Como designers enxergam as mudanças na profissão em um cenário pós-pandemia

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Inúmeras iniciativas voluntárias abriram espaço para que os consumidores enxerguem o design com novos olhos. Consequentemente, quais novos papéis ele poderá assumir no dia a dia
JULYANA OLIVEIRA | FOTO GETTY IMAGES

Como designers enxergam as mudanças na profissão em um cenário pós-pandemia 

Qual o papel do design? A pergunta pode parecer simples e fácil de responder, mas na verdade não é. O designer é, sem dúvidas, um profissional amplo e com expertise para atuar em diferentes frentes. Prova disso, são as inúmeras ações voluntárias que surgiram recentemente e estão oferecendo soluções para a falta de EPIs nos hospitais ao redor do Brasil e do mundo.

Neste cenário, a sociedade passa a enxergar os múltiplos papéis que o designer pode desempenhar. Para Natasha Schlobach, presidente da Associação Nacional dos Designers de Produto, este momento representa uma quebra de paradigma onde o design para de ser visto apenas como a cereja do bolo. “O designer é, na verdade, um profissional que gerencia várias questões. Ele não só entrega o produto, mas está muito à frente disso vendo o que a sociedade/cliente precisa”, explica Schlobach. 

E como resultado deste novo olhar que a sociedade alcança sobre a profissão, no pós-pandemia passaremos a demandar ainda mais destes profissionais. Neste quesito, quais soluções eles poderão nos oferecer? Com tamanha expertise, o céu é o limite! Mas para que possamos oferecer respostas mais concretas, conversamos com designers sobre o futuro da profissão. Confira abaixo diferentes pontos de vista que conectam-se de uma maneira singular: o propósito de oferecer bem-estar para a sociedade.

Érico Gondim, designer de produto
O papel do designer é usar suas expertises para solucionar problemas. Achar novas maneiras de conectar-se, de trabalharem separados, mas em conjunto. Usar a força das equipes multidisciplinares que complementam-se para encontrar novos caminhos. Pensar de forma integrada, com consciência, e em conjunto com a ciência, com médicos, engenheiros, sociólogos, ambientalistas, artistas, e qualquer outra atividade que não dominamos.

Pensando em um cenário pós-Covid, o objetivo será evoluir e pensar no futuro do Planeta como um todo, sendo menos reprodutores de ideias e mais geradores e alquimistas, oferecendo soluções regeneradoras, inovadoras e acessíveis para a segurança, a saúde e o bem-estar comum.

Guilherme Wentz, designer
O bom design é sempre um reflexo do que está acontecendo na sociedade. Tanto da parte mais funcional, de entender como as pessoas estão vivendo e o que estão demandando, aos mais abstratos, como conceitos e valores.

Neste momento, o Covid-19 acelerou uma mudança na percepção da importância do design para a sociedade e abriu este novo capítulo no qual os consumidores entendem que o papel do design é compreender e identificar as mudanças de comportamento das pessoas e oferecer respostas e soluções.

Guto Requena, designer e arquiteto
O design já estava em crise e agora tende a focar cada vez mais em pautas como sustentabilidade e design regenerativo, como previu a curadora Paola Antonelli em 2019 na sua exposição na Trienalle de Milão, intitulada “Broken Nature”.

Acredito que no pós-pandemia, ele deverá desempenhar cada vez mais um papel de ativista. Chamando atenção para assuntos relacionados à sobrevivência da espécie humana. Para tanto, acredito que o design irá criar soluções práticas e essenciais para resolver problemas atuais, como: mobilidade urbana, questões de moradia, fontes de energia alternativa, consumo, e também nos ajudará a restaurar e regenerar a natureza.

Leandro Garcia, designer e arquiteto
Creio que o design sairá mais fortalecido e valorizado após a pandemia. E desempenhará diversos papéis, desde os relacionados ao morar até os ligados à ciência e medicina. Buscando atender às novas necessidades e demandas que estão surgindo nesse momento e às que ainda surgirão.

Natasha Schlobach, presidente da Associação Nacional dos Designers de Produto
No inicio de fevereiro, escrevi um artigo sobre o que seriam as atuais tendências do mercado. Na época, identifiquei que nos encontrávamos em um ótimo momento para o design nacional, por dois fatores principais: a desvalorização de nossa moeda – o que faz com que a exportação aumente, e pela concorrência com os produtos chineses, que faz com que as indústrias nacionais valorizem o designer como um elemento criativo para a evolução no mercado interno –, e também a natureza. Esta última, não somente em sua forma, mas em matéria-prima e, principalmente, com tecnologia agregada.

Mesmo no atual cenário, continuo apontando todos os fatores acima citados, mas por motivos diferentes. O produto nacional será valorizado, não somente por ter uma qualidade e design superiores aos produtos chineses, mas pela sociedade que aprender a valorizar o produtor local, por conhecer todas as dificuldades que enfrentamos na produção e por querer fortalecer a economia interna.

Também acredito que a indústria nacional verá o designer não somente como persona criativa, mas também como profissional estratégico. Já o uso de matéria-prima natural será cada vez mais uma exigência da sociedade ao perceber os danos que os materiais artificiais produzem no ecossistema. Estamos entrando em uma nova fase de consumo onde toda a cadeia está sendo forçada a reavaliar e repensar sua forma de viver e consumir.

O futuro da sociedade, assim como do design, não será mais sobre gerar produtos (capitalismo), mas, sim, em pensar como impactar as pessoas positivamente com experiências, novos serviços e bens duráveis, com mais qualidade e menos quantidade.

Nicole Tomazi, designer
Eu vejo a necessidade de, em mundo pós-pandemia, o design ser uma ferramenta que se relaciona muito mais com pesquisas e ciência em todos os âmbitos. Ser o lugar de uma prática mais técnica e assertiva, tanto na escala industrial quanto no design autoral. Ele pode ficar entre esse eixo da arte e a questão técnica para identificar e solucionar os problemas.

Entendo que meu papel como designer é dar autonomia para os artesãos e produtores isolados em pequenas cidades para que eles possam aparecer para sua comunidade. A intenção é fazer com que os consumos sejam mais locais. E este é um tremendo desafio. O design pode auxiliar neste novo estilo de vida. A gente não pode voltar ao que era antes, porque se voltarmos, então teremos perdido uma oportunidade de melhorar.

Paulo Carlotto, designer de produto
Vejo que duas tendências se intensificam: o design independente e a procura de tecnologias de baixo custo. O cenário de isolamento despertou vontades individuais de busca de soluções para um problema comum. Nós temos observado, no mundo todo, iniciativas muito parecidas com a nossa [Projeto SUS Vivo], de identificação da escassez de um produto essencial e pessoas que possuíam meios de produção acessíveis passaram a ceder a mão de obra e os materiais por esta causa. Então, enxergo a maior expansão da cultura maker junto com a motivação de utilizar o design para fins humanos e humanitários.

E também o design sendo feito por não-designers. Pessoas que aprenderam novas tecnologias e metodologias em prol de uma causa. Esse é o papel [que o design poderá desempenhar]: indivíduos que apoderam-se dos processos do design que servem como solução para diversos problemas. Hoje estamos fazendo máscaras para proteger os profissionais de saúde, respiradores para curar os contaminados e máscaras handmade para nos deslocarmos em segurança quando necessário. Amanhã estaremos produzindo em casa produtos que solucionem problemas de descarte de lixo, alto consumo de água e energia, desperdício de alimentos, etc.

Pedro Braga, designer de produto
O design já vinha, cada vez mais, entrando em outras áreas da economia criativa e modelos de negócios – com o chamado Design Thinking. Neste âmbito, o profissional designer e sua metodologia de processo criativo, que determina o quanto ele pode ajudar em diversas outras áreas, ganha mais espaço na sociedade.

Além disso, a crise também ampliou a percepção de que é muito importante termos produção nacional e tecnologias por aqui. São estas duas ferramentas que respaldam a importância do designer como player em inúmeros processos, pois ele tem versatilidade para propor soluções junto a profissionais de diversas outras áreas, sejam exatas ou humanas.

Ronald Sasson, designer
O design pós-Covid terá que mudar a narrativa atual em vários aspectos. Certamente a relação de preço terá que ser revista, desde o processo de produção passando por toda a cadeia. As pessoas irão sair desta crise com vontade de mexer e melhorar suas casas, pelo tempo que passaram confinadas observando mais onde moram e sentindo as reais necessidades esteticas e práticas, porém a incerteza do emprego e a exaustão das reservas financeiras vai criar a demanda de preços mais possíveis.

Talvez também tenha aumento expressivo de designers que passem a buscar o cliente final, bem como algumas fábricas. O que seria uma pena, pois os lojistas fazem uma belo trabalho de apoio aos profissionais de toda ordem. 

Talvez também o design passe a ser mais prático, com uma face mais óbvia no seu uso. Neste sentido me refiro a um aprofundamento das peças de múltipla utilização, isso já era uma tendência e acho que a pandemia deve acelerar o processo .

Tenho por premissa que o design é uma maneira de resolver uma necessidade com arte. Porém, no pós-pandemia ele terá que solucionar vários problemas na mesma peça. Design sempre terá um espaço cativo em qualquer situação de vida, bastará que cada profissional enxergue o seu entorno com clareza e encontre as oportunidades que se abrirão. Sensibilidade será, cada vez mais, a palavra a ser seguida. 

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