e produzi. Por ser um projeto meu, pude contratar vários profissionais negros”, explica. “Precisamos ser protagonistas da nossa História e da nossa economia. As crianças têm que ter educação igualitária e saber quem foram seus antepassados. Não se acaba o racismo com uma frente só, as cotas, a punição, tudo isso faz com que as coisas se modifiquem”, avalia.

Isabel Fillardis Foto: Aderi Costa

Isabel elogia a geração que veio depois dela. “Trouxe consciência e engajamento.” Ela tem uma ligação especial com a escritora Djamila Ribeiro. “A Djamila me contou que o pai dela levou o número 1 da revista ‘Raça’, na qual eu estava na capa. Ele disse: ‘Está vendo essa menina? Se ela conseguiu, você também consegue’. Tenho muito orgulho de tê-la hoje na minha vida”, diz Isabel, que voltou a cantar,  gravou um EP e, antes de a pandemia começar, estava prestes a lançá-lo. “Falta ainda o videoclipe”, conta. Por enquanto, ela segue em casa. “Nunca rezei tanto na minha vida.”

Pressionado, Zuckerberg fala em revisar regras de publicação no Facebook

Mudança na moderação veio depois que mensagem considerada como estímulo à violência publicada por Trump foi alvo de críticas dos próprios funcionários

Mark Zuckerberg é presidente executivo do Facebook

SAN FRANCISCO – O CEO do FacebookMark Zuckerberg, quer revisar as regras da rede social que permitiram que polêmicas mensagens do presidente dos EUADonald Trump, não fossem moderadas após uma semana de protestos e pressão de funcionários.

“Vamos revisar nossas regras que autorizam a discussão e a ameaça do uso da força por um Estado, para ver se devemos aprovar emendas”, escreveu Zuckerberg em seu perfil, na sexta-feira (5), em mensagem dirigida a seus funcionários. “Dada a delicada história dos Estados Unidos, isso requer atenção especial”, acrescentou.

Diferentemente do Twitter, o Facebook não interveio em uma mensagem do presidente dos EUA que dizia: “Quando os saques começam, o tiroteio começa”, sobre os protestos em apoio a George Floyd que terminaram em distúrbios.

A morte de Floyd, um negro sufocado por um policial branco, em 25 de maio, em Minneapolis, provocou uma onda de mobilizações inéditas em décadas contra a violência policial e o racismo nos Estados Unidos.

“Quero reconhecer que a decisão que tomei na semana passada perturbou, decepcionou, ou machucou muitos de vocês”, disse o fundador da rede social.

Nos dias que se seguiram a várias mensagens controversas de Trump, dezenas de funcionários expressaram seu descontentamento – publicamente ou em privado. Na segunda-feira, eles organizaram uma greve virtual e pelo menos dois engenheiros pediram demissão.

“O Facebook fornece uma plataforma que permite aos políticos radicalizarem as pessoas e fazer apologia da violência”, protestou um deles, Timothy Aveni.

Em seu texto, Zuckerberg detalhou sete áreas que sua empresa planeja submeter à avaliação, embora tenha especificado “que pode não haver mudanças em todas elas”. /AFP

Mais do que nunca, o Facebook é uma ‘produção de Mark Zuckerberg’

Autointitulado um ‘presidente executivo para tempos de guerra’, fundador do Facebook agora concentra mais poder do que nunca em sua empresa, avaliada em mais de US$ 600 bilhões
Por Mike Isaac, Sheera Frenkel e Cecilia Kang – The New York Times

Coronavírus ofereceu a Zuckerberg a oportunidade de demonstrar que ele assumiu suas responsabilidades como líder

SÃO FRANCISCO – No dia 27 de janeiro, em uma habitual reunião programada para a manhã de segunda-feira com os principais executivos do Facebook, Mark Zuckerberg focou no novo coronavírus. Há semanas, ele disse à sua equipe, ouvia de especialistas em saúde global que o vírus daria origem a uma pandemia. Na visão de Zuck, o Facebook precisava se preparar para o pior cenário possível – no qual a capacidade da empresa de combater desinformação, golpistas e teóricos da conspiração seriam testados como nunca antes.

Para começar, disse Zuckerberg, a empresa deve usar algumas das ferramentas desenvolvidas para combater o lixo eleitoral de 2020 e tentar adaptá-las para o vírus. Ele pediu aos executivos encarregados de todos os departamentos que desenvolvessem planos para responder a um surto global até o final da semana. A reunião, relatada por duas pessoas que participaram dela, ajudou a preparar o Facebook antes de outras empresas – e até de alguns governos – na preparação para a covid-19. E exemplificou uma mudança na forma como o homem de 36 anos está dirigindo a empresa que ele fundou.

Desde o dia em que ele codificou as palavras “uma produção de Mark Zuckerberg” em todas as páginas em azul e branco do Facebook, ele tem sido o rosto singular da rede social. Mas, até certo ponto não muito apreciado fora do Vale do Silício, Zuckerberg é, há muito tempo, um tipo de presidente executivo binário – extraordinariamente envolvido em alguns aspectos dos negócios e praticamente invisível nas áreas que ele acha menos interessantes.

O início do fim da liderança distanciada de Zuckerberg ocorreu em 8 de novembro de 2016, com a eleição de Donald Trump. A partir desse momento, uma série implacável de crises – sua rejeição casual de preocupações com notícias falsas como “uma ideia bem louca”; revelações de que a plataforma havia sido usada como um brinquedo para espionagem patrocinada pelo Estado; o escândalo da Cambridge Analytica – fez Zuckerberg ajustar o controle da empresa.

Muitas de suas táticas de consolidação têm sido extremamente visíveis: ele substituiu os fundadores externos do Instagram e WhatsApp por partidários seus e reformou o já amigável conselho do Facebook para estar ainda mais de acordo com o que pensa, trocando cinco de seus nove integrantes. 

Com a atenção de um quarto da população mundial para vender aos anunciantes, o Facebook é tão colossal que as mudanças no organograma têm o efeito de criar novos e poderosos personagens no cenário político global. Zuckerberg entrou em contato com peças-chave para conquistar territórios hostis – o agente republicano Joel Kaplan, em Washington, e o ex-vice-primeiro ministro britânico, Sir Nicholas Clegg, na zona do euro. E sua abordagem mais prática causou, pelo jogo de soma zero da influência corporativa, um afastamento eficaz de Sheryl Sandberg, sua diretora de operações e a mulher mais proeminente no mundo da tecnologia.

Agora, o coronavírus ofereceu a Zuckerberg a oportunidade de demonstrar que ele assumiu suas responsabilidades como líder – uma virada de 180 graus desde aqueles distantes dias de 2016. Isso lhe deu a chance de liderar 50 mil funcionários em uma crise que, dessa vez, não foi ele quem causou. E tirar proveito do momento pode permitir que Zuckerberg prove uma tese na qual realmente acredita: que se alguém enxergar além de sua capacidade de destruição, o Facebook pode ser uma força para o bem.

“Mark assumiu um papel ativo na liderança do Facebook desde a sua fundação até hoje”, disse Dave Arnold, porta-voz da empresa, em comunicado por e-mail. “Temos a sorte de ter líderes tão engajados, incluindo Mark, Sheryl e toda a equipe de liderança. O Facebook é uma empresa melhor por isso.”

‘Até agora, fui líder em tempos de paz’

No Vale do Silício, existe um certo tipo de fundador de empresa, cujo título é presidente executivo (CEO), mas que se apresenta como um “cara de produto”. Um CEO que é um cara de produto se sente mais em casa desenvolvendo o que está à venda do que realmente administrando a empresa.

Na Apple, Steve Jobs era um cara de produto, inventando o iPhone enquanto deixava a cadeia de suprimentos ao seu diretor de operações, Tim Cook. Na Amazon, Jeff Bezos é um cara de produto, obcecado com clientes de varejo, enquanto outros dirigem a lucrativa divisão de hospedagem na web. E no Facebook, por mais de uma década, Mark Zuckerberg era um cara de produto.

Na prática, isso significou que Zuckerberg mergulhou em importantes novos produtos, dando ordens diretas aos gerentes de nível médio, encarregados de qualquer recurso pelo qual estivesse obcecado naquela semana. Isso também significava que ele se sentia à vontade para delegar em áreas que o interessavam menos profundamente – incluindo a máquina de publicidade que gerou US$ 70 bilhões em receita no ano passado. 

Ainda menos atraente para Zuckerberg era o domínio da política do Facebook em torno de que tipo de discurso era ou não permitido. Esses assuntos se enquadravam em uma categoria específica: importante demais para ignorar, mas não exatamente com o que um jovem bilionário deseja gastar todo o seu tempo. 

A supervisão dessas áreas foi para seu círculo íntimo de confiança, conhecido como M-Team. Abreviação de “Mark Team” (Equipe de Mark, em tradução livre), seus integrantes sabiam que provavelmente nunca o sucederiam como CEO, mas poderiam permanecer poderosos e autônomos em seus próprios departamentos. No topo estava Sheryl, a segunda no comando, cujo portfólio abrangia publicidade, marketing, regulamentação, comunicações e muito mais.

As eleições de 2016 deixaram claro para Zuckerberg que a acomodação não era mais viável, pois ele e Sheryl eram criticados por estarem ausentes e distraídos, quando não por negligência intencional.Em julho de 2018, Zuckerberg convocou uma reunião com profissionais-chave sob seu comando. No passado, ele usava as reuniões semestrais do grupo para traçar novos cursos para produtos do Facebook ou discutir as novas tecnologias que ele estava interessado em capitalizar. 

Desta vez, ele disse a seus executivos que seu foco estava em si mesmo. Com o Facebook constantemente sob ataque de pessoas de fora, disse Zuckerberg, ele precisava se reinventar para o “tempo de guerra”.”Até agora, fui líder em tempos de paz”, disse Zuckerberg, segundo três pessoas que estavam presentes, mas não autorizadas a discutir a reunião publicamente. “Isso vai mudar.” Zuckerberg disse que tomaria mais decisões por conta própria, com base em seus instintos e visão para a empresa. Os líderes de guerra foram mais rápidos e decisivos, disse ele, e não deixaram o medo de irritar os outros paralisá-los. (Alguns detalhes da reunião foram relatados anteriormente pelo The Wall Street Journal.)

Zuckerberg instruiu a chamada “família de aplicativos” do Facebook – Instagram, Messenger, WhatsApp e Facebook – a trabalhar mais em conjunto. O Instagram teve que começar a enviar o tráfego de volta ao principal produto. O WhatsApp teve que se integrar melhor com seus serviços irmãos. Em vez de executar a visão de Zuckerberg, os chefes do Instagram, Kevin Systrom e Mike Krieger, deixaram a empresa em setembro de 2018, depois da partida dos desiludidos fundadores do WhatsApp. Juntos, eles perderam mais de US$ 1 bilhão com multas de contrato.

Zuckerberg continuou a turnê de conversas com órgãos reguladores altamente engajados em Utah, Bélgica, Alemanha e outros lugares. Na Europa, onde o Facebook tinha um relacionamento especialmente gelado com agências governamentais, ele chamou Clegg, que assumiu um novo papel como diplomata-chefe da empresa.

‘Um artista habilidoso’

O Facebook dedicou 2019 a um completo ataque de lobby a Washington, comprometendo US$ 16,7 milhões para influenciar os formuladores de políticas. Apenas duas outras empresas gastaram mais. Mas mesmo além do dinheiro, a arma mais poderosa do Facebook era o acesso ao seu CEO.

Kaplan – um veterano bem conectado do governo George W. Bush – começou a providenciar que Zuckerberg organizasse jantares com conservadores influentes, incluindo a senadora Lindsey Graham, R-S.C. e o apresentador da Fox News, Tucker Carlson. Kaplan também fomentou um relacionamento entre Zuckerberg e Jared Kushner, genro de Trump.

Em setembro de 2019, o procurador-geral de Nova York anunciou uma investigação de vários estados para saber se se o Facebook havia violado as leis antitruste. Para Zuckerberg, era a indicação mais clara de que a política e o governo exigiam toda a sua atenção – uma ameaça existente em potencial à sua empresa que não podia mais ser delegada a outras pessoas. Uma semana depois, ele viajou para Washington para cortejar os representantes de ambas as partes.

Em uma sala privada no Ris, um restaurante sofisticado ao lado do hotel Ritz-Carlton, Zuckerberg jantou com os proeminentes democratas do Senado. O grupo incluía Mark Warner, da Virgínia, e Richard Blumenthal, de Connecticut – ambos críticos de longa data das práticas de segurança e privacidade do Facebook – assim como autoridades novatas na política da tecnologia, como Jeanne Shaheen, de New Hampshire, Catherine Cortez Masto, de Nevada, e Angus King, o independente do Maine.

Enquanto comia salmão grelhado, torta de frango e couve de Bruxelas assada, Zuckerberg fez a jogada básica de Washington de toma lá dá cá que ele por muito tempo deixou nas mãos de Sheryl: ouviu atentamente (o que diziam) e fez afirmações acerca de uma série de problemas no Facebook, desde interferências nas eleições estrangeiras à criptomoeda.

“Ele é um artista habilidoso”, disse Blumenthal. “Quase certamente o resultado de conselhos profissionais, e talvez de treinamento e muita orientação de uma equipe pesada de lobistas aqui em Washington.” Warner acrescentou: “Por um tempo, acho que o Facebook, juntamente com muitas empresas de tecnologia no Vale, achava que lidar com Washington estava meio que um nível inferior a elas. Acho que Zuckerberg percebeu que é de seu benefício se envolver conosco diretamente. ”

O jantar democrata foi apenas um aquecimento para a reunião realmente importante que ocorreu no dia seguinte: Kaplan e Kushner organizaram um encontro de Zuckerberg com o presidente dos Estados Unidos. Os dois nunca haviam se conhecido. Antes da reunião em 19 de setembro, Zuckerberg pediu à sua equipe de Washington que o informasse sobre a (força da) presença de Trump no Facebook, para que ele pudesse ocasionalmente citar algumas estatísticas no Salão Oval.

Vestindo um terno azul escuro e uma gravata bordô, Zuckerberg estava sentado entre Kushner e Kaplan, de frente para Trump e seu copo enorme de Coca-Cola diet. Zuckerberg apontou rapidamente que o presidente tinha o nível mais alto de engajamento de qualquer líder mundial na rede social. Trump – que já havia criticado o Facebook em relação a uma série de questões – adotou imediatamente um novo tom, descrevendo a conversa nas postagens da rede social como “agradável”.

Um mês depois, o presidente convidou Zuckerberg – junto com o integrante do conselho do Facebook e apoiador de Trump, Peter Thiel – para um jantar privado na Casa Branca, que ficou sob sigilo durante semanas. A simples bajulação de Zuckerberg parece ter valido a pena. Trump não castiga publicamente a empresa desde aquele encontro e meses depois, continua a dizer ao público que é o “número 1” na maior rede social do mundo.

No Facebook, o estilo mais engajado de Zuckerberg estava irritando os funcionários. O descontentamento veio à tona no final de outubro, depois que Zuckerberg divulgou publicamente como o Facebook regularia o discurso político na plataforma. Em nome da liberdade de expressão, ele disse, a rede social não policiaria o que os políticos diziam em anúncios políticos – mesmo que mentissem. O Facebook não estava na atividade como um árbitro da verdade, nem queria estar, disse Zuckerberg.

Em resposta, mais de 250 funcionários assinaram um memorando interno argumentando que a liberdade de expressão e o discurso comprado eram diferentes e que a desinformação era prejudicial a todos. A posição do Facebook acerca da publicidade política é “uma ameaça para o que ele representa”, escreveram os funcionários. “Nós nos opomos fortemente a essa política”.

Dias depois, no Halloween, Zuckerberg liderou uma reunião semanal regular de perguntas e respostas com os funcionários. Perto do fim, alguém vestido com uma enorme roupa inflável de Pikachu se aproximou do microfone e pressionou o CEO em relação a sua política, segundo três pessoas presentes.

Zuckerberg, agora menos preocupado do que nunca em tentar fazer todo mundo feliz, reiterou sua posição. Quando surgiram versões da mesma pergunta durante a sessão, ele se manteve firme. “Isso não é uma democracia”, disse ele.

O teste dos produtos de limpeza

“Não é uma democracia” também pode descrever o conselho de administração de nove pessoas do Facebook. Zuckerberg preside o grupo, detém a maioria das ações com direito a voto e controla sua dinâmica. O conselho não é exatamente uma verificação de seu poder. No ano passado, Kenneth Chenault, ex-CEO da American Express, sugeriu a criação de um comitê independente para examinar os desafios da empresa e apresentar o tipo de perguntas que o conselho não estava acostumado a fazer. A ideia, relatada anteriormente pelo The Wall Street Journal, foi rapidamente rejeitada por Zuckerberg e outros.

Outras divergências do conselho, especificamente em relação à anúncios políticos e à disseminação de informações erradas, sempre terminavam com o ponto de vista de Zuckerberg vencendo. Em março, Chenault anunciou que não participaria da nova eleição, em seguida, o mesmo se repetiu com outro diretor, Jeffrey Zients, que também havia desafiado algumas posições de Zuckerberg.

Para substituí-los, Zuckerberg escolheu Drew Houston, CEO da Dropbox, que também é amigo de longa data e ocasional parceiro de pingue-pongue, e Peggy Alford, ex-diretora financeira da Chan Zuckerberg Initiative. Três outros indicados deverão ingressar no conselho este ano, incluindo executivos da McKinsey and Co. e Estée Lauder. Os três participantes restantes do conselho são um grupo de amigos: Thiel e Marc Andreessen, capitalistas de risco que estão entre os primeiros e mais leais investidores do Facebook, e Sheryl.

Com seus problemas na diretoria deixados no passado, Zuckerberg conseguiu dedicar mais atenção ao coronavírus. Ele começou a acompanhar a doença cedo, recebendo relatórios de especialistas, incluindo Tom Frieden, ex-diretor dos Centros de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês). Zuckerberg foi aconselhado a não confiar em relatórios preliminares da China de que o vírus estava controlado ou nas garantias infundadas de Trump de que isso não afetaria muito os Estados Unidos. 

Em 19 de março, bem antes dos pedidos das ordens para que as pessoas ficassem em casa em muitos estados, Zuckerberg transmitiu um bate-papo em vídeo ao vivo com  Anthony Fauci, a principal autoridade em doenças infecciosas do país, em sua página pessoal no Facebook./ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA