Campanha da Nova Zelândia incentiva pais a falarem de bullying, pornô e outros conteúdos da internet com filhos

Campanha “Keep It Real Online” aborda tópicos delicados como pornografia, violência, conversas online e cyberbullying
Por Soraia Alves

Derek e Sue 

Uma série de vídeos criativos do governo da Nova Zelândia busca educar pais e responsáveis ​​sobre como abordar assuntos complicados com crianças e adolescentes, que frequentemente estão expostos a tais conteúdos na internet.

A campanha “Keep It Real Online”, produzida pela agência Motion Sickness, aborda tópicos delicados como pornografia, violência, conversas online e cyberbullying.

No vídeo que mais teve repercussão, Sue Derek, uma atriz e um ator de filmes pornôs, aparecem na casa de uma mãe para alertar sobre o conteúdo que seu filho tem assistido obsessivamente: filmes com classificação para maiores de idade. A intenção é mostrar ao menino a diferença entre o sexo visto nos filmes e o sexo real. “Normalmente, atuamos para adultos, mas seu filho é apenas uma criança”, explica Sue à mãe. “Ele pode não saber como os relacionamentos reais realmente funcionam”.

A atriz ainda alerta sobre o consentimento entre os parceiros, que quase nunca é abordado nos conteúdos pornográficos diretos, e Derek ressalta: “Eu nunca agiria assim na vida real”.

Conceitos semelhantes são aplicados aos outros vídeos sobre conteúdo violento e inadequado, bullying, e conversas com estranhos pela internet.

Janne Rugland for Costume Magazine with Pooja Mor

Photographer: Janne Rugland. Styling: Afaf Ali. Hair & Makeup: Jens Wiker. Model: Pooja Mor.

Riachuelo suspende diretor criativo após denúncias de racismo

Acusação feita no perfil Moda Racista no Instagram aponta que Ralph Choate, dono da agência Big Man, evitava modelos pretos nas campanhas
Por Natália Flach

Riachuelo: empresa instaurou uma averiguação interna e suspendeu o contrato com a Big Man “até que a apuração seja finalizada e as medidas sejam devidamente tomadas” (Riachuelo/Divulgação)

Riachuelo suspendeu o contrato com a agência de publicidade Big Man depois que a marca recebeu informações sobre supostas condutas racistas do empresário Ralph Choate pelo perfil do Instagram Moda Racista — que nas últimas semanas têm sido um importante canal de denúncia de modelos, produtores e demais profissionais de moda sobre o assunto.

O denunciante escreveu que o responsável pelas campanhas da Riachuelo na televisão disse em determinado momento “daqui a pouco vou ter que colocar um anão com vitiligo”, referindo-se à diversidade na escolha dos modelos. Fontes contaram ao site da Veja — que divulgou o caso em primeira mão — que Choate só contratava pessoas pretas a contragosto e ofendia obesos e homossexuais.

Procurada, a Riachuelo disse em nota que “discorda de eventuais condutas como as relatadas envolvendo a agência Big Man, prestadora de serviço na área de publicidade.” Esclareceu ainda que “este comportamento não representa os valores da Riachuelo, que tem como princípio central o respeito de forma igualitária, valorizando a diversidade, a inclusão e a representatividade entre seus funcionários, em suas campanhas e outras iniciativas.”

Por isso, a empresa instaurou uma averiguação interna e suspendeu o contrato com a Big Man “até que a apuração seja finalizada e as medidas sejam devidamente tomadas.” 

EXAME tentou contato com a agência de publicidade por telefone, mas ninguém atendeu.

Sua casa é sua nova cafeteria (parte 2): aprenda a moer seu café

Conheça os diferentes tipos de moinho de café para uso doméstico
Por Ensei Neto

Moinho de mós cônicas manual. FOTO: Ensei Neto/Arquivo pessoal

“Do pó viemos…”

Os consumidores de café, em sua maioria, começaram sua jornada cafeinada com café torrado e moído.

Até o final dos anos 1960, a embalagem predominante nas prateleiras de supermercados era a clássica “almofada”, que recebeu esse nome porque seu formato lembrava uma almofada ou travesseiro. Ainda é uma embalagem com boa presença entre as marcas mais competitivas, ocupando importante espaço nas prateleiras.

Como aliado de primeira hora, o coador de pano, feito em algodão levemente aflanelado, reinava absoluto no Brasil, pois é o elemento principal na extração do cafezinho.

No final dos anos 1960, foi lançado no Brasil o filtro de papel pela Melitta, dona da primeira patente desse sistema, provocando profunda mudança na forma de preparar o café, que como cafezinho é uma combinação de infusão (pó na água) com posterior filtração, o novo sistema é somente a chamada percolação (água no pó).

café torrado e moído na embalagem almofada sempre se caracterizou pela moagem fina, que tinha o objetivo de tornar a extração mais eficiente, muito parecido com o que ocorre no preparo no Ibriq ou método turco, como também é conhecido.

Naquela época, outro método que tinha adeptos principalmente entre os descendentes de italianos ou quem tivesse viajado à Itália, era a cafeteira Moka ou Italiana, que pede uma moagem menos fina.

Até o final dos anos 1980, era comum ver em padarias e mercados de bairro o serviço de moagem do café à frente do consumidor, que escolhia por moagem mais fina ou mais grossa a seu critério.

Com a possibilidade de se adquirir café torrado em grãos, cuja primeira iniciativa foi pelo Américo Sato, então um dos sócios do Café do Ponto, na rede de cafeterias do mesmo nome, veio a necessidade de se ter um moinho em casa.

Moinho de facas. FOTO: Ensei Neto/Arquivo Pessoal

Hoje em dia é possível encontrar cafés torrados em grão em algumas redes de supermercado, empórios e, principalmente, nas cafeterias, com seus lotes especiais. Cada método de preparo exige uma moagem para que a extração fique bem boa.

Basicamente, existem dois tipos de moinhos domésticos: o de faca, que lembra um liquidificador, o de rosca sem fim, e o de mós cônicas.

O de rosca sem fim é um clássico, que exige apenas energia muscular, ideal para lugares sem energia elétrica. Sua regulagem é feita numa das pontas da rosca, próximo à parede com conjunto de furos. A velocidade aplicada à manivela pode melhorar a uniformidade dos grânulos de café.

O moinho de faca, que entre os elétricos é o mais fácil de se encontrar e, também, de preços bem acessíveis, faz um bom trabalho, desde que se tenha atenção para alguns pontos. Por exemplo, faça ciclos de 10 segundos, aproximadamente, agitando o moedor para que as partículas de café fiquem reacomodadas para uniformizar o processo. Repita essa operação até chegar à moagem que você considerar adequada ao método de preparo escolhido.

O importante para este equipamento é observar a potência do motor, sendo recomendáveis aqueles com mais de 120 watts. Quanto maior a potência, maior será a durabilidade do equipamento.

Os moinhos de mós cônicas podem ter esse conjunto em aço ou em cerâmica. Os de cerâmica têm jeito mais artesanal, pois são mais fáceis de serem aplicados em equipamentos pequenos, sempre manuais.

Mós feitas em aço são comuns em equipamentos elétricos de alto nível, ideal para os coffee lovers mais avançados. Os preços desse tipo de equipamento variam bastante, sendo bem mais caros, acima de R$ 1 mil.

E se, por acaso, não tiver nada disso?

Não se preocupe… vale aqui uma divertida e criativa dica do meu amigo barista Ton Rodrigues, da True Coffee: escolha uma camiseta de algodão que você não queira mais usar, coloque a quantidade de grãos torrados de café que irá usar e envolva com a camiseta. Em seguida, com um martelo (sim, um mar–te–lo!), aplique golpes sem dó, abrindo de vez em quando para verificar o tamanho das partículas e misturar para deixar mais homogêneo.

Depois é só se deliciar com seu café predileto!

Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti

As antigas construções do Complesso Monumentale Della Pilotta, em Parma, na Itália, ganharam novos ares com as instalações da marca consagrada pelo designer e artista milanês Piero Fornasetti
FOTOS COSIMO FILIPPINI

Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)

No mês de maio, a Itália começou seu processo de flexibilização do isolamento social com a reabertura de igrejas, lojas, bares e restaurantes depois de dois meses de lockdown por conta da pandemia do novo coronavírus. É nesse cenário que, no dia 03 de junho, a Fornasetti, marca criada pelo artista e designer milanês Piero Fornasetti (1913-1988), inaugurou sua mais nova exposição, a Fornasetti Theatrum Mundi, no Complesso Monumentale Della Pilotta, em Parma, Itália.

Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)
Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)

Prevista para acontecer até 14 de fevereiro de 2021, a mostra traz centenas de criações irreverentes da marca em diálogo com as obras do complexo cultural – “uma viagem em busca do classicismo através das lentes do design contemporâneo”, segundo o site da Fornasetti.

Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)
Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)

Por meio das imagens da exposição, é possível perceber como cada peça da Fornasetti transforma o espaço, mas sempre conservando forte harmonia com a arquitetura e as obras de arte do Complesso Monumentale Della Pilotta. Uma rede de referências e alusões dão vida ao “teatro do mundo”, como o termo foi entendido no século XVI: uma visão enciclopédica do conhecimento que deixa a imaginação livre para entender, reconstruir e interpretar o mundo – uma ideia que tem tudo a ver com a criatividade pulsante de Piero Fornasetti.

Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)
Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)

Com curadoria de Barnaba Fornasetti, filho de Piero, Valeria Manzi, co-curadora de atividades culturais da Fornasetti, e Simone Verde, diretora do Complesso Monumentale Della Pilotta, a exibição pretende levar o visitante a uma viagem entre o clássico e o moderno, o passado e o presente. Uma das principais cenografias da exposição é o Teatro Farnese, uma obra prima da arquitetura do século XVII.

Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)
Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)

A mostra faz parte da programação oficial do Parma 2020, um evento que celebra a cidade como capital da cultura italiana, e está organizada em torno dos principais temas da Fornasetti: da reinterpretação de ruínas à arquitetura, da música ao desenho, dos objetos cotidianos à dimensão da ilusão.

Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)
Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)
Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)
Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)
Clássico e contemporâneo dialogam em nova exposição da Fornasetti (Foto: Cosimo Filippini)
Esboços para telas de Piero Fornasetti, 1950

Após um ano fora, Chris Cox, ‘número 3’ do Facebook volta a integrar equipe

Chris Cox tinha saído por divergências com o fundador Mark Zuckerberg, mas anunciou nesta quinta-feira, 11, o retorno como diretor de produtos da empresa

Chris Cox começou a trabalhar no Facebook em 2005 e saiu no ano passado após 13 anos de empresa 

Facebook anunciou nesta quinta-feira, 11, o retorno de Chris Cox à empresa, no cargo de diretor de produtos. Cox era responsável pela área até março de 2019, quando saiu da empresa por divergências com o presidente e fundador Mark Zuckerberg – na época, ele era considerado o ‘número 3’ da empresa, abaixo apenas do próprio Zuckerberg e de Sheryl Sandberg. A informação foi divulgada na rede social.

Cox começou a trabalhar no Facebook em 2005 como engenheiro de software antes de assumir a divisão de produtos e foi um dos responsáveis pelo design do feed de noticias original da rede social. Em 2008, se tornou supervisou de produtos, área em que trabalhou com os conteúdos da época e, mais tarde, com InstagramWhatsApp e Messenger

“O Facebook e nossos produtos nunca foram tão relevantes para o nosso futuro”, disse Cox em um anúncio anunciando seu retorno. “É também o lugar que eu conheço melhor, e o melhor lugar para eu arregaçar as mangas e cavar para ajudar.”

Estrela Asia Kate Dillon da série ‘Billions’ pede o fim da distinção de gêneros em premiações

Após convite para integrar comitê do SAG Awards, Asia Kate Dillon respondeu com uma carta: ‘Suas categorias preservam a discriminação’
O Globo

Asia Kate Dillon: carta pede o fim das distinções de gênero em categorias de premiações como o SAG Awards Foto: Reprodução

RIO —  Primeiro artista não binário a interpretar um personagem também não binário em uma grande produção da TV americana, Asia Kate Dillon, estrela da série “Billions”, enviou uma carta ao SAG-AFRTA, sindicato dos atores de cinema e televisão dos EUA, pedindo a extinção das definições de gênero nas categorias de premiação.

Segundo a “Variety”, a carta de Asia foi escrita após um convite do sindicato para que ingressasse em um comitê do SAG Awards, láurea da entidade que celebra anualmente os melhores atores e atrizes no cinema e na TV.

Em 2017, Asia já havia tido notoriedade ao questionar publicamente as distinções de gênero adotadas pela TV Academy, responsável, por exemplo, pelo Emmy Awards. Desde então, passou a ser concorrente na categoria de melhor ator coadjuvante, chegando a receber três indicações ao Critics’ Choice Awards, todas por “Billions”, em 2017, 2018 e 2019.

“Separar as pessoas com base no sexo designado e/ou na identidade de gênero não é apenas irrelevante quando se trata do julgamento de uma atuação, como também é uma forma de discriminação. Suas categorias atuais não apenas apagam identidades não binárias, limitando artistas a serem homens ou mulheres, como também servem como endosso ao binarismo em geral, o que acaba preservando outras formas de discriminação, como racismo e violência de gênero”, diz um trecho da carta de Asia, enviada nesta quarta-feira ao sindicato.

“Eu ficaria emocionadx em integrar o comitê, a partir do momento em que vocês alinharem suas categorias de atuação com uma neutralidade de gênero. Tal movimento do SAG seria um sinônimo não apenas de apoio a mim, como a todxs membros não binários”, diz Asia ao finalizar sua carta.

Clássico ‘Psicose’, de Alfred Hitchcock, traz a loucura em preto e branco

Boicotado pelo estúdio, diretor usa equipe de TV para filmar o longa. Anthony Perkins, que faria 85 anos, vive pervertido Norman Bates, maior psicopata das telas

Clássico. Anthony Perkins e Janeth Leigh em cena memorável de “Psicose”, de Alfred Hitchcock 1960 / Divulgação

Quando estreou no dia 16 de junho de 1960, “Psicose”, de Alfred Hitchcock, foi classificado pelo crítico Bosley Crowther, do jornal “The New York Times” como “um tropeço numa memorável carreira”. Mas o filme orçado em US$ 800 mil rendeu em um ano nada menos que US$ 13 milhões. E o sucesso elevou a clássico o longa-metragem que contém uma das mais aterrorizantes e belas cenas de suspense do cinema, a do assassinato de Marion Crane (Janet Leigh) durante o banho. A reboque, “Psicose” tornou o pervertido Norman Bates (vivido por Anthony Perkins) o mais carismático psicopata das telas.

A Paramount não gostou da ideia de Hitchcock adaptar um autor menor (Robert Bloch, autor do livro “Psycho”, em que se baseou o roteiro) para o cinema e boicotou o projeto, proibindo-o até de usar suas instalações. O diretor utilizou a equipe e os estúdios da série de TV “Suspense”, que realizava para a Universal, e as filmagens duraram 36 dias, a portas fechadas. A teimosia do inglês rendeu um filme antológico.

Não há como desgrudar o olho da tela diante da ambígua figura de Norman Bates. Na aparência, ele é o simplório zelador de um motel. Na prática, é um maluco de carteirinha, que veste as roupas da mãe para matar. Nessa versão original (“Psicose” renderia três continuações), Norman observa uma hóspede se despir minutos antes de ela ser assassinada a facadas no banheiro. Ela não estava ali por acaso: havia fugido com um dinheiro roubado, hospedando-se naquele motelzinho de beira de estrada.

A antológica sequência do assassinato de Marion não demora um minuto, mas tem 70 tomadas diferentes, feitas em mais de uma semana até se atingir o efeito final. “Psicose” criou um precioso ensaio sobre voyeurismo e perversão em preto-e-branco.

A carreira do ator Anthony Perkins ficou marcada por sua atuação no longa, e muitos críticos acharam na época que ele merecia ter ganho um Oscar pela sua interpretação, mas nem chegou a ser indicado. Sua única indicação para o prêmio foi a de ator coadjuvante pelo filme “Sublime tentação” de 1956.

Anthony Richard Perkins nasceu, em 4 de abril de 1932, na cidade de Nova York. Na década de 60 desenvolveu uma profícua carreira na Europa, onde atuou sob a direção de vários cineastas de prestígio, entre eles Claude Chabrol, René Clement, Orson Welles e Edourd Molinaro.

De volta aos Estados Unidos, continuou interpretanto o personagem Norman Bates em sequências do filme. Estrelou em 1983, “Psicose II”, de Richard Franklin; em 1986, “Psicose III”, por ele próprio dirigido, e em 1990, para a televisão, “Psicose IV – O começo”, de Mick Garris. Morreu no dia 12 de setembro de 1992, em Los Angeles, de complicações causadas pelo vírus da Aids. Deixou dois filhos do casamento com a atriz e fotógrafa Berry Berenson. [O Globo]

Mulheres criam coletivo para combater assédios e abusos na gastronomia

Porta-voz do grupo, a chef pernambucana Madu Mello conta quais serão as primeiras iniciativas do Basta!
Renata Izaal

Basta! Movimento criado por mulheres que atuam no setor de hospitalidade quer acabar com os casos de assédio e abuso Foto: Reprodução

Não é de hoje que o setor de hospitalidade, que inclui bares, restaurantes, bufês e hotéis, convive com casos de assédio e abuso, sobretudo contra mulheres. Mas, há até muito pouco tempo, os relatos ficavam restritos aos círculos de profissionais da área. Como tem acontecido com outras áreas da economia desde a primavera feminista de 2015, as mulheres que trabalham com hospitalidade têm se manifestado publicamente sobre episódios de machismo, assédio moral e sexual e até mesmo casos de abuso. Para dar conta disso e, principalmente, tentar mudar a cultura machista do setor, um grupo de mulheres decidiu criar o coletivo Basta!.

Elas são oito, entre chefs de cozinha e donas de restaurante, e têm montado uma espécie de força-tarefa para lidar com o tema em frentes diferentes. O grupo prefere não identificar todas as integrantes – para não desviar atenção da causa e também porque cada uma delas têm uma função no coletivo -, e cabe à chef Madu Mello ser a porta-voz do Basta!.

Madu Mello, chef do Mandioca, restaurante de cozinha de origem em São Paulo, e porta-voz do coletivo Basta!, que reúne mulheres do setor de hospitalidade Foto: Divulgação

Madu, de 34 anos, está a frente do Mandioca, restaurante paulistano de cozinha de origem, que, como ela diz, é “cheio dos meus posicionamentos”, ou seja, de procedimentos de inclusão que incluem um quadro de funcionários com mulheres, negros, transgêneros, refugiados. Egressa do mundo corporativo, onde trabalhou na área de marketing, Madu conta que já participou de reuniões em que era a única mulher entre 13 homens. Nascida no Recife, sofreu preconceito em São Paulo por ser nordestina. Em entrevista, ela conta como o coletivo Basta! tem se estruturado para lidar com os casos de assédio e abuso no setor de hospitalidade, que inclui a gastronomia.

Por que criar o coletivo?
O Basta! surgiu com o propósito da transformação. A gente está passando por um momento de reflexão sobre o que vamos ser depois da pandemia. Sabemos que o assédio e o abuso existem na sociedade e acreditamos que, se mudarmos o nosso cosmo, já vamos mudar muitas vidas e também deixar um legado para as próximas gerações que irão trabalhar em restaurantes, bares, bufês e hotéis.

Como vão trabalhar?
Queremos ser um canal de direcionamento, escuta e acolhimento, além de educar o setor. Queremos que as profissionais contem com o Basta para falar sobre casos de assédio e abuso em segurança, mas também vamos educar mulheres e homens em todas as esferas, sejam colaboradores, gestores ou donos de restaurantes. Tenho relatos de pessoas que sofreram assédio e abuso em seus locais de trabalho, mas sequer sabem disso.

Assédio e abuso são temas delicados, que exigem estruturas de escuta e acolhimento. Como vão fazer isso?
É delicado mesmo, mas esses assuntos precisam ser discutidos. Primeiro, entendemos que, para mudar, precisamos nos unir. Nesse início, o foco é nas mulheres, porque elas são a maioria dos casos, mas vamos acolher homens também, porque muitos sofrem assédio moral nas cozinhas. Mas, como por enquanto somos oito, cada uma assumiu uma função dentro do coletivo. E estamos construindo uma rede de colaboradores que nos darão a estrutura necessária para escutar e acolher. Pretendemos oferecer apoio psicológico e acompanhamento jurídico, que serão oferecidos por nossa rede colaborativa que inclui a rede feminista de juristas.

E como vão educar?
Os números de assédio e abuso no Brasil são tristes. Apesar disso, e dos relatos que muitos de nós já ouvimos, não há números para o setor de gastronomia, em particular, ou para o setor de hospitalidade. Uma ideia nossa é coletar informação para termos uma base real. Vamos fazer uma cartilha que será distribuída aos restaurantes para que adotem práticas corretas. Queremos que esse trabalho garanta que as próximas gerações não vão passar por essas situações. Por fim, queremos criar uma estrutura tal que tanto o apoio psicológico, o acompanhamento jurídico e a educação tenham abrangência nacional. A ONU Mulheres no Brasil já está em contato conosco.

Esse tipo de ação coletiva de mulheres já originou grandes mobilizações em outros setores na economia.
Sim. Acredito que possa tomar proporções maiores aqui. O assunto “formalização do coletivo” já surgiu entre nós. Há mais mulheres querendo participar, e pode ser que a gente precise se reestruturar. Agora já temos uma assistente social no coletivo para fazer os atendimentos de uma forma mais técnica do que nós, que somos chefs de cozinha e donas de restaurante, faríamos. As vítimas de assédio e de abuso precisam entender que o coletivo Basta! tem estrutura para acolhê-las.

Recentemente, uma mulher publicou em um blog um relato de situações inadmissíveis vividas por ela na cozinha de um grande restaurante. Ela já procurou vocês?
Ainda não. Se nos procurar, vamos acolhê-la e, caso queira levar a situação adiante juridicamente, vamos encaminhá-la para a nossa rede de colaboradores.

Há algum tempo, você escreveu um desabafo nas redes sociais dizendo que sempre se perguntou por que nada era feito em relação aos casos de assédio e abuso na gastronomia. E terminou afirmando: “Hoje eu sei o porquê. E é triste.” Por quê?
A situação não veio à tona antes porque é delicada. E porque, para ir em frente, é preciso uma união forte. Do contrário, a iniciativa nasce, mas morre rápido. Hoje, a bandeira da luta das mulheres está fincada e existem as redes sociais que amplificam as nossas vozes. Estamos unidas para transformar. Quem sabe, no futuro, não vamos levar nosso movimento para toda a América Latina?