‘Estados Unidos Pelo Amor’ no streaming

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Rodrigo Fonseca

Chegou à grade do Globoplay um dos filmes mais arrebatadores produzidos pelo Velho Mundo nesta década, tendo CEP polonês: “Estados Unidos Pelo Amor” (“United States of Love”, 2016), laureado com o troféu de melhor roteiro no Festival de Berlim. Este drama de Tomasz Wasilewski revive, com uma inquietação narrativa sufocante, a Polônia no ano de 1990, sob a reverberação da ruína do império soviético.

“Existe um colapso ideológico diante de nossos olhos nessa história e, ao mesmo tempo, existe um ensejo de reestruturação das identidades. Mas o que mais instiga a minha imaginação é a vontade de conhecer como as mulheres se reinventaram em um momento em que o sexismo oriundo de uma prática política, ancorada a um ranço forte da fé cristã, fraquejou”, disse Wasilewski ao P de Pop na Berlinale. “Tenho uma memória de infância de mulheres fortes, mas resignadas a uma rotina de trabalho doméstico. Ali, numa mudança de regime, mas mulheres almejaram a liberdade e puderam expressar sua voz em escolhas variadas”.

Saca Kieslowski, de “A Dupla Vida de Véronique” (1991) e outras delícias? Pois então… “Estados Unidos Pelo Amor” parece um filme do Kieslowski – aliás, parece com os melhores trabalhos deste mestre. A angústia que ele deixa é igualizinha a que “Não Matarás” (1988) dava na gente. Realizador do drama de tom homafetivo “Arranha-Céus Flutuantes” (2013), Wasilewski é um cineasta de 40 anos que tinha apenas 9 quando a Polônia passou por uma reestruturação econômica sob os ecos do fim da URSS. Morava numa casa com mãe, irmã e amigas de ambas. Os códigos do feminino governam seu olhar de mundo e, a partir deles, foi cerzido este que é o mais uterino dos concorrentes ao troféu máximo do certame berlinense. Temos quatro protagonistas, um antagonista (a solidão, esse bicho safado) e um destino (o vazio).

Numa estrutura narrativa quase episódica, que se desliga de uma personagem e salta para outra sem dizer adeus, começamos com uma mulher infeliz no casamento, de olho no amor (romântico) de um padre. Depois, caímos no colo de uma diretora de escola apaixonada por um homem casado. Por fim, damos as mãos a uma professora de Russo cujo coração bate por uma vizinha. E esta, a quarta mola propulsora da trama, sonha virar modelo e faz o que pode para isso, até se deixar fotografar por quem não presta.

Não há como desgrudar um segundo do discurso sobre a errância dos afetos que Wasilewski constrói com uma fotografia de cores esmaecidas. Sente-se o trágico ao redor, mas ele não chega quando a gente espera. Tragédias supõem descabelamento, joelhos ao chão, berros… Aqui, não. Aqui é cinema polonês roots, com a frieza habitual que os cineastas flagram numa tentativa de – pelas vias da transcendência de olhares e de gestos – expor a dor por sobre o silêncio e a retidão. Não é “Ida” (2014), aquele carro alegórico que recebeu fogos de artifício por seu exibicionismo fotográfico. A coisa aqui é séria: é uma observação minuciosa do desconforto, da azia sentimental de esperar o que não se tem (e não chegará).
Houve quem se incomodasse (e até vaiasse) na Berlinale a exposição sem pudor que o filme faz de corpos das mais variadas idades. Mas, para inventar cicatrizes do coração e da alma, Wasilewski precisa exumar pele e carne. O resultado é um espetáculo incômodo, porém… vivo.

p.s.: De carona na estreia de “Destacamento Blood” (“Da 5 Blood”), marcado pelo arrebatador desempenho de Delroy Lindo, o MUBI leva ao streaming um marco da carreira de Spike Lee: “Malcolm X” (1992), sobre o ícone do Nacionalismo Negro americano, de orientação islâmica, morto a tiros no auge de seu ativismo. O filme deu a Denzel Washington o prêmio de melhor ator na Berlinale.

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