Arquitetos e designers revelam as histórias de seus objetos preferidos

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Voltar o olhar para as peças que trazem boas memórias é uma prática comum nesta quarentena
TEXTO ANA LUIZA CARDOSO | FOTOS ANDRÉ KLOTZ (MARIANA SCHMIDT), RUY TEIXEIRA (PAULA JUCHEM) E ACERVO PESSOAL

Se é verdade que a casa reflete a história pessoal e intransferível de quem a habita, cada peça desse universo particular pode render um capítulo inteiro. Reparar bem nos objetos que nos cercam, eleger um preferido e, por meio dele, reviver boas lembranças é o que fazem estes arquitetos e designers, que, a seguir, compartilham suas redescobertas.

Mariana Schmidt

Em isolamento, arquitetos e designers revelam as histórias de seus objetos preferidos  (Foto: André Klotz)

Uma escultura em formato de cabeça repousa na sala de jantar da arquiteta fluminense Mariana Schmidt. Trata-se de um ex-voto, tipo de agradecimento por um pedido atendido – manifestação artístico-religiosa cheia de simbolismo e tradição. Estas peças podem ganhar contornos de braços, pernas, até mesmo corpos inteiros, dependendo da enfermidade de quem as dedica a seu santo de devoção. O artigo de Mariana foi um presente do galerista Gustavo Nóbrega, da paulistana Superfície, anos atrás. Deve ter sido moldada para alguém que sofria de algum distúrbio mental ou psicológico, imagina ela. “Isso é muito forte. Você oferece a parte do corpo para a qual pediu a cura, é lindo”, reflete. “Quando ele me deu, disse: ‘acho que arquitetura é um estado contínuo de pensar e sentir’.” Este sentimento, justamente, norteia o trabalho de Mariana e do arquiteto André Pepato no escritório paulistano MNMA Studio. Lá, eles valorizam histórias e mínimos detalhes na concepção de lojas, escritórios, galerias de arte e mobiliário. “Tem uma história porque alguém acreditou, colocou fé, entregou. É muito rico o processo”, diz. “Não quero perder isso na escala intimista.” Para lembrá-la da intenção, a escultura está sempre lá.


Paula Juchem

Em isolamento, arquitetos e designers revelam as histórias de seus objetos preferidos  (Foto: Ruy Teixeira)

Na infância, a designer e artista Paula Juchem costumava percorrer a casa de sua avó, no Rio Grande do Sul, numa espécie de caça ao tesouro. A matriarca pedia para os netos colarem uma etiqueta com o nome atrás dos objetos que queriam herdar quando chegasse a hora. A Paula, coube a tapeçaria de Kennedy Bahia, que descansa agora em sua residência no bairro de Perdizes, na capital paulista. “Em dias tristes e tensos como estes, essas coisas nos afagam. Sinto minha avó aqui por perto”, conta. O colorido dos fios de Bahia também lhe inspira em suas novas criações, que proliferam em seu pequeno ateliê, no mesmo bairro. Entre a produção de vasos e esculturas de barro, recheados de pecinhas coloridas e surrealismo, seres do mar, doces e rostos, Paula estuda a arte de Kennedy – um desejo antigo. “Faz um tempo que estou tentando me dedicar, mas é demorado. Comprei uma tela, lã de todas as cores e fui para o YouTube aprender”, fala a gaúcha.  “A Eva, minha caçula, adora participar.” Ao que tudo indica, o gosto pela tapeçaria perpassa gerações.


Sarkis Semerdjian

Em isolamento, arquitetos e designers revelam as histórias de seus objetos preferidos  (Foto: Acervo pessoal)

Já faz dez anos desde que o arquiteto Sarkis Semerdjian e seu sócio, Domingos Pascali, uniram dois encantamentos no mesmo ofício: arquitetura e design de objetos. No desenvolvimento dos projetos, além de estudos e análises, Sarkis gosta de perambular por antiquários, onde consegue ver de perto peças clássicas, analisar os diferentes estilos e observar o refinamento do desenho. Oito anos atrás, numa dessas incursões durante uma viagem à Holanda, ele deparou com esta luminária de piso dos anos 1950, da marca francesa Rispal Paris. Desencorajado pelo valor, conformou-se e desistiu. Porém, a Mante Religieuse, com suas formas orgânicas, cúpula de celuloide e luz avermelhada apareceu em um sonho. Impressionado, seguiu o impulso, voltou à loja e a arrematou. Só depois pensou em como transportá-la no trajeto de volta ao Brasil. A ação envolveu encontrar meios de desmontá-la, providenciar embalagem especial e carregar parte dela em seu colo, ao longo de todo o voo. Uma paixão trabalhosa, sem dúvida. “Mas ela veio através dos sonhos, não saiu da minha cabeça”, justifica o paulistano. Deixá-la para trás não era, definitivamente, uma alternativa aceitável.


Susana Bastos

Em isolamento, arquitetos e designers revelam as histórias de seus objetos preferidos  (Foto: Acervo pessoal)

Em uma mudança brusca de vida, a artista e designer mineira Susana Bastos trocou um apartamento amplo, de quatro quartos, por outro menor, porém com generosa área externa. Ela queria plantar limão, jabuticaba, e assim fez. Seu irmão, o arquiteto Marcelo Alvarenga, com quem divide o escritório Alva Design, em Belo Horizonte, assumiu o projeto de reforma. Susana reconhece que suas prioridades daquela fase pareciam bem questionáveis, e atualmente até se diverte com isso. “Realmente eu estava fazendo escolhas sem muita lógica”, diz, aos risos. “Entre encomendar os armários ou comprar uma luminária, eu optava pela luminária.” Afinal, nada como o prazer imediato. Obviamente, não se trata de qualquer luminária, mas de um modelo assinado pelo arquiteto e designer francês Jean Prouvé, que Susana ensaiava adquirir havia tempos. Hoje, a peça fica em sua sala – um presente para si mesma, uma lembrança daquela época de intensa transformação


Ana Neute

Em isolamento, arquitetos e designers revelam as histórias de seus objetos preferidos  (Foto: Acervo pessoal)


Formada em arquitetura, a paulistana Ana Neute seguiu pelo caminho do design porque buscava escalas menores e a sensação de proximidade. Ganhou reconhecimento pelo trabalho com iluminação, que produz exclusivamente para a Itens. Depois, enveredou para o mobiliário, incorporando a presença de minerais, pois queria experimentar o contato como corpo. Suas obras reúnem a um só tempo o artesanal e o industrial. Abraçam inserções de capim-dourado e metais. Esses contrastes também brotam em seu apartamento na região central de São Paulo, onde Ana faz questão de cercar-se de elementos que remetem à natureza – um respiro em meio ao cenário urbano, de puro concreto e asfalto, em que vive. Plantas e pedras, como este exemplar que segura, permeiam os ambientes. “Meu trabalho sempre incluiu a pesquisa de materiais artesanais e naturais”, conta ela, que aprecia tê-los por perto. Afinal, toda sua trajetória começou assim: com um anseio por proximidade.


Heloisa Galvão

Em isolamento, arquitetos e designers revelam as histórias de seus objetos preferidos  (Foto: Acervo pessoal)

Difícil imaginar o que é capaz de abalar a designer capixaba Heloisa Galvão, dona de uma voz tão serena, acostumada com momentos solitários, de meditação e labuta no ateliê em sua casa em São Paulo, onde molda delgadas peças de porcelana. “A gente se obrigou a uma pausa de um jeito forte, forçado, mas isso é uma chance de se voltar para dentro”, reflete, ao manusear um aparelho de chá com itens colhidos vida afora. “O chá guarda uma relação grande como tempo”, afirma. “Faz com que me recorde de pessoas importantes e de situações especiais.” Entre seus acessórios queridos para este ritual, figuram uma bandeja encontrada em um antiquário paulistano num passeio como marido, uma chaleira inglesa presenteada por uma amiga e a ampulheta comprada em Copenhague. “São coisas que falam de desaceleração, oportunidade e cuidado nessa época tão dura, mas que vai servir para resgatarmos a conexão como nosso ser mais profundo, com quem realmente somos, nossas verdades e com tudo que nos importa e faz sentido para nós.”

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