‘Não dá pra achar que fazer post na rede social e colocar uma pessoa com cabelo black vai resolver’, diz publicitário e consultor de diversidade Paulo Rogério Nunes

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‘Para consultor, empresas se posicionam após protestos contra racismo nos EUA, mas precisam ir além da propaganda e deixar de ver diversidade como fardo
Mariana Barbosa

Paulo Rogério Nunes recomenda que empresas assumam a diversidade para além da publicidade Foto: Ricardo Prado / Agência O Globo

SÃO PAULO – A morte de George Floyd desencadeou uma onda de protestos por diversas cidades americanas e que dura mais de dez dias. Em meio à comoção por mais um episódio brutal de violência policial contra jovens negros, muitas marcas encontraram sua própria voz. A Nike, que há muito se posiciona de forma contundente contra o racismo, adaptou seu slogan Just Do It (Simplesmente Faça) para Don’t do it (Não faça), e foi seguida por Netflix, Amazon, Disney, Spotify e tantas outras.

No Brasil, o tema também ganhou a comoção das redes, mas são poucas as marcas que ousam ir além da superfície, avalia Paulo Rogério Nunes, publicitário, consultor de diversidade para empresas e autor de “Oportunidades Invisíveis”.

Como o senhor vê o comportamento das marcas em relação ao movimento desencadeado pela morte de George Floyd nos EUA?
O assassinato do George Floyd gerou comoção pública grande e virou movimento global, com impacto muito forte no mundo do entretenimento e no mundo corporativo. Houve muita manifestação de solidariedade nas redes, mas também muita empresa que partiu para a ação. O SoftBank criou um fundo de US$ 100 milhões para investir em startups lideradas por negros. Outras empresas doaram para entidades que combatem o racismo e a desigualdade. E outros surpreenderam ao se engajar na pauta da reparação econômica para descendente de africanos escravizados, como foi o caso da marca de sorvete Ben & Jerry.

E no Brasil?
Aqui a repercussão foi grande nas redes sociais, com algumas marcas como Netflix fazendo uma relação com a morte de jovens no Brasil. A Avon fez uma comunicação interessante, perguntando o que ela poderia fazer pela causa e reconhecendo que pode fazer mais. Mas foi preciso uma ação global para a gente começar a ver alguma movimentação por aqui, um país que onde muito mais jovens são mortos pela polícia.

E o que as empresas precisam fazer mais?
Não dá pra achar que fazer post na rede social e colocar uma pessoa com cabelo black na foto da publicidade vai resolver um problema que é sistêmico e deveria ser tratado de forma 360. Tem a ver com quem você contrata, não só no chão de fábrica mas no nível executivo, tem a ver com a sua cadeia produtiva e com a comunicação. A publicidade é a última ponta.

Aqui a gente está só no nível da publicidade?
Aqui a gente está, no máximo, na publicidade. E é uma pauta de cinco anos pra cá. Trabalho há quase 20 anos com esse tema de movimento negro. No início dos anos 2010, tinha zero presença negra na publicidade. Isso sem dúvida é importante. Mas precisamos ir além e deixar de olhar diversidade como fardo, que tenho que fazer porque o concorrente faz ou consumidor está demandando. É preciso entender que a diversidade é bom para a empresa, gera novos olhares, novas oportunidades de mercado. Ao ignorar tudo isso, além de ser moralmente inaceitável, as empresas estão perdendo dinheiro.

Que tipo de ações as empresas podem fazer?
Podem fazer investimentos para treinar os pequenos negócios para um dia eles virarem fornecedor. As grandes corporações compram de tudo, de uma caneta a um supercomputador, a palestra, bufê. Não basta só denunciar o racismo, tem que promover mudanças. Pessoas estão cansadas de falácias. Vamos fazer um projeto real? Nos EUA, o (político e ativista) Jesse Jackson criou o Wall Street Project e depois o Silicon Valley Project para pressionar o mercado financeiro e as startups a promoverem ações afirmativas. Aqui o setor de tecnologia está começando a fazer alguma coisa. Mas precisamos fortalecer ações como BuyBlack e BlackMoneyMatters, que são movimentos para fomentar negócios liderados por pessoas negras. São outras narrativas que vão além da narrativa da vida. Claro que o principal é estar vivo. Mas há outras violências sistêmicas que fazem com que a população fique marginalizada.

Por que o movimento negro aqui não tem a mesma força que nos EUA?
Por conta da injustiça histórica, os negros nos EUA tiveram que empreender. E criaram um acúmulo histórico de instituições. Lá a mídia negra é muito forte. Tem dezenas de canais de TV, rádios, jornais, revistas, bancos e associações de crédito. E ainda há a pressão de brancos progressistas. No Brasil, pouco mais de 130 anos depois da abolição da escravidão, não há força econômica negra suficiente. Meu bisavô fugiu de uma fazenda. Estou separado do processo de escravidão por três gerações. Os africanos trabalharam de graça por mais de 300 anos. É um passivo econômico muito grande. Famílias que não herdaram nada estão em desnível com aqueles que estavam na burocracia portuguesa e, mais tarde, com os imigrantes europeus. Ser não negro em uma sociedade racista é um privilégio.

As redes sociais ajudam a globalizar o movimento?
É inegável que as redes sociais fortaleceram a comunidade e temos quase duas décadas de ações afirmativas que foram importantes para termos uma geração de pessoas que fizeram faculdade, que viajaram para o exterior e hoje pressionam por mudanças. Mas falta um entendimento por parte das comunidades descendentes de europeus de refletir seus privilégios e buscarem mudança. O fardo fica todo para a comunidade negra resolver um problema que é do país. A sociedade brasileira precisa entender que nunca vai se tornar uma potência excluindo 100 milhões de pessoas sistematicamente da economia, da educação.

O senhor acredita que vai haver mudanças mais profundas, não só nos EUA mas aqui também?
O movimento desencadeou e vai desencadear um processo de aceleração desse debate na sociedade brasileira. Há pessoas nas empresas – temos que lembrar que sempre tem um CPF por trás de um CNPJ – que genuinamente entendem a urgência deste assunto e entendo que essa geração pode fazer algo que as gerações anteriores não fizeram. O Painel da Globonews com as jornalistas negras esta semana foi histórico. A Maju Coutinho falou uma coisa importante: não chama a gente só pra falar de racismo. Chama a gente pra falar de qualquer coisa. Ao falar sobre qualquer coisa, podemos trazer um olhar diferente.

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