‘O racismo está nas estruturas já erguidas da moda’, diz Thayná Santos, a modelo que denunciou os estilistas Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho

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Ela criou o grupo Pretos na Moda com as colegas Camila Simões, Natasha Soares e Cindy Reis
Gilberto Júnior

Thayná Santos Foto: Instagram

Modelo há oito anos, a paulistana Thayná Santos escreveu em seu perfil no Instagram que, às vezes, tudo que precisamos é de um minuto de coragem. A declaração veio logo depois da repercussão das denúncias graves de racismo que sofreu ao longo de sua trajetória na indústria da moda. Nos relatos, ela conta as experiências ruins que teve com os estilistas Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho. A atitude da moça deu a força necessária a outras meninas, que passaram a narrar episódios em que foram vítimas de preconceito. Thayná, inclusive, criou o grupo Pretos na Moda com Camila Simões, Natasha Soares e Cindy Reis.

Confira a seguir a entrevista exclusiva com a modelo.

O GLOBO: O que a motivou a denunciar o racismo na moda?
Vi que marcas praticantes estavam se aproveitando do momento para se promoverem, e isso gerou um grande incômodo em mim. Decidi então relatar histórias, mas fazendo diferente. Expus o nome dos principais estilistas racistas que atuam na moda brasileira. Sabia que dessa forma, chamaria atenção à causa. Dito e feito! Essa minha atitude desencadeou uma série de relatos vividos por outros modelos com outros profissionais de moda.

Teve medo em algum momento?
Na verdade, tive muito medo diante de toda essa exposição, pois isso poderia prejudicar seriamente minha carreira. Mas o retorno me deixou feliz. Pude perceber que inspirei as pessoas. Espero que todos continuem se impondo porque isso poderá mudar drasticamente o cenário atual.

Como decidiram criar o movimento?
O movimento surgiu de forma espontânea, nos vimos lutando por um só objetivo, então decidimos lutar juntas! Era uma ideia que pairava individualmente por nossas cabeças há algum tempo. Aproveitamos a oportunidade e na última sexta-feira nos unimos oficialmente e criamos o grupo Pretos na Moda, que além de mim, tem a Natasha Soares e Cindy Reis, do estado do Rio de Janeiro, e a Camila Simões, de Minas Gerais.

Contar tudo isso foi um processo doloroso?
Com certeza, passei a relembrar de todo caminho percorrido até aqui. E ainda assim sinto que tenho muito a contar. Não será o primeiro e nem o último ‘exposed’ que farei. Infelizmente, no decorrer da carreira encontramos muitas pessoas dispostas a fazer maldade. E tudo isso precisa ser curado. Acredito que a cura virá através da fala.

Qual foi o episódio mais marcante?
Passei por uma experiência bem desagradável num casting da Gloria Coelho e do Reinaldo Lourenço. Eles fizeram uma espécie de “paredão” com todas as meninas e, no fim, só escolheram as brancas depois de uma espera de mais de uma hora e meia. Depois disso, pensei: “O que tem de errado comigo? Será que não sou boa suficiente?”. Isso porque ainda sou privilegiada por ser negra menos retinta e ter traços finos. Dói na gente perceber a persistência de diversas marcas em padronizar a beleza. Fico machucada sempre que acontece algo do tipo, mas procuro focar no que realmente importa, que é alcançar meus objetivos. É daí que minhas forças e determinação aumentam.

Gloria Coelho foi apontada por vocês como uma das estilistas racistas, mas se desculpou. Como encaram a atitude dela? E a do Reinaldo Lourenço? Era exatamente isso que esperavam?
Até este momento, não vimos um pronunciamento oficial. Houve um pedido de desculpas em lives no Instagram, e a Gloria enviou uma mensagem padrão dizendo: “Eu não sou racista. É um mal entendido. Pode acreditar”. Nós continuamos aguardando pedidos oficiais de desculpas e mudanças reais. Reinaldo apenas ignorou a situação desde o começo. Depois, apagou o “black square” que tinha postado, onde havíamos comentado. E agora impediu marcações no Instagram dele, porém, também não soltou nenhuma nota ou pedidos de desculpas publicamente. Continuamos aguardando retratações, notas ou pedidos de desculpas. Mas, mais do que isso, esperamos mudança de atitude e de mentalidade.

O racismo na moda é enraizado? O que fazer para mudar, que todas tenham as mesmas oportunidades e que a cor da pele não seja mais uma questão?
Muito! O racismo está nas estruturas já erguidas da moda. Às vezes, ele é explícito e escancarado como um elefante. Às vezes, ele é minimalista com uma formiga. Muitas vezes ele é apenas debochado. Depende de quem o pratica e em que ambiente está. O único fator em comum dentre todas essas características é a existência do racismo! Ele sempre está lá. Punir quem o pratica é o começo do caminho. Depois, é preciso começar a ter políticas de inserção de pessoas não-brancas no mercado. Sempre lembrando que pagá-las com um salário compatível às funções é de extrema importância.

Quais mudanças espera ver?
Esperamos mudanças reais na sociedade brasileira. Queremos que crianças pretas e indígenas vejam representações reais na mídia nacional. Que quando formos contratadas, os valores devidos sejam pagos. E que sejamos tratadas com o devido respeito, dignidade e profissionalismo. Queremos que esse seja o passo transformador para as próximas gerações. Somos nós mudando nosso mundo, o próximo mudando o dele, formando assim uma corrente que abraçará a todos.

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